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last update publish date: 2026-10-29 02:42:57

Capítulo 2 — Você também foi descartado?

Narradora: Isabella

— Pelo visto, hoje não foi um bom dia para nenhum de nós, hein, noivinha?

Encarei o desconhecido por alguns segundos, tentando decidir se estava diante de um homem sem noção ou se o universo havia resolvido me castigar com mais uma humilhação naquela manhã.

Eu acabara de ser abandonada no dia do meu casamento. Meu primeiro namorado havia confessado que me conquistara por causa de uma aposta, me trocado por uma mulher rica e ido embora sem olhar para trás.

E aquele sujeito estava me chamando de noivinha como se estivéssemos conversando sobre o tempo!

— Você sempre aborda mulheres chorando ou hoje é uma ocasião especial? — perguntei, limpando o rosto.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Depende. Você sempre recebe desconhecidos com essa simpatia ou eu tive o privilégio?

Revirei os olhos.

— O meu dia não é da sua conta.

— Ainda bem. Porque, se fosse, eu pediria reembolso.

Abri a boca, indignada.

Aquele homem estava brincando comigo?

Pelo jeito, sim.

Ele segurava o capacete debaixo do braço, com o celular guardado no bolso e uma expressão tão tranquila que me deu vontade de jogar meu buquê na cabeça dele.

— Você não tem mais nada para fazer, não?

— Tenho. Inclusive, deveria estar casado agora.

Parei.

Minha irritação diminuiu por um instante.

— Como assim?

Ele apontou para o próprio peito com o polegar.

— Eu também deveria ter me casado hoje, querida. Só que minha noiva descobriu que eu não era o homem rico que ela imaginava e resolveu desaparecer.

Fiquei olhando para ele.

— Está falando sério?

— Infelizmente, não tenho tanta criatividade para inventar uma desgraça dessas.

Apesar de tudo, quase ri.

Quase.

Cruzei os braços e observei melhor aquele homem. Ele era bonito, embora tivesse uma expressão irritantemente arrogante. Os cabelos pretos estavam um pouco bagunçados, a barba era bem cuidada e os olhos escuros pareciam prestar atenção em tudo.

Usava uma camiseta preta simples, calça jeans e tênis. Nada nele demonstrava riqueza.

O capacete de motociclista completava a aparência de alguém que trabalhava o dia inteiro para pagar as próprias contas.

— Pelo menos você descobriu antes de casar — comentei.

Ele soltou uma risada curta.

— E você descobriu depois de passar sabe-se lá quanto tempo acreditando no sujeito.

Meu rosto esquentou.

— Você não precisa jogar isso na minha cara!

— Eu não joguei nada. Você mesma acabou de dizer que o seu dia foi uma porcaria.

— Você é sempre insuportável assim?

— Só quando estou de bom humor.

Olhei para o teto, pedindo paciência a Deus.

— Meu Senhor, me dá forças.

Ele riu.

E eu odiei o fato de que sua risada era bonita.

— Qual é a graça? — perguntei.

— Você.

— Eu?

— Você está com cara de quem quer me matar, mas continua conversando comigo.

— Talvez eu esteja esperando você terminar de falar para poder ir embora.

— Então estamos perdendo tempo.

Ele se virou, como se realmente fosse sair.

E, por algum motivo absurdo, senti vontade de chamá-lo de volta.

Talvez porque não quisesse ficar sozinha naquele cartório. Talvez porque a presença dele, apesar de irritante, me distraísse da dor que parecia esmagar meu peito.

Ou talvez eu simplesmente estivesse tão cansada de chorar que precisava de alguma coisa diferente para fazer.

— Espera.

Ele olhou por cima do ombro.

— Mudou de ideia?

— Não se anime.

Um sorriso de canto apareceu em seus lábios.

— Uma pena.

Respirei fundo.

— Sua noiva realmente foi embora só porque achou que você era pobre?

O sorriso dele desapareceu aos poucos.

— Foi.

— Mas ela sabia com o que você trabalhava?

— Sabia que eu fazia entregas.

— E mesmo assim aceitou se casar?

— Pelo visto, ela tinha uma interpretação bem generosa do meu potencial financeiro.

Fiquei indignada.

— Que mulher ridícula!

Ele me encarou, aparentemente surpreso com minha reação.

