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Capítulo 5

Author: Histoire
last update publish date: 2026-09-15 06:17:13

Capítulo 5

Camélia

A porta b**e atrás da minha mãe, e eu fico sozinha no silêncio.

Dez minutos. Ela me deu dez minutos para vestir a pele da minha irmã, para desaparecer sob o cetim e a renda, para me tornar alguém que não sou. Dez minutos para aceitar o veredito que ela acabou de pronunciar, para me curvar à sua vontade como sempre fiz, como sempre farei.

Minhas mãos tremem quando pego o vestido.

O tecido está frio. Ou talvez seja minha pele que está gelada, meu sangue que se retirou das extremidades para não irrigar mais que o meu terror. Levanto-me, as pernas vacilantes, e ergo a massa de seda e renda que jazia no parquet. O vestido é pesado, bem mais pesado do que eu imaginava, sobrecarregado pelas pérolas, pelos bordados, pelas horas de trabalho, pelo dinheiro, pelas expectativas de toda uma família.

O perfume de Lilia impregna o tecido.

Sobe até mim, tenaz, envolvente, aquele perfume de tuberosa e baunilha que ela ainda usava esta manhã, quando ria alto demais e tremia diante da janela. Está tão presente, tão vivo, que tenho a impressão de que ela ainda está aqui, que vai surgir atrás de mim e arrancar o vestido das minhas mãos rindo, dizendo que foi uma brincadeira, uma prova, um teste.

Mas ela não virá. A janela continua aberta, as cortinas ainda dançam sua valsa lenta, e o batom no espelho me provoca com suas letras escarlates. Não posso. Perdoem-me. Ela não podia, então foi embora. E eu devo fazer o que ela não teve coragem de fazer. Tomar seu lugar. Casar com seu noivo. Viver sua vida.

Tiro meu vestido de dama de honra, aquele azul acinzentado que é minha cor, a cor da sombra, do apagamento, do silêncio. O tecido desliza sobre minha pele e cai aos meus pés, junta-se ao vestido de Lilia no parquet. Estou nua, vulnerável, exposta. Pego o vestido de noiva e o visto.

O cetim está frio contra meus ombros, contra minhas ancas, contra minhas coxas. Desliza sobre minha pele com um farfalhar de rio, e sinto cada costura, cada dobra, cada centímetro dessa roupa que não foi feita para mim. As pérolas ainda estão frias, com um frio de orvalho, um frio de lágrima. Esmagam-se contra meu peito, contra meu ventre, e tenho a impressão de vestir uma armadura de gelo.

O zíper sobe nas minhas costas com um rangido de metal. Eu o seguro com uma mão trêmula e o puxo, dente por dente, até que alcance minha nuca. Cada dente que se encaixa é uma corrente que se fecha ao redor da minha caixa torácica, um aperto que me impede de respirar.

O vestido é do meu tamanho. É do tamanho de Lilia, que também é o meu, porque somos gêmeas, porque temos o mesmo corpo, o mesmo rosto, as mesmas medidas. Compartilhamos o mesmo ventre, o mesmo sangue, o mesmo DNA. E hoje, devo compartilhar sua vida.

Viro-me para o espelho. E não me reconheço.

A mulher que me olha é uma estranha. Ela usa um vestido de noiva suntuoso, um vestido justo de renda antiga e cetim marfim que abraça suas formas como uma segunda pele, que se abre numa cauda interminável, um rio de tecido que serpenteia pelo parquet encerado. O decote mergulha o suficiente para ser elegante, e as mangas de renda transparente desenham seus braços como uma tatuagem de flores.

Essa mulher é bela. É deslumbrante.

E não sou eu.

Fixo meu reflexo, e queria chorar, gritar, vomitar. Meu estômago se contrai, minha garganta se aperta, e sinto a bile subir, ácida, ardente. Engulo tudo. Engulo as lágrimas, os gritos, a náusea. Engulo minha identidade, meu nome, minha existência inteira. Não sou mais Camélia. Sou Lilia Deveraux, a rainha, a luz, a noiva de Cassian Saint-Clair.

A porta se abre. Viviane está lá, silhueta impaciente no umbral, os olhos brilhando com essa satisfação feroz que me gela o sangue.

Ela me olha. Ela me inspeciona. Ela gira ao meu redor como um general passa suas tropas em revista, ajustando uma dobra, alisando uma costura invisível, puxando a cauda para que caia perfeitamente.

Depois ela pega o véu.

Ela o desdobra com gestos precisos, quase cerimoniosos, e o coloca sobre meus cabelos. A musselina de seda recai sobre meu rosto, leve como um sopro, e o mundo se torna difuso, abafado, irreal. Os traços da minha mãe se esvaem atrás do tecido branco. Meu reflexo no espelho se apaga, se dissolve, desaparece. Não sou mais que uma silhueta. Uma forma anônima. Uma noiva sem rosto.

Viviane ajusta o véu, puxa as bordas, certifica-se de que cai reto, de que esconde bem meus olhos, minha expressão, meu medo. Seus dedos se demoram na musselina, e ela murmura, numa voz baixa, intensa, que não tolerará nenhuma objeção.

— Não fale demais. Não sorria demais. Seja ela.

Não respondo. Assinto com a cabeça, um movimento imperceptível sob o véu. Ela me pega pelo braço e me guia até a porta.

Meus saltos estalam no parquet. A cauda varre o chão atrás de mim num farfalhar de seda. Transponho o umbral, e o corredor me engole, longo, interminável, bordado de retratos e espelhos onde não me reconheço. Não sou mais Camélia. Não sou mais ninguém.

Sou a substituta.

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