INICIAR SESIÓNAlguém bateu na porta. Daily foi atender.
- Oi, Daily.
- Burt... – falou ela um pouco decepcionada, pensando que encontraria Erone.
- O que você tem? – perguntou ele notando a preocupação e estranheza dela.
- Nada... Está tudo certo. – mentiu ela.
- Está com os olhos vermelhos.
- Não dormi muito bem esta noite.
- Por quê? O que houve?
- Nada importante, Burt. Não precisa se preocupar comigo.
- Eu sou seu amigo, Daily. Sei quando você não está bem e me preocupo sim.
- Sei disso, Burt. Nunca duvidei da sua amizade.
- Então me diga o que a incomoda,Daily. Você não costuma ser assim.
- Meu pai... – confessou ela.
- Ainda está triste por ele ter trazido a cabeça do rei Pollo?
- Isso foi só o começo, Burt... Agora as coisas pioraram.
- Nossa, o que houve?
- Na próxima lua, vou ser oferecida como esposa de Ahau, juntamente com as outras garotas que serão escolhidas.
- Não acredito nisso. – disse Burt incrédulo.
- Não sei o que fazer, entende? Eu não quero este casamento de forma alguma.
- Daily, não pode deixar que seu pai ofereça você a Ahau.
- Eu sei que não posso deixar que ele faça isso... Mas como posso evitar? Você sabe que nós mulheres não temos opção alguma de escolhermos nossas vidas, sendo submetidas sempre a um homem e suas vontades. Minha função enquanto Kasenkina é somente obedecer a vontade de meu pai... E depois de meu marido.
- Mas Erone nunca a obrigou a nada... O que será que houve com ele?
- Eu sei disto... Mas desta vez ele está convencido de que este casamento é o melhor para mim e sei que não irá mudar de ideia. E eu deixei tudo ainda pior hoje quando discuti com ele.
- Brigaram?
- Ele até me bateu... Nunca havia feito isso...
- Mas o que o levou a bater em você?
- Eu o culpei pela morte da minha mãe. – falou ela arrependida.
- Isso deve ter magoado muito ele. Realmente você não deveria ter falado isso.
- Burt, me ajude... Não sei o que fazer.
- E eu não sei como ajudá-la, Daily... – falou ele triste.
Daily o abraçou com carinho. Não chorou, pois pensava que suas lágrimas haviam secado de tanto que havia chorado nos últimos dias. Burt era um amigo excelente, embora não tivesse a sabedoria dos conselhos de Moa. E poder falar e confiar em alguém era muito importante para ela naquele momento. Sentiu-se segura e confortável nos braços dele.
- E o pior você nem sabe, Burt. – disse ela se afastando dele. – Meu pai me proibiu de ver Moa.
- Isso deve ser horrível para você.
- E eu preciso urgentemente falar com Moa.
- Se quiser, posso ir até ele e falar o que você precisa saber.
- Faria isso por mim?
- Faço qualquer coisa que me pedir, Daily.
Ele tocou o rosto dela por cima do véu, num gesto de carinho. Daily sentiu-se um pouco estranha com o toque dele daquela forma tão próxima e íntima. Por um momento passou por sua cabeça que talvez Burt tinha interesse nela e sua bondade não era pelo simples fato de ajudar. Mas ela procurou afastar aqueles pensamentos, afinal Burt era seu amigo desde criança.
- Burt, foi muito bom ver você hoje. Obrigada por vir. – disse ela.
- Na verdade eu vim lhe falar... – disse ele.
- O que houve?
- Iniciaremos a construção da muralha nesta tarde. Eu gostaria que você trabalhasse comigo. Talvez juntos o tempo passe mais rápido.
- Claro que quero trabalhar junto de você, Burt.
- E tente não se preocupar com o casamento com Ahau. Pode ser que você não seja a escolhida, não é mesmo?
- Sei que haverá uma escolha... Mas no momento que eu estiver lá, tudo pode acontecer, entende? E depois de tudo que houve na minha vida nestes últimos tempos, tenho pressentido que só há coisas ruins para acontecer.
- Tente não se preocupar com antecedência. Espere chegar a hora.
- Não conseguirei não me preocupar.
