LOGINCapítulo 4 — Um casamento sem amor
Narradora: Isabella Eu devia estar completamente maluca. Essa era a única explicação razoável para o fato de estar parada na calçada de um cartório, usando um vestido branco, segurando um buquê amassado e considerando seriamente me casar com um homem cujo sobrenome eu sequer sabia. Um desconhecido! Um entregador que eu conhecera havia poucas horas e que, aparentemente, tinha perdido o juízo junto com a noiva dele. Olhei para Murilo, que continuava me encarando com uma tranquilidade irritante. — Você está esperando uma resposta? — perguntei. — Estou. — Pois pode esperar sentado. Ele olhou para o banco próximo à entrada. — Tem um ali. Fechei os olhos por um instante. Meu Deus, me dá paciência, porque, se me der força, eu vou bater nesse homem com o buquê! — Você não leva nada a sério? — Levo. Só não vejo motivo para transformar tudo em um funeral. — Eu acabei de ser abandonada no dia do meu casamento! — Eu sei. Estava lá quando você quase engasgou com o café. Abri a boca, indignada. — Você é insuportável! — E você continua aqui conversando comigo. A resposta me calou por dois segundos. Dois segundos que ele aproveitou para sorrir daquele jeito convencido, como se tivesse acabado de ganhar uma discussão. O pior era que eu não podia negar. Apesar de toda a loucura daquela situação, eu continuava ali. Talvez porque, pela primeira vez naquele dia, alguém não estivesse olhando para mim com pena. Murilo não me tratava como uma mulher descartada, nem tentava me convencer de que eu deveria esquecer Roberto e seguir em frente como se três anos da minha vida não tivessem significado nada. Ele simplesmente conversava comigo. Fazia piadas idiotas. Pagava meu café. E, por mais absurdo que parecesse, tinha acabado de me oferecer a possibilidade de um recomeço. Um recomeço que envolvia uma aliança e um documento oficial. Eu precisava urgentemente de uma avaliação psicológica. — Antes de qualquer coisa, precisamos conversar — anunciei. Murilo assentiu. — Estou ouvindo, futura esposa. — Não me chama assim! — Certo, futura desconhecida com quem talvez eu me case. — Você faz isso de propósito, não faz? — Faço o quê? — Me irrita! — Está funcionando? — Murilo! Ele ergueu as mãos, rendido, embora o sorriso continuasse estampado no rosto. Respirei fundo e apontei para um banco perto da entrada. Precisávamos estabelecer algumas coisas antes que eu cometesse a maior loucura da minha vida. Ele se sentou ao meu lado, apoiando o capacete sobre os joelhos. — Primeiro — comecei —, não vou aceitar me casar com você para servir de vingança contra sua ex-noiva. O sorriso dele desapareceu um pouco. — Não estou procurando vingança. — Ótimo. Porque eu não vou participar de joguinhos para fazer mulher nenhuma sentir ciúme. — Concordo. — Segundo: não vou fingir que estou apaixonada por você. Não estou. Você é bonito, mas isso não significa absolutamente nada. Murilo ergueu uma sobrancelha. — Bonito? Senti meu rosto esquentar. — Não se aproveita! Foi uma observação, não um elogio. — Claro. Uma observação muito generosa. — Quer continuar ouvindo minhas condições ou prefere ficar admirando a própria beleza? Ele soltou uma risada baixa. — Pode continuar, Isabella. Ajeitei o vestido e prossegui. — Terceiro: casamento não dá a ninguém o direito de mandar no outro. Eu não vou aceitar que você controle minhas roupas, minhas amizades, meus horários ou o lugar onde trabalho. — Certo. — Quarto: nada de achar que uma aliança significa que você tem direito ao meu corpo. Dessa vez, ele ficou sério. — Você nunca vai precisar fazer nada que não queira comigo. A resposta veio tão rapidamente que perdi por um instante a próxima frase. Murilo sustentou meu olhar, sem piadas ou provocações. — Se a gente se casar, Isabella, você continua sendo dona de si mesma. Não vou exigir