LOGINQuando Cecília pediu demissão, uma das cláusulas do acordo dizia que, caso surgissem assuntos de trabalho indispensáveis após sua saída, ela deveria cooperar. Embora naquele momento não tivesse a menor vontade de trabalhar, seu profissionalismo falou mais alto.— Quanto tempo vai demorar? — Ela caminhou até Heitor.— O tempo de um almoço. — Heitor abriu a porta do banco do passageiro.Cecília entrou, curvou-se para colocar o cinto e pegou o celular.Enquanto dava a volta pela frente do carro, Heitor percebeu que ela estava mandando uma mensagem. Seus olhos escureceram por um instante antes de entrar e ligar o motor.Sem as provocações sarcásticas de antes, o silêncio dentro do carro não era exatamente confortável.Cecília evitava olhá-lo por instinto. Mas quanto mais fugia, mais estranha a atmosfera se tornava.O restaurante Mirante ficava no último andar de um shopping no centro da cidade. Toda a decoração em tons de vermelho escuro, banhada pela luz do sol, brilhava num carmesim radi
Cecília abriu a porta do carro, desceu e deu a volta até o lado do motorista, puxando Murilo para longe.— Obrigada, Sr. Heitor. Dirija com cuidado.Depois de dizer isso, virou-se e foi embora.— O que aconteceu? — Murilo se apoiou na janela do carro e perguntou. — Quem foi? Quem mexeu com ela?Cecília voltou dois passos, agarrou a roupa dele e o arrastou para longe do carro de Heitor.Ela tinha a estranha sensação de que, se Murilo dissesse mais uma bobagem, Heitor seria capaz de despedaçá-lo ali mesmo.Não era que ela tivesse medo de Murilo apanhar. Na verdade, ela sentia um certo desconforto ao encarar Heitor naquele estado.Tudo o que queria era que ele fosse embora logo e que Murilo parasse de bloquear o caminho.Os olhos de Heitor se estreitaram enquanto acompanhavam as costas de Cecília, vendo-a puxar Murilo para longe.A clareza de seu olhar foi, pouco a pouco, sendo tomada por um brilho sombrio.Cecília levou Murilo até a porta de casa. Só depois de fechá-la e bloquear aquele
Se fosse seguir a lógica de Daniel, tudo realmente fazia sentido. Mas Cecília ainda era incapaz de aceitar as atitudes de Angela.— Peça para o Murilo investigar a família Azevedo.Heitor lançou um olhar pela janela. Feixes de luz do sol atravessavam o vidro e iluminavam seu rosto, acentuando os contornos de sua mandíbula.Cecília ficou sem palavras por um instante. Por algum motivo, aquele tom parecia ressentido.— O quê? Eu, seu ex-chefe, me preocupo com você, e o seu chefe atual não se preocupa nem em investigar isso pela funcionária? — Como ela permaneceu em silêncio, a voz dele ganhou um sarcasmo evidente.Para Cecília, aquelas palavras soaram desagradáveis.— Claro que ele se preocuparia. Eu só não quero incomodá-lo.— Tão compreensiva. Engraçado, porque você me deu bastante trabalho antes. — Heitor apertou um pouco mais a mão no volante. — Fui eu quem te ensinou tudo, desde o dia em que você entrou no mercado de trabalho sem entender nada até virar uma profissional de elite. Aí
— A maioria das garotas reage como você, mantendo distância dela. Algumas pegam dinheiro com ela e depois desaparecem. Quando eu a adverti sobre você antes, foi primeiro porque tinha medo de que o comportamento estranho dela prejudicasse nossa relação de negócios e, segundo, porque temia que você estivesse tentando tirar dinheiro dela e depois fugir. Espero que possa compreender. E também espero que você consiga entender o coração de uma mãe. Qualquer mãe que perdesse o filho teria dificuldade em aceitar isso. Espero que não rejeite a bondade dela. Tudo bem?Uma criança que perde a mãe é diferente de uma criança que cresce em uma família completa. E uma mãe que perde o filho também é diferente das outras mães.Era difícil para Cecília não se comover no fundo do coração. Mas ela apenas se sensibilizava com aquela situação. Por algum motivo, continuava rejeitando a maneira como Angela a tratava.— Sr. Daniel, se é realmente como o senhor diz, eu sinto muito. Se houver alguma outra coisa
