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CAPÍTULO 05

last update publish date: 2021-09-06 21:44:31

      Cidade de “FT”, 13 de janeiro, segunda-feira.

      Após o almoço → bife com fritas → seguiu para a rua Marselhantes. Fez um rápido reconhecimento, até notar → no meio do percurso, do lado direito da rua → um letreiro enorme e luminoso, que dizia:

BOATE RASPUTIN

      Na mosca!

      Suas análises e deduções se confirmaram.

      Obviamente que o “Ameba” só podia ter conhecido a mulher do vestido preto ali, entre generosas doses de cerveja. Casa pintada de amarelo escuro, com dois pavimentos. As duas portas → a grande e a pequena →, localizadas no térreo, estavam fechadas. No andar de cima, uma sacada.

      Estacionou o Corsa, saiu e apertou a campainha.

      Ansioso!

      Ciente de que estava na pista certa.

      Uma garota branca, bonita e sexy, que não devia ter mais que vinte anos, abriu parcialmente a porta. Usava short e blusa curtos. Não teve dúvidas sobre qual a função dela, na casa.

      → Pois não? → ela perguntou, curiosa.

      → Bom dia! Meu nome é Macto e sou investigador da polícia civil. Estou investigando um crime. Posso conversar com o dono?

      → Crime? → Ela parecia nervosa.

      → Sim.

      → Que tipo de crime?

      → Assassinato. Você quer chamar o dono, por favor?

      → É dona. A-Aguarde um minuto, sim?

      → Obrigado.

      A garota sumiu, depois de trancar a porta.

      Esperou por aproximadamente cinco minutos. Chegou a pensar que eles não o deixariam entrar. Se isso se confirmasse, seria obrigado a obter um mandado.

      Mas não foi necessário. A porta tornou a se abrir e uma senhora morena e bonita, que aparentava ter mais de cinquenta anos, surgiu, toda sorrisos. Usava calça jeans e blusa discreta.

      → Bom dia! Em que posso servi-lo, policial?

      → Bom dia! Meu nome é Macto e estou investigando um crime. Posso conversar com a senhora?

      → Claro. Por favor, entre.

      → Obrigado.

      → Acompanhe-me.

      Passou pela porta e percorreu → atrás da mulher → um estreito corredor, até alcançar a escadaria que dava acesso ao andar superior.

      Subiram.

      Uma vez lá em cima, entraram numa sala espaçosa.

      → Sente-se, policial. Quer beber alguma coisa?

      Sentou-se num sofá de seis lugares, de frente para a sacada. O ar fresco da tarde entrava, amenizando o calor.

      → Não, obrigado.

      Já ia iniciar as perguntas, quando...

      → O senhor é mesmo policial?

      Ante a inesperada indagação, retirou o distintivo do bolso e → sem proferir uma palavra sequer → o entregou a ela. Esperou. Sério. Fixando os olhos nela. Tentando penetrar naquela mente analítica. Um minuto depois a mulher devolveu o distintivo:

      → Desculpe, mas o senhor poderia me dizer que crime está investigando?

      → Assassinato → guardou o distintivo. → Um homem foi morto, na madrugada do domingo. Pregado numa cruz. A senhora deve ter visto a notícia, nos jornais ou na televisão.

      → Ah, sim. O da crucificação. Terrível! Quem seria capaz de cometer uma monstruosidade dessas?

      → É o que estou tentando descobrir.

      Ela permaneceu em silêncio. Tensa. Na expectativa. Como que tentando adivinhar o que o seu clube tinha a ver com o referido crime.

      Tirou a caderneta e a caneta do bolso da jaqueta.

      → Como é seu nome?

      → Viviane Selly. Mas todos me conhecem por Branca.

      → Bem, dona Branca, gostaria que me falasse a respeito de uma de suas funcionárias.

      Ela arqueou as sobrancelhas:

      → Minha funcionária? Qual delas?

      → Seu nome é Ana. É branca, alta, magra e possui os cabelos pretos, lisos, longos e escorridos. Peitões. Tatuagens.

      → Ah, sim. → Sorriu. → O senhor está falando da Ana. Só que a Ana não trabalha mais conosco.

      → Por quê?

      → Por que o quê?

      → Por que ela não trabalha mais aqui?

      → Pediu demissão, há cerca de vinte dias. → Pareceu pensar, por uma fração de minuto. → Hoje é segunda? Vinte e dois dias, para ser mais exata. Disse que tinha arrumado um emprego melhor.

      → O que ela fazia aqui, precisamente?

      → Era garçonete.

      → Dançava?

      → Não. Apenas atendia os clientes, de mesa em mesa.

      → Trabalhou aqui por quanto tempo?

