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Capítulo 2

Author: Sem Asas
Sob o olhar atento de todos, Henrique pegou o copo de bebida à sua frente e o virou de uma só vez.

Beber como punição significava que ele não precisava beijar ninguém.

Algumas pessoas riram, aliviadas.

Lílian jogou o lenço de papel sobre a mesa, visivelmente contrariada.

— Rick, você é muito sem graça. Qual é o problema? Está com vergonha de quê?

Henrique soltou um suspiro pesado, tentando dissipar o ardor do álcool descendo pela garganta.

O jogo continuou.

A garrafa girou por mais algumas rodadas, até que finalmente parou diante de Carolina.

O coração dela se apertou. Tinha medo de que o desafio fosse exagerado demais e também sabia que não aguentava beber.

— Eu escolho verdade. — Disse, com cautela.

Lílian não perdeu a oportunidade. Endireitou a postura, o olhar afiado, e atacou sem rodeios:

— Eu pergunto. Carolina, sobre o que aconteceu cinco anos atrás… Você já se arrependeu alguma vez?

O punho de Henrique se fechou discretamente. Ele abaixou o olhar, fixando-o no copo recém-cheio de bebida forte à sua frente. As sobrancelhas se franziram com força.

A maioria das pessoas ali não entendia exatamente do que se tratava aquela pergunta, mas isso não impedia a curiosidade. Todos voltaram os olhos para Carolina.

Naquele instante, o coração dela pareceu despencar em um abismo escuro e sem fundo, afundando cada vez mais.

— Não me arrependo. — A voz de Carolina soou firme. — Se pudesse voltar no tempo, faria a mesma escolha.

Ao ouvir a resposta, Lílian pareceu extremamente satisfeita. Um sorriso leve surgiu no canto de seus lábios, e seu humor melhorou visivelmente.

— Ótimo. Vamos continuar.

De repente, Henrique pegou o copo de bebida forte à sua frente e o esvaziou de uma só vez.

O gesto deixou todos os presentes atônitos.

O que estava acontecendo para ele se punir daquele jeito?

— Continuem jogando. Vou ao banheiro. — Disse Henrique, levantando-se e caminhando para fora da sala sem olhar para trás.

Carolina acompanhou sua figura se afastando, o olhar carregado de preocupação.

O Henrique de antes nunca fumava nem bebia. Sua tolerância ao álcool sempre fora baixa.

Depois de duas doses grandes de bebida forte em tão pouco tempo, ele devia estar se sentindo muito mal.

Mas agora ele tinha Lílian ao lado.

Já não era a vez dela se preocupar.

Quando Carolina desviou o olhar, acabou encontrando exatamente o olhar que Lílian lhe lançou.

Duro. Furioso. Gélido.

Como se a estivesse xingando em silêncio: "Você só traz desgraça para quem se aproxima."

Nesse momento, Larissa entrou na sala, e o clima voltou a se animar.

A algazarra, as risadas e o barulho dentro do salão contrastavam de forma quase cruel com o estado de espírito de Carolina, como se ela estivesse em um espaço completamente diferente do resto das pessoas.

Enquanto os outros jogavam, Carolina permaneceu distraída, com a mente longe.

Larissa logo percebeu que algo não estava bem e a puxou para o banheiro.

Diante do enorme espelho.

Carolina colocou as mãos sob a água gelada da torneira, esfregando-as suavemente, como se tentasse acalmar algo dentro de si.

Larissa retocava o batom, observando pelo espelho a expressão carregada de Carolina.

— O que houve com você hoje? Está estranha… Diferente.

— Não é nada. Talvez eu esteja só cansada demais. — Carolina puxou um papel-toalha, mantendo o olhar baixo enquanto secava as mãos lentamente.

— Já vai acabar. — Os olhos de Larissa se encheram de preocupação. — Quando chegar em casa, descansa bem. Não se pressione tanto. Tudo vai ficar bem.

— Certo. — Carolina assentiu.

Depois de alguns segundos de silêncio, perguntou com certa curiosidade:

— Lari… Seu marido e o Henrique são muito próximos?

— Até que sim. — Larissa respondeu naturalmente. — O Henrique é da Nova Capital. Há cerca de meio ano foi transferido do Instituto Aeroespacial de lá para Porto Velho.

De repente, o tom dela mudou, carregado de intenção.

— Carol… Você está interessada nele?

— Não, não é isso. Eu só… — Carolina se apressou em explicar.

— Eu sei, eu sei. — Larissa sorriu de leve, piscando para ela e interrompendo. — Afinal, o Henrique é bonito, tem um corpo incrível, se formou numa universidade de ponta e ainda é engenheiro de propulsão aeroespacial. O futuro dele é promissor demais.

Carolina soltou um suspiro baixo e desistiu de explicar.

Jogou o papel usado no lixo e permaneceu em silêncio.

Larissa havia feito faculdade no sul, enquanto Carolina estudara no norte. Eram cidades diferentes, separadas por milhares de quilômetros. Larissa sabia que Carolina tivera um namorado por quatro anos na universidade, mas nunca soubera quem ele era. Para ela, aquele encontro daquela noite parecia ser o primeiro.

Por isso, aconselhava com sinceridade:

— Meu marido me contou que o avô dele tem uma foto fardado, com o uniforme cheio de medalhas de mérito. Na casa da família, na Nova Capital, há até uma placa de condecoração de primeira classe pendurada na parede. O pai dele é uma figura importante na política, a mãe é juíza aposentada. O irmão é policial antidrogas, a irmã é repórter de guerra, e o tio ocupa um cargo alto no Ministério Público.

