Share

Capítulo 3

Author: Sem Asas
Henrique segurou os pulsos dela com força, pressionando-os contra a parede acima de sua cabeça.

Beijou-a como um homem fora de si.

Como uma fera completamente descontrolada.

As lágrimas já não conseguiam mais ser contidas. Escorreram lentamente pelos olhos de Carolina, ainda cerrados com força.

E ele não demonstrava qualquer intenção de parar.

Carolina simplesmente não aguentava mais. Num impulso desesperado, cravou os dentes com força nos lábios dele.

— Tss.

A dor fez Henrique soltar sua boca.

O Henrique que ela conhecera sempre fora gentil.

Agora, tão brutal com ela…

Só podia significar uma coisa. Ele a odiava até o fundo da alma.

Esse pensamento fez o coração de Carolina doer em ondas sucessivas, como se estivesse sendo esmagado por dentro.

Henrique ainda a mantinha presa, sem soltar seus pulsos. O calor da respiração dele batia contra a lateral de seu rosto, ardente, sufocante.

— Já que você desapareceu do meu mundo, então desapareça direito. Não volte a aparecer diante de mim.

A voz de Henrique soou rouca e grave, fria como gelo. Cada palavra parecia carregada de lâminas afiadas, rasgando sem piedade o coração dela.

A dor se espalhou do peito para baixo, dilacerante, intensa a ponto de fazê-la quase perder o fôlego.

— Tudo bem.

A garganta de Carolina ardia, engasgada pelo choro, mas a resposta saiu firme, direta, sem hesitação.

Só ela sabia…

Que, no mundo dela, Henrique jamais havia desaparecido.

De repente, Carolina compreendeu de verdade aquela frase que tantas vezes ouvira.

Na juventude, não se deve encontrar alguém deslumbrante demais.

Caso contrário, o resto da vida será passado em saudade.

E solidão.

Henrique finalmente a soltou.

Com os dedos longos, passou levemente sobre o lábio ferido pela mordida, sem qualquer vestígio de apego ou nostalgia. Em seguida, virou-se e deixou o vão da escada, afastando-se sem olhar para trás.

Carolina escorou-se na parede e deslizou lentamente para baixo, sem forças. A visão estava turva pelas lágrimas, e nos lábios ainda permanecia o vestígio da presença de Henrique.

Seu coração parecia ter sido despedaçado mais uma vez. A dor era tão intensa que mal conseguia respirar.

Ela permaneceu alguns instantes ali, no silêncio do vão da escada, tentando se recompor.

Depois, enxugou as lágrimas do rosto, tirou o celular do bolso e enviou uma mensagem para Larissa.

[Lari, preciso ir embora por causa de um imprevisto. Vê se consegue um entregador pra levar minha bolsa até a minha casa.]

Após enviar a mensagem, apoiou-se na parede para se levantar. Ergueu a cabeça, inspirou profundamente e apagou outra vez o brilho úmido dos olhos. Exausta por dentro e por fora, começou a descer as escadas, tentando ao máximo evitar qualquer possibilidade de reencontrar Henrique.

Pouco depois, o celular vibrou.

[Carol, mandou bem. O lábio do Henrique ficou até machucado, então pelo visto foi intenso. Tô do seu lado. Homem que já tem namorada, a gente não encosta.]

Carolina pressionou os lábios com amargura. Era como se o coração tivesse sido esvaziado, restando apenas um silêncio oco por dentro.

Sozinha, deixou o restaurante, com passos lentos e uma solidão difícil de descrever.

A noite já avançara, e o encontro terminava.

A avenida principal estava quase vazia. Poucos carros passavam.

A luz amarelada dos postes escorria para dentro do veículo, projetando-se sobre o perfil sombrio de Henrique. O ferimento em seus lábios finos se destacava de forma incômoda.

Lílian não havia bebido. Dirigia com atenção, as mãos firmes demais no volante, os dedos tensionados. Ao redor dela, pairava um azedume silencioso, difícil de disfarçar.