intimidade, não vou forçar nada e não vou usar o casamento como desculpa para ultrapassar seus limites. Engoli em seco. Eu não esperava ouvir aquilo de um homem que tinha acabado de propor casamento a uma desconhecida. — Certo — murmurei. — Mais alguma coisa? — Várias. Mas vou tentar não escrever um contrato de cinquenta páginas. — Agradeço. — Não agradeça ainda. Também quero honestidade. Se você tiver algum problema sério, se existir alguma coisa que possa afetar minha vida, eu preciso saber. Por um instante, ele ficou imóvel. Foi rápido. Tão rápido que outra pessoa talvez nem percebesse. Mas eu percebi. — Concordo — respondeu. Observei seu rosto, desconfiada. — Você hesitou. — Estou tentando entender como uma mulher que me conhece há tão pouco tempo já conseguiu estabelecer regras suficientes para administrar uma empresa. — Eu sou organizada. — Percebi. — E não terminei. — Imaginei. Apontei o dedo para ele. — Eu trabalho na escola e vou continuar trabalhando. Não vou abandonar meu emprego porque me casei. Também tenho minha casa, minhas coisas e minha vida. Não vou simplesmente jogar tudo para o alto porque você apareceu com essa ideia maluca. Murilo passou a mão pela barba. — Você acha que eu pediria para abandonar seu trabalho? — Não conheço você o suficiente para achar coisa nenhuma. — Justo. Ele parecia genuinamente surpreso com a minha preocupação em continuar trabalhando, mas não insistiu. Eu não tinha a menor intenção de depender financeiramente de um homem que acabara de conhecer. Já bastava o que Roberto tinha feito. Eu havia passado anos tentando construir uma vida simples, mas minha. Tinha meu salário, meu pequeno lar, minhas responsabilidades e a sensação de que, apesar de todas as dificuldades, conseguia me sustentar. Não pretendia perder isso. — E você? — perguntei. — Tem alguma condição? Murilo pensou por alguns segundos. — Tenho uma. — Qual? — Não quero que você se case comigo acreditando que precisa me salvar. Franzi a testa. — Salvar você de quê? Ele desviou os olhos para a rua. — De nada. Só não quero que sinta pena de mim porque minha noiva foi embora. Aquela resposta mexeu comigo de uma maneira inesperada. — Eu não tenho pena de você, Murilo. Ele voltou a me olhar. — Não? — Não. Tenho pena de quem precisa abandonar alguém para descobrir que não ama essa pessoa. Você só teve o azar de descobrir quem ela era antes de se casar. Ele ficou quieto. Pela primeira vez desde que nos conhecemos, não teve uma resposta provocadora na ponta da língua. E eu gostei disso. Talvez aquele homem também estivesse machucado de um jeito que não conseguia explicar. Talvez nós dois estivéssemos tentando encontrar alguma forma de sair daquele dia sem levar a humilhação para o resto da vida. Mas uma coisa precisava ficar clara. — Não vou prometer amor — falei. — Eu também não vou pedir. — E não sei se algum dia vou conseguir amar você. — Isabella, você não precisa decidir isso hoje. Aquela frase me fez baixar os olhos. Era estranho ouvir aquilo de um homem que estava propondo casamento. Roberto sempre falava do futuro como se eu tivesse a obrigação de me encaixar nos planos dele. Murilo, por outro lado, parecia disposto a deixar que eu escolhesse até mesmo a possibilidade de não gostar dele. Eu ainda não sabia se aquilo era sensatez ou loucura. Talvez fosse um pouco dos dois. Peguei meu celular. — Preciso ligar para a Mariana. Murilo assentiu. — Sua amiga? — Minha melhor amiga. E, se eu me casar sem contar nada a ela, provavelmente vou perder a única pessoa que ainda vai ter paciência para me ouvir reclamar da vida. — Ela parece importante. — É a pessoa mais importante do mundo quando preciso de ajuda. E a mais perigosa quando descobre que fiz alguma besteira. — Então imagino que ela vá gostar bastante de mim. — Se você sobreviver aos primeiros cinco