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Capítulo 5

Author: Doce
O carro parou, e Felipe abriu a porta com um gesto tranquilo.

— Entre, conversamos melhor no caminho. — Convidou novamente.

Ayla hesitou por alguns segundos, mas acabou aceitando e entrou no veículo.

Durante o trajeto, Felipe explicou tudo.

As pessoas que a haviam "salvado" na mansão eram enviadas pela família Cardoso, uma das mais poderosas do país, um clã cuja influência atravessava setores como finanças, tecnologia e energia.

Dizia-se que sua riqueza podia rivalizar com a de um Estado inteiro.

O atual herdeiro, Daniel Cardoso, tinha apenas vinte e oito anos e já havia levado o conglomerado familiar a um novo auge. Era considerado o jovem mais influente de toda a elite empresarial.

Na noite anterior, André Fonseca recebera uma ligação da família Cardoso: queriam propor uma aliança matrimonial com os Fonseca, e a escolhida para o casamento era Ayla.

Felipe contou que havia inúmeras famílias tentando se aproximar dos Cardoso, e os Fonseca, é claro, também estavam entre elas.

Ele mesmo fora enviado a pedido do patriarca, Miguel Cardoso, para conversar pessoalmente com Ayla.

— Então, a família Cardoso é mais poderosa que a Fonseca? — Perguntou Ayla, cortando a explicação.

Felipe pensou um instante antes de responder:

— Não se trata de comparar. Mas, se quiser colocar em perspectiva... A família Fonseca é a mais rica de San Elívar, domina o mercado local. Já os Cardoso, em todo o país de Astério, não existe ninguém que se atreva a desrespeitar eles.

— E esse Daniel, como ele é? — Perguntou Ayla.

Felipe deu um leve sorriso e coçou o nariz.

— Daniel é muito conhecido no cenário internacional, mas quase nunca aparece em público em Astério. É um homem cercado de mistério. Eu mesmo nunca o encontrei pessoalmente.

Fez uma breve pausa, escolhendo as palavras com cuidado.

— Mas, segundo dizem... ele não é exatamente fácil de lidar.

Felipe estava sendo sincero e ainda assim, bastante diplomático.

Se Daniel fosse apenas um homem "não é exatamente fácil de lidar", os pretendentes já teriam formado fila na porta da família Cardoso.

— Difícil como? — Perguntou Ayla, com o olhar firme, querendo ouvir até o fim.

Felipe deu um sorriso constrangido.

— Digamos que... ele seja um pouco reservado, exigente, e... não muito afeito às mulheres. Mas a família Cardoso sempre prezou pela disciplina e pela reputação. Creio que o caráter de Daniel... não deve ser ruim.

Deve?

Ayla arqueou uma sobrancelha. Quanto mais ele falava, menos confiável soava.

Ela ficou em silêncio, apenas observando-o, até que Felipe, suando, acabou cedendo:

— Está bem. O que se comenta é que Daniel é um homem frio e implacável. Vive isolado, age movido apenas por interesse, e não demonstra compaixão. Quem o contrariou nunca teve um bom fim.

Ayla manteve o semblante sereno, mas anotou mentalmente cada palavra.

Mais cedo ou mais tarde, teria de lidar com ele e preferia estar preparada.

Felipe continuou, em tom persuasivo:

— Mas é apenas um casamento de aliança. Você não precisa se preocupar demais. No mundo dos poderosos, há inúmeros casamentos sem amor. E, considerando a fortuna que agora está em seu nome, vai precisar de proteção. Há muita gente de olho em você, Ayla.

— Aceito. — Respondeu ela, simples e direta.

Felipe piscou, confuso.

— Espere... você aceitou?

— Sim. — Confirmou Ayla, tranquila.

Ele ficou momentaneamente sem palavras. Tinha preparado todo um discurso para convencer ela e, ainda assim, ela concordara sem hesitar.

Ela nunca tivera um casamento de verdade, e agora estava sozinha no mundo.

Perto de Daniel, Gustavo parecia uma piada.

Gustavo a enganara por dois anos, usara-a como degrau.

Daniel, por outro lado, com o poder e a influência que possuía, poderia ser não apenas um aliado, mas a ponte para sua ascensão.