Ela lançou um olhar rápido para os lábios de Henrique e, tomada pela raiva, reclamou:

— Porto Velho é tão grande, tem tanta gente. Como é que justo ela tinha que aparecer?

Henrique virou levemente o rosto. Os olhos profundos e apagados voltaram-se para a paisagem noturna do lado de fora da janela.

— Como você ficou sabendo que eu estava lá?

Lílian sentiu-se culpada por um instante.

— Eu perguntei ao Lê. Ele me contou que você estaria lá.

— Não force mais entrada no meu círculo social. — O tom de Henrique tornou-se severo, cortante.

— Rick, você já sabia que a Carolina conhecia eles, não sabia? Foi por isso que você apareceu lá?

Henrique fechou os olhos, irritado, a mandíbula rígida.

Não disse uma palavra.

Lílian observou o rosto dele de lado. Ao perceber que a expressão não demonstrava grandes oscilações, insistiu, a voz carregada de veneno:

— Aquela vadia da Carolina te traiu. Você não vai me dizer que ainda pensa em voltar com ela, vai?

— O que ela fez comigo é assunto meu. Você não tem o direito de falar dela dessa forma. — Respondeu Henrique com frieza.

Quanto mais pensava, mais Lílian se irritava. A voz subiu, tomada pela indignação:

— Rick, por que você ainda a defende? Depois de tudo o que ela fez com você naquela época…

— Pode calar a boca? — Henrique a interrompeu de forma brusca.

A voz de Lílian cessou imediatamente.

Ela não disse mais nada.

Sempre que se lembrava de quanto Henrique havia amado Carolina no passado, uma sensação profunda de inquietação a invadia.

Quando Carolina terminara com Henrique, ele havia chorado.

Havia se ajoelhado.

Havia perdido completamente o controle.

Para tentar reconquistá-la, naquele outubro já avançado de outono na Nova Capital, Henrique permanecera sob uma chuva torrencial e cortante por sete horas inteiras. A água gelada o castigara sem piedade, até que ele desmaiara e fora levado às pressas para o hospital.

Mesmo depois de Carolina ter dito todas as palavras mais cruéis possíveis, aquelas capazes de esmagar qualquer orgulho, Henrique ainda se recusara a desistir.

Após a formatura na universidade, Carolina mudara todos os seus contatos e deixara a Nova Capital.

Desde então, os dois haviam rompido por completo, sem deixar qualquer ligação entre eles.

— Carol, quando nos formarmos, vamos nos casar.

— Tão rápido assim?

— As tentações fora da universidade são muito maiores. Minha Carol é tão linda, com certeza vai ter muitos homens de olho em você.

— Não precisa se preocupar. Eu, Carolina, vou amar apenas Henrique para sempre.

— Se me ama, então se case comigo. Assim eu fico tranquilo.

— Tá bem. Quando nos formarmos, a gente se casa.

— E onde você gostaria que fosse o casamento?

— Eu gosto do mar… Da praia… Do sol.

— Se a Carol gosta, então eu gosto também. Nosso casamento vai ser à beira-mar.

O toque estridente do celular invadiu o sonho de Carolina, arrancando-a bruscamente da lembrança.

Ela despertou devagar.

As cortinas escuras estavam bem fechadas, deixando o quarto mergulhado numa penumbra abafada. Apenas um fio de luz do sol escapava por uma fresta, desenhando sombras suaves no ambiente.

Ela sentia o canto dos olhos úmido.

Mais uma vez, havia sonhado com o passado.

Carolina pegou o celular e olhou para a tela.

"Antônio Pace."

Só aquele nome já lhe causava um desconforto físico imediato.

Ela se levantou, atendeu a ligação e levou o celular ao ouvido. Fechou os olhos por um instante, tentando dissipar o mau humor de quem acabara de acordar.

— Está na hora de pagar. Venha ao hospital.

— Tá.

Ela desligou.

Jogou o celular de lado e se deitou novamente.

Cinco anos antes, seu pai fora preso.

A acusação: ter espancado Luiz, o pai de Antônio, até deixá-lo em estado vegetativo.

