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last update publish date: 2026-11-04 04:48:01

Capítulo 5 — Meu marido é um entregador

Narrador: Murilo

Eu tinha enfrentado homens armados, resolvido problemas que fariam muita gente perder o sono e tomado decisões capazes de mudar o destino de centenas de pessoas.

Mas nada, absolutamente nada, havia me preparado para sair de um cartório com uma esposa que ameaçava me colocar no meu devido lugar a cada cinco minutos.

— Você está sorrindo por quê? — Isabella perguntou, caminhando ao meu lado.

Apaguei o sorriso imediatamente.

— Não estou sorrindo.

— Está, sim. Está com essa cara de quem acabou de aprontar alguma coisa.

— Talvez eu esteja feliz por ter me casado.

Ela parou no meio da calçada.

— Você está feliz?

Olhei para ela.

— Quer que eu chore?

— Não, mas… Murilo, nós nos conhecemos hoje!

— Você já mencionou isso umas vinte vezes.

— E vou mencionar mais vinte, se for necessário! Você tem noção de que agora somos marido e mulher?

Olhei para a aliança no meu dedo.

Era uma peça simples, discreta, mas parecia estranhamente importante. Eu nunca havia imaginado que usaria uma aliança por vontade própria outra vez. Depois do que aconteceu com Bianca, a última coisa que eu queria era me envolver com alguém.

E, ainda assim, lá estava eu.

Casado com uma mulher que me mandava calar a boca sem nenhuma cerimônia.

— Tenho, esposa.

— Para de me chamar assim!

— Mas você é minha esposa.

— Eu sei! Não precisa ficar repetindo!

— Certo, senhora Duarte.

Ela me lançou um olhar mortal.

— Você está fazendo isso de propósito.

— Talvez.

— Eu vou me arrepender.

— Provavelmente.

Isabella soltou um suspiro tão dramático que quase perguntei se precisava de atendimento médico.

Quase.

Eu ainda tinha algum instinto de sobrevivência.

Continuamos andando até a motocicleta estacionada perto da calçada. Peguei o capacete e estendi para ela.

— Coloca.

Isabella olhou para o capacete como se eu tivesse oferecido uma cobra.

— Você quer que eu suba nessa moto?

— Não, Isabella. Quero que você use o capacete como decoração. É uma peça muito bonita.

Ela apertou os olhos.

— Você não consegue falar uma frase normal?

— Consigo. Mas você parece gostar quando eu irrito você.

— Está muito enganado.

Mesmo reclamando, ela pegou o capacete.

Fiquei observando enquanto tentava ajustar a tira embaixo do queixo. Depois de alguns segundos, ela puxou o fecho de um lado, apertou do outro e fez uma careta.

— Isso está me enforcando.

Aproximei-me.

— Deixa eu ver.

— Eu consigo.

— Isabella, você está tentando colocar o fecho na parte errada.

— Eu sei colocar um capacete!

— Então por que está prendendo a tira no cabelo?

Ela parou.

Olhou para baixo.

Depois para mim.

— Se você rir, eu juro que jogo esse capacete na sua cabeça.

Segurei o riso enquanto ajustava a tira com cuidado, sem invadir mais o espaço dela do que o necessário.

Quando terminei, nossos olhos se encontraram por um instante.

Isabella ficou quieta.

Eu também.

Havia algo diferente naquele silêncio. Uma proximidade estranha entre duas pessoas que, até poucas horas antes, não sabiam sequer da existência uma da outra.

Ela foi a primeira a se afastar.

— Obrigada — murmurou.

— Disponha.

— E não pense que isso significa que eu gosto de você.

Sorri.

— Jamais cometeria esse erro.

Ela subiu na moto resmungando alguma coisa que preferi não perguntar.

Coloquei meu próprio capacete e montei logo depois. Quando senti as mãos dela hesitarem antes de segurarem minha cintura, precisei me controlar para não fazer outro comentário idiota.

— Pode segurar — avisei. — Não vou reclamar.

— Que bom. Porque eu não pretendo cair por causa de um marido que conheci hoje.

— Fique tranquila. Eu dirijo muito bem.

— Espero que sim. Ainda tenho muitas coisas para fazer nesta vida.

Liguei a motocicleta.

E parti com a mulher que, sem saber, acabara de entrar em um mundo muito maior do que imaginava.

O celular começou a vibrar antes mesmo de chegarmos à avenida principal.

