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Capítulo 1
Camélia
Seguro o véu entre os dedos e não respiro mais.
O tecido é de uma leveza impossível, musselina de seda bordada com minúsculas pérolas de nácar que captam a luz da manhã e a devolvem em reflexos trêmulos nas paredes da suíte. Minhas mãos não foram feitas para tocar algo tão precioso. Minhas mãos estão manchadas de tinta, de carvão, desses pigmentos que se incrustam sob as unhas e nunca saem por completo. Eu deveria estar verificando as flores, me certificando de que o champanhe está na temperatura certa, desaparecendo no cenário como sempre fiz. Mas Lilia me entregou o véu há dez minutos, dizendo que eu seria a guardiã oficial desse objeto sagrado até a cerimônia, e eu não soube dizer não.
Eu nunca sei dizer não à minha irmã.
A propriedade vinícola se estende atrás das janelas imensas da suíte, um oceano de vinhedos que ondula sob a brisa de junho, de um verde tão profundo que em alguns pontos parece quase negro. Os ciprestes montam guarda ao longo das alamedas de cascalho branco, retos e sombrios como sentinelas. O céu é daquele azul tenso que só se vê na Provença, um azul que esmaga tudo, que torna tudo belo demais, perfeito demais, esmagador demais. As fachadas de pedra dourada do castelo absorvem a luz e a restituem em calor suave, e as roseiras trepadeiras que correm ao longo dos muros estão em plena explosão, cascatas de rosas pálidas e rosas púrpuras que perfumam o ar até a vertigem.
Tudo é suntuoso. Tudo foi pensado para ser fotografado, admirado, invejado. É o casamento Deveraux / Saint-Clair, a aliança de duas dinastias, o evento social do ano. As revistas de celebridades já acampam diante dos portões. Os garçons de luvas brancas terminam de arrumar as mesas sob o grande toldo de vidro. O champanhe espera em baldes de prata, as orquestras afinam seus instrumentos, os floristas espeta as últimas rosas nas composições monumentais. E eu, seguro o véu, de pé num canto da suíte, invisível no meio de todo esse esplendor.
Lilia está diante do espelho de corpo inteiro, e está deslumbrante.
O vestido é uma criação sob medida, um vestido justo de renda antiga e cetim marfim que abraça seu corpo como uma segunda pele antes de se abrir numa cauda interminável, um rio de tecido que serpenteia pelo parquet encerado. O decote mergulha o suficiente para ser elegante, não o bastante para ser vulgar, e as mangas longas de renda transparente desenham seus braços como uma tatuagem de flores. Ela ainda não colocou o véu, e seus cabelos loiros, de um loiro de mel que eu nunca tive, caem em ondas suaves sobre seus ombros nus. Ela está maquiada com uma perfeição que apaga toda imperfeição, mas seus olhos brilham com um fulgor que a maquiagem não pode criar. Um fulgor que eu não conheço nela.
Ela está alegre demais. Ela está elétrica demais.
Conheço minha irmã desde sempre. Desde antes do nosso nascimento, desde aquele ventre compartilhado onde nossos corações batiam a alguns centímetros um do outro. Conheço cada nuance de sua voz, cada inflexão de seu riso, cada sombra que atravessa seu olhar. E esta manhã, há algo errado. Algo que vibra nela como uma corda esticada demais, uma frequência que ninguém mais percebe, mas que me perfura as têmporas. Ela ri alto demais das piadas da cabeleireira. Ela se move rápido demais, como se tivesse bebido café demais, como se quisesse esgotar o corpo para não ter de pensar. Ela não cruzou meu olhar uma única vez desde que entrei nesta sala.
— Camélia, me passa o véu.
Sua voz é clara, imperiosa, aquela que ela usa desde a infância para me dar ordens. Avanço, o tecido precioso entre as mãos, e o estendo a ela sem uma palavra. Nossos dedos se roçam. Os dela estão gelados. Em pleno mês de junho, neste quarto aquecido pelo sol que entra em torrentes, seus dedos estão gelados.
— Você está com frio? — pergunto baixinho.
