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15: O SIM

last update Tanggal publikasi: 2026-11-06 07:02:41

Clara Mendes

O “sim” ainda queimava na minha língua quando Rafael me puxou de volta para o barraco através da multidão que tinha se formado na ladeira.

Eu, Clara Mendes, médica que construí cada pedaço da própria vida em cima de decisões racionais e listas mentais, tinha acabado de aceitar um pedido de casamento no meio da Rocinha, na frente de dezenas de pessoas, feito por um homem que mentia sobre o próprio nome. Meu coração batia tão descompassado que eu sentia o pulso nos ouvidos. A teimosi
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  • CASEI COM UM HOMEM DO MORRO, MAS ELE É O REI DAS SOMBRAS   15: O SIM

    Clara MendesO “sim” ainda queimava na minha língua quando Rafael me puxou de volta para o barraco através da multidão que tinha se formado na ladeira.Eu, Clara Mendes, médica que construí cada pedaço da própria vida em cima de decisões racionais e listas mentais, tinha acabado de aceitar um pedido de casamento no meio da Rocinha, na frente de dezenas de pessoas, feito por um homem que mentia sobre o próprio nome. Meu coração batia tão descompassado que eu sentia o pulso nos ouvidos. A teimosia que sempre me definira brigava com um medo antigo e com um desejo tão visceral que me deixava tonto. Eu contava os passos sem conseguir parar. Onze até a curva. Quatorze até a porta do barraco. Dezessete até ele trancar os dois ferrolhos atrás de nós e o mundo lá fora desaparecer.Ele não falou nada. Apenas me empurrou suavemente contra a porta recém-fechada e beijou minha boca com uma fome que não tinha nada de delicada. Eu retribuí. Porque o corpo já não pedia permissão ao cérebro. Porque o

  • CASEI COM UM HOMEM DO MORRO, MAS ELE É O REI DAS SOMBRAS   14: O PEDIDO

    Rafael Costa "Rafa/Gael"Ela estava em pé em cima da minha cama, os documentos do meu outro eu na mão, e o mundo que eu construíra com tanto cuidado rachou no meio.Eu saí do chuveiro com a toalha baixa na cintura, a água ainda escorrendo pelo peito, e a primeira coisa que vi foi Clara Mendes segurando o passaporte, a identidade e o cartão black que eu mantinha escondidos no forro há anos. O nome Gael Moreira Albuquerque gritava daquelas páginas. A foto era a minha. A vida era a que eu tinha tentado enterrar. Por um segundo longo, fiquei imóvel. O controle que eu exercia sobre cada aspecto da minha existência — o morro, o império paralelo, as mentiras necessárias — escorregou entre os dedos como a água que ainda pingava do meu cabelo. Eu tinha trinta e três anos de prática em esconder verdades. E aquela médica teimosa tinha encontrado a mais perigosa delas em menos de uma semana.— Clara.A voz saiu baixa. Controlada. O tipo de voz que eu usava quando precisava decidir se alguém ia sa

  • CASEI COM UM HOMEM DO MORRO, MAS ELE É O REI DAS SOMBRAS   13: FORRO

    Clara MendesA voz da minha mãe ainda ecoava no barraco quando eu desliguei o telefone com os dedos trêmulos.Dois homens. Bem vestidos. Na casa dela. Perguntando por mim. Perguntando pela favela. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica que construíra a própria vida em cima de controle e decisões racionais, senti o chão ceder sob os pés. O corpo ainda estava quente e marcado do sexo possessivo de minutos antes. O cheiro de Rafael ainda colava na minha pele. E agora o medo real, o tipo que vinha de fora e não do desejo, subia pela garganta como um gosto metálico. Eu me sentei na beira da cama, a camisa grande dele cobrindo o corpo nu, e levantei os olhos para o homem que estava de pé no meio do cômodo, já vestindo a calça, o rosto fechado naquela máscara de controle que eu começava a odiar e desejar na mesma medida.— Chega — disse eu, a voz saindo mais firme do que eu esperava. A teimosia era a única âncora que me restava. — Chega de código. Chega de “depois”. Chega de me foder at

  • CASEI COM UM HOMEM DO MORRO, MAS ELE É O REI DAS SOMBRAS   12: CÓDIGO

    Rafael Costa "Rafa/Gael" O nome “Pai” na tela do celular era uma lâmina fria atravessando o calor que ainda queimava entre nós.Eu continuei dentro de Clara por mais alguns segundos, o corpo dela preso contra a parede do consultório, a respiração dela ainda descompassada contra a minha mão. O orgasmo tinha sido brutal, necessário, uma válvula de escape para toda a adrenalina do tiro e da fome acumulada. Mas o mundo lá fora não esperava. Eu tirei a mão da boca dela com lentidão, deslizei para fora do corpo quente com um esforço físico real e arregacei a calça. Clara ficou encostada na parede, as pernas ainda trêmulas, a bata amassada, os lábios vermelhos e inchados. Eu odiava a forma como ela parecia recém-fodida e vulnerável. Odiava ainda mais a vontade imediata de ajoelhar e recomeçar.Atendi o telefone no quarto toque.— Fala.A voz do outro lado era a do advogado antigo do meu pai, um homem que eu conhecia desde os treze anos e em quem eu não confiava desde os quatorze.— O tempo

  • CASEI COM UM HOMEM DO MORRO, MAS ELE É O REI DAS SOMBRAS   11: CONTRA A PAREDE

    Clara MendesO tiro ainda ecoava nos meus ouvidos quando Rafael me puxou para dentro do consultório dos fundos e trancou a porta com violência.Eu estava tremendo. Não só de medo. O corpo inteiro vibrava com a adrenalina do segundo em que ele me derrubara no chão, o peso dele me cobrindo, o vidro estilhaçando acima de nós. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica que sempre se orgulhara de manter a calma sob pressão, sentia o controle escorregar pelos dedos como água. Meu coração batia tão forte que doía no peito. A respiração vinha em golpes curtos. E por baixo do medo puro havia outra coisa, mais escura, mais quente: a consciência aguda do corpo dele ainda colado ao meu, da forma como ele me segurava pelos braços, dos olhos escuros que me devoravam como se eu fosse a única coisa que importava naquele momento.— Você está bem? — perguntou ele, a voz rouca, baixa, o peito subindo e descendo rápido demais.— Eu… acho que sim. O tiro...— Passou longe. Por pouco.Ele me encarou por u

  • CASEI COM UM HOMEM DO MORRO, MAS ELE É O REI DAS SOMBRAS   10: A DECISÃO

    Rafael Costa "Rafa/Gael" Eu ainda sentia o gosto dela na boca quando voltei para a reunião.O beco tinha sido um erro. Um erro quente, molhado e viciante. Eu tinha arrastado Clara para longe dos homens armados com a intenção de assustá-la o suficiente para que ela parasse de aparecer onde não devia. Em vez disso, tinha acabado com a língua na boca dela e a mão subindo pela coxa como um adolescente sem controle. Eu odiava perder o controle. Era uma das poucas coisas que eu ainda conseguia manter intactas depois de anos dividindo a vida entre o morro e o fantasma de Gael Moreira Albuquerque. E aquela médica teimosa estava destrozando isso com uma eficiência que me deixava entre a vontade de foder ela contra a parede mais próxima e a necessidade de trancá-la num lugar seguro até que a guerra com a minha família terminasse.Eu entrei de novo no barracão. Os homens pararam de falar. Dudu levantou uma sobrancelha, mas não comentou o tempo que eu tinha ficado fora nem o estado da minha boca

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