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Capítulo 4

Author: Histoire
last update publish date: 2026-09-15 06:03:34

Capítulo 4

Viviane

Fecho a porta atrás de mim, e o ferrolho se encaixa com um clique seco que ressoa no silêncio súbito da suíte.

A camareira foi dispensada com um gesto, os criados afastados, as perguntas sufocadas antes mesmo de serem formuladas. Não restam mais que nós duas neste túmulo de luxo, minha filha e eu, e este vestido abandonado no parquet como uma muda de seda. A luz da manhã continua a escorrer pela janela aberta, indiferente à catástrofe que acaba de se abater sobre trinta anos de trabalho, de estratégia e de sacrifícios.

Não grito. Não choro. Não tenho tempo. As lágrimas são um luxo que nunca me permiti, e o pânico é uma fraqueza que erradiquei do meu vocabulário muito antes do nascimento das minhas filhas. O que acabou de acontecer é um desastre, sim, mas um desastre não passa de um problema que ainda não encontrou sua solução. E eu sempre soube encontrar as soluções.

Dou a volta no quarto, lentamente, medindo cada detalhe. O vestido jaz no parquet, mangas abertas, cauda espalhada num lago de cetim enrugado. O véu está dobrado ao lado, cuidadosamente, quase com ternura. Esse detalhe me atinge mais que o resto. Lilia tomou o tempo de dobrar o véu. Ela não estava em pânico. Estava lúcida. Determinada. Ela escolheu fugir, e o fez com a mesma maestria que colocava em tudo o que empreendia.

A mensagem a batom risca o espelho como uma cicatriz escarlate. Não posso. Perdoem-me. Leio as palavras duas vezes, e não sinto nada. Nem raiva, nem mágoa, nem traição. Lilia me decepcionou, sim, mas a decepção é um sentimento que conheço bem demais para que me paralise. Minha filha mais velha, minha rainha, minha obra-prima, acaba de jogar vinte e cinco anos de educação pela janela por uma crise existencial no dia do seu casamento. Ela vai pagar. Mais tarde. Por enquanto, preciso salvar o que pode ser salvo.

A cerimônia começa em quarenta minutos. Os Saint-Clair já estão na capela. O patriarca, doente, fez o deslocamento desde Paris. Os acionistas, os ministros, os jornalistas, toda a elite europeia está reunida atrás desses muros, e se o casamento não acontecer, se a verdade vier à tona, os Deveraux serão riscados do mapa numa manhã. A aliança que levei três anos para construir, os contratos, as participações cruzadas, as promessas de fusão, tudo isso desmoronará como um castelo de cartas. Não vou permitir.

Paro diante do espelho, roço o batom com a ponta do dedo, e a pasta gordurosa se transfere para minha pele. Olho essa mancha escarlate no meu indicador, e penso na minha mãe, na mãe dela antes dela, em todas as mulheres desta família que tiveram que se bater para sobreviver enquanto os homens faziam a guerra ou dilapidavam as fortunas. Penso no meu marido, ausente como sempre, provavelmente tomando seu terceiro uísque num canto do domínio, evitando cuidadosamente qualquer responsabilidade. Penso em tudo o que sacrifiquei para chegar até aqui, e me recuso, me recuso absolutamente, a que tudo pare por causa de um capricho.

Meu olhar pousa em Camélia.

Ela está ajoelhada perto do vestido, as mãos crispadas sobre o tecido, o rosto lívido, os olhos arregalados. Ela treme. Treme de todo o corpo, como um animal preso numa armadilha, e vejo em seus traços essa expressão de terror mudo que sempre lhe conheci. Camélia, a segunda. Camélia, a gêmea da sombra. Aquela que nasceu por acidente, aquela que nunca deveria ter sobrevivido, aquela que passou a vida inteira a se desculpar por existir. Ela é o oposto completo de sua irmã. Onde Lilia é flamejante, Camélia é apagada. Onde Lilia conquista, Camélia se esconde. Onde Lilia brilha, Camélia se extingue.

Mas hoje, neste quarto, com este vestido vazio entre nós, eu a olho de forma diferente. Olho-a como nunca tive o tempo de olhá-la. E o que vejo me atinge com uma evidência que me corta a respiração.

Ela se parece com Lilia.

Não daquela semelhança vaga que todos os gêmeos compartilham. Uma semelhança absoluta, impressionante, que esmaga todo o resto. As mesmas maçãs do rosto altas, o mesmo oval do rosto, a mesma curva dos lábios. Os mesmos olhos, aquele azul profundo que vem de mim. As mesmas mãos, longas e finas, mãos de pianista ou de pintora. A única diferença é a atitude. Lilia se mantém ereta, soberana, o queixo erguido para o mundo. Camélia se encolhe, se desculpa, se apaga. Mas sob a maquiagem, sob o véu, sob o vestido, quem poderia notar a diferença?