minutos de conversa, já será uma vitória. Disquei o número e levei o aparelho ao ouvido. Mariana atendeu no segundo toque. — Amiga? Finalmente! Onde você está? Eu estou te ligando desde cedo! O que aconteceu? O Roberto já chegou? Vocês já casaram? Me conta tudo! Fechei os olhos. Era exatamente por isso que eu precisava respirar antes de conversar com ela. — Mah, calma. — Como assim, calma? Você estava indo casar! Eu estou aqui quase arrancando os cabelos! Fala comigo, mulher! Olhei de relance para Murilo. Ele estava fingindo não prestar atenção, mas o sorriso discreto denunciava que ouvia cada palavra. — O Roberto não vai mais se casar comigo. O silêncio do outro lado foi tão repentino que quase conferi se a ligação tinha caído. — Como é que é? Minha garganta apertou. Eu já havia contado aquela história a Murilo, mas falar novamente parecia abrir uma ferida que eu mal tinha conseguido cobrir. — Ele apareceu com outra mulher. Disse que não queria mais ficar comigo. E… — Respirei fundo. — Disse que começou a namorar comigo por causa de uma aposta. — O QUÊ?! Afastei o celular da orelha. Murilo virou o rosto, tentando esconder uma risada. — Mariana, pelo amor de Deus! — NÃO, PELO AMOR DE DEUS NADA! EU VOU ENCONTRAR ESSE DESGRAÇADO E… — Mah! — ELE FEZ UMA APOSTA COM VOCÊ? TRÊS ANOS, ISABELLA! TRÊS ANOS! EU VOU ARRANCAR CADA FIO DE CABELO DA CABEÇA DELE! Apesar de tudo, uma risada escapou dos meus lábios. Eu sabia que Mariana ficaria furiosa. Ela nunca gostou muito de Roberto e sempre dizia que ele tinha cara de quem se olhava demais no espelho. Mas ouvir a indignação dela me fez sentir um pouco menos sozinha. — Eu estou bem — menti. — Não está, não. Você está tentando parecer forte, e eu conheço você. Onde você está? Vou te buscar. Olhei para o cartório. — Ainda estou aqui. — Então fique aí. Estou indo. — Espera! Não precisa. — Isabella, não começa! Fechei os olhos e tomei coragem. — Mah, eu preciso te contar outra coisa. — O quê? Olhei para Murilo. Ele ergueu o queixo, esperando. Meu coração começou a bater mais rápido. — Eu conheci um homem. Silêncio. — Um homem? — Mariana repetiu, devagar. — Sim. — Hoje? — Sim. — No dia em que você foi abandonada no cartório? — Sim. — Isabella, você está me assustando. — Eu sei. — Você está chorando? — Não. — Está bêbada? — Não! — Então por que sua voz está com esse tom de quem vai anunciar que comprou uma passagem só de ida para outro planeta? Passei a mão pelo rosto. — Porque talvez eu esteja prestes a fazer uma besteira. — Que besteira? Respirei fundo. — Estou pensando em me casar com ele. O silêncio que se seguiu foi tão absoluto que ouvi um ruído distante do outro lado da ligação. Depois, Mariana falou: — Você bateu a cabeça? Soltei uma gargalhada involuntária. Murilo também riu, dessa vez sem disfarçar. — Não acredito que vocês dois estão me perguntando a mesma coisa! — Dois? — Mariana gritou. — Tem mais alguém aí? Quem é esse homem? Qual é o nome dele? Você conhece esse sujeito? Ele é casado? É um assassino? É um golpista? Isabella, você perdeu completamente o juízo? — O nome dele é Murilo. Ele também foi abandonado pela noiva hoje. — E a solução para isso é casar um com o outro?! — Quando você coloca dessa maneira, parece uma ideia péssima. — PORQUE É UMA IDEIA PÉSSIMA! Abaixei o celular por um instante. Mariana tinha razão em desconfiar. Eu mesma estava desconfiada. Se uma amiga me ligasse contando que pretendia casar com um desconhecido poucas horas depois de ser abandonada, eu provavelmente faria as mesmas perguntas. Talvez até chamasse a polícia. — Eu sei que parece loucura — falei, voltando a colocar o aparelho no ouvido. — Mas não quero passar a noite em casa chorando por causa do Roberto. Não quero ficar me perguntando por que não fui suficiente para ele. Estou cansada de me sentir como se tivesse perdido alguma