- Então vamos ao trabalho. Talvez tenha menos tempo para pensar e se preocupar.
- Papai não voltou até agora.
- Erone já está trabalhando na muralha. Está quase todo mundo lá. Achei que você soubesse.
- Eu... Não sabia. Vamos então.
Logo eles estavam na beira do rio, onde iriam iniciar a carregar as pedras. Ela ficou um pouco preocupada, pois eram enormes. Alguns estavam procurando dentro da floresta, próximo das pequenas cachoeiras e córregos.
- Burt, quando você irá até Moa? – perguntou ela.
- Posso ir hoje à noite.
- Primeiramente vá até minha casa para conversarmos, por favor.
- Farei isso, não se preocupe. – garantiu Burt.
Homens, mulheres e crianças Kasenkinas estavam ali para o trabalho. Algumas crianças eram bem pequenas para o trabalho. Daily tentou pegar uma pedra, mas ela era tão pesada que nem levantou do chão. Como fariam aquilo? Quanto tempo levariam para acabar a muralha? Ahau e Ahua só podiam estar loucos com aquela ideia. Outros Kasenkinos vieram até ela e a ajudaram com a pedra enorme e pesada. Logo ela estava em cima de outra, muito bem arrumada e segura.
O sol já começava a se pôr e ela percebia que o trabalho mal havia saído do lugar. Muitas pessoas, muito trabalho pesado e pouca produtividade. Todos demonstravam cansaço. Trabalhavam em conjunto e bem sincronizados ao mover as pedras. Daily nem sentia os braços, tamanho cansaço que sentia. Observou o pai mais adiante, auxiliando outros Kasenkinos com uma pedra gigantesca. Ele era muito forte ainda, mas já não era jovem... Tinha suas limitações. Daily sentiu-se imensamente arrependida por ter discutido com ele naquele dia. Não o culpava realmente por nada com relação a sua mãe. Erone havia cuidado muito bem dela sozinho desde que nascera. Havia lhe ensinado os valores Kasenkinos e embora não fosse muito carinhoso, era um bom pai. E ela não podia de forma alguma julgar qualquer pessoa, pois era uma Kasenkina impura, que havia mostrado seu rosto por irresponsabilidade a um homem que jamais seria seu marido e além disso pertencia ao povo que era maior inimigo dos Kasenkinos. Ela sofria só de pensar em ser esposa de Ahau, mas se esse era o desejo de seu pai, ela acataria. Ele pensava no bem estar dela com este casamento e ela pensaria no dele. Erone já estava ficando velho e logo não poderia mais nem lutar por seu povo. De que viveriam e se alimentariam? Ser esposa de Ahau daria uma vida digna e sem trabalho ao pai. Ela procurou com os olhos Ahau e Ahau, mas eles não estavam ali. Estavam no conforto de suas cabanas enquanto os demais trabalhavam arduamente numa construção impossível. Ahau era um líder muito ruim na visão de Daily. Exercia a liderança através do medo entre seus súditos e jamais dava exemplos com boas atitudes ou mesmo solidariedade. E Ahua... Ela sentia algo muito ruim quando estava próxima dele e nem ao certo sabia o motivo. Mas sentia em sua alma que ele era um homem mal. Ela não gostava do olhar dele sobre ela. E via com frequência os olhos dele a observando e quando não via, sentia. Era um olhar frio, irônico e atrevido. Ela sentia desejo no olhar do feiticeiro e conselheiro dos Kasenkinos.
- No que está pensando?
Daily foi tirada de seus pensamentos e olhou atônita para Ahua, como se ele soubesse tudo que ela estava sentindo com relação a ele. Estava tão cansada e irritada com tudo que estava acontecendo naquele momento que, mesmo sabendo que deveria ser educada, não conseguiu:
- O senhor não sabe ler pensamentos? – ela se ouviu falando.
- Nem todos.
- Então de nada adianta me perguntar... Eu poderia não falar a verdade sobre meus pensamentos.
- Tenho certeza de que se realmente eu quisesse saber seus pensamentos, você mentiria.
- Como pode ter tanta certeza disto? – perguntou ela continuando seu trabalho.