Ninguém.

Nem mesmo Cassian Saint-Clair, que nunca olhou para sua noiva mais tempo do que a educação exigia. Nem mesmo os criados, que só veem o que lhes dizem para ver. Nem mesmo os fotógrafos, os jornalistas, os convidados, todas essas pessoas que só conhecem Lilia através das fotos oficiais e das festas mundanas. Se eu colocar Camélia neste vestido, se eu puser este véu sobre o rosto dela, se eu ordenar que caminhe até o altar, ninguém verá a diferença. Ninguém jamais saberá.

A ideia toma forma na minha mente com a rapidez de um incêndio. É audaciosa. É arriscada. É perfeita.

Viro-me para Camélia, e vejo que ela compreendeu. Seus olhos se arregalam ainda mais, se é possível, e ela balança a cabeça, um movimento fraco, desesperado, que só confirma o que já sei. Ela vai obedecer. Ela sempre obedeceu. É sua natureza, sua maldição, sua única utilidade nesta família.

— Não — murmura ela. — Não, mãe. Isso não.

Sua voz é um fio trêmulo, mal audível. Eu quase poderia sentir pena dela. Quase. Mas a pena é um luxo, e não tenho tempo. Atravesso o quarto, meus saltos estalam no parquet, e paro diante dela, dominando-a de toda a minha altura.

— Sua irmã carrega esta família desde que nasceu.

Minha voz é calma, posada, a mesma que uso nos conselhos de administração quando se trata de esmagar um adversário. Cada palavra é uma lâmina, e eu as planto uma a uma na carne tenra dela.

— Ela atraiu Cassian Saint-Clair para as nossas redes. Ela tornou esta aliança possível. Ela carregou o nome Deveraux sobre os ombros enquanto você, você borrava telas num ateliê miserável, comprazendo-se na sua melancolia. Você nunca fez nada por esta família. Você foi um peso desde o dia em que nasceu. Um fardo. Uma boca para alimentar que nunca trouxe nada.

Camélia treme ainda mais. Seus dedos se crispam sobre o tecido do vestido, e vejo suas juntas branquearem. Ela não responde. Ela não pode responder. Ela sabe que tenho razão. Vejo isso em seus olhos, no modo como baixa a cabeça, nessa submissão patética que me dá vontade de esbofeteá-la.

— Hoje, pela primeira vez na sua vida, você vai ser útil. Vai vestir este vestido. Vai caminhar até o altar. Vai se casar com Cassian Saint-Clair. E ninguém jamais saberá que você não é sua irmã.

O silêncio recai, pesado, esmagador. Eu a olho, ajoelhada aos meus pés, e espero. Ela não chora. Isso já é alguma coisa. As lágrimas teriam estragado a maquiagem.

— E se eu recusar?

Sua voz é apenas um murmúrio, um sopro que escapa de seus lábios brancos. Eu sorrio. Um sorriso frio, cirúrgico, aquele que reservo para as negociações difíceis.

— Se você recusar, não terá mais família. Mais nome. Mais herança. Vou cortá-la de tudo. Você voltará a ser o que era antes que eu lhe desse uma chance: nada. Menos que nada. Uma artista fracassada morrendo de fome num estúdio insalubre. É isso que você quer?

Ela não responde. Baixa a cabeça, e seus cabelos castanhos, aquele castanho sem graça que ela nunca soube valorizar, caem sobre seu rosto. Ela está vencida. Sempre esteve.

— Você tem dez minutos para se preparar. A cerimônia começa em quarenta minutos. Não me faça me arrepender de tê-la escolhido.

Endireito-me, aliso meu vestido com um gesto mecânico, e me dirijo à porta. Antes de sair, lanço um último olhar a este quarto, a este vestido vazio, a esta mensagem no espelho. Lilia fugiu, mas eu a farei pagar. Mais tarde. Por enquanto, tenho um casamento para salvar.

Meus saltos estalam no corredor. Lá fora, os sinos tocam, e eu sorrio ao pensar na cara de Cassian Saint-Clair quando descobrir, mais cedo ou mais tarde, que não se casou com a irmã certa. Mas nesse dia, será tarde demais. Os contratos estarão assinados. A aliança estará selada. E Camélia carregará o nome Saint-Clair, queira ou não.

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