Eu sabia quem estava ligando.

Caio.

Ignorei.

O aparelho vibrou novamente.

Dessa vez, era Jefinho.

Soltei um palavrão baixo dentro do capacete.

Eu deveria ter imaginado que minha ausência provocaria uma sequência de perguntas. Tinha saído para resolver um assunto pessoal e desaparecido por horas, sem informar a ninguém onde estava.

Para homens como Caio e Jefinho, isso era praticamente um convite para o caos.

Estacionei em uma rua mais tranquila, retirei o capacete e olhei para Isabella.

— Preciso atender uma ligação.

Ela desmontou da moto e tirou o próprio capacete.

— Pode atender. Eu não vou fugir.

— Não estava preocupado com isso.

— Ótimo. Porque, se eu fugisse, você nunca mais me encontraria.

— Você é muito confiante.

— E você é muito convencido.

Meu celular voltou a tocar.

Atendi.

— Fala, Caio.

— Finalmente! — A voz dele saiu carregada de irritação. — Onde você está?

— Ocupado.

— Isso eu percebi. O problema é que você saiu sem avisar ninguém, não respondeu às mensagens e está ignorando as ligações.

Olhei de relance para Isabella, que examinava uma vitrine do outro lado da calçada.

— Estou resolvendo um assunto pessoal.

Houve uma pausa.

— Que assunto pessoal?

— Caio, você está querendo fazer um relatório da minha vida agora?

— Não. Estou tentando entender por que o homem que nunca perde uma reunião importante resolveu desaparecer no meio da tarde.

— Então pare de tentar entender e cuide do que precisa ser feito.

Ele respirou fundo.

— Jefinho está perguntando por você.

— Diga que estou bem.

— Murilo…

— Depois conversamos.

Encerrei a ligação antes que ele pudesse continuar.

O celular vibrou imediatamente.

Jefinho.

Atendi com menos paciência do que deveria.

— O que foi?

— Patrão, está tudo certo?

Fechei os olhos.

Merda.

Isabella estava perto o suficiente para ouvir qualquer palavra mais alta. Virei um pouco o corpo, tentando manter a conversa discreta.

— Está tudo certo.

— O Caio disse que o senhor sumiu.

— Eu não sumi. Estou ocupado.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não.

— Precisa que eu vá até aí?

— Não, Jefinho.

Ele ficou em silêncio por um instante.

— Certo, patrão. Mas, se precisar…

— Eu aviso.

Desliguei.

Quando me virei, encontrei Isabella com os braços cruzados e uma expressão desconfiada.

— Patrão? — ela repetiu.

Meu estômago se contraiu por um segundo.

— O quê?

— O homem te chamou de patrão.

— Chamou?

Ela inclinou a cabeça.

— Murilo, eu estava aqui. Não fiquei surda de repente.

Soltei o ar lentamente.

— Ele tem esse costume.

— Que costume?

— De chamar as pessoas assim.

Isabella me encarou por alguns segundos.

— Você conhece uns entregadores muito estranhos.

— Conheço pessoas estranhas em geral.

— Estou começando a perceber.

Ela colocou o capacete debaixo do braço e me observou com aquela expressão que eu começava a reconhecer: a expressão de quem havia encontrado uma peça de um quebra-cabeça e pretendia descobrir onde ela se encaixava.

Eu precisava tomar cuidado.

Muito cuidado.

Isabella não parecia uma mulher que aceitaria respostas vagas para sempre.

E eu não estava disposto a revelar minha identidade antes de entender o que, exatamente, havia começado entre nós.

— Vamos? — perguntei, tentando mudar de assunto.

Ela estreitou os olhos.

— Vamos. Mas essa conversa não terminou.

— Imaginei.

O caminho até o lugar onde eu pretendia ficar com ela foi mais tranquilo do que eu esperava.

Isabella observava tudo com atenção. De vez em quando, perguntava alguma coisa sobre a região, sobre meu trabalho ou sobre a moto. Não eram perguntas invasivas, mas demonstravam que ela tentava entender a vida do homem com quem havia acabado de se casar.

Eu respondia apenas o necessário.

Não gostava de mentir.

Mas também não podia contar toda a verdade.

Quando chegamos a um trecho mais reservado, parei a motocicleta perto de uma pequena praça. Precisava fazer uma ligação para Caio antes de seguir.

Isabella desceu e começou a ajeitar a bolsa no ombro.

