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Capítulo 2

Author: Luana
last update publish date: 2026-09-22 03:31:52

— Penélope!

Fechei os olhos por alguns segundos antes de responder.

Eu já sabia que aquela voz só podia significar uma coisa: problema.

— Já tô indo, mãe!

Desci a escadinha que levava até a nossa casa, passando pela viela estreita enquanto algumas crianças brincavam na rua e duas senhoras conversavam sentadas na porta de casa.

— Ih, lá vai a Penélope — uma delas comentou.

— Essa menina ainda vai dar trabalho — a outra respondeu, rindo.

Virei o rosto.

— Eu ouvi, hein!

As duas começaram a rir.

— Tá vendo? — uma delas falou. — Nem falei nada demais!

— Sei...

Entrei em casa e encontrei minha mãe na cozinha, mexendo alguma coisa numa panela. Meu pai estava sentado à mesa, ainda com a roupa de trabalho. A camisa estava suja de cimento e ele tinha aquele rosto cansado de quem tinha passado o dia inteiro carregando peso.

— O que foi? — perguntei.

Minha mãe me olhou.

— Amanhã você vai comigo trabalhar.

Franzi a testa.

— Como assim?

— Vai me ajudar na faxina.

— Ah, não.

Nem deixei ela terminar.

— Penélope...

— Não, mãe. Eu já tenho coisa pra fazer amanhã.

Meu pai levantou os olhos.

— Que coisa?

Fiquei quieta.

— É... coisa minha.

Ele soltou uma risada curta.

— Imaginei.

Minha mãe colocou a colher sobre a pia e cruzou os braços.

— Eu preciso de ajuda, filha. É uma casa grande e vou ter bastante serviço.

— Casa de quem?

Ela respirou fundo.

— Da dona Célia.

Na mesma hora fiz uma careta.

— Ah, não. Daqueles riquinhos?

— Penélope!

— O quê? É verdade!

— Não fale assim das pessoas.

— Mãe, eu não gosto daquele povo.

Meu pai entrou na conversa.

— Você nem conhece direito.

— Conheço o suficiente.

— Você foi lá quantas vezes?

— Duas.

— Então pronto.

— Pronto nada, pai. Duas vezes foram suficientes pra eu perceber que aquele povo olha pra gente como se a gente fosse invisível.

Minha mãe suspirou.

— Célia sempre me tratou bem.

— A senhora é boazinha demais.

— E você é respondona demais.

— Eu só falo a verdade.

Meu pai apontou o dedo para mim.

— E a verdade é que você vai ajudar sua mãe amanhã.

— Pô, pai...

— Vai.

— Mas eu...

— Sem mas.

Joguei o corpo na cadeira.

— Caramba...

Minha mãe voltou a mexer na panela.

— Não precisa ficar o dia inteiro. Só me ajuda pela manhã.

— Que horas?

— Cedo.

— Quanto é cedo?

— Sete horas.

Olhei para ela como se tivesse acabado de anunciar o fim do mundo.

— Sete?!

— Sim.

— Mãe, sete horas é madrugada!

Meu pai começou a rir.

— Essa menina é uma figura.

— Eu tô falando sério! Quem inventou sete horas da manhã?

— O relógio — meu pai respondeu.

— Engraçadinho.

Minha mãe balançou a cabeça.

— Você vai comigo e acabou.

— Tá bom.

Levantei da cadeira.

— Mas vou reclamar até amanhã.

— Pode reclamar.

— E vou reclamar alto.

— Problema seu.

— E vou reclamar durante a faxina.

— Penélope!

— Tô indo!

Antes que minha mãe pudesse responder, ouvi uma voz vindo da porta.

— E aí, Barbie!

Parei.

Respirei fundo.

Bem fundo.

Virei devagar.

Luciana estava encostada no batente da porta, sorrindo como se tivesse acabado de fazer a maior graça do mundo.

— Barbie o caralho, porra!

Ela arregalou os olhos e começou a rir.

— Ih, começou!

— Eu sou Barbie não, sua peste! Eu sou Penélope. Você me respeita, tá tirando onda comigo?

— Calma, Penélope!

— Calma nada!

Ela entrou na sala gargalhando.

— Eu só tô brincando.

— Então brinca com outra.

— Tá bom, dona Penélope Charmosa.

— Melhorou.

Luciana era minha amiga desde criança. A gente tinha crescido praticamente juntas. Ela sabia exatamente como me irritar e, pior, adorava fazer isso.

— Mas vim te chamar pra uma coisa.

— O quê?

Ela abriu um sorriso.

— Tem uma festinha ali embaixo.

— Festinha?

— Aniversário do Juninho.

— Aquele Juninho?

— Esse mesmo.

— Vai ter o quê?

Ela me olhou como se a pergunta fosse óbvia.

— Funk, bebida, gente bonita e confusão.

— Agora você falou a minha língua.

Minha mãe apareceu atrás de mim.

— Você não vai.

Eu virei.

— Como assim?

— Amanhã você vai trabalhar comigo.

— Mãe, é só uma festinha.

— Você vai dormir tarde.

— Eu volto cedo.

— Não.

— Eu nem saí ainda!

