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Capítulo 3

Author: Luana
last update publish date: 2026-09-22 03:48:22

A música estava estourando nos alto-falantes.

O grave fazia o chão vibrar e parecia entrar dentro do peito. As pessoas dançavam apertadas, algumas rindo, outras bebendo, e o cheiro de bebida misturado com fumaça tomava conta do lugar.

Eu estava no meio da roda com Luciana, dançando e rindo de qualquer besteira.

— Hoje você vai chegar em casa depois da meia-noite — ela gritou no meu ouvido.

— Cala a boca!

— Sua mãe vai te matar!

— Amanhã eu penso nisso.

Ela começou a rir.

— Você é muito sem juízo.

— Eu prefiro chamar de liberdade.

Luciana puxou um cigarro de maconha que estava passando entre o pessoal.

— Quer?

Olhei para ela.

— Dá aqui.

Peguei e dei algumas tragadas, devolvendo depois, enquanto continuava dançando.

Não era novidade para mim. Naquela roda, aquilo fazia parte da festa, assim como a bebida e o funk.

Eu estava relaxada.

Solta.

Nem lembrava mais da bronca que minha mãe provavelmente daria quando eu chegasse em casa.

Foi quando percebi que algumas pessoas começaram a olhar para a entrada.

— O que foi? — perguntei.

Luciana parou de dançar.

— Não sei.

O som continuava alto, mas alguma coisa havia mudado.

Um grupo de homens entrou.

E não eram caras que tinham vindo simplesmente curtir a festa.

Dava para perceber de longe.

Todos estavam sérios, alguns de preto, outros com os olhos atentos ao redor. Eles caminhavam juntos, observando o lugar como se estivessem ali para garantir que nada saísse do controle.

— Ih... — Luciana murmurou.

— O quê?

Ela não respondeu.

Então ele entrou.

E foi impossível não olhar.

O homem era alto.

Moreno.

Tinha o corpo forte e os braços cobertos por tatuagens que apareciam por baixo da camiseta preta. Vestia preto da cabeça aos pés e caminhava com uma calma que, de algum jeito, fazia todo mundo abrir espaço.

O rosto era fechado.

Barba por fazer.

Olhar sério.

Devia ter uns quarenta anos.

E era bonito.

Bonito daquele jeito que chamava atenção sem precisar tentar.

Duas mulheres muito bonitas caminhavam ao lado dele, conversando e rindo, mas ele praticamente não dava atenção para nenhuma das duas.

Ele simplesmente atravessou a festa.

Algumas pessoas baixaram a voz.

Outras cumprimentaram.

Ele respondeu apenas com um movimento de cabeça.

Depois entrou em uma área mais reservada, cercada por alguns dos homens que tinham chegado com ele.

Fiquei olhando.

— Quem é esse?

Luciana arregalou os olhos.

— Você não sabe?

— Se eu soubesse, não teria perguntado.

Ela se aproximou do meu ouvido.

— Aquele é o Tiago.

— E daí?

— O dono do morro.

Parei de dançar.

— Dono?

— É.

Olhei novamente para a área reservada.

— Ele?

— Ele mesmo.

— Nunca vi.

— Eu também não tinha visto pessoalmente.

— Então por que você sabe quem é?

Luciana deu de ombros.

— Todo mundo sabe. O pai dele era quem comandava isso aqui.

— Era?

— Morreu faz pouco tempo.

Olhei novamente para Tiago.

— E ele assumiu?

— Pelo que dizem, sim.

— Mas ele não morava aqui?

— Não. Ele comandava outro lugar. O pai dele cuidava daqui. Depois que morreu, o Tiago começou a aparecer mais.

— Então ele tá tomando conta daqui agora?

— É o que todo mundo fala.

Fiquei alguns segundos observando.

— E ninguém conhecia ele?

— Muita gente daqui conhecia o pai. O velho era respeitado pra caramba. Mas o Tiago mesmo pouca gente daqui conhecia de verdade.

— Entendi.

— E ele não veio aqui à toa.

— Por quê?

Luciana apontou discretamente para a área reservada.

— A família dele é amiga da família do aniversariante. O pessoal que tá fazendo a festa conhece ele há muito tempo.

— Ah.

Continuei olhando.

Não sei por quê.

Talvez porque ele fosse diferente dos outros homens que estavam ali.

Ou talvez porque eu simplesmente tivesse ficado curiosa.

Só que eu não imaginava que, naquele momento, ele também tinha começado a reparar em mim.

Tiago estava sentado na área reservada, conversando com alguns homens.

Ele ouvia o que diziam, mas sua atenção acabou desviando para a pista.

Uma garota estava dançando.

Cabelos soltos.

Roupa preta.

Postura segura.

Ela ria com uma amiga e parecia completamente à vontade.

Tiago continuou olhando.

— Quem é aquela? — perguntou.

Um dos homens acompanhou o olhar dele.

— Não sei.

— Descobre.

— Agora?

Tiago não respondeu.

Continuou observando.

A garota parecia não se importar com quem estava ao redor.

Não tentava chamar atenção.

E talvez fosse justamente por isso que tinha chamado a dele.

Eu estava dançando quando Luciana me cutucou.