coisa. Minha voz ficou mais baixa. — Eu sei que não posso apagar o que aconteceu, Mah. Mas posso decidir o que vou fazer daqui para frente. Do outro lado, Mariana ficou em silêncio. Quando voltou a falar, sua voz estava mais suave. — Amiga, você não precisa provar nada para ninguém. Muito menos para aquele idiota. — Eu sei. — Então não se case para mostrar que superou. Não faça isso para provocar ciúme. E, pelo amor de Deus, não aceite nada porque está com medo de ficar sozinha. Aquelas palavras me atingiram em cheio. Olhei para Murilo, que agora estava sério, respeitando minha conversa sem tentar se meter. — Eu não quero ficar sozinha para sempre — confessei. — Mas também não quero aceitar qualquer pessoa só para ter alguém. Eu só… quero sentir que minha vida continua sendo minha. Mariana soltou um suspiro. — Eu queria poder te abraçar agora. Meus olhos arderam. — Eu também. — Me promete que vai pensar direito. Que vai fazer perguntas. Que não vai sair assinando qualquer papel só porque esse homem tem uma cara bonita. Olhei para Murilo novamente. Ele percebeu e abriu um sorriso convencido. Revirei os olhos. — Não prometo a última parte. — ISABELLA! — Estou brincando, Mah! — Eu vou matar você. Juro que vou matar você! Ri, enxugando discretamente o canto do olho. — Eu vou pensar. Prometo. — E me manda o endereço desse homem. — Para quê? — Para saber onde encontrar você se ele for um maluco. — Você nem sabe se eu vou me casar! — Com você, nunca se sabe. Despedi-me depois de mais algumas recomendações, ameaças e declarações de amor. Quando desliguei, fiquei olhando para a tela apagada. Mariana não havia aprovado minha ideia. Mas também não tinha me tratado como uma idiota por estar ferida. Ela apenas queria ter certeza de que eu não estava entregando minha vida nas mãos de alguém que poderia me machucar ainda mais. E eu precisava ter essa mesma certeza. Guardei o celular na bolsa e me virei para Murilo. — Minha amiga acha que você é um psicopata. — Sua amiga parece inteligente. — Ela também quer seu endereço. — Devo me preocupar? — Muito. Ele riu. — E o que você decidiu? Olhei para o cartório, para o buquê nas minhas mãos e para o homem que continuava me esperando sem exigir uma resposta. Eu não queria me casar por vingança. Não queria provar nada a Roberto. Queria apenas me recusar a deixar que ele tivesse o poder de definir o resto da minha vida. — Vou fazer isso — respondi. Murilo não sorriu imediatamente. — Tem certeza? — Não. Ele franziu a testa. — Isabella… — Eu não tenho certeza de absolutamente nada, Murilo! Não tenho certeza de que estou fazendo a coisa certa, não tenho certeza de que vamos conseguir conviver e não tenho certeza de que não vou me arrepender amanhã. Dei um passo em sua direção. — Mas tenho certeza de que não quero passar o resto da minha vida me escondendo por causa do que aquele homem fez comigo. Murilo me observou em silêncio. Então assentiu. — Certo. — Certo? — Certo. Vamos descobrir o que precisamos fazer. Ele pegou o capacete, mas não se afastou. — E, Isabella? — O quê? — Se mudar de ideia, nós vamos embora. Sem discussão. Aquela resposta me surpreendeu. — Você não vai ficar bravo? — Por quê? Porque você decidiu não se casar com um desconhecido? Seria uma decisão bastante sensata. Não consegui evitar o sorriso. — Você realmente não é normal. — Já estabelecemos isso. Voltamos ao cartório. A recepcionista nos olhou com uma expressão curiosa quando nos aproximamos do balcão. Provavelmente se lembrava de mim, da minha entrada triunfal pela manhã e da maneira como havia saído de lá com o vestido branco e o rosto molhado. Eu não a culpava por estar curiosa. Se alguém me contasse que a mulher abandonada no cartório voltara algumas horas depois para se casar com outro homem, eu também gostaria de acompanhar a história. — Boa tarde