— Você nem conhece a mulher.

— Não preciso conhecer! Se ela aceitou se casar com você, deveria ter pensado nisso antes. Ninguém descobre no dia do casamento que uma pessoa trabalha fazendo entregas.

Ele inclinou a cabeça.

— Curioso.

— O quê?

— Você está defendendo um homem que conheceu há menos de cinco minutos.

Dei de ombros.

— Não estou defendendo você. Estou dizendo que ela foi uma idiota.

— Ah, claro. Existe uma diferença enorme.

— Existe mesmo.

Ele soltou outra risada.

Eu estava começando a achar que aquele homem ria de tudo.

Ou talvez gostasse de me provocar.

— E você? — perguntou de repente.

Franzi a testa.

— Eu o quê?

— Seu noivo também descobriu que você não era rica o suficiente?

A pergunta acertou uma ferida que eu estava tentando esconder.

Meu sorriso desapareceu.

— Não.

Ele percebeu a mudança na minha expressão e ficou sério.

— Então o que aconteceu?

Desviei o olhar.

Eu não queria falar sobre Roberto. Não queria repetir as palavras que havia escutado, nem admitir em voz alta que o homem com quem pretendia construir uma família havia transformado meus sentimentos em uma aposta.

Mas aquele desconhecido continuava me olhando.

E, pela primeira vez naquela manhã, não parecia estar brincando.

— Ele conheceu outra mulher — respondi.

— Entendi.

— Uma mulher rica.

— Entendi.

— E resolveu que eu não servia mais para ele.

O homem ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois, perguntou:

— Quanto tempo vocês estavam juntos?

Apertei os dedos ao redor do buquê.

— Quase três anos.

Ele assobiou baixinho.

— Bastante tempo.

— Foi o meu primeiro namorado.

Não sei por que contei aquilo.

Talvez porque ainda doesse tanto que eu precisasse colocar a dor para fora. Talvez porque aquele homem fosse um completo desconhecido e, justamente por isso, eu não precisasse me preocupar com o que pensaria de mim.

— Eu realmente acreditava que ele me amava — continuei. — Nós fizemos tantos planos. Eu economizei dinheiro para o casamento, pensei em como seria nossa casa, em como dividiríamos as despesas… Até imaginei os nomes dos nossos filhos.

Minha voz falhou na última frase.

Engoli o choro.

— E hoje descobri que tudo começou como uma aposta.

O desconhecido deixou de sorrir.

Por alguns instantes, não disse absolutamente nada.

Depois, passou a mão pela barba e soltou um suspiro.

— Seu ex é um grande filho da…

Ele interrompeu a própria frase, olhou para mim e corrigiu:

— Um grande idiota.

Uma risada escapou da minha garganta antes que eu pudesse impedir.

Foi pequena, quase imperceptível, mas aconteceu.

E, quando percebi, fiquei com vergonha.

— Desculpa — murmurei.

Ele franziu a testa.

— Pelo quê?

— Por rir.

— Você está pedindo desculpas por rir?

Dei de ombros.

— Não sei. Acho que estou ficando maluca.

— Não está, não. Se estivesse, provavelmente teria jogado aquele buquê na cabeça do seu ex.

Olhei para as flores amassadas nas minhas mãos.

— Eu deveria ter feito isso.

— Concordo. Teria sido uma despedida muito mais interessante.

Dessa vez, ri de verdade.

Foi uma risada curta, acompanhada de lágrimas que ainda insistiam em cair, mas era uma risada.

A primeira desde que Roberto entrou naquele cartório acompanhado de Carla.

O desconhecido me observou por um instante, e seu semblante pareceu suavizar.

— Pronto. Pelo menos consegui uma coisa boa hoje.

Limpei o canto dos olhos.

— Não se ache tão importante.

— Tarde demais.

Revirei os olhos novamente.

Aquele homem era impossível.

Alguns minutos depois, nos sentamos em um banco perto da recepção.

Eu não sabia exatamente por que continuava ali. Talvez porque ainda não estivesse preparada para voltar para casa e enfrentar o silêncio da minha própria companhia.

O desconhecido parecia estar na mesma situação.

Ele pegou o celular, conferiu algumas mensagens e franziu a testa antes de guardar o aparelho novamente.

— Problemas? — perguntei.