- Quem sabe você para um pouco de trabalhar e conversa comigo?
- O senhor sabe que não podemos parar o trabalho até que Ahau mande que se encerre.
- Estou ordenando que pare. – falou ele altivamente.
- Devo obedecer somente o líder Kasenkino. – observou ela.
- Pelo visto seu pai não lhe ensinou muito bem a cultura do nosso povo, não é mesmo?
- Talvez faltasse tempo ao meu pai, pois estava com frequência nas batalhas e guerras por nosso povo.
- Daily, como odeio que me irritem desta forma. – disse Ahua entre dentes, com raiva evidente.
Daily sabia que iniciar uma briga com Ahua em nada lhe ajudaria, pelo contrário, teria muitos problemas além dos que já tinha. Conversar com ele também poderia expô-la com relação a ter ficado sem véu para um homem do reino. Se ele realmente tinha poder sobre as pessoas e conseguia ler pensamentos e o futuro dos Kasenkinos, seria fácil para ele saber tudo que se passou com ela. Embora não gostasse daquele homem, precisava ser amável e gentil com ele.
- Me desculpe. – falou ela parando o que estava fazendo e olhando para ele.
- Eu soube que você deseja ser esposa de Ahau.
- Não, não desejo.
- Seu pai me disse.
- Eu não desejo, meu pai tem este desejo. E eu tenho que obedecê-lo, pois esta é minha obrigação enquanto Kasenkina, mesmo sendo extremamente contra. – confessou ela.
- Sinceridade, enfim. Gosto disso.
- No momento não estou sendo sincera, pois estou tratando o senhor com respeito, mesmo não desejando isso.
- Por que você não gosta de mim? – perguntou ele.
- Eu não sei, sinceramente. – confessou ela.
- Precisa encontrar os motivos pelos quais não gosta de mim.
- Não gosto da forma como o senhor me olha.
- Olho para você como para qualquer outro Kasenkino.
Daily não percebia sinceridade nas palavras dele e até certa ironia.
- Então acho que não gosto da forma olha para todos.
Ele riu:
- Eu olho tentando descobrir o que há debaixo deste véu... –falou ele.
Daily sentiu um arrepio de medo percorrer seu corpo:
- Como pode falar-me isso?
- Me desculpe. – disse ele.
- O senhor não tem o direito de falar isso para mim.
- Daily, estou tentando ser gentil com você, mas posso não ser da próxima vez. E acredite, eu posso ser muito ruim se eu desejar... Você não sabe o quanto. Tenha cuidado com suas palavras e seus atos.
Ele saiu. Daily sentiu-se ameaçada.
Logo Ahua anunciou que o trabalho daquele dia estava findado. Encontrar-se-iam todos na manhã seguinte novamente.
Daily conseguia sentir as mãos de Erone junto das dela. Não sabia o que sentia naquele momento com relação a ele. Uma vida inteira de mentiras... Sentimentos que ela não sabia mais identificar. Sentia afeto por ele. Fora bom com ela tantas vezes... Mas ainda assim a oferecera em casamento ao próprio pai. Quem conseguia fazer isso e depois viver normalmente? Ele, o homem que trouxera a cabeça do rei Pollo para ser queimada entre os Kasenkinos. O homem que matou mais pessoas que todos os Kasenkinos juntos. Como Darla pudera amar aquele homem? Quem era Darla na verdade? Nem sequer Moa sabia daquele segredo que os dois esconderam. Sentimentos bons e ruins se misturavam a dor horrível que ela sentia. Um líquido quente escorreu por suas pernas e ela sabia que o bebê iria nasce
- Mas... Por que fizeram isto, Burt?- Ahau lhes prometeu ouro, muito ouro, se eles ajudassem na construção da muralha. E assim eles fizeram...- E de onde Ahau tiraria ouro para lhes dar?- Não havia ouro algum... Ahua mentiu para eles. E agora eles vão matar todos. Será o fim dos Kasenkinos. – disse ele rindo nervosamente, com os olhos não parando de mexer nunca.Percebia-se que ele estava visivelmente abalado com tudo e não parecia estar pensando bem. Falava rápido, olhava para todos os lados, com muito medo.- Burt... Você tem certeza de que eram os Naiguãs?- Sim... Muitos deles... Nunca vi tantos... Todos montados nos cavalos, seres místicos dos deuses.- E Ahua?- Mataram Ademoore... E muita gente.Daily o abraçou. Ela tinha tanto medo, mas Burt parecia estar mais amedrontado do que ela.- Burt, meu amigo, o que fizeram
