LOGINÀ primeira vista, o assunto até fazia sentido. Ainda assim, Daniel não conseguia ficar em paz.— Você não pode ir. — Ayla falou baixo. — Você precisa se recuperar.— Posso, sim.Como ele insistiu, Ayla só encontrou um jeito de contê-lo: trouxe à tona o acordo entre os dois.— Então agora você não vai mais me ouvir? Tudo o que a gente combinou deixou de valer?— Eu não quero ficar longe de você. Nem por um dia. Eu...Daniel franziu a testa. A voz saiu mais apressada, mais tensa. O pomo de adão subiu e desceu, e as palavras se partiram no meio.Ele estava com medo.Sempre existia dentro dele uma inquietação que não se apagava.Daniel já não sabia se era só aquela ansiedade antiga voltando a rondá-lo ou se, desta vez, havia mesmo algum pressentimento ruim.— Eu também não quero me afastar de você. Mas agora é uma situação diferente. Não posso arrastar um paciente comigo para tão longe. E você também precisa respeitar meu lado como esposa.Antes, foi Daniel quem pediu que ela respeitasse o
— Está bem, eu me rendo.Ayla achou que realmente não conseguia mentir diante de Daniel.Não porque não soubesse mentir. O problema era mentir para ele. Isso pesava em sua consciência.— Eu vou precisar ver meu avô.A voz dela saiu um pouco mais baixa, carregada.— Sr. André Fonseca?Uma emoção difícil de decifrar passou pelos olhos de Daniel.André, pai de Samuel, morava em Eldoria havia muitos anos.Corria o rumor de que ele não saiu de Astério para viver uma velhice tranquila no exterior, e sim porque passou anos em conflito com Samuel e preferiu manter distância.Também circulava a notícia de que, quando Samuel adoeceu gravemente, o velho não voltou. Só apareceu às pressas depois da morte dele, para comparecer ao funeral.E, ao que tudo indicava, foi embora no mesmo dia.Ayla assentiu.Na volta da cúpula, naquela tarde, ela recebeu uma ligação de Carolina. Assim que ouviu a voz dela, Ayla se pôs em alerta. Mas Carolina mal introduziu o assunto e já passou o celular para André.Naqu
— Certo, você não chorou.Ayla assentiu e deu dois tapinhas no ombro de Daniel, como se estivesse acalmando uma criança.— Foi muito bom ver filme com você. Na próxima, a gente repete.Depois disso, ela desligou a televisão, arrumou o que restou sobre a mesa e voltou para o quarto cantarolando baixinho enquanto tirava a roupa.Ia tomar banho.Assim que enrolou a toalha no corpo, percebeu que Daniel entrou logo atrás. Ayla se virou na mesma hora.— Daniel, eu vou tomar banho. Sai daqui...— Como se eu já não tivesse visto. Por que tanta vergonha?Havia provocação demais na voz dele. Por trás dela, Daniel a envolveu pela cintura e puxou a toalha num gesto rápido.O tecido caiu inteiro no chão.Mesmo de costas para ele, Ayla sentiu o corpo nu de repente e foi tomada pela vergonha. Instintivamente, quis se abaixar para pegar a toalha, mas Daniel segurou sua cintura e não deixou.— Vamos tomar banho juntos.— Não faz isso...— Eu ainda não estou cem por cento. Me ajuda?Daniel usou o própri
Ayla lançou um olhar rápido para Daniel.O sorriso que antes descansava no canto da boca dele desapareceu. Ele não franziu a testa, não endureceu o rosto, não deixou nada escapar. Apenas manteve os olhos baixos, pousados na tela do celular, calmos demais, como se não houvesse emoção nenhuma ali.— Você ficou com ciúme? — Ayla perguntou, testando o terreno.— Não. — Daniel falou baixo. — Ciúme de quê? Ele disse que minha esposa estava linda. Eu devia achar isso ótimo.Devia.Mas, na voz dele, não havia sinal algum de que estivesse achando.Ayla apagou a tela no mesmo instante.— Então eu não vou responder. Vou fingir que nem vi.Daniel não disse nada.E aquele silêncio já entregou bastante.Ayla encostou o cotovelo no peito dele, numa tentativa de amolecê-lo.— Não fica com ciúme à toa. Ele é mais velho do que eu.— Eu também sou mais velho do que você.Ayla travou por um segundo.— Ele é mais velho que você. E aparenta. Não chega nem perto de ser tão bonito quanto você.O olhar de Dani