      → Apenas dois meses e alguns dias.

      → Como a conheceu?

      → Ela simplesmente apareceu na casa e me pediu um emprego. Por coincidência, havia uma vaga de garçonete e eu decidi contratá-la.

      → Contratou-a sem conhecê-la?

      → Sim. Isso é mais comum do que o senhor imagina. No meio em que vivemos tudo tem que ser feito de modo organizado e objetivo. Não podemos perder tempo com subterfúgios burocráticos. Pelo menos comigo é assim. Claro que, antes, Ana trabalhou um mês, em caráter experimental. Tinha que ser. E portou-se muito bem, por sinal, passando no teste. Como recompensa, optei por contratá-la de fato.

      → Ficou surpresa com o pedido de demissão dela?

      → Muito. Não esperava, sinceramente falando. Surgiu de repente e foi embora de repente. Como um fantasma.

      → Ela disse que tipo de emprego havia arrumado?

      → Não.

      → Não fez questão de saber?

      → Não, pois não fazia a menor diferença.

      → Ela tinha amigos? Ou namorado?

      → Não. A Ana era excessivamente tímida e quase não conversava com ninguém. Falava pouco. Séria, preferia ficar na dela, trabalhando e deixando os pedidos nas mesas. Nunca a vi se envolver com nenhum cliente. E muito menos conversar com qualquer uma de nossas meninas. Talvez por ser mais velha. Talvez por ser diferente. Sei lá. Mas era uma boa funcionária. Não posso me queixar.

      Finda as perguntas, optou por ser mais incisivo:

      → Sabe onde posso encontrá-la?

      Pausa.

      Ela suspirou.

      → A Ana teria algo a ver com esse crime, policial?

      → Quem sabe? Ela conhecia o morto. Esteve com ele duas vezes. Talvez possa me dizer alguma coisa.

      → O morto costumava frequentar minha casa?

      → Na verdade, ele frequentava todas as casas dessa rua. Era um solitário e gostava de sexo... fácil... digamos assim.

      → Devia ser um homem feliz → ela indagou, com um toque discreto de malícia. No que estaria realmente pensando?

      → Talvez. → Sem retrucar o comentário sarcástico, voltou a insistir: → Então? A senhora tem o endereço da Ana?

      → Tenho, sim. Só não sei se está atualizado. Um minuto.

      Levantou-se e abriu uma das gavetas da estante de madeira, localizada nos fundos da sala. Voltou e tornou a se sentar, com um caderno de capa verde na mão.

      Folheou o caderno.

      → Aqui está. Rua Galdino Serpp, n° 1275, bairro “FZ”. Não forneceu nenhum número de telefone. Só o endereço mesmo.

      Anotou na caderneta.

      → Tem ponto de referência?

      → Não.

      → Ela deixou cópia de um comprovante de residência?

      → Não.

      → Deixou cópia da identidade ou de outro documento?

      → Não.

      Não pôde esconder a surpresa:

      → A senhora a contratou sem pedir nada?

      → Sim. 

      → Todas as suas funcionárias são contratadas desse jeito?

      → A maioria sim. E nunca tive problemas.

      → Como realizava o pagamento da Ana?

      → Quinzenalmente, a dinheiro. Segunda sim, segunda não.

      → Sem recibo?

      → Sem recibo.

      Aquilo não estava cheirando bem, pensou.

      Mas preferiu não dizer nada, para não lhe causar desconforto. Aquela mulher parecia confiante, como se...

      → A senhora tem algo mais a dizer, a respeito da Ana?

      Ela refletiu por alguns segundos, antes de responder:

      → Somente uma coisinha: pelo pouco que conheci da Ana, posso me arriscar a afirmar que não acho que ela tenha alguma coisa a ver com esse monstruoso assassinato.

      → Ora, ora. E por que chegou a essa conclusão?

      → Por causa da timidez dela. Uma mulher com aquele nível de retraimento, de introspecção, não seria capaz de cometer tamanha barbaridade. Não teria lógica. Talvez eu esteja enganada, policial, mas é essa minha opinião.

      Levantou-se. Não quis contradizer sua declaração e dizer-lhe que, em 80% dos casos de crimes de morte, quem os cometia era tímido e retraído. Não valeria à pena discutir sobre isso.

      → Tenho que ir. Bem, dona... Branca... → sacou o cartão do bolso. → Agradeço-lhe por sua cooperação. Caso lembre de mais algum dado ou informação, por favor, ligue para esse número, ok? → Entregou-lhe o cartão.

      → Tudo bem. → Ela guardou o cartão dentro do caderno. Parecia imensamente aliviada.

      Saiu da boate Rasputin às 15h15min.

      Inquieto e nem um pouco satisfeito.

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