— Onde você mora, afinal? — perguntou.

A pergunta que eu vinha evitando.

Olhei para ela.

— Tenho uma casa aqui perto.

— Aqui perto onde?

— Não muito longe.

Ela soltou uma risada sem humor.

— Você percebe que é péssimo dando informações, não percebe?

— Estou começando a perceber.

— Murilo, eu acabei de me casar com você. Acho razoável querer saber onde vou dormir hoje.

A frase me atingiu com uma força inesperada.

Onde vou dormir hoje.

Era verdade. Eu havia feito uma proposta absurda, convencido uma desconhecida a considerar um recomeço e agora precisava decidir como acomodá-la sem arrastar minha vida inteira para cima dela.

A mansão estava fora de cogitação.

Funcionários, seguranças, motoristas e pessoas que me conheciam há anos fariam perguntas. A notícia de que eu havia me casado com uma mulher desconhecida se espalharia antes que eu conseguisse entender o que estava acontecendo.

Além disso, Isabella não precisava conhecer aquele mundo agora.

Não antes de eu saber se havia alguma possibilidade real de construirmos uma relação.

— Você vai conhecer a casa — respondi. — Só preciso resolver algumas coisas antes.

Ela cruzou os braços.

— Isso está ficando cada vez mais suspeito.

— Não estou escondendo um cadáver.

Isabella ficou imóvel.

Olhei para ela.

Ela olhou para mim.

— Essa é uma coisa muito estranha de se dizer para a própria esposa — declarou.

— Concordo.

— Você não ajuda em nada!

Quase ri.

— Isabella, eu só quero organizar as coisas antes de levar você para lá. Não estou pedindo que confie cegamente em mim.

Ela pareceu considerar a resposta.

— Espero mesmo que não. Porque confiança é uma coisa que se conquista.

— Concordo com você.

Aquela era uma das poucas coisas sobre as quais eu tinha certeza.

Confiança não se exigia.

Muito menos se comprava.

Eu sabia disso melhor do que ninguém.

— Certo — ela respondeu finalmente. — Mas eu quero conhecer esse lugar ainda hoje.

— Vai conhecer.

— E quero saber onde você mora de verdade.

Aquela frase veio acompanhada de um olhar desconfiado.

— Você é sempre assim?

— Assim como?

— Parece uma investigadora.

— E você parece um suspeito.

Dessa vez, não consegui segurar a risada.

Isabella balançou a cabeça, mas o canto de sua boca também se ergueu.

Era impressionante como ela conseguia me provocar e, segundos depois, me fazer querer continuar perto dela.

Eu precisava tomar cuidado com aquilo.

Estava acostumado a controlar minhas emoções. Era uma questão de sobrevivência. Sentir demais, confiar demais, querer demais… tudo isso podia se transformar em fraqueza quando as pessoas ao redor estavam esperando uma oportunidade para atingir você.

Mas Isabella não sabia nada disso.

Ela não sabia quem eu era.

E talvez fosse justamente por isso que eu conseguia respirar com um pouco mais de tranquilidade ao lado dela.

— Você consegue se sustentar fazendo entregas? — ela perguntou de repente.

Olhei para ela.

— Como é?

Isabella pareceu perceber que a pergunta poderia soar ofensiva.

— Não estou tentando me meter na sua vida. Só quero entender como vamos organizar as coisas. Eu trabalho na escola, tenho minhas despesas e não pretendo depender de você. Mas também não quero acabar sustentando um homem que não consegue pagar as próprias contas.

Fiquei olhando para ela.

Durante anos, as pessoas haviam falado sobre meu dinheiro de todas as formas possíveis. Algumas tentavam descobrir quanto eu tinha. Outras queriam saber como poderiam se beneficiar da minha fortuna. Havia quem me tratasse como se eu fosse um banco e quem fingisse não se importar com dinheiro enquanto esperava receber alguma coisa.

Mas Isabella estava preocupada com as próprias despesas.

Ela queria garantir que não precisaria sustentar um marido.

E, pela primeira vez em muito tempo, alguém me fez rir por um motivo completamente diferente.

— Eu me viro — respondi.

Ela não pareceu convencida.

— Isso não é uma resposta.

— É a resposta que tenho para dar.

— Ótimo. Porque eu não vou sustentar homem nenhum.

Cruzei os braços.

— Pode ficar tranquila. Não estou interessado no seu dinheiro.

