LOGINCecília tem vinte e dois anos, um gênio difícil, e um coração blindado por decepções. Trabalha como garçonete até de madrugada, mora sozinha e evita qualquer laço que possa controlá-la — inclusive a própria mãe. Com a irmã mais velha, o silêncio virou costume, e o pai só aparece pra pedir dinheiro. Ela vive em modo de defesa, como quem aprendeu cedo que amar demais é dar munição ao outro. Enrico Moretti tem trinta e sete, é um executivo frio, dono de uma presença que impõe respeito — ou medo. Acostumado a conseguir tudo o que quer, ele não esperava se sentir desarmado ao cruzar o olhar com uma garçonete de respostas afiadas e olhar ferido. Mas ali, naquele breve encontro, algo muda. Ela o desafia e ele a desnorteia. Entre provocações, silêncios cheios de tensão e encontros cada vez mais intensos, Cecília vai descobrir que o amor pode ser tão perigoso quanto libertador. E Enrico, descobre que o controle que sempre teve sobre tudo talvez não funcione com alguém que não quer ser salva — apenas amada. Duas almas opostas, marcadas por histórias diferentes, mas com a mesma necessidade: serem vistos de verdade. E quando o passado ameaça vir à tona, só resta uma pergunta: é possível amar sem se perder?
View MoreO sol da tarde se deitava devagar sobre o prédio branco e moderno do Instituto Aurora,o nome que Cecília escolhera em homenagem à filha — e a tudo o que ela representava.A claridade dourada atravessava as janelas amplas, refletindo nas paredes decoradas com desenhos feitos pelas próprias mulheres atendidas ali. Cada traço, cada cor, era um símbolo vivo de recomeço.Cecília caminhava pelo corredor principal com passos tranquilos, a barriga um pouco dolorida depois de passar a manhã organizando documentos e acompanhando atendimentos.Não estava grávida — mas sentia-se tão cheia quanto se estivesse. O processo de adoção havia sido longo, cheio de etapas, visitas, avaliações e papeladas infinitas. Mas agora estava quase concluído. Logo, muito logo, o bebê seria legalmente deles.O choro suave que ecoou de uma das salas fez seu coração acelerar. O pequeno Luan, de poucos meses, estava sendo embalado por uma voluntária, mas assim que viu Cecília na porta, estendeu os bracinhos pequenos, co
O relógio no painel marcava 21h12 quando o telefone de Enrico vibrou.Ele estava estacionado na sombra, como sempre fazia quando buscava Cecília ao final dos turnos — chegava cedo, ficava esperando, observando a porta do instituto como se estivesse guardando o mundo dela.Na tela, o nome do advogado apareceu.Enrico atendeu imediatamente.— Doutor?— Enrico, boa noite. Precisamos conversar. É sobre o processo.O corpo de Enrico se enrijeceu, mesmo antes de ouvir o resto.— Fala.— O pai da Cecília e o Gustavo entraram novamente com pedido para responder em liberdade. Foi protocolado ontem à tarde.Enrico fechou os olhos, respirando pelo nariz.Ele não ficou surpreso. Nem revoltado. Aprendeu a esperar esse tipo de movimento.— E aí? — Enrico perguntou, o maxilar travado.— Conseguimos barrar — o advogado respondeu. — Apresentamos o histórico, reforçamos risco, reforçamos motivação, reforçamos tudo. O juiz negou imediatamente. — Houve uma breve pausa antes do complemento — Mas… você sab
O sábado amanheceu com uma luz suave, quase dourada, como se o próprio céu tivesse decidido abençoar aquele dia.O dia do casamento.Não havia tumulto, não havia correria — apenas uma paz tranquila, tão rara e tão preciosa depois de tudo que haviam vivido.O espaço escolhido ficava em um jardim privativo, simples e elegante, decorado com flores brancas e lavanda. Pequenas luzes penduradas entre as árvores davam ao lugar um ar quase mágico, mesmo em plena luz do dia.Era exatamente como Cecília e Enrico tinham imaginado:intimista, real, leve… só deles.Os convidados eram poucos. Apenas quem realmente importava.A família de Enrico.Marco.Júlia.Alguns amigos próximos.E Aurora — que seria a pequena protagonista de quase todas as fotos.O ar tinha cheiro de flores frescas. O vento leve tocava as folhas. Nada parecia fora do lugar.E então, a música começou.Não era nada grandioso — apenas um violino tocando suavemente, preenchendo o jardim com uma melodia doce. Todos se levantaram, vo
O apartamento estava silencioso de um jeito raro, quase sagrado. Pela primeira vez desde que tudo aconteceu, não havia telefonemas urgentes, nem vozes aflitas. Apenas o respirar suave de Aurora no berço e o cansaço adensado nas paredes.Enrico apagou a última luz da sala e caminhou devagar pelo corredor, sentindo cada músculo protestar depois das últimas noites mal dormidas.Quando empurrou a porta do quarto, encontrou Cecília acordada, mesmo deitada, os olhos perdidos no teto como se o silêncio fosse alto demais.— Não conseguiu dormir? — ele perguntou, tirando a camisa e deixando-a sobre a cadeira.Cecília desviou o olhar para ele, os olhos cansados, mas mais vivos do que no dia anterior.— Tentei. Mas a cabeça não para — murmurou.Enrico se aproximou e sentou na beira da cama. Observou por um momento o jeito como ela segurava o próprio pulso, como se precisasse ancorar-se a algo para não ser tragada por lembranças.— Eu estou aqui — ele disse, simples, sincero.Cecília respirou fun






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