Ela não parou por aí.

— É uma família inteira que brilha por si só. Uma família desse nível não é algo em que pessoas comuns como nós conseguem entrar facilmente.

Depois, como se quisesse ser honesta até o fim, acrescentou:

— Sem contar que já existe uma Lílian ao lado dele. Não me culpe por não te apresentar um "bom partido". Eu só tenho medo de que você se machuque.

Carolina ouviu tudo com calma, sem demonstrar qualquer reação.

Afinal, aquelas coisas ela já sabia…

Desde cinco anos atrás.

Ela sabia, inclusive, que o irmão de Henrique não havia morrido em serviço. Por causa dos riscos ligados à sua identidade, fora obrigado a declarar oficialmente que havia falecido, tudo para proteger melhor a própria família.

Durante quatro anos de relacionamento, Carolina estivera com Henrique. Moraram juntos por mais de três anos. Já estavam, de fato, falando em casamento.

Na época, Henrique frequentemente a levava para jantar na casa da família.

Os familiares dele eram pessoas excepcionais. Educadas, gentis, bondosas, corretas. O ambiente familiar era harmonioso, acolhedor.

E sempre haviam sido muito bons com ela.

No fim, pensava Carolina, era ela quem não tinha sorte suficiente para se casar com uma família tão boa.

Na universidade, Henrique já era uma figura lendária no campus. Talentoso, brilhante nos estudos e absurdamente bonito, destacava-se em todos os sentidos.

Era o orgulho aos olhos de todos, o filho favorito do destino, o amor ideal que incontáveis garotas desejavam em silêncio, aquele tipo de homem que se tornava a lua branca no coração de quem o admirava.

Inalcançável.

Perfeito.

Eterno.

Que mérito ela, Carolina, teria para ter sido amada por Henrique com tanta intensidade durante quatro anos?

Ela já deveria estar satisfeita.

Mais do que isso… Deveria agradecer.

As duas saíram do banheiro e seguiram pelo corredor.

O olhar de Carolina caiu, quase contra a própria vontade, sobre a área de fumantes vazia à frente.

Henrique estava ali.

Encostado na parede, a postura relaxada, a cabeça levemente baixa. Entre os dedos longos e bem definidos, segurava um cigarro aceso.

Ele o levou aos lábios e puxou uma tragada lenta. A fumaça se espalhou, envolvendo seu rosto delicado, enquanto seus ombros largos pareciam carregar um peso invisível. Pesado demais. Denso demais.

Os passos de Carolina ficaram mais lentos.

Ela simplesmente não conseguia desviar o olhar.

Antes, Henrique nunca fumava. Seus hábitos sempre tinham sido impecáveis.

Agora… Cigarro e álcool faziam parte da rotina.

Quando ela e Larissa estavam prestes a passar pela área de fumantes, Henrique apagou o cigarro no cinzeiro sobre o lixo.

Ele saiu da área reservada e parou à beira do corredor.

No instante em que se cruzaram…

Henrique agarrou o braço de Carolina de repente.

Larissa ficou em choque. Surpresa. Confusa. Incrédula.

Os olhos se arregalaram enquanto ela olhava de Henrique para Carolina, e depois de Carolina para Henrique, a mente cheia de interrogações.

"Vocês dois…?

Primeira vez que se veem e já rolou isso?"

O coração de Carolina pareceu ter sido atingido por um raio.

Ela ficou completamente rígida, incapaz de se mover, olhando para ele com nervosismo e inquietação.

No instante em que seus olhos encontraram os dele, o coração disparou.

O olhar de Henrique era profundo, frio e cortante, com um vermelho discreto escondido no fundo. Perigoso. Instável.

— Vamos conversar. — A voz dele saiu rouca, carregada de um leve tom de embriaguez.

— Vo… Vocês… Conversem. — Larissa entrou em pânico, sem entender nada, mas sentindo que aquilo era explosivo demais.

Quase saiu correndo, desaparecendo corredor afora.

Carolina ainda não conseguia reagir.

Enquanto via as costas de Larissa sumirem, sentiu o braço ser segurado com força por Henrique, que a puxou para dentro da área de fumantes.

Mesmo a área de fumantes ainda era um espaço público.

Mas ele não parou ali.

Henrique empurrou a porta corta-fogo ao lado e a arrastou para dentro da escada de emergência.

Com um movimento brusco, ele a jogou contra a parede.

Antes que Carolina pudesse entender o que estava acontecendo, Henrique pressionou os ombros dela com força, abaixou a cabeça e a beijou.

Um beijo repentino e violento, que a pegou totalmente desprevenida.

Carolina se assustou.

O ar se encheu do cheiro suave de álcool vindo dele, misturado com um aroma limpo e amadeirado de pinho, estranhamente agradável.

Não houve aviso algum.

Nem uma única palavra.

O beijo de Henrique veio como uma tempestade. Intenso demais. Duro demais. Carregado de punição, descarga emocional, imposição e raiva reprimida.

— Mm… — Ela soltou um gemido baixo e sofrido.

Doía.

Os lábios ardiam, inchando rapidamente.

O pânico tomou conta.

Carolina lutou com força, erguendo as mãos para bater contra o peito firme dele, tentando se soltar. O coração disparado. A mente em completo caos.
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