novamente — falei. A funcionária ergueu os olhos. — Boa tarde. Em que posso ajudar? Engoli em seco. Ainda dava tempo de fugir. Ainda dava tempo de dizer que tinha pensado melhor, que aquilo era uma loucura e que preferia voltar para minha casa, tomar um banho e dormir até esquecer o nome de Roberto. Mas olhei para Murilo. Ele estava ao meu lado, tranquilo, sem tentar me convencer de nada. E eu me lembrei de uma coisa importante: pela primeira vez naquele dia, a escolha era minha. — Nós queremos saber se ainda é possível realizar um casamento hoje — anunciei. A recepcionista piscou algumas vezes. Depois, olhou para mim. Olhou para Murilo. Olhou para o meu vestido branco. — Hoje? — Sim. — Vocês já deram entrada no processo? — Não — respondi. Ela respirou fundo, começou a explicar os procedimentos e nos orientou sobre os documentos necessários, os prazos e as exigências legais. A cada nova informação, minha coragem diminuía um pouco. Não era tão simples quanto assinar um papel e sair casada. Precisávamos verificar a documentação, cumprir os requisitos e confirmar o que poderia ser feito naquele mesmo dia. Durante alguns minutos, fiquei em silêncio enquanto Murilo conversava com a funcionária e eu tentava organizar meus pensamentos. Quando surgiu a possibilidade concreta de oficializar nossa decisão, senti um frio na barriga. Não era mais uma brincadeira. Não era mais uma proposta absurda feita durante um café. Era real. Eu poderia sair daquele cartório com um marido. Um homem que conhecia meu nome, sabia que eu havia sido traída e tinha acabado de descobrir que eu era teimosa, desconfiada e péssima em aceitar ajuda. E eu sabia ainda menos sobre ele. — Isabella? A voz de Murilo me trouxe de volta. Olhei para ele. — O quê? Ele se aproximou um pouco, falando baixo para que a funcionária não precisasse ouvir. — Ainda podemos parar. Observei seu rosto. — Você quer parar? — Estou perguntando se você quer. Por algum motivo, aquela pergunta me emocionou mais do que qualquer promessa romântica poderia ter feito. Ele não estava tentando me convencer. Não estava usando minha dor para conseguir uma esposa. Estava me dando uma saída. E, naquele momento, percebi que precisava tomar minha decisão por mim mesma. Não por Roberto. Não por Carla. Não para provar que eu era forte. Por mim. Respirei fundo. — Eu quero continuar. Murilo assentiu, sem comemorar nem fazer qualquer comentário idiota. A funcionária voltou a nos orientar, e seguimos com os procedimentos necessários. Cada etapa parecia me aproximar de uma vida que eu jamais havia imaginado. Quando finalmente chegou o momento de formalizar a união, minhas mãos estavam geladas. Olhei para o documento diante de mim. Meu nome estava ali. Isabella Duarte. Ao lado, o nome do homem que, poucas horas antes, era apenas um estranho sentado perto de mim em uma cafeteria. Murilo. Aquele nome parecia pequeno demais para a mudança que estava prestes a provocar. Peguei a caneta. Parei. Minha mão tremia. — Está nervosa? — ele perguntou baixinho. Olhei para ele. — Não. Estou pensando em quantas pessoas vão achar que enlouqueci. — Algumas provavelmente já achavam isso antes de hoje. Soltei uma risada nervosa. — Você não ajuda. — Estou tentando. — Tente em silêncio. Ele ergueu as mãos, rendido. Olhei novamente para o documento. Pensei na menina que eu era quando conheci Roberto. Pensei nos planos que fiz, nas conversas sobre o futuro, nas vezes em que imaginei como seria entrar em uma igreja usando um vestido branco e sair de mãos dadas com o homem que amava. Aquela menina merecia ter sido tratada com carinho. Merecia sinceridade. Merecia alguém que não transformasse seus sentimentos em uma aposta. Eu não podia voltar no tempo para protegê-la. Mas podia parar de permitir que a crueldade de Roberto continuasse decidindo por mim. Apertei a