Isabella soltou uma gargalhada.

— Ainda bem. Você não encontraria muito.

Eu sorri.

Se ela soubesse.

Eu poderia pagar uma vida inteira de conforto sem sequer consultar o saldo bancário. Poderia comprar casas, carros, empresas e tudo aquilo que ela provavelmente nunca sonhou possuir.

Mas nada disso teria qualquer valor se Isabella começasse a me tratar de maneira diferente depois de descobrir minha fortuna.

Eu não queria que ela me olhasse com admiração por causa do dinheiro.

Queria descobrir se conseguiria me respeitar quando não houvesse nada de extraordinário à vista.

— Você não precisa se preocupar comigo — falei.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Isso é exatamente o que um homem que vai dar trabalho diria.

— Então estamos começando muito bem.

— Maravilhosamente bem.

Ela colocou as mãos na cintura.

— E outra coisa: eu não quero começar esse casamento devendo favores.

Franzi a testa.

— Que favores?

— Você já pagou meu café. Se começar a comprar comida, roupa, sapato e sei lá mais o quê, vou acabar sentindo que preciso retribuir.

A seriedade com que disse aquilo me fez perder o sorriso.

— Isabella, eu não estou comprando nada de você.

Ela desviou os olhos.

— Eu sei. Só não quero que isso vire uma obrigação.

— Não vai.

— Promete?

Olhei diretamente para ela.

— Prometo que nunca vou usar dinheiro para cobrar alguma coisa de você.

Isabella ficou quieta.

Acho que aquela resposta a surpreendeu.

Talvez porque ela já tivesse aprendido, da maneira mais dolorosa possível, que algumas pessoas transformavam até os sentimentos em uma espécie de dívida.

Eu não queria fazer isso.

Não com ela.

— Certo — murmurou.

Então, como se tivesse percebido que a conversa estava ficando séria demais, apontou para mim.

— Mas isso não significa que você pode ficar comprando café para mim todos os dias.

— Entendido.

— Nem pão de queijo.

— Vou tentar me controlar.

— E nada de aparecer com flores!

Olhei para o buquê amassado que ela ainda carregava.

— Você já tem flores.

Ela baixou os olhos para o pequeno arranjo.

Por um instante, sua expressão mudou.

Aquele buquê havia sido escolhido para outro homem. Era a lembrança de um futuro que ela imaginou e que tinha sido destruído antes mesmo de começar.

Eu me perguntei se ela conseguiria olhar para aquelas flores sem se lembrar do que aconteceu.

Mas não fiz a pergunta.

Não queria obrigá-la a falar sobre a dor que estava tentando deixar para trás.

— Vamos resolver uma coisa de cada vez — falei.

Isabella assentiu.

— Concordo. Porque, se eu pensar em tudo o que aconteceu hoje, vou acabar desmaiando.

— Quer que eu chame um médico?

Ela me deu um tapa leve no braço.

— Cala a boca!

Eu ri.

E, pela primeira vez desde que colocara aquela aliança no dedo, pensei que talvez aquele casamento não fosse apenas uma decisão absurda.

Talvez fosse o começo de alguma coisa que eu ainda não sabia nomear.

Afastei-me alguns passos e liguei novamente para Caio.

Ele atendeu quase imediatamente.

— Murilo, finalmente!

— Preciso que você faça uma coisa para mim.

— Estou ouvindo.

Olhei para Isabella, que havia se sentado no banco da praça e mexia no celular.

— Quero que você mantenha discrição sobre uma situação pessoal minha.

Houve um silêncio do outro lado.

— Que situação?

— Isso não importa agora.

— Importa se tiver alguma relação com a segurança do senhor.

— Tem relação com a minha vida pessoal, Caio.

Ele ficou quieto.

Eu sabia que estava tentando compreender por que eu parecia tão decidido a esconder alguma coisa.

Caio me conhecia havia tempo suficiente para perceber quando eu estava evitando uma conversa.

— Certo — respondeu finalmente. — O que o senhor precisa?

Respirei fundo.

— Ninguém deve descobrir a identidade da mulher com quem acabei de me casar até que eu decida como lidar com essa situação.

O silêncio que se seguiu foi tão longo que conferi a tela do celular para ter certeza de que a ligação não havia caído.

— Caio?

— O senhor acabou de dizer… — Ele parou. — O senhor se casou?

Fechei os olhos.

Merda.

— Foi exatamente o que você ouviu.