— Penélope.

— Que foi?

— Não olha agora.

— Então por que você falou?

— Porque aquele homem tá olhando pra você.

— Qual?

— O Tiago.

Olhei imediatamente.

— Você falou pra eu não olhar!

— Eu sei!

Olhei para a área reservada.

Tiago estava me encarando.

Não desviou.

Fiquei alguns segundos olhando de volta.

Depois virei o rosto.

— E daí?

Luciana me olhou incrédula.

— E daí que ele é o dono do morro!

— Eu sei.

— Você não tem medo?

— De quê?

— Dele.

Dei de ombros.

— Eu nem conheço o cara.

Voltei a dançar.

Poucos minutos depois, um dos homens que estavam perto dele veio até nós.

— Você é a Penélope?

Olhei para ele.

— Sou. Por quê?

— O Tiago quer falar com você.

— Então manda ele vir.

Luciana arregalou os olhos.

— Penélope!

O homem ficou sério.

— Ele pediu para você ir até lá.

— E eu tô dizendo que não vou.

— É rapidinho.

— Não vou.

— Ele só quer conversar.

— Então conversa sozinho.

O homem me encarou por alguns segundos.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Ele voltou para a área reservada.

Luciana segurou meu braço.

— Você ficou maluca?

— Não.

— Você acabou de dispensar o Tiago!

— E daí?

— Penélope, esse homem é o dono do morro!

— Ele é dono do morro, não da minha vida.

Ela ficou quieta.

— Você não tem medo de nada, né?

— Tenho.

— Do quê?

— De barata.

Luciana começou a rir.

— Você é impossível.

— Eu sei.

Voltei para a roda.

Só que não demorou nem dois minutos.

Dois homens apareceram.

— Penélope.

Olhei.

— O quê?

— Vem com a gente.

— Já falei que não vou.

— Ele quer conversar.

— E eu já disse que não quero conversar.

Um deles segurou meu braço.

Na mesma hora puxei de volta.

— Solta.

— Calma.

— Eu falei pra soltar!

Luciana veio atrás.

— Ei! Ei! Calma! Ela vai, pô!

Olhei para ela.

— Eu não disse que ia.

— Penélope, pelo amor de Deus!

Fui andando, ainda irritada.

Não porque estivesse com medo.

Mas porque eu odiava que mandassem em mim.

Chegamos até a área reservada.

Tiago estava sentado.

Quando me viu, levantou os olhos.

Por alguns segundos, ninguém falou nada.

Ele me observou.

Eu também observei ele.

De perto, era ainda mais intimidador.

Mas eu não ia deixar isso aparecer.

Cruzei os braços.

— O que foi?

Luciana ficou alguns passos atrás de mim.

Tiago apoiou o braço na cadeira.

— Você é a Penélope?

— Sou.

— Só queria conhecer você.

Franzi a testa.

— Pra quê?

Ele soltou um pequeno sorriso.

— Porque eu perguntei quem era a garota que estava dançando ali.

— E agora já sabe.

— Agora eu sei.

— Então pronto.

Ele me encarou.

— Qual é o seu nome completo?

— Penélope.

— Só Penélope?

— Penélope Charmosa.

Alguns homens ao redor riram.

Eu nem liguei.

Tiago arqueou uma sobrancelha.

— Penélope Charmosa?

— É.

— Interessante.

— Algum problema?

— Nenhum.

Ele ficou alguns segundos me olhando.

— Você é brava, né?

— Sou.

— Percebi.

— Então não mexe comigo.

O sorriso dele aumentou um pouco.

— Eu gosto de mulher assim.

Olhei para ele com uma expressão séria.

— Problema seu.

Luciana colocou a mão na boca para esconder o riso.

Tiago riu baixo.

— Você não tem papas na língua.

— Nunca tive.

— E não tem medo de mim.

— Eu deveria?

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

— Não.

Levantei o queixo.

— Então pronto.

Dei meia-volta.

— Penélope.

Parei.

Olhei por cima do ombro.

— O quê?

— Foi um prazer conhecer você.

— Tá.

E saí.

Simples assim.

Deixei Tiago sentado naquela mesa enquanto voltava para a minha roda.

Luciana veio correndo atrás de mim.

— Você é completamente maluca!

— Por quê?

— Você acabou de sair da mesa do Tiago daquele jeito!

— E daí?

— Você tratou o cara como se ele fosse qualquer um.

— Pra mim, ele é qualquer um.

— Você não tem jeito.

— Eu tenho sim.

Peguei meu copo e tomei um gole.

A música voltou a dominar o ambiente.

Comecei a dançar novamente, ainda irritada.

Mas, por algum motivo, quando olhei de relance para a área reservada...

Tiago ainda estava olhando para mim.

E dessa vez eu não desviei o olhar.

Fiquei encarando por alguns segundos.

Depois virei o rosto.

— Idiota — murmurei.

Luciana ouviu.

— Quem?

— Ninguém.

Continuei dançando.

Sem imaginar que, naquela noite, eu tinha acabado de chamar a atenção do homem que todos naquele morro respeitavam.

E, pior...

Eu não gostei nem um pouquinho.

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