FAZER LOGIN“PQ”, 13 de janeiro, terça-feira.
Deveria correr? Esconder-se no mato?
Ou manter o passo?
→ Controle-se → murmurou, para não aloprar → Controle-se...
Controlando o pânico, observou o veículo.
Scort prata. Quatro portas. Sem vidro fumê. Não parou. Passou por ele em baixa velocidade. O motorista → que era branco → usava boné preto, óculos escuros e camisa vermelha, de mangas curtas. Sem bigode. Olhou para ele apenas superficialmente.
Por que escolhera aquela horrível e erma estrada? Coincidência? Teria casa nas imediações? Seria um traficante? Onde tinha visto um Scort prata, antes?
Não lembrava.
Suspirou, aliviado, quando não viu mais o veículo.
Talvez fosse mesmo um morador. Ou um traficante. Parecia estar se disfarçando, com os óculos e o boné, justamente para não ser reconhecido, algo típico do povo daquela área violenta.
Dane-se! Devia ser mesmo um traficante.
Bem, não poderia imaginar coisas. Não poderia se precipitar ou delirar, fins não perder o foco.
Afastou o Scort da mente e aumentou as passadas. Evitou encarar o matagal → sinistro, naquele instante → que lhe dava nos nervos. Mato dos infernos! Vez ou outra olhava para trás.
Enxugou o suor da testa. Suas pernas doíam, assim como suas costas. Tanto pela caminhada como pelo peso da mochila. Ah! E também por causa do sexo com a morena. Os anos na cadeia lhes tiraram a mobilidade, a presteza e a tenacidade. Merda! Precisava fazer exercícios urgentemente.
Minutos depois, entrou na avenida Lido Harty. Virou à esquerda. Mais duzentos metros e parou no ponto de ônibus.
Tirou a mochila. Sentou-se no banco de madeira, este protegido por um teto de telhas de zinco. Esticou as pernas. Passou as mãos nas costas. Flexionou o tronco, para amenizar as dores.
Vez ou outra olhava para a estrada de terra batida. Se o Scort aparecesse ali, seria obrigado a tomar providências.
Mas o Scort não apareceu e, sim, o ônibus.
Entrou no coletivo.
Concentrou-se, para não cochilar.
Desceu no centro da cidade de “PQ” → mais precisamente na rodoviária → quando faltavam dez minutos para as dezessete horas.
Foi ao guichê e comprou uma passagem para a cidade de “NH”, que distava cento e vinte quilômetros da cidade de “PQ”.
No banheiro, urinou e lavou o rosto e as mãos. Na lanchonete, pediu misto quente com refrigerante. Ainda era cedo para tomar cerveja. Olhou ao redor. Rodoviária lotada. Intensa circulação de pessoas. Um homem lia um jornal, sentado num dos bancos existentes no largo corredor. Um casal discutia, sentado no outro banco.
Tudo dentro da normalidade. Nenhum policial na área. Nenhum contratempo. Confiante, terminou de comer e seguiu para o ponto de embarque. Entrou no ônibus, que saiu às 17h10min.
Sentou-se.
Relaxou os músculos.
Aproveitou para lembrar de como tudo isso começou.
PARTE QUATRO - O FIM DO MISTÉRIO “FT”, 17 de janeiro, sábado. Encontraram-se no restaurante “Hutt Levidt Paladar”, naquela manhã ensolarada. Beijaram-se nas faces. Ocuparam uma mesa discreta, nos fundos do recinto. → Tudo bem? → ela quis saber. → Tudo. → O dia está lindo. → Realmente O sol está maravilhoso. → Vamos almoçar? Comeram lagosta, com arroz, macarrão, salada, feijão e farofa. E vinho branco, como acompanhamento. Em silêncio, cada um imerso em seus próprios pensam
“FT”, 16 de janeiro, sexta-feira. Estacionou a BMW a duzentos metros do ginásio. Havia dito para a esposa que precisava resolver um assunto urgente, de trabalho. Ela → acostumada a essas ausências → não questionou nem quis saber do que se tratava. Era uma excelente esposa! Vinte e tantos anos de casamento e continuava compreensiva, fiel e meiga! Fingia, inclusive, ignorar as diversas amantes que arrumava. A mulher perfeita! Olhou o relógio: 23h10min. Saiu da BMW. Usava terno preto, com gravata azul. A pistola se encontrava no coldre axilar, este oculto pelo terno. Adorava usar esse tipo de roupa.
“FT”, 16 de janeiro, sexta-feira. Contou tudo! Desde a abordagem pelo contato, o roubo do Corsa, o treinamento, os tiros, o estupro, a fuga, até a chegada na casa, já tarde da noite. → É isso aí → disse, para finalizar a conversa →. É... isso... aí. Cara, preciso de um remédio. Tô com u-uma fodida dor no c-cérebro, entende? O tal de Bruno → após ouvir o bizarro relato → não proferiu uma palavra sequer. Parecia um robô sem alma, como que perdido em sua própria loucura. Guardou o maçarico na maleta e tirou um celular e uma pistola, preta, com silenciador. Destravou a arma. Ergueu a mão armada. Virou-se. → Ca
“FT”, 16 de janeiro, sexta-feira. Enquanto isso... Vitorioso! Naquela noite, trancado na biblioteca da mansão → concentrado na elaboração do discurso → sentia-se o mais vitorioso dos homens! Nunca estivera tão satisfeito. Recapitulando os acontecimentos da semana, soubera da morte de Bruno no hotel, às oito da noite da terça-feira. Kleber → gerente de vendas da matriz → lhe dera a notícia. Estava realmente no norte do país. Portanto, bem distante das ações do assassino. Viajara para a cidade de “FT” na manhã do dia seguinte, fingindo estar chocado com o fato. Comparecera ao enterro. Claro!
“FT”, 15 de janeiro, quinta-feira. Arregalou os olhos. Viu-se diante de um... “fantasma”??? O sujeito teria entre quarenta e cinco e cinquenta anos. Alto, branco e loiro. Olhos azuis. Cultivava um bigode fino, no estilo dos mexicanos. Apesar do intenso calor, usava um terno preto, com gravata lilás. Na mão direita, uma pasta marrom. → Te matei! → gritou, surpreso → TE MATEI!!! Não pode ser! Não pode ser!!! → Você checou se eu estava realmente morto? → o homem falou e sua voz era extremamente parecida com a do Bruno Handel. → Tu morreu, cara! Puta que pariu!!! O homem depositou a maleta no c
PARTE TRÊS - A VINGANÇA DO MORTO “FT”, 15 de janeiro, quinta-feira. Ao despertar, sentiu uma incômoda dor de cabeça. Dor chata! Como se agulhas perfurassem seu cérebro! Tentou se mexer, mas não conseguiu. Percebeu que estava amarrado a uma cadeira de aço → extremamente pesada → de espaldar alto. Cordas poderosas o prendiam por trás. Tentou de desenvencilhar, sem sucesso. → Merda! → vociferou, sem forças. Suava. O suor descia → lentamente → por seu rosto. Calculou ser quase meio-dia, com a temperatura na casa dos trinta e poucos