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Capítulo 4

Author: Luana
last update publish date: 2026-09-22 04:05:39

Eu devia estar bêbada quando prometi para minha mãe que estaria de pé às sete da manhã.

Porque, se eu estivesse sóbria, jamais teria feito uma promessa dessas.

— Penélope!

Abri um olho.

Nada.

Fechei de novo.

— Penélope!

— Já ouvi, mãe...

— Levanta!

— Tô levantando.

Não estava.

Eu continuava completamente enterrada no travesseiro, com a cabeça latejando e a boca seca.

Aquela festa tinha sido uma péssima ideia.

Ou uma ótima ideia.

Ainda não tinha decidido.

— Filha, são seis e quarenta!

Abri os dois olhos.

— O quê?!

Sentei na cama tão rápido que minha cabeça começou a girar.

— Ai, meu Deus...

Minha mãe apareceu na porta.

— Eu avisei.

— Não precisa jogar na minha cara.

— Você disse que voltaria cedo.

— E eu voltei.

— Duas horas da manhã não é cedo.

— Depende do ponto de vista.

Ela cruzou os braços.

— Você vai ou não vai?

Olhei para ela.

Depois olhei para o relógio.

Depois para minha cama.

Minha cama parecia tão confortável naquele momento...

— Eu vou.

— Então levanta.

— Já levantei.

— Você está sentada.

— Tecnicamente, já saí da posição deitada.

Minha mãe respirou fundo.

— Essa menina ainda vai acabar comigo.

Levantei cambaleando.

— Nossa senhora...

— Está de ressaca?

— Não.

Minha mãe me olhou.

— Tá.

— Muito.

— Bem feito.

— Mãe, pelo amor de Deus. Fala baixo.

— Eu estou falando normal.

— Pra minha cabeça, parece que a senhora está usando um megafone.

Ela começou a rir.

— Vai lavar o rosto.

— Tá.

Entrei no banheiro e fiquei alguns segundos encarando meu reflexo.

Meu cabelo estava uma bagunça.

Meus olhos estavam pequenos.

Minha cara parecia de quem tinha passado a noite brigando com o travesseiro.

— Penélope Charmosa... — murmurei.

— Hoje você tá mais pra Penélope Derrotada.

Lavei o rosto e me arrumei do jeito mais rápido possível.

Quando saí, minha mãe já estava pronta.

— Vamos.

— Vamos.

Saímos de casa e começamos a descer pelas vielas.

O sol da manhã batia forte e aquilo só piorava minha cabeça.

— Mãe...

— O quê?

— A senhora podia ter escolhido um trabalho que começasse depois das dez.

— E você podia ter ido dormir cedo.

— Não vamos entrar nesse assunto.

— Eu avisei.

— Tá bom.

Ela riu.

Pouco depois chegamos à casa da dona Célia.

Era uma casa grande.

Bem maior do que a nossa.

Tinha um portão bonito, jardim, varanda e uma sala enorme.

Assim que entramos, minha mãe pegou duas roupas.

— Toma.

Olhei para aquilo.

— Que porra é essa?

Minha mãe me lançou um olhar.

— Penélope!

— Desculpa.

Peguei a roupa.

Era um uniforme de faxineira.

Uma blusa clara e uma saia escura, simples, com um avental por cima.

— Eu vou ter que usar isso?

— Vai.

— Mãe...

— Todo mundo que trabalha aqui usa.

— Eu pareço uma personagem de novela.

— Para de reclamar e veste.

Fui para um cantinho e troquei de roupa.

Quando voltei, minha mãe me olhou.

— Ficou bonita.

— Bonita onde?

— Para de graça.

Olhei para baixo.

— Eu pareço que vou servir café pra alguém.

— E você vai limpar a casa, não servir café.

— É praticamente a mesma coisa.

— Não é.

— Pra mim é.

Minha mãe balançou a cabeça.

— Vai começar pela parte de cima.

— Sozinha?

— Eu vou ficar aqui embaixo.

— Tá bom.

Subi as escadas reclamando baixinho.

— Uniforme ridículo...

Comecei a limpar alguns quartos.

Depois de alguns minutos, ouvi um barulho vindo de um dos quartos no final do corredor.

Parecia uma tosse.

Fui até lá.

Bati na porta.

— Tem alguém aí?

Nenhuma resposta.

Abri.

E encontrei um rapaz sentado perto da janela.

Ele segurava um baseado entre os dedos.

Quando me viu, se assustou.

— Caralho!

Começou a tossir.

Eu fechei a porta atrás de mim.

— Tu não sabe nem fumar, seu babaca?

Ele continuou tossindo.

— Calma...

— Tá quase morrendo.

— Eu tô bem.

— Tá nada.

Cheguei perto e bati de leve nas costas dele.

— Respira.

Ele conseguiu parar de tossir.

— Você é a filha da Maria das Graças, né?

— Sou.

Ele me olhou de cima a baixo.

— Você é a Penélope.

— Finalmente alguém sabe meu nome.

Ele riu.

— Eu já te vi aqui outras vezes.