Daily percebeu que Ika estava falando devagar, parecendo ter dificuldade em pronunciar as palavras.- Ika, você está bem? – perguntou ela preocupada.- Não me sinto muito bem...Daily podia ver o suor escorrendo pelo rosto dela e parecia estar sem ar. Daily gritou em desespero por socorro. Logo os empregados vieram em seu auxílio. O nervosismo tomava conta de Daily. Percebeu em sua boca uma espuma esbranquiçada. Quando o doutor chegou, ela ainda segurava na mão de Ika.Não demorou até que fosse dado o motivo da morte:- Envenenamento. – disse o doutor.- Como? – perguntou Daily chocada.- Um veneno forte, com certeza. Mas nada mais pode ser feito por ela, infelizmente. Era uma boa mulher. Fiel criada do rei Pollo e depois do rei Mark.Daily olhou para a xícara de chá próxima da cama e gritou em lágrimas:- Não pode
Mark entrou no quarto rapidamente, muito preocupado.- Daily, o que houve? Eu soube que o médico veio vê-la. Você está doente? Passou mal?- Está tudo bem, Mark. – disse ela deitada confortavelmente na cama.- Eu sabia que Sherylin não a deixaria em paz... Foi por isso que eu a proibi de entrar no castelo.- Ela não teve culpa... Inclusive me pediu desculpas. Disse que irá embora de Machia.- Sherylin lhe pediu desculpas? Sinceramente eu não acredito nas desculpas sinceras dela.- Ela pode ter percebido que nosso amor é real, Mark. Talvez tenha decidido não mais acabar com nossa felicidade. Que de nada adiantaria nos fazer mal...- Daily, não se iluda com Sherylin. Se tem uma coisa que ela sabe muito bem é como manipular as pessoas.- Eu não me importo com Sherylin, Mark. Tenho coisas mais importantes a tratar com você.
Daily despertou com os raios de sol batendo em seu rosto. Ika estava abrindo a janela para o sol entrar no quarto. Ela olhou para o lado e percebeu que Mark não estava mais ali. Ela levantou a cabeça e sentiu-se muito bem. Nem parecia que havia estado péssima nos últimos dias.- Parece bem melhor, senhora. – disse Ika sorrindo.- Realmente Ika, pareço uma nova pessoa.- Gostaria de banhar-se?- Eu adoraria.- Então me acompanhe, por favor.Ika levou Daily até um enorme quarto de banho. Jamais ela imaginou tomar um banho com água quente e perfumada. Os Kasenkinos não acreditariam que aquilo era possível. Mais uma vez ela fez comparativos e ficou chocada de quantos costumes diferentes entre os dois povos que viviam tão próximos.- Você vai ficar me olhando? – perguntou Daily para Ika.- Sim... Caso a senhora queira que eu a esfre
Daily estranhava um pouco ter Ika o tempo inteiro com ela, perguntando se queria algo, anunciando quem chegava, o que acontecia. Servia-lhe o tempo todo. Talvez com o tempo acostumasse com aquilo, mas por enquanto sentia-se um pouco presa. Talvez sentisse falta de sua liberdade, seus vestidos folgados, seus cabelos soltos e seus pés descalços pela floresta. Era acostumada a fazer as coisas pelos outros e não o contrário. As mulheres Kasenkinas nasciam para servir e não pra serem servidas. Primeiro serviam os pais e as mães até se casarem e servirem ao marido e aos filhos.Ela olhou para o enorme travesseiro ao lado do seu. Passou a mão com carinho depois sentiu o cheiro de Mark. Nem acreditava que ele havia passado a noite com ela, lhe dando tanto carinho que ela jamais imaginou receber. Tudo parecia um sonho. E naquele momento ela teve certeza que entre a liberdade, os pés descalços e a floresta, ela escol