Ele me olhou.

— Você está interessada na minha vida agora?

— Esquece.

— Estou brincando.

Cruzei os braços.

— Você precisa urgentemente aprender a conversar com as pessoas.

— E você precisa aprender a não levar tudo tão a sério.

— Eu acabei de ser abandonada no meu casamento. O que você esperava? Que eu estivesse dançando?

Ele ficou sério imediatamente.

— Não. Tem razão.

A resposta me surpreendeu.

Eu esperava outra provocação, mas ele simplesmente assentiu, como se reconhecesse que havia ultrapassado um limite.

— Desculpa — acrescentou.

Olhei para ele com desconfiança.

— Você sabe pedir desculpas?

— Não espalha. Tenho uma reputação a zelar.

Balancei a cabeça, tentando esconder o sorriso.

Aquele homem era estranho.

Muito estranho.

— Você trabalha fazendo entregas há muito tempo? — perguntei.

— Há alguns anos.

— Gosta?

Ele pensou por um instante.

— Tem dias bons e dias ruins.

— Igual a qualquer trabalho.

— Exatamente.

Olhei para o capacete que ele mantinha ao lado do banco.

— Pelo menos você parece gostar do que faz.

Ele acompanhou meu olhar.

— O trabalho não é o problema.

— É o dinheiro?

Ele voltou os olhos para mim.

Por um instante, sua expressão ficou indecifrável.

— Dinheiro nunca é o problema até alguém decidir que você não vale nada sem ele.

A frase saiu tão séria que fiquei sem resposta.

Havia alguma coisa naquele homem que não combinava com sua aparência simples e seu jeito debochado. Ele falava como alguém que já tinha sido decepcionado muitas vezes.

Ou talvez eu estivesse apenas procurando semelhanças entre nós porque não queria me sentir tão sozinha.

— Você gostava dela? — perguntei.

Ele soltou uma risada sem humor.

— Achei que gostava.

— Isso não responde à pergunta.

— É a resposta que tenho.

Assenti lentamente.

Eu entendia aquela sensação.

Quando a pessoa em quem confiamos nos decepciona, começamos a questionar até as lembranças boas.

Será que ele realmente me abraçava porque sentia saudade?

Será que aqueles presentes simples tinham sido sinceros?

Será que alguma vez olhou para mim e enxergou a mulher que dizia amar?

A pior parte não era apenas perder Roberto.

Era não saber se o homem que eu amava algum dia havia existido.

Baixei os olhos para o buquê.

— Eu me sinto uma idiota.

— Não deveria.

— Você não me conhece.

— Não preciso conhecer para saber que confiar em alguém não faz de você uma idiota.

Fiquei quieta.

Ele continuou:

— A culpa é de quem transforma a confiança dos outros em brincadeira.

Meus olhos arderam novamente.

Dessa vez, porém, não chorei.

Apenas respirei fundo e assenti.

— Obrigada.

Ele pareceu surpreso.

— Pelo quê?

— Por não ser completamente insuportável durante cinco minutos.

Um sorriso lento apareceu em seu rosto.

— Estou fazendo um esforço enorme. Você deveria valorizar.

Soltei uma gargalhada.

E, por alguns segundos, esqueci que estava vestida de noiva em um cartório onde meu casamento havia sido destruído.

Meu estômago roncou.

Alto.

Muito alto.

Fechei os olhos imediatamente.

Não.

Não, não, não.

Aquilo não podia estar acontecendo.

O desconhecido virou o rosto devagar na minha direção.

Eu o encarei, desafiadora.

— Não fala nada.

Ele apertou os lábios, tentando segurar o riso.

— Eu não disse nada.

— Mas está pensando.

— Estou pensando que você provavelmente não tomou café da manhã.

Levei a mão à testa.

— Meu Deus.

Ele se levantou.

— Espera aqui.

Franzi a testa.

— Para quê?

— Vou comprar alguma coisa para comer.

— Não precisa!

Ele já estava caminhando em direção à pequena lanchonete do outro lado da rua.

— Eu não pedi nada! — gritei.

Ele ergueu a mão sem olhar para trás.

— Considere um investimento na sua recuperação emocional!

Fiquei olhando para ele, indignada.

Quem aquele homem pensava que era?