E, acima de tudo, Ayla sabia: a família Fonseca era um campo minado. Carolina e Bruno a observavam como predadores.

Ayla, uma "filha ilegítima" recém-reconhecida, sabia que apenas um testamento e os papéis da herança não seriam suficientes para manter ela de pé.

Se quisesse realmente se firmar e assumir o controle das empresas, precisaria de apoio e de peso.

Casamento não era sentimento. Era transação. Era aliança.

Ayla olhou pela janela, a voz calma e firme:

— Em vez de lutar sozinha e ser devorada, prefiro encontrar um aliado de verdade. Se a família Cardoso me escolheu, não tenho motivo para recusar.

Ao entardecer, Ayla voltou à casa dos Siqueira e percebeu que Gustavo e Bianca não estavam.

Perguntou à empregada e soube que ele levara Bianca e Thiago para uma exposição em outra cidade, não voltariam naquela noite.

Pegou o celular e viu várias chamadas e mensagens.

"Lalá, o Thiago quis ir com a professora Bianca ver uma exposição. É longe, então vou acompanhar eles."

Uma família completa, até com bilhete de desculpas.

Mas era até conveniente, com a casa vazia, ela teria paz para agir.

Depois de ler a mensagem, Ayla chamou algumas funcionárias e pediu que a ajudassem a arrumar as malas em seu quarto.

— Senhora, a senhora vai viajar? — Perguntou uma das empregadas, surpresa ao ver Ayla empacotar todas as suas coisas em caixas.

— Sim. — Respondeu ela, sem levantar os olhos, enquanto organizava uma pilha de documentos na gaveta. — E não precisam avisar o Gustavo. Ele anda muito ocupado, é melhor não o incomodarem.

Ocupado, sim... aproveitando a doçura da vida com a esposa e o filho.

Mas aqueles dias tranquilos logo chegariam ao fim.

Pouco depois, tudo estava pronto.

Quando a casa adormeceu e o silêncio tomou conta do corredor, Ayla chamou uma empresa de mudanças e mandou levar todas as caixas.

Havia, porém, duas coisas que ela não encontrou.

Uma era a tese que escreveu desde a formatura, com anos de dados de pesquisa, material de enorme valor profissional.

A outra, os arquivos centrais de um projeto que desenvolveu para a empresa de Gustavo.

O primeiro documento ficava trancado em sua gaveta. Desapareceu, provavelmente levado por Gustavo.

O segundo permanecia armazenado no sistema da empresa, fora de seu alcance.

Mas aqueles dois trabalhos eram fruto de seu esforço e de sua mente. De jeito nenhum deixaria que ficassem nas mãos dele.

Na manhã seguinte, o celular de Ayla vibrou.

Era Gustavo. Pelo barulho de fundo, ele ainda estava na estrada.

— Lalá, você viu minha mensagem de ontem? — Perguntou ele, com voz alta por causa do vento.

— Vi. — Respondeu ela, mexendo o café com calma, sem emoção alguma na voz.

— Desculpe, foi uma decisão de última hora. Eu devia ter avisado. Mas a professora Bianca é convidada, não podia deixar ela levar o Thiago sozinha

— Não tem por que se desculpar. — Disse Ayla, num tom leve. — Acompanhar a professora Bianca é mais que natural.

Gustavo ficou em silêncio por um instante, surpreso. Achava que ela estivesse chateada por não responder às mensagens. Na noite anterior, ao lado de Bianca, também não podia insistir muito em ligar.

— Lalá, eu achei que você tivesse ficado brava comigo...

— Ontem foi um dia cheio. — Cortou Ayla, a voz clara, serena. — Depois de visitar o imóvel, precisei resolver um negócio. Nem tive tempo de olhar o celular.

A voz dela não trazia o menor traço de irritação. Gustavo suspirou, aliviado.

— Eu sabia que você só estava ocupada. Não se esforce tanto, eu fico preocupado com você.

Ayla franziu o cenho. Já estava sem apetite desde cedo, e ao ouvir aquela voz doce de falsidade, o estômago simplesmente se fechou.

— Papai, não fala com a mulher má! — A voz de Thiago soou alta no viva-voz, seguida pela tentativa apressada de Bianca em contê-lo.

