LOGINCapítulo 3
Camélia
Viviane aparece no umbral da porta.
Ela é uma silhueta imperial em seu vestido de cerimônia azul-noite, adornada de safiras e diamantes que cintilam como estrelas frias sobre o veludo escuro do tecido. Ela se imobiliza na soleira, e seu olhar varre a cena com uma lentidão metódica, cirúrgica. O vestido de Lilia caído no parquet. O véu dobrado, cuidadosamente, como um sudário. A mensagem a batom no espelho. A janela escancarada sobre os vinhedos e o céu. E eu, ajoelhada no meio desse desastre, as mãos ainda crispadas sobre o tecido.
O silêncio se dilata. Estica-se. Torna-se uma coisa física, palpável, que enche o quarto e comprime o ar ao nosso redor. Não ouso respirar. Não ouso me mexer. Os segundos se escoam com uma lentidão de tortura, e minha mãe não diz nada.
Ela fixa o vestido.
Ela fixa a mensagem.
Ela fixa a janela aberta.
Depois seu olhar desliza para mim. Pousa em mim como uma ave de rapina que localiza sua presa. E eu vejo seus olhos, seus olhos tão parecidos com os meus e tão radicalmente diferentes, seus olhos que não contêm nem pânico, nem mágoa, nem pavor. Seus olhos que contêm outra coisa. Algo que não quero nomear. Algo que me gela o sangue mais seguramente que o grito da camareira.
Ela me olha. Lentamente. Calculadamente. Como se avalia uma peça num tabuleiro de xadrez. Como se estima o valor de um objeto que se está prestes a usar.
E eu compreendo.
Compreendo antes que ela abra a boca. Compreendo pelo modo como suas pupilas passam do vestido ao meu rosto, do meu rosto ao vestido, num vaivém silencioso que não tem nada de acidental. Ela sobrepõe nossas imagens em sua mente. Compara. Mede. Calcula a semelhança que nos une, a Lilia e a mim, essa gemelidade que ela sempre soube explorar, que sempre brandiu como uma curiosidade mundana, e que se torna de repente, em seu cérebro de estrategista, a solução para todos os seus problemas.
— Não — murmuro.
Minha voz é tão fraca que não tenho certeza de tê-la pronunciado em voz alta. Mas minha mãe ouve. Minha mãe ouve tudo. Seus olhos se estreitam imperceptivelmente, e a sombra de um sorriso flutua em seus lábios, um sorriso que não tem nada de maternal, nada de terno, nada de tranquilizador.
— Não — repito, mais alto desta vez. — Não, mãe. Isso não.
Ela não responde. Ela transpõe o umbral do quarto, e seus saltos estalam no parquet com uma lentidão deliberada, cada passo é uma sentença que se aproxima. Ela para diante do espelho, lê a mensagem, roça o batom com a ponta do indicador, e o traço escarlate se transfere para sua pele como uma mancha de culpa. Ela olha seu dedo. Olha o espelho. Olha a janela aberta, os vinhedos, as colinas, o céu azul demais.
Depois se vira para mim.
E em seus olhos, não há mais cálculo. Não há mais hesitação. Há uma decisão, já tomada, já selada, já irrevogável. Uma decisão que me concerne, que vai me engolir, que vai fazer de mim o que eu nunca quis ser.
Ainda estou de joelhos. Ainda seguro o vestido. O perfume de Lilia sobe do tecido como um último chamado, um último aviso. Lá fora, os sinos da capela começam a tocar. Seu canto grave se espalha pelo domínio, convidando os convidados a tomar seus lugares, e cada badalada é um dobre que escande o fim da minha vida como eu a conhecia.
Minha mãe sorri. Um sorriso frio, determinado, aterrorizante.
E eu sei, sei com uma certeza que me embrulha o estômago, que nada mais será como antes.