Ayla roçou os lábios nos de Daniel.— Você comeu açúcar? Está tão doce.Mal ela se afastou, Daniel voltou a beijá-la. Não como antes, num beijo fundo. Dessa vez, foi só um toque demorado, uma leve sucção que arrepiou tudo nela.— Então prova mais um pouco.Ayla quase perdeu o fôlego.Como Daniel conseguia, com aquele rosto severo demais, frio demais, desmontá-la inteira só com meia dúzia de palavras?— Estou com fome. — Ela falou num tom de dengo, piscando para ele. — Mas ainda não quero me mexer.A noite já cobriu a cidade. Nenhum dos dois acendeu a luz. Nenhum dos dois quis se soltar. Ayla ainda nem trocou de roupa, só tirou o casaco.— Está bem. Eu faço alguma coisa para você comer.Daniel tentou se levantar, mas Ayla logo segurou seu braço de novo.— Você está machucado. Não pode se cansar. Se você for cozinhar para mim, eu vou ficar com o coração apertado.Ela falou de propósito, mordendo de leve as palavras junto à orelha dele.A ponta da orelha de Daniel ficou vermelha. O calor
Todos aqueles responsáveis, pagos a peso de ouro, assinaram acordos claros de responsabilização. Se Daniel decidisse puni-los, ninguém teria como reclamar.— Deixa para lá. Até essa revisão faz todo mundo perder tempo. Já que minha esposa pediu, vai passar dessa vez. Mas não vai se repetir.A voz dele saiu baixa, tranquila, e mais uma vez puxou de volta o coração de quem ainda estava pendurado por um fio.Gentil demais.Então o Sr. Daniel também sabia ser assim.Ao perceber o clima, Enzo logo pigarreou, lembrando a todos de que, se não saíssem agora, aí sim passariam dos limites.— Sr. Daniel, descanse. O senhor e a senhora precisam descansar bem. Nós já estamos de saída.— Senhora, que tudo dê certo para você e que você tenha um dia feliz atrás do outro.Antes de irem, alguns ainda fizeram questão de se despedir de Ayla.Dava para ver o alívio estampado no rosto deles. A alegria foi tanta que até bênção saiu no impulso.Ayla quase riu.Só depois que todos saíram, Enzo começou a recolh
Mesmo que tivesse pedido para Ayla morrer por ele, ela provavelmente nem teria hesitado.Esse sentimento todo... será que era falso?...Depois de um dia inteiro de reuniões e ajustes no Grupo Fonseca, Ayla só voltou para casa ao entardecer.Uma empresa daquele porte realmente não era fácil de lidar
Ayla observou por alto as grifes que Beatriz vestia... no total, não deviam passar de duzentos mil."Hoje em dia, quem tem algumas dezenas de milhares já começa a falar em círculo social?" Ela pensou.— Dizem que ela é…— Ayla, por mais que a Beatriz tenha falado besteira, você não devia ter partido
Ayla arqueou um leve sorriso nos lábios:— Que coincidência... Eu realmente conheço a herdeira do Grupo Fonseca. Aliás, conheço bem muita gente da família Fonseca. O Grupo Fonseca, pra mim, é quase como se fosse minha própria casa.Assim que Ayla terminou de falar, o ambiente caiu num silêncio absol
Beatriz mandou uma mensagem e logo recebeu resposta. Quando pediu para fazer uma chamada de voz rápida, do outro lado aceitaram sem hesitar.Estavam prestes a ouvir, com os próprios ouvidos, a voz da tão falada herdeira do Grupo Fonseca. Todos ficaram na expectativa.Até mesmo Eloá não resistiu e se