Alguns minutos depois, voltou carregando dois copos de café e dois pães de queijo dentro de um saquinho de papel.

Entregou um dos copos e o saquinho para mim.

— Toma.

Olhei para a comida.

Depois para ele.

— Eu disse que não precisava.

— E eu ouvi.

— Então por que comprou?

Ele se sentou ao meu lado e deu de ombros.

— Porque ninguém deveria enfrentar uma tragédia romântica de estômago vazio.

Mordi o interior da bochecha para não rir.

— Você é sempre assim?

— Bonito?

Arregalei os olhos.

Ele começou a rir.

— Estou brincando, mulher!

— Convencido!

— Você perguntou.

Balancei a cabeça e peguei um pão de queijo.

Estava quentinho.

Mordi um pedaço e percebi que realmente estava faminta. Na correria da manhã, eu havia saído de casa sem comer, preocupada demais com o casamento.

Agora, sentada ao lado de um desconhecido que fazia questão de me irritar, percebia o quanto precisava de alguma coisa simples.

Comida quente.

Um café.

Alguns minutos sem pensar em Roberto.

— Está bom? — ele perguntou.

Assenti.

— Está.

— Ótimo. Pelo menos não errei em tudo hoje.

Olhei para ele.

— Você está falando da sua noiva?

O sorriso desapareceu por um instante.

— Estou falando de hoje.

Não insisti.

Às vezes, as pessoas escondem suas dores atrás de brincadeiras.

Eu sabia disso melhor do que ninguém.

Terminamos de comer em silêncio por alguns minutos. O movimento do cartório continuava ao nosso redor, mas eu já não sentia a mesma vontade desesperada de fugir.

Ainda estava triste.

Muito triste.

Mas a dor parecia um pouco menos sufocante.

Talvez porque, pela primeira vez naquela manhã, alguém tivesse conversado comigo sem me tratar como uma vítima ou como uma piada.

O desconhecido amassou o saquinho vazio e se levantou.

— Acho que preciso ir.

Uma sensação estranha de solidão me atingiu.

Eu mal o conhecia. Não tinha qualquer motivo para querer que ele ficasse.

Mesmo assim, sua presença havia tornado aquela manhã um pouco menos terrível.

— Ah… claro — respondi, tentando parecer indiferente.

Ele pegou o capacete e olhou para mim.

— Você vai ficar bem?

A pergunta foi tão inesperada que demorei a responder.

— Vou.

Ele não pareceu convencido.

— Tem certeza?

Suspirei.

— Não. Mas vou ficar.

Murilo assentiu lentamente.

— É. Acho que é assim que começa.

Fiquei olhando para ele.

— Como assim?

— A gente não precisa estar bem agora. Só precisa continuar.

Aquelas palavras ficaram dentro de mim.

Ele colocou o capacete debaixo do braço e estendeu a mão.

— Murilo.

Olhei para a mão oferecida.

Depois para o rosto dele.

— O quê?

— Meu nome, noivinha. Já que você passou a manhã inteira me contando seus problemas, acho justo pelo menos saber com quem estou conversando.

Um sorriso involuntário apareceu em meus lábios.

Apertei sua mão.

— Isabella.

Ele repetiu meu nome devagar, como se estivesse guardando a informação.

— Isabella.

Depois, aquele sorriso de canto voltou.

— Prazer, Isabella. E você, noivinha abandonada, como se chama?

Revirei os olhos.

— Eu acabei de falar!

Murilo soltou uma gargalhada.

E, contra todas as minhas expectativas, eu ri junto.

Naquele momento, eu ainda não sabia que aquele homem de camiseta preta, capacete na mão e jeito insuportavelmente arrogante mudaria completamente a minha vida.

Não sabia que ele escondia segredos que poderiam me fazer correr para o lado oposto.

Muito menos imaginava que, em pouco tempo, aquele desconhecido se tornaria meu marido.

Naquele momento, Murilo era apenas um entregador que também havia sido abandonado.

E eu era apenas uma mulher tentando sobreviver ao pior dia de sua vida.

Mensagem da autora: E aí, meninas? 👀 Já gostei desse entregador! Mas será que Murilo é mesmo só um homem simples? No próximo capítulo, uma proposta completamente maluca pode mudar o destino dos dois! Comentem o que vocês acham! ❤️‍🔥

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