Capítulo 5CaméliaA porta bate atrás da minha mãe, e eu fico sozinha no silêncio.Dez minutos. Ela me deu dez minutos para vestir a pele da minha irmã, para desaparecer sob o cetim e a renda, para me tornar alguém que não sou. Dez minutos para aceitar o veredito que ela acabou de pronunciar, para me curvar à sua vontade como sempre fiz, como sempre farei.Minhas mãos tremem quando pego o vestido.O tecido está frio. Ou talvez seja minha pele que está gelada, meu sangue que se retirou das extremidades para não irrigar mais que o meu terror. Levanto-me, as pernas vacilantes, e ergo a massa de seda e renda que jazia no parquet. O vestido é pesado, bem mais pesado do que eu imaginava, sobrecarregado pelas pérolas, pelos bordados, pelas horas de trabalho, pelo dinheiro, pelas expectativas de toda uma família.O perfume de Lilia impregna o tecido.Sobe até mim, tenaz, envolvente, aquele perfume de tuberosa e baunilha que ela ainda usava esta manhã, quando ria alto demais e tremia diante da
Capítulo 4VivianeFecho a porta atrás de mim, e o ferrolho se encaixa com um clique seco que ressoa no silêncio súbito da suíte.A camareira foi dispensada com um gesto, os criados afastados, as perguntas sufocadas antes mesmo de serem formuladas. Não restam mais que nós duas neste túmulo de luxo, minha filha e eu, e este vestido abandonado no parquet como uma muda de seda. A luz da manhã continua a escorrer pela janela aberta, indiferente à catástrofe que acaba de se abater sobre trinta anos de trabalho, de estratégia e de sacrifícios.Não grito. Não choro. Não tenho tempo. As lágrimas são um luxo que nunca me permiti, e o pânico é uma fraqueza que erradiquei do meu vocabulário muito antes do nascimento das minhas filhas. O que acabou de acontecer é um desastre, sim, mas um desastre não passa de um problema que ainda não encontrou sua solução. E eu sempre soube encontrar as soluções.Dou a volta no quarto, lentamente, medindo cada detalhe. O vestido jaz no parquet, mangas abertas, c
Capítulo 3CaméliaViviane aparece no umbral da porta.Ela é uma silhueta imperial em seu vestido de cerimônia azul-noite, adornada de safiras e diamantes que cintilam como estrelas frias sobre o veludo escuro do tecido. Ela se imobiliza na soleira, e seu olhar varre a cena com uma lentidão metódica, cirúrgica. O vestido de Lilia caído no parquet. O véu dobrado, cuidadosamente, como um sudário. A mensagem a batom no espelho. A janela escancarada sobre os vinhedos e o céu. E eu, ajoelhada no meio desse desastre, as mãos ainda crispadas sobre o tecido.O silêncio se dilata. Estica-se. Torna-se uma coisa física, palpável, que enche o quarto e comprime o ar ao nosso redor. Não ouso respirar. Não ouso me mexer. Os segundos se escoam com uma lentidão de tortura, e minha mãe não diz nada.Ela fixa o vestido.Ela fixa a mensagem.Ela fixa a janela aberta.Depois seu olhar desliza para mim. Pousa em mim como uma ave de rapina que localiza sua presa. E eu vejo seus olhos, seus olhos tão parecid
Capítulo 2CaméliaA cerimônia se aproxima.O relógio bateu a meia, e o tempo se acelera ao nosso redor, levando tudo consigo. Lilia manda todos saírem para respirar, diz ela, para se recolher antes do grande momento, para ficar sozinha consigo mesma e seus pensamentos. A cabeleireira se inclina com um sorriso cúmplice, seu pente ainda na mão, e a camareira alisa uma última vez a cauda antes de se retirar de costas, os olhos baixos, como se deixa o quarto de uma soberana. Eu fico para trás, um segundo a mais, e nossos olhares finalmente se cruzam no espelho.Seus olhos. Seus olhos são dois lagos escuros onde vejo algo que nunca teria acreditado ver em Lilia Deveraux. Medo. Medo de verdade. Não o nervosismo de uma atriz antes de entrar em cena. O medo de um animal encurralado que procura a saída. Suas pupilas estão dilatadas, imensas, e a íris não é mais que um fino anel de mel ao redor de um poço sem fundo. Seus lábios tremem, imperceptivelmente, um frêmito que só uma irmã gêmea pode
Capítulo 1CaméliaSeguro o véu entre os dedos e não respiro mais.O tecido é de uma leveza impossível, musselina de seda bordada com minúsculas pérolas de nácar que captam a luz da manhã e a devolvem em reflexos trêmulos nas paredes da suíte. Minhas mãos não foram feitas para tocar algo tão precioso. Minhas mãos estão manchadas de tinta, de carvão, desses pigmentos que se incrustam sob as unhas e nunca saem por completo. Eu deveria estar verificando as flores, me certificando de que o champanhe está na temperatura certa, desaparecendo no cenário como sempre fiz. Mas Lilia me entregou o véu há dez minutos, dizendo que eu seria a guardiã oficial desse objeto sagrado até a cerimônia, e eu não soube dizer não.Eu nunca sei dizer não à minha irmã.A propriedade vinícola se estende atrás das janelas imensas da suíte, um oceano de vinhedos que ondula sob a brisa de junho, de um verde tão profundo que em alguns pontos parece quase negro. Os ciprestes montam guarda ao longo das alamedas de ca