caneta. E assinei. Quando terminei, fiquei olhando para minha assinatura por alguns segundos, como se esperasse que as letras desaparecessem e me devolvessem à vida de algumas horas antes. Não desapareceram. Murilo assinou também. O restante aconteceu depressa, embora, para mim, cada segundo parecesse durar uma eternidade. Quando o funcionário confirmou a conclusão dos procedimentos e anunciou que estávamos oficialmente casados, meu coração quase saiu pela boca. Eu estava casada. Casada com Murilo. Um homem que eu mal conhecia. Um homem que tinha me oferecido um café, feito piadas nos meus piores momentos e prometido respeitar minha liberdade. Um homem que agora era meu marido. Olhei para ele, ainda tentando compreender o que havíamos feito. Murilo segurava o documento com uma expressão estranhamente satisfeita. Então virou o rosto na minha direção e sorriu. — Parabéns, esposa. Agora você está presa a mim. Aquela frase foi suficiente para trazer minha personalidade de volta. Ergui o queixo, cruzei os braços e encarei meu recém-marido. — Experimente me prender para ver o que acontece. Murilo soltou uma gargalhada. E, pela primeira vez naquele dia, eu também ri sem sentir que estava tentando esconder alguma dor. Talvez aquele casamento fosse uma loucura. Talvez nós dois tivéssemos acabado de cometer o maior erro das nossas vidas. Mas, quando saímos do cartório lado a lado, percebi que já não estava carregando apenas o peso de uma traição. Eu estava entrando em uma história completamente desconhecida. E ainda não fazia ideia de que o homem ao meu lado escondia segredos capazes de transformar tudo o que eu acreditava saber sobre ele. Recadinho da autora ❤️🔥 MENINAS, ELES CASARAM! 💍😂 Mas será que Isabella vai aguentar dividir a vida com esse entregador provocador? Comentem, porque agora começa a confusão de marido e mulher! ❤️Capítulo 6 — Bem-vindo ao meu mundoNarradora: IsabellaEu tinha acabado de me casar com um homem que conhecia havia poucas horas.Meu marido era um entregador de motocicleta, tinha um senso de humor duvidoso, atendia ligações misteriosas e parecia considerar normal propor casamento a uma desconhecida depois de tomar café com ela.Definitivamente, minha vida tinha saído dos trilhos.E, antes que eu fosse parar em algum lugar desconhecido, havia uma coisa que precisava fazer.Murilo precisava conhecer a minha realidade.Não queria que ele imaginasse que eu era uma mulher rica, nem que tivesse expectativas sobre o que eu poderia oferecer. Eu não tinha uma vida luxuosa, não possuía carros importados e muito menos uma conta bancária recheada.Eu tinha meu trabalho, minha casinha e as coisas que conseguira conquistar com muito esforço.Era pouco para algumas pessoas.Para mim, era tudo.— Murilo, vamos passar na minha casa primeiro — anunciei, enquanto caminhávamos em direção à motocicleta
Capítulo 5 — Meu marido é um entregadorNarrador: MuriloEu tinha enfrentado homens armados, resolvido problemas que fariam muita gente perder o sono e tomado decisões capazes de mudar o destino de centenas de pessoas.Mas nada, absolutamente nada, havia me preparado para sair de um cartório com uma esposa que ameaçava me colocar no meu devido lugar a cada cinco minutos.— Você está sorrindo por quê? — Isabella perguntou, caminhando ao meu lado.Apaguei o sorriso imediatamente.— Não estou sorrindo.— Está, sim. Está com essa cara de quem acabou de aprontar alguma coisa.— Talvez eu esteja feliz por ter me casado.Ela parou no meio da calçada.— Você está feliz?Olhei para ela.— Quer que eu chore?— Não, mas… Murilo, nós nos conhecemos hoje!— Você já mencionou isso umas vinte vezes.— E vou mencionar mais vinte, se for necessário! Você tem noção de que agora somos marido e mulher?Olhei para a aliança no meu dedo.Era uma peça simples, discreta, mas parecia estranhamente importante.