— Melhor falarmos depois. Estou dirigindo, conversamos à noite. — Gustavo encerrou, sem esperar resposta.

Assim que ele desligou, Ayla aproveitou para ir direto à empresa.

A primeira coisa que fez foi entrar na sala de Gustavo e começar a vasculhar os arquivos.

Revirou pastas, gavetas, e até o computador dele. Nada. Nem sinal dos documentos que procurava.

Enquanto pensava em onde mais poderiam estar, alguém bateu à porta.

— Srta. Ayla, o Sr. Gustavo não veio hoje. Temos alguns contratos de repasse que precisam da sua assinatura.

Ayla pegou os papéis e folheou rapidamente.

Eram projetos importantes, cujos parceiros ela mesma havia conseguido com esforço, estratégia e semanas de negociação.

Se o repasse atrasasse, metade do cronograma desandaria.

— Tentaram falar com o Sr. Gustavo? — Perguntou, sem erguer os olhos.

— Sim, mas ele disse que está ocupado e que, se fosse urgente, era para procurar a senhora.

Ayla esboçou um sorriso breve e quase imperceptível.

Ela sempre fora quem mais trabalhava naquela empresa. Cada decisão importante que Gustavo "não podia" tomar, caía nas mãos dela.

Mas aquele poder era só aparência. Na prática, ela não tinha cargo nem ações... até gerentes médios possuíam cotas, e ela, nada.

E, quando tomava alguma decisão por Gustavo, ele a repreendia publicamente nas reuniões, fingindo seriedade para dar satisfação aos sócios.

Depois, justificava: dizia que não queria que o envolvimento pessoal dos dois afetasse a imagem da empresa.

— Deixe aqui. — Disse Ayla, fria. — Preciso sair agora. Assim que voltar, verifico e assino.

— Está bem. — Respondeu o funcionário, saindo.

Assim que ficou sozinha, Ayla largou os contratos sobre a mesa e saiu do escritório sem olhar para trás.

As pessoas da família Cardoso disseram que Daniel convidou Ayla para jantar naquela noite.

Se era um encontro, ainda mais com seu noivo, ela precisava se preparar com cuidado.

Ayla passou a tarde em um salão de beleza e, quando saiu, já eram quase cinco horas. Decidiu ir a um shopping próximo e foi direto à sua marca de luxo preferida, onde uma vendedora se aproximou.

— Uau, senhorita, que presença! — Exclamou, genuinamente encantada. — Nossos vestidos costumam escolher quem pode usar... mas, em você, parece que foi feito sob medida.

Ayla sorriu diante do espelho. O reflexo mostrava uma mulher de curvas perfeitas, vestida com um longo lilás de alças finas. O tecido, com leves brilhos e camadas de tule, poderia deixar qualquer outra mulher apagada, mas nela realçava ainda mais a pele clara e os traços marcantes. A beleza intensa ganhava uma delicadeza quase etérea.

— Quero este. — Disse, girando lentamente diante do espelho.

O corte assimétrico e o decote elegante davam ao vestido um ar sofisticado e sensual na medida certa, perfeito para um jantar.

Durante os dois anos ao lado de Gustavo, ela se dedicava apenas ao trabalho. Quase esqueceu que ainda podia ser assim deslumbrante.

Depois de alguns minutos se observando, Ayla caminhou até o caixa.

Mas, quando entregou o cartão, a atendente sorriu, surpresa:

— Senhorita, não será necessário. Acabamos de receber uma ligação. A compra já foi paga, e também foi reservado para a senhora um conjunto completo: bolsa, joias e sapatos que combinam com o vestido.

— A pessoa deixou o nome? — Perguntou Ayla, intrigada.

— Sim. Um senhor Cardoso.

Ao ouvir o sobrenome, Ayla olhou em volta, mas não viu ninguém.

Felipe disse que Daniel era frio e distante... então por que esse gesto tão atencioso?

Saiu do shopping e, como esperava, um carro já a aguardava do lado de fora.

Era o mesmo modelo discreto que ela viu na mansão dos Fonseca, sem logotipo, mas com uma placa reluzente.

O motorista se aproximou e fez um leve aceno.

— Srta. Ayla, nós já nos conhecemos. O meu patrão está à sua espera. Por favor, permita que eu abra a porta para a senhora.
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