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  A garota malvada do morro.
A garota malvada do morro.
Author: Luana

Capítulo 1

Author: Luana
last update publish date: 2026-09-22 03:17:33

Meu nome não é Paula

O vento batia forte no meu rosto enquanto eu encarava o Rio de Janeiro lá de cima.

Dali do alto, tudo parecia bonito.

As casas amontoadas umas nas outras, as luzes começando a acender conforme o fim da tarde chegava, o barulho dos carros lá embaixo, o céu ficando alaranjado... Por alguns minutos, eu conseguia esquecer que a minha vida não tinha absolutamente nada de bonita.

Ou quase nada.

— Penélope... — murmurei para mim mesma, soltando um sorriso de canto.

Esse, sim, era o meu nome.

Pelo menos era assim que eu tinha decidido.

Porque, se dependesse dos meus pais, eu estaria até hoje sendo chamada de Paula.

Paula.

Só de pensar já me dava uma agonia do caralho.

Não que Paula fosse um nome feio. Mas não combinava comigo. Nunca combinou.

Eu tinha decidido que era Penélope quando fiz quinze anos. Depois acrescentei Charmosa, porque, sinceramente, se é pra inventar um nome, que seja um nome de respeito.

E pegou.

Hoje, praticamente ninguém aqui me chama de Paula.

No morro, eu sou Penélope.

Penélope Charmosa.

A garota que fala o que pensa, que não leva desaforo pra casa e que, segundo algumas línguas grandes daqui, é meio problemática.

"Meio" é sacanagem.

Eu sou problemática pra caralho.

E não tenho vergonha nenhuma disso.

Cruzei as pernas e apoiei os braços nos joelhos, continuando a observar tudo lá de cima.

Eu nasci e cresci nesse morro.

Conheço cada viela, cada escadaria, cada barulho diferente de moto passando. Sei quem mora em cada casa, quem está brigado com quem, quem está apaixonado, quem está devendo dinheiro e até quem finge que não está fazendo merda nenhuma quando está fazendo merda pra caramba.

Aqui todo mundo conhece todo mundo.

E todo mundo sabe da vida de todo mundo.

Inclusive da minha.

Eu sou filha do Ricardo e da Maria das Graças.

Meu pai é pedreiro.

Minha mãe é faxineira.

Os dois trabalham pra cacete desde que eu me entendo por gente.

Nunca tivemos dinheiro sobrando. Na verdade, às vezes faltava até o básico.

Mas meus pais sempre fizeram o possível para que eu tivesse alguma coisa melhor do que eles tiveram.

Minha mãe vive dizendo que eu sou difícil.

Meu pai diz que eu tenho a cabeça dura.

E eu digo que eles dois falam demais.

— Sua mãe tá te procurando, Penélope!

Ouvi alguém gritar lá de baixo.

Revirei os olhos.

Pronto.

Falando no diabo...

— Já vou!

Gritei de volta, sem nem saber quem tinha falado.

Continuei sentada.

Eu não estava com a mínima vontade de ir embora.

Ali em cima era um dos poucos lugares onde eu conseguia ficar sozinha com os meus pensamentos.

E, por incrível que pareça, eu tinha pensamentos demais.

Às vezes eu ficava olhando para aquela cidade enorme e me perguntava como seria a minha vida se eu tivesse nascido em outro lugar.

Se eu tivesse dinheiro.

Se tivesse nascido numa família rica.

Se tivesse estudado numa escola particular.

Se pudesse sair daqui quando quisesse.

Mas aí eu lembrava de uma coisa.

Eu não era feita para ficar esperando a vida decidir o que fazer comigo.

Nunca fui.

Desde pequena, eu tinha aprendido que, se eu não gritasse, ninguém me escutava.

Se eu não me defendesse, alguém passava por cima.

Se eu abaixasse a cabeça, iam achar que eu era fraca.

E eu odiava parecer fraca.

Talvez esse fosse o meu maior defeito.

Ou talvez fosse justamente a coisa que tinha me mantido de pé até ali.

O vento bagunçou meu cabelo novamente e eu passei a mão pelos fios, tentando ajeitá-los.

— Um dia eu ainda vou sair daqui... — falei baixinho.

Olhei para o horizonte.

— Mas não vou esquecer de onde eu vim.

Porque eu podia reclamar do morro.

Podia xingar as dificuldades.

Podia odiar a falta de dinheiro.

Podia sonhar com uma vida completamente diferente.

Mas aquele lugar fazia parte de mim.

Ali estava a minha história.

A minha família.

As minhas lembranças.

Os meus amigos.

Os meus inimigos.

E, principalmente...

Os meus problemas.

Porque problema era uma coisa que parecia gostar de me encontrar.

Eu era Penélope Charmosa.

Tinha dezoito anos.

Morava no morro.

Era pobre.

Tinha uma língua maior que a boca.

Uma personalidade que assustava algumas pessoas.

E uma mania absurda de me meter onde não era chamada.

Eu não sabia ainda, mas aquela mania ia mudar a minha vida inteira.

Só que, naquele momento, eu não fazia ideia do que estava vindo.

Eu só sabia que o vento estava gostoso.

Que o céu estava lindo.

E que minha mãe provavelmente estava prestes a me dar uma bronca.

Suspirei.

— Fudeu.

Levantei.

— A dona Maria das Graças vai me matar.

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