O pai de Carolina sempre insistira em sua inocência. Dizia ter sido vítima de uma armação.

Mas testemunhas e provas materiais apontavam todas para ele. Além disso, no dia anterior à agressão, ele discutira violentamente com Luiz. Dominado pela raiva, chegara a gritar:

— Amanhã eu te mato, seu desgraçado!

O motivo estava ali.

A sentença também.

Vinte e dois anos de prisão.

Oitocentos mil de indenização.

E, durante todo o período de internação de Luiz, a obrigação de arcar com todas as despesas médicas e tratamentos.

O pai de Carolina sempre fora um homem honesto, simples, gentil e de temperamento dócil. Já Luiz era conhecido na região como um verdadeiro canalha, um sujeito temido por todos.

Ela acreditava, sem a menor dúvida, na inocência do pai.

Para provar isso, Carolina prestara o exame da ordem e se tornara advogada. Nos últimos anos, vinha investigando incansavelmente o caso, reunindo novas evidências, solicitando a reabertura do processo e insistindo em um novo julgamento.

Ela havia tomado uma decisão irrevogável.

Devolver ao pai a justiça e a dignidade que lhe haviam sido roubadas.
Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Amar Foi Perder o Controle   Capítulo 453

    As peras do jardim estavam maduras.Carolina achou que Henrique estivesse com vontade das peras dali. Só então Lívia lhe contou que aquela era a fruta preferida dela, e que Henrique havia plantado a pereira especialmente para Carolina.Carolina foi até a árvore, estendeu a mão e colheu uma pera. Esfregou a casca com a palma da mão e deu uma mordida.O suco doce e fresco se espalhou pela boca, trazendo aquele aroma intenso da fruta. Ela realmente gostava daquele sabor.Mas tudo ainda lhe parecia estranho demais.Aquilo a deixava um pouco ansiosa, inquieta. Ao mesmo tempo, havia também uma leveza quase ingênua, despreocupada, como se ela simplesmente não soubesse que existia algo com que deveria se preocupar.O almoço preparado pela sogra estava delicioso. Vanessa não parava de colocar comida no prato dela, e Carolina ficou sem graça de recusar. No fim, acabou comendo demais.Uma hora depois do almoço, ainda se sentia pesada. Foi até Vanessa e perguntou:— Mãe, tem algum remédio para dig

  • Amar Foi Perder o Controle   Capítulo 452

    Lívia pegou a mala e voltou para o lado de Carolina.— Ela é minha mãe. Vanessa. Sua sogra.Sogra?Depois de onze anos de namoro, aquilo ainda fazia tanta diferença em relação a um casamento?Carolina se apressou em cumprimentá-la com educação.— Mãe.Vanessa ficou paralisada.Por um instante, pareceu não acreditar no que acabara de ouvir. Logo depois, seus olhos se avermelharam de repente, marejados de lágrimas. Ela assentiu várias vezes, feliz a ponto de quase não conseguir conter a emoção.— Sim, minha querida... Depois de mais de dois meses internada, você finalmente se recuperou e recebeu alta. Isso merece uma comemoração. Preparei um almoço enorme para você.— Obrigada, mãe.A voz de Carolina ainda soava um pouco distante. Por dentro, ela se sentia deslocada, mas sabia que quem havia perdido a memória era ela. Sua família não tinha esquecido nada. Por isso, também precisava levar em conta os sentimentos deles.Pelos olhos úmidos de Vanessa, dava para perceber que, a menos que aqu