Ela não responde. Fixa o véu, depois o espelho, depois seu reflexo no espelho. Seu rosto é uma máscara de perfeição que se fissura imperceptivelmente, um verniz de porcelana que racha nas bordas. Suas maçãs do rosto, rosadas demais sob a maquiagem. Suas pupilas, dilatadas demais apesar da claridade ofuscante que banha o quarto. Suas mãos que alisam o tecido do vestido num gesto nervoso, incessante, compulsivo.
— É o nervosismo — diz ela por fim. — O nervosismo normal de um dia de casamento.
Sua voz é aguda demais, rápida demais. As palavras se atropelam como se ela quisesse despachá-las antes que a traiam. Eu gostaria de acreditar nela. Gostaria de conseguir me convencer de que estou projetando, de que estou nervosa por ela, de que minha ansiedade crônica transforma uma alegria legítima em ameaça invisível. Mas conheço minha irmã. Lilia nunca tem nervosismo. Lilia entra numa sala como uma rainha sobe a um trono, com a certeza de que tudo lhe é devido. Lilia não treme. Lilia não olha para a janela a cada trinta segundos.
E eu, seguro o véu, e não digo nada, porque nunca soube dizer o que via.
A camareira se ocupa ao redor da cauda, ajustando as dobras, alisando as plumas invisíveis. A cabeleireira guarda seus pentes e frascos com gestos lentos e precisos. O relógio sobre a lareira conta os minutos com uma lentidão de tortura, seu tique-taque regular martelando o silêncio. O cheiro do perfume de Lilia enche o quarto, um perfume inebriante de tuberosa e baunilha, seu perfume de conquista, aquele que ela usa nos dias em que quer que o mundo inteiro se vire à sua passagem. É forte demais. Arde nos olhos. Esconde outra coisa, talvez, um cheiro de suor, de medo.
Fico ali, de pé, o véu entre as mãos, e olho para ela.
Ela gira pelo quarto como um felino em jaula. A cauda do vestido varre o parquet num farfalhar de seda, e seus pés descalços deixam marcas invisíveis na madeira encerada. Ela para diante da janela, põe uma mão no vidro, e seus dedos se abrem contra o vidro. Ela olha os vinhedos, as colinas, o céu azul demais.
Não sei que estou olhando para minha irmã pela última vez. Não sei nada. Sou Camélia. A gêmea da sombra. A que segura o véu, a que espera, a que ama em segredo um homem que nunca olhou para ela. Ninguém sabe. Ninguém jamais saberá que, sob meu silêncio, sob meu apagamento, sob meu sorriso tímido de irmã mais nova, existe esse segredo que me consome há dois anos.
Cassian.
Seu nome é uma queimadura no meu peito. Nunca o pronuncio. Nunca olho para ele. Mantenho sempre distância, na sombra de Lilia, na sombra do casal perfeito que eles formam, e escondo meu amor como se esconde uma doença vergonhosa. Ele nunca me viu. Ele nunca me verá. Em menos de uma hora, ele se casará com minha irmã, e eu estarei na plateia, sorrindo, aplaudindo, morrendo um pouco mais a cada instante.
Os sinos da capela ainda não tocam. O mundo continua girando, despreocupado, magnífico. E eu fico ali, no meio deste quarto belo demais, fixando as costas de minha irmã, que olha pela janela como se já procurasse um caminho para fugir.