— E nem vai sair.

— Mãe...

— Penélope.

— Por favor.

— Não.

Olhei para Luciana.

Ela estava segurando o riso.

— Me ajuda aqui, pô.

— Dona Maria das Graças, deixa ela ir. Ela volta rapidinho.

Minha mãe olhou para nós duas.

— Vocês duas juntas são um perigo.

— Isso é preconceito — falei.

Meu pai riu.

— Deixa a menina ir, Maria.

Minha mãe olhou para ele.

— Você também?

— Ela disse que volta cedo.

— E você acredita?

— Não.

— Pai!

Ele deu de ombros.

— Só tô sendo sincero.

Fui até minha mãe e segurei o braço dela.

— Eu vou ficar só um pouquinho. Prometo. Antes da meia-noite eu tô aqui.

Ela me encarou.

— Onze e meia.

— Meia-noite.

— Onze e meia.

— Onze e quarenta e cinco.

— Penélope!

— Tá bom! Onze e meia.

Ela apontou para mim.

— E amanhã, sete horas.

— Eu vou estar de pé.

Meu pai soltou uma gargalhada.

— Essa eu quero ver.

— Eu vou estar, pô!

Luciana já estava saindo.

— Então bora!

— Tô indo!

Subi rapidamente para o quarto.

Escolhi uma roupa que combinava comigo: um short jeans curto, uma blusa preta justa e um tênis branco. Soltei o cabelo e passei uma maquiagem leve.

Quando me olhei no espelho, sorri.

— Penélope Charmosa.

Era assim que eu gostava.

Saí de casa alguns minutos depois com Luciana.

O morro estava diferente naquela noite.

As luzes coloridas já iluminavam algumas vielas, o som do funk vinha de longe e dava para ouvir as pessoas conversando, rindo e chamando umas às outras.

Quanto mais a gente se aproximava da festa, mais alto ficava o som.

— Hoje vai dar merda — falei.

Luciana riu.

— Por quê?

— Porque toda vez que eu saio com você dá merda.

— Mentira.

— Na última vez você quase arrumou briga com uma menina.

— Ela estava olhando torto.

— Ela nem estava olhando pra você.

— Estava sim.

— Você é doida.

— E você também.

Quando chegamos, o lugar estava lotado.

Música alta.

Gente dançando.

Luzes piscando.

Risadas.

Copos passando de mão em mão.

O grave da música fazia o chão vibrar.

Luciana entrou na frente e eu fui logo atrás.

Assim que coloquei os pés no meio da festa, alguns olhares vieram na nossa direção.

Eu estava acostumada.

Não era convencida.

Eu sabia que era bonita.

E sabia também que tinha uma presença que chamava atenção.

Meu jeito de andar, minha postura, meu olhar...

Eu não precisava ficar procurando atenção.

Ela simplesmente vinha.

— Olha lá — Luciana comentou.

— O quê?

— Aquele cara não para de olhar.

Olhei rapidamente.

Um rapaz estava parado perto de alguns amigos, me encarando.

Revirei os olhos.

— Problema dele.

Continuei andando.

Não demorou muito para ele se aproximar.

— E aí, gata.

Olhei para ele.

— E aí.

— Tá sozinha?

— Não.

Apontei para Luciana.

— Tô com ela.

Ele riu.

— Mas eu quis dizer se você tá solteira.

— Isso não é da sua conta.

Luciana virou o rosto para esconder o sorriso.

O rapaz pareceu não entender a indireta.

— Qual foi? Só tô tentando trocar ideia.

— Então troca com outra.

— Você é brava assim mesmo?

Cruzei os braços.

— Sou.

Ele sorriu.

— Gostei.

— Eu não perguntei.

Luciana começou a rir.

— Penélope...

— Que foi?

O rapaz ainda insistia.

— Qual é o seu nome?

— Penélope.

— Bonito.

— Eu sei.

Ele riu.

— Você é convencida.

— Não. Eu só não tenho paciência pra homem que chega achando que toda mulher está esperando ele.

O sorriso dele desapareceu um pouco.

— Calma, pô.

— Tô calma.

Ele levantou as mãos.

— Tá bom. Foi mal.

— Beleza.

Ele saiu.

Luciana me cutucou.

— Você podia ter sido um pouquinho mais simpática.

— Eu fui.

— Isso pra você é simpatia?

— Fui educada. Não mandei ele tomar no cu.

Ela caiu na gargalhada.

— Ainda bem.

— E para de rir.

— Não consigo.

Comecei a rir também.

A música mudou.

O pessoal começou a dançar.

Luciana me puxou pelo braço.

— Vem!

— Bora!

Fui com ela para o meio da roda.

E naquele momento eu esqueci da faxina.

Esqueci da minha mãe.

Esqueci das sete horas da manhã.

Esqueci de tudo.

Só existia a música, as luzes, meus amigos e aquela sensação boa de estar livre.

Eu ainda não sabia.

Mas aquela noite seria diferente de todas as outras.

Porque, naquela festa, entre tantas pessoas...

Havia alguém que eu ainda não conhecia.

E aquele encontro estava prestes a mudar completamente a minha história.

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