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Capítulo 3

Author: Histoire
last update publish date: 2026-09-15 06:01:13

Capítulo 3

Camélia

Viviane aparece no umbral da porta.

Ela é uma silhueta imperial em seu vestido de cerimônia azul-noite, adornada de safiras e diamantes que cintilam como estrelas frias sobre o veludo escuro do tecido. Ela se imobiliza na soleira, e seu olhar varre a cena com uma lentidão metódica, cirúrgica. O vestido de Lilia caído no parquet. O véu dobrado, cuidadosamente, como um sudário. A mensagem a batom no espelho. A janela escancarada sobre os vinhedos e o céu. E eu, ajoelhada no meio desse desastre, as mãos ainda crispadas sobre o tecido.

O silêncio se dilata. Estica-se. Torna-se uma coisa física, palpável, que enche o quarto e comprime o ar ao nosso redor. Não ouso respirar. Não ouso me mexer. Os segundos se escoam com uma lentidão de tortura, e minha mãe não diz nada.

Ela fixa o vestido.

Ela fixa a mensagem.

Ela fixa a janela aberta.

Depois seu olhar desliza para mim. Pousa em mim como uma ave de rapina que localiza sua presa. E eu vejo seus olhos, seus olhos tão parecidos com os meus e tão radicalmente diferentes, seus olhos que não contêm nem pânico, nem mágoa, nem pavor. Seus olhos que contêm outra coisa. Algo que não quero nomear. Algo que me gela o sangue mais seguramente que o grito da camareira.

Ela me olha. Lentamente. Calculadamente. Como se avalia uma peça num tabuleiro de xadrez. Como se estima o valor de um objeto que se está prestes a usar.

E eu compreendo.

Compreendo antes que ela abra a boca. Compreendo pelo modo como suas pupilas passam do vestido ao meu rosto, do meu rosto ao vestido, num vaivém silencioso que não tem nada de acidental. Ela sobrepõe nossas imagens em sua mente. Compara. Mede. Calcula a semelhança que nos une, a Lilia e a mim, essa gemelidade que ela sempre soube explorar, que sempre brandiu como uma curiosidade mundana, e que se torna de repente, em seu cérebro de estrategista, a solução para todos os seus problemas.

— Não — murmuro.

Minha voz é tão fraca que não tenho certeza de tê-la pronunciado em voz alta. Mas minha mãe ouve. Minha mãe ouve tudo. Seus olhos se estreitam imperceptivelmente, e a sombra de um sorriso flutua em seus lábios, um sorriso que não tem nada de maternal, nada de terno, nada de tranquilizador.

— Não — repito, mais alto desta vez. — Não, mãe. Isso não.

Ela não responde. Ela transpõe o umbral do quarto, e seus saltos estalam no parquet com uma lentidão deliberada, cada passo é uma sentença que se aproxima. Ela para diante do espelho, lê a mensagem, roça o batom com a ponta do indicador, e o traço escarlate se transfere para sua pele como uma mancha de culpa. Ela olha seu dedo. Olha o espelho. Olha a janela aberta, os vinhedos, as colinas, o céu azul demais.

Depois se vira para mim.

E em seus olhos, não há mais cálculo. Não há mais hesitação. Há uma decisão, já tomada, já selada, já irrevogável. Uma decisão que me concerne, que vai me engolir, que vai fazer de mim o que eu nunca quis ser.

Ainda estou de joelhos. Ainda seguro o vestido. O perfume de Lilia sobe do tecido como um último chamado, um último aviso. Lá fora, os sinos da capela começam a tocar. Seu canto grave se espalha pelo domínio, convidando os convidados a tomar seus lugares, e cada badalada é um dobre que escande o fim da minha vida como eu a conhecia.

Minha mãe sorri. Um sorriso frio, determinado, aterrorizante.

E eu sei, sei com uma certeza que me embrulha o estômago, que nada mais será como antes.

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