Capítulo 57CaméliaOs dias passam, e eu cambaleio.As palavras de Lilia se infiltraram em mim como um veneno lento, como uma doença insidiosa que progride sem que se veja, sem que se sinta, até que seja tarde demais para detê-la. Tu não és mais que um substituto. Uma dublê. Um prêmio de consolação. Ele está obcecado pelo que eu represento. Agora que voltei, o papel terminou. A peça acabou. Essas palavras giram na minha cabeça em loop, uma e outra vez, como uma melodia fúnebre, como um disco riscado que nunca para. Ouço-as quando acordo de manhã, sozinha na cama conjugal, os lençóis frios ao meu lado. Ouço-as quando me visto, diante do espelho do closet, enfiando-me nestes vestidos que não me pertencem. Ouço-as quando faço as refeições, sentada à grande mesa da sala de jantar, diante de
Capítulo 56CaméliaO primeiro confronto privado acontece na mesma noite, no quarto conjugal.Estou sentada na beira da cama, as mãos cruzadas sobre os joelhos, o coração pesado como uma pedra. Cassian ainda não subiu. Está no escritório, a trabalhar, a preparar não sei que estratégia, a fechar-se nesse silêncio que é a sua maneira de lidar com as crises. Estou sozinha, e é nessa solidão que Lilia escolhe atacar.A porta se abre sem que se tenha batido, sem que se tenha anunciado a sua vinda. Ela entra como se entra em casa, com passo firme, a cabeça erguida, os ombros direitos. Usa um roupão de seda marfim, e seus cabelos estão soltos, espalhados sobre os ombros em ondas de mel. Seus pés estão descalços sobre o assoalho, e ela se move neste quarto com uma naturalidade, uma familiaridade, uma propriedade que me gelam o
Capítulo 55CassianObservo o reencontro, e não digo nada.Fico em retirada, encostado na parede do hall, os braços cruzados, o rosto fechado. Não quero interferir, não agora. Quero ver. Quero observar. Quero analisar cada gesto, cada palavra, cada olhar.Lilia é uma atriz excepcional. Já sabia, mas hoje constato com uma clareza nova. Ela atravessa o hall correndo, os braços abertos, o rosto iluminado por um sorriso que parece tão espontâneo, tão sincero. Pega Camélia nos braços, e a aperta contra si com uma afeição que comove os criados aglomerados na entrada. Ouço os murmúrios, os suspiros enternecidos. Pobre madame Deveraux. Como deve ter sofrido. Como é corajosa. Como ama sua irmã.Eu não vejo uma irmã amorosa. Vejo uma predadora.Conheço os predadores. Eu sou um. Passei a vida inteira a
Capítulo 54CaméliaVejo-a antes que ela me veja.Do patamar do primeiro andar, dissimulada atrás de uma coluna de mármore frio, observo a entrada da minha irmã no hall. O tempo parou, suspenso neste instante, nesta silhueta que desce do carro com uma graça que sempre lhe invejei, um andar balanceado de rainha que pisa o solo do seu reino após um longo exílio. Os flashes crepitam atrás dela como uma chuva de relâmpagos, furando a cinzentude desta manhã bretã, e ouço os gritos dos jornalistas que atravessam as paredes espessas da mansão, suas vozes que gritam seu nome, que a chamam, que a suplicam que lhes conceda um olhar, uma palavra, um sorriso. Ela lhes oferece tudo isso ao mesmo tempo, um sorriso frágil que treme na borda dos lábios, um sorriso de vítima corajosa que sobreviveu ao inferno e que dele voltou mais forte.Ela está r
Capítulo 53LiliaO carro franqueia os portões do domínio Saint-Clair, e eu sorrio.A mansão aparece na curva da alameda, fortaleza de vidro e aço negro suspensa sobre o oceano, e eu a olho com olhos novos, olhos de ressuscitada, olhos de milagrada. Nada mudou. Os penhascos de granito ainda mergulham na água negra, as ondas ainda se espatifam contra as rochas num estrondo surdo, o vento ainda sopra sobre a charneca fazendo curvar as ervas daninhas. Tudo está exatamente como na minha lembrança, como se o tempo tivesse parado no dia do meu desaparecimento. Como se a mansão tivesse me esperado.Sei que as câmeras estão apontadas para o carro, que os jornalistas acampam diante dos portões, que o país inteiro espera ver o rosto da mulher que sobreviveu ao inferno. Os flashes já crepitam, furando a cinzentude desta manhã bretã, e ouço os gritos,
Capítulo 52CassianPreparo a chegada de Lilia como se prepara uma batalha.A noite foi curta, e não fechei os olhos. Camélia também não, embora tenha acabado adormecendo de madrugada, exausta pela angústia. Segurei-a contra mim até que sua respiração desacelerasse, até que seus dedos crispados na minha camisa se soltassem, até que ela finalmente escorregasse num sono agitado, povoado de pesadelos que eu não podia afastar. Depois me levantei, e comecei a trabalhar.Estratégia. Controle. São as únicas palavras que contam hoje.Não acredito numa palavra da história de Lilia. Sequestro. Cativeiro. Fuga milagrosa. É perfeito demais, liso demais, bem amarrado demais para ser verdade. Lilia sempre foi uma atriz excepcional, uma manipuladora de gênio, uma mulher capaz de mentir com uma segurança que forçava a ad