— E eu nunca te vi.

— Porque você não presta atenção.

— Talvez você não fosse interessante.

Ele levou a mão ao peito.

— Essa doeu.

— Era pra doer.

Ele riu novamente.

Eu olhei para o cigarro que estava na mão dele.

— Me dá isso.

— Por quê?

— Porque você vai se matar tossindo.

Peguei da mão dele, dei uma tragada e devolvi.

Ele me olhou impressionado.

— E você sabe?

— Sei.

— Você quase morreu de ressaca hoje.

— Isso é outra coisa.

— Não parece.

— Quer apanhar?

Ele começou a rir.

— Tá vendo? É exatamente assim que eu lembrava de você.

— Como?

— Brava.

— Eu não sou brava.

Ele levantou uma sobrancelha.

— Não?

— Não.

— Você acabou de ameaçar me bater.

— Porque você mereceu.

— Então você é brava.

— E você é chato.

— Justo.

Ele se levantou e encostou na janela.

— Eu sou o Gabriel.

— Ah.

— Só "ah"?

— O que você queria? Uma salva de palmas?

Ele riu.

— Você sempre foi assim?

— Assim como?

— Sem filtro.

— Sempre.

— Eu gosto.

Olhei para ele.

— Todo mundo tá dizendo que gosta disso hoje.

— Quem mais falou?

— Ninguém.

— Então foi o primeiro.

— Talvez.

Ele ficou me olhando por alguns segundos.

— Você é bonita.

Revirei os olhos.

— Lá vem.

— O quê?

— Homem.

— Só fiz um comentário.

— E eu só tô avisando.

— Avisando o quê?

— Que eu não caio nesse papinho.

Ele sorriu.

— Não estou tentando te conquistar.

— Melhor.

— Só estou conversando.

— Então conversa.

Ele sentou novamente.

— Você tem namorado?

Olhei para ele.

— Qual é, seu babaca? Pra que você quer saber?

Gabriel começou a rir.

— Nada demais.

— Então não pergunta.

— Curiosidade.

— Curiosidade é o caralho.

Ele riu ainda mais.

— Você não consegue falar uma frase sem palavrão?

— Consigo.

Pensei por alguns segundos.

— Tá vendo? Falei.

Ele quase caiu da cadeira de tanto rir.

Comecei a rir também.

Era estranho.

Eu tinha acabado de conhecer aquele cara direito e já estava rindo com ele como se a gente se conhecesse fazia tempo.

— Então? — ele insistiu.

— Então o quê?

— Tem namorado?

— Não.

— Sabia.

— Como assim, sabia?

— Você tem cara de quem não deixa homem durar muito.

— E você tem cara de quem fala demais.

— Talvez.

— E você?

— Eu o quê?

— Tem namorada?

— Não.

— Sabia.

Ele sorriu.

— Por quê?

— Você tem cara de quem nenhuma mulher aguenta.

— Justo.

Nós dois começamos a rir novamente.

Foi quando ouvimos uma voz no corredor.

— Penélope?

Eu congelei.

Minha mãe apareceu na porta.

Olhou para mim.

Depois para Gabriel.

Depois para o cigarro.

Depois voltou a olhar para mim.

— Penélope...

— Oi, mãe.

— Você veio aqui limpar ou conversar?

— Os dois.

— E você, Gabriel, não deveria estar fumando dentro do quarto.

Ele rapidamente escondeu o baseado.

— Foi mal, dona Maria.

Minha mãe colocou as mãos na cintura.

— Sua mãe vai saber disso.

— Não precisa.

— Precisa sim.

Eu comecei a rir.

Gabriel olhou para mim.

— Não ri.

— Tô tentando.

Minha mãe apontou para mim.

— E você também. Volta pro serviço.

— Tá bom.

Gabriel começou a rir.

— O quê? — minha mãe perguntou.

— Nada.

— Então ótimo.

Ela saiu.

Fiquei olhando para Gabriel.

Ele olhou para mim.

Por alguns segundos, ficamos em silêncio.

Então ele começou a rir.

Eu tentei segurar.

Não consegui.

— Sua mãe é brava — ele disse.

— Você ainda não viu nada.

— Agora entendi de onde você puxou.

— Eu não sou igual a ela.

— Não?

— Não.

— Você é pior.

Dei um tapa de leve no braço dele.

— Cala a boca.

— Ai!

— Bem feito.

Saí do quarto ainda rindo.

Voltei para o corredor e comecei a limpar.

Mas, enquanto passava o pano no chão, eu não conseguia parar de pensar na conversa.

Gabriel era engraçado.

E, pior...

Eu tinha gostado dele.

Não daquele jeito.

Pelo menos era o que eu dizia para mim mesma.

Porque eu mal conhecia o cara.

E eu tinha coisas muito mais importantes para pensar.

Como terminar aquela faxina.

Sobreviver ao resto da ressaca.

E, principalmente...

Não deixar minha mãe descobrir que eu estava me divertindo mais conversando com o filho da dona Célia do que trabalhando.

Porque aí, sim, eu estava fodida.

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