— Com quem?

— Isso não importa.

— Como assim não importa? O senhor desaparece durante horas, não atende às ligações, volta falando de uma situação pessoal e agora me diz que se casou?

— Você está fazendo muitas perguntas.

— Porque o senhor está me dando motivos para isso!

Passei a mão pelo rosto.

Eu deveria ter previsto aquela reação.

Caio era leal, inteligente e extremamente competente. Também tinha o péssimo hábito de querer compreender cada detalhe das decisões que poderiam afetar minha vida.

E aquela, sem dúvida, afetaria.

— Escute com atenção — falei, deixando minha voz mais firme. — Quero discrição. Ninguém vai procurar informações sobre ela, ninguém vai comentar o assunto e ninguém vai envolver essa mulher em qualquer coisa relacionada aos meus negócios.

Caio demorou alguns segundos para responder.

— Entendido.

— Estou falando sério.

— Eu sei.

— Ela não tem nada a ver com o que acontece na minha vida profissional. E vai continuar assim até que eu decida o contrário.

— Certo, Murilo.

A formalidade da resposta me fez desconfiar de que aquela conversa estava longe de terminar.

— Mais alguma coisa? — perguntei.

— Só uma.

— Fala.

— O senhor tem certeza de que sabe o que está fazendo?

Olhei para Isabella novamente.

Ela havia guardado o celular e agora observava o movimento da rua, com o buquê apoiado no colo. Parecia cansada. Assustada. Talvez arrependida.

Mas ainda estava ali.

Esperando por mim.

— Não — respondi honestamente. — Não tenho.

Caio soltou um suspiro.

— Isso é preocupante.

— Eu sei.

— Vou cuidar do que pediu. Mas precisamos conversar pessoalmente.

— Depois.

Encerrei a chamada antes que ele pudesse protestar.

Fiquei alguns segundos olhando para o telefone, tentando imaginar a expressão dele naquele momento.

Então guardei o aparelho no bolso e voltei para perto da minha esposa.

Ela ergueu o rosto quando me aproximei.

— Está tudo bem?

Parei diante dela.

— Está.

Isabella me observou por alguns segundos.

— Você sabe que, quanto mais diz que está tudo bem, mais parece que não está, não sabe?

Soltei uma risada curta.

— Você desconfia de tudo.

— E você esconde coisas demais.

Não respondi.

Porque ela estava certa.

E porque, naquele momento, eu ainda não sabia como contar a verdade sem destruir a única relação que havia começado sem que alguém soubesse quanto dinheiro eu tinha.

Estendi a mão para ela.

— Vamos, esposa. Está ficando tarde.

Isabella olhou para minha mão, depois para meu rosto.

— Se você me chamar de esposa mais uma vez, vou começar a cobrar por isso.

— Quanto?

— Um real por vez.

— Então vou ficar pobre rapidamente.

Ela riu e aceitou minha mão para se levantar.

Foi um gesto simples, quase insignificante.

Mas, quando seus dedos tocaram os meus, percebi que já estava preocupado com algo que não deveria me preocupar.

Queria que ela se sentisse segura comigo.

Queria que confiasse em mim.

E queria, acima de tudo, que chegasse o dia em que eu pudesse contar quem realmente era sem que ela olhasse para mim como se tivesse cometido um erro terrível.

Meu celular vibrou uma última vez.

Uma mensagem de Caio apareceu na tela:

“Patrão, preciso de uma resposta. Quem é essa mulher?”

Apaguei a notificação sem responder.

Isabella apertou minha mão.

— Vamos, Murilo. Você disse que eu conheceria sua casa hoje.

Olhei para ela.

Minha esposa.

A mulher que acabara de entrar na minha vida sem saber que o homem de camiseta preta e motocicleta era muito mais do que um simples entregador.

— Vamos, Isabella.

E comecei a caminhar ao lado dela, consciente de que aquele segredo não permaneceria escondido para sempre.

Mais cedo ou mais tarde, ela descobriria quem eu era.

A única questão era se, quando isso acontecesse, ainda conseguiria olhar para mim daquele jeito.

Recadinho da autora ❤️‍🔥

Meninas, o Murilo já está escondendo segredos da própria esposa! 👀😂 Como será que Isabella vai reagir quando descobrir que o entregador não é tão simples assim? Comentem, porque no próximo capítulo ela vai conhecer o cantinho onde os dois vão ficar! 💍

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