Capítulo 4 — Um casamento sem amorNarradora: IsabellaEu devia estar completamente maluca.Essa era a única explicação razoável para o fato de estar parada na calçada de um cartório, usando um vestido branco, segurando um buquê amassado e considerando seriamente me casar com um homem cujo sobrenome eu sequer sabia.Um desconhecido!Um entregador que eu conhecera havia poucas horas e que, aparentemente, tinha perdido o juízo junto com a noiva dele.Olhei para Murilo, que continuava me encarando com uma tranquilidade irritante.— Você está esperando uma resposta? — perguntei.— Estou.— Pois pode esperar sentado.Ele olhou para o banco próximo à entrada.— Tem um ali.Fechei os olhos por um instante.Meu Deus, me dá paciência, porque, se me der força, eu vou bater nesse homem com o buquê!— Você não leva nada a sério?— Levo. Só não vejo motivo para transformar tudo em um funeral.— Eu acabei de ser abandonada no dia do meu casamento!— Eu sei. Estava lá quando você quase engasgou com
Capítulo 3 — E se a gente se casasse?Narrador: MuriloEu não costumava perder tempo com desconhecidos.Muito menos com desconhecidas chorando em banheiros de cartório, vestidas de branco e carregando flores que, pelo visto, não teriam a quem entregar.Ainda assim, eu continuava sentado naquela cafeteria simples, diante de Isabella Duarte, como se não tivesse dezenas de assuntos esperando por mim.O celular vibrava no bolso da minha calça pela terceira vez em poucos minutos. Eu sabia quem estava ligando. Caio provavelmente já estava perdendo a paciência, e Jefinho devia estar inventando alguma desculpa para justificar meu desaparecimento.Problema deles.Naquele momento, eu estava ocupado demais tentando entender a mulher à minha frente.Isabella segurava o copo de café com as duas mãos, olhando para a rua através da vitrine. Seus olhos ainda estavam avermelhados, mas ela já não chorava. Havia alguma coisa interessante naquela garota. Ela tinha sido humilhada no dia do próprio casamen
Capítulo 2 — Você também foi descartado?Narradora: Isabella— Pelo visto, hoje não foi um bom dia para nenhum de nós, hein, noivinha?Encarei o desconhecido por alguns segundos, tentando decidir se estava diante de um homem sem noção ou se o universo havia resolvido me castigar com mais uma humilhação naquela manhã.Eu acabara de ser abandonada no dia do meu casamento. Meu primeiro namorado havia confessado que me conquistara por causa de uma aposta, me trocado por uma mulher rica e ido embora sem olhar para trás.E aquele sujeito estava me chamando de noivinha como se estivéssemos conversando sobre o tempo!— Você sempre aborda mulheres chorando ou hoje é uma ocasião especial? — perguntei, limpando o rosto.Ele ergueu uma sobrancelha.— Depende. Você sempre recebe desconhecidos com essa simpatia ou eu tive o privilégio?Revirei os olhos.— O meu dia não é da sua conta.— Ainda bem. Porque, se fosse, eu pediria reembolso.Abri a boca, indignada.Aquele homem estava brincando comigo?
Capítulo 1 — O dia em que meu primeiro amor me destruiuNarradora: IsabellaAcordei sorrindo.Eram seis horas da manhã, e eu já estava de pé, parada diante do pequeno espelho pendurado na parede do meu quarto, tentando controlar a ansiedade que fazia meu coração bater tão depressa.Naquela manhã, eu me casaria.Eu, Isabella Duarte, aos vinte e um anos, finalmente realizaria o sonho que carregava desde menina. Teria uma família, uma casa para chamar de nossa e alguém esperando por mim no fim de cada dia.Pelo menos era nisso que eu acreditava.— Meu Deus, Isabella, você vai casar! — murmurei para meu próprio reflexo, levando as mãos ao rosto. — Você vai casar!Comecei a rir sozinha, feito uma maluca.Minha casa era pequena, escondida em um beco estreito da parte mais pobre da Rocinha. A parede da cozinha precisava de uma pintura, a janela do quarto não fechava direito e o chuveiro tinha o péssimo hábito de decidir sozinho quando queria funcionar.Mas era minha.Eu pagava minhas contas