  • Amar Foi Perder o Controle   Capítulo 451

    No caminho de volta para casa, Lívia dirigia com atenção enquanto apresentava a família a Carolina.— Meu avô teve dois filhos e duas filhas. Meu pai é o caçula. Meus pais tiveram três filhos: meu irmão mais velho, Henrique e eu. Você é namorada do Henrique. A esposa do meu irmão mais velho se chama Júlia.Carolina ouvia tudo de cabeça baixa, mexendo no celular.Os contatos no WhatsApp lhe pareciam completamente estranhos. Ela não conseguia se lembrar de nenhum.De repente, uma questão muito séria passou por sua cabeça.— Lívia, até onde eu estudei?— Você tem ensino superior completo.— Meu Deus... Então joguei todos esses anos de estudo no lixo.Lívia deixou escapar um sorriso discreto.— Você perdeu a memória, não a inteligência. Talvez não se lembre das pessoas nem do que viveu, mas sua capacidade continua a mesma.— E eu trabalhava com o quê?— Você é advogada.Carolina levou a mão à testa, desolada. Depois se recostou no banco e soltou um longo suspiro.— Por que fizeram uma ciru

  • Amar Foi Perder o Controle   Capítulo 450

    A cada vez que passava por aquele procedimento e acordava, Carolina precisava de muito tempo para se lembrar de quem eram as pessoas ao seu redor.Quanto mais sessões fazia, mais vazia sua memória parecia ficar. E mais tempo levava para reconhecer alguém.Mais tarde, chegou a um ponto em que nem sabia por que precisava passar por aquele tratamento. Toda vez que acordava, esquecia quem estava ao seu lado. Esquecia até por que estava internada em uma clínica psiquiátrica.O outono em Nova Capital era especialmente frio.Carolina ficou internada no setor psiquiátrico por dois meses. Ao sair da última sessão, levou muito tempo até se recuperar, aos poucos, daquele estado apático.Ela havia esquecido até os médicos e enfermeiros que vira pouco antes do procedimento. As pessoas ao seu redor, então, pareciam ainda mais estranhas.Um homem muito bonito segurava sua mão e dizia:— Amanhã vou viajar a trabalho para a base e vou ficar fora por uns quinze dias. Estamos na fase de testes do foguete

  • Amar Foi Perder o Controle   Capítulo 449

    Dessa vez, quando a crise veio, Henrique não estava ao lado dela.Carolina afundou em alucinações aterrorizantes.Viu a si mesma ainda criança, justamente na idade em que mais amava a mãe, sendo insultada, agredida e ameaçada por ela... Até perdê-la.Na idade em que mais amava Henrique, foi obrigada a abrir mão dele repetidas vezes. Perdeu-o uma vez após a outra.E, quando mais amava o bebê que carregava, acabou perdendo a criança de repente.Nesta vida, nenhuma das pessoas que ela mais amou havia pertencido de verdade a ela.Carolina foi arrastada de um sofrimento a outro, presa naquele ciclo de dor, tomada por vozes, imagens e ilusões que já não conseguia distinguir da realidade.Caiu naquele abismo terrível e não conseguia mais sair. No mundo falso criado pela própria mente, revivia a mesma dor sem parar.Era como se seu coração estivesse sendo esmagado até virar pó. Uma dor tão insuportável que viver parecia pior do que morrer.Em meio à consciência confusa, Carolina mergulhou o pr

  • Amar Foi Perder o Controle   Capítulo 448

    — Não vou fazer. — A voz de Carolina saiu séria.Ela se afastou dos braços dele e ergueu o rosto para encará-lo.— Esquecer você seria pior do que morrer.Henrique acariciou de leve o rosto emburrado dela.— Antes, eu também achava que ser esquecido por você seria pior do que a morte. Mas agora eu só quero que você fique saudável e feliz. O resto já não importa.Carolina o encarou com firmeza e balançou a cabeça com força.Ele continuou tentando convencê-la:— Eu vou ficar ao seu lado o tempo todo. Vou fazer você se apaixonar por mim de novo.— Rick, eu já estou melhorando. Faz muito tempo que não tenho uma crise, e até a psicóloga disse que estou cada vez melhor.Carolina falava cheia de confiança, mas seus olhos deixavam transparecer toda a rejeição e resistência àquele procedimento.O olhar de Henrique escureceu. Ele a puxou de volta para os braços, apoiou o queixo no alto da cabeça dela e sentiu o peito apertar.A melhora de que ela falava era apenas uma manifestação temporária do

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status