O choro de Tetéu atravessava as janelas do carro. Irene tentou acalmá-lo de todas as formas, mas nada funcionava.Manuela só pôde voltar para o carro. Aproveitando o momento em que ela entrou, Cecília chamou um táxi e foi diretamente para a casa da família Azevedo.Talvez Angela tivesse previsto que ela iria. Quando Cecília chegou à porta e apertou a campainha, a empregada que foi abrir perguntou diretamente:— É a Srta. Cecília, não é?— Sim. — Cecília assentiu. — A Sra. Angela está?— A senhora está no lounge. Vou levá-la até lá. — A empregada abriu a porta.Cecília pegou a bolsa e atravessou o corredor ao longo da sala de estar, chegando ao lounge no fim do corredor.Angela estava sentada diante da mesa de chá. A chaleira sobre o fogareiro fervia com um borbulhar constante, espalhando um aroma intenso pelo ambiente.— Cecília, o que a traz aqui? — Ao vê-la chegar, Angela se levantou para recebê-la e estendeu a mão para segurar a dela.Cecília se esquivou. Seu olhar era frio, a expre
— Tem certeza de que ela realmente reservou um quarto para você de graça? — Manuela ainda não conseguia entender.— Tenho certeza absoluta. — Cecília assentiu.Manuela revirou os olhos, deixando ainda mais evidente o branco dos olhos.— Já vi gente bondosa, mas nunca ninguém com um senso de caridade tão transbordante. Será que ela tem dinheiro demais e não sabe onde gastar?Dizem que, quanto mais rica uma pessoa é, mais mesquinha e egoísta ela se torna. Isso acontece porque, se os ricos fossem generosos com todos, haveria uma fila interminável de pessoas pedindo ajuda. Por isso, os ricos costumam agir com cautela, com medo de que uma pessoa venha se aproveitar de alguma vantagem, e outra, ao ver, também queira tirar proveito.Pelo que Cecília sabia, a reputação da família Azevedo nos círculos de Santa Marina não era particularmente boa. Eles nunca haviam se esforçado para construir uma imagem de família caridosa.Isso era suficiente para concluir que, provavelmente, os membros da famíl
Cecília, quase instintivamente, puxou o casaco acolchoado para baixo, cobrindo a barriga lisa.— Fui sim. Acho que estou ficando velha. Este ano estou sentindo mais frio do que o normal. — Ela se aproximou, sentou-se e mudou de assunto. — Precisa do meu notebook? Posso ir buscar no carro.— Use o me
Antes mesmo que as pessoas na sala tivessem tempo de reagir, passos apressados ecoaram do andar de cima.A mãe de Heitor, Tânia Melo, desceu às pressas. À beira dos cinquenta anos, ela mantinha uma figura impecável, bem cuidada como alguém de pouco mais de trinta.Enrolada apenas em um xale vermelho
Assim que entrou no escritório, Nicole viu Leandro reservando passagens e perguntou apressada:— Onde está o Heitor? Por que você está comprando passagens?— Está na sala de descanso. Houve um problema urgente em uma das filiais, e o Sr. Heitor precisa ir até lá.Antes mesmo que Leandro terminasse d
Cecília era a mais promissora do orfanato. Graças ao seu excelente desempenho acadêmico, foi admitida com bolsa integral em uma das melhores universidades do país.Foi nessa época que conheceu Heitor.Entre tantos jovens ricos e privilegiados, ele se destacava, chamando a sua atenção.Cecília pensav







