LOGINNaquela época, foi Isaac mesmo quem usou a avó como argumento e jogou na cara dela aquele conceito de "espaço particular". Naquele tempo, ele também não tinha parado para pensar em como ela se sentia com isso…— Você está com esse sorriso de novo. — Isaac franziu a testa, e nas pupilas escuras dele pareceu surgir um brilho estranho, quase um remoinho. — Ultimamente você vive com esse sorriso. Isso deixa qualquer um desconfortável.— O que é que esse sorriso tem de tão desconfortável? — Lorena riu de leve. — Você prefere que eu grite, faça escândalo com você, para ficar mais confortável?Isaac ficou em silêncio. Ele abaixou os olhos, pensou por um bom tempo, até dizer:— Vamos deixar assim por hoje. Eu vou chamar um carro para você voltar sozinha. Eu vou levar a Aurora.— Ah, tudo bem. Mas não precisa você chamar, não. Eu mesma chamo. — Lorena respondeu.— Lorena… — Ele fechou os olhos por um instante, com uma expressão de quem já estava no limite da paciência. — Você pode… você pode pa
Naquela época, aquela palavrinha "outro" tinha machucado Lorena. Mas, naquela fase, ela ainda conseguia se convencer de muita coisa.Lorena dizia para si mesma que ele nem gostava dela de verdade ainda, então era normal ele tratá-la como "outra pessoa". Com o tempo, as coisas iam melhorar…Ela, toda iludida, acreditava que, no espaço privado dele, só existiam ele e as lembranças da avó dele.Mas não era bem assim.No espaço privado dele, realmente havia mais alguém. Só que essa pessoa não era nem a avó. Era Aurora.Lorena se afundou nos próprios pensamentos e parou de prestar atenção no que Isaac e Aurora estavam fazendo, até que ouviu a voz dele, quebrando o silêncio:— Não fica assim. Eu nem falei nada, muito menos te culpei de alguma coisa. Se você ficar bem, der um sorriso, eu já fico feliz.Lorena olhou pelo retrovisor e viu o rosto de Aurora, todo borrado de lágrimas, de repente se abrir num sorriso radiante.Então era isso. Isaac estava ali, na frente da própria esposa, consolan
— Isaac! Você gosta tanto assim daquela plaquinha de madeira? — Aurora perguntou com um tom magoado, como se Isaac tivesse enganado ela.Isaac não falou nada.Lá na frente, Lorena riu:— Aquele pingente é feito de jacarandá brasileiro, bem caro. É entalhado em forma de Deus, para proteger o Isaac na estrada.— Jacarandá brasileiro… — Aurora repetiu em voz baixa. — Então… então é uma coisa cara? Isaac… me desculpa…Aurora era sempre assim: olhos vermelhos, cheios de lágrimas, não importava o que tivesse acontecido, ela sempre parecia ser a mais injustiçada da história.Aurora ainda se virou para pedir desculpas a Lorena:— Lorena, desculpa. Eu não sabia que aquilo era valioso. Eu achei que era só um pedaço de madeira comum…Lorena olhou para ela, sorrindo:— É mesmo? Você não acabou de dizer que dinheiro não importa, que o que vale é o sentimento? Por que agora você está desdenhando a madeira? Aquela madeira não é sentimento também? Eu ainda entalhei tudo à mão, faca por faca.A express
Isaac, por reflexo, olhou de novo para Lorena. Ela estava apoiada na moldura da janela do carro, ainda sorrindo enquanto observava os dois. Não eram aqueles os mesmos bichinhos de pelúcia que ela tinha mandado por entrega rápida para o escritório de Isaac? Então Aurora tinha ficado com tudo?— Oi! — Lorena chamou de dentro do carro, acenando. — Eu estou aqui! Fala direto comigo, não precisa pedir para ele falar por você.Quando viu Lorena, Aurora ficou completamente chocada. E, quando percebeu que ela ainda estava sorrindo, ficou mais chocada ainda. Um pânico subiu em silêncio:"E se, depois de tudo isso que eu fiz, ela desistir de retirar a queixa?"— Lorena… — Aurora começou a encenar na frente dela. — Me desculpa, por favor… você pode me perdoar? Eu realmente não tenho coragem de deixar esses bichinhos para trás. Bolsa cara, casa grande, relógio, joia, dinheiro, essas coisas, eu juro que eu posso viver sem. Mas esses bichinhos… eu não consigo. Isaac passou anos comprando em vários l
A capacidade de Isaac para resolver as coisas sempre tinha sido grande. Se ele tinha dito aquilo, então não haveria problema.O que vinha depois dizia respeito só aos dois.— Lorena, tudo o que você me pediu, eu já fiz. — Isaac falou. — A casa já foi vendida, as bolsas e os presentes da Aurora foram todos devolvidos e convertidos em dinheiro. O dinheiro é seu.Ele terminou de falar, pegou o celular e fez a transferência para ela.Lorena fez um cálculo rápido na cabeça. Pelo valor, até que estava justo.— Para mostrar a minha boa vontade, eu agora vou te levar lá para você ver com os seus próprios olhos. A casa realmente já tem outro dono, o comprador já está se preparando para reformar tudo. — Isaac disse, engatando a marcha. — Depois que você ver a casa, eu quero que você cumpra o que me prometeu e vá até a delegacia.A mão de Lorena ainda estava toda enfaixada. O machucado na cabeça mal tinha cicatrizado.Isaac, obviamente, sabia disso. Ele soltou um suspiro pesado:— Eu também sei q
— Isso ainda é problema pequeno? — A vovó segurou as mãos de Lorena com todo cuidado, com o coração apertado. — Dor no dedo é das piores que existe!— É problema pequeno mesmo. — Lorena sorriu de leve. Para ela, aquela dor era nada perto da dor do acidente de carro de anos atrás.O rosto de Isaac, porém, ficou bem fechado.Lorena imaginou que ele também tinha se lembrado do acidente. Aquilo era a mancha escura do passado dele, a ferida escondida. Por causa daquele acidente, ele tinha trocado casamento por culpa, e aquilo tinha sido a raiz de toda a infelicidade conjugal dele.Lorena sorriu de novo, em silêncio, e pensou: Não tem problema. Todo mundo está prestes a se libertar.Isaac levou Lorena até o hospital mais próximo sem dizer uma palavra. Lá, os médicos limparam e trataram os machucados. Depois, ele organizou tudo e falou:— Vovó, a senhora quer voltar para casa primeiro? Eu e Lorena precisamos resolver uma coisa. Mais tarde eu levo vocês duas para casa.— Não precisa. — Rita re
A noite inteira tinha sido a mesma ladainha. Aurora repetia, de um jeito ou de outro, que Lorena só sabia passar vergonha. Lorena já estava de saco cheio daquilo.— Chega. Se vocês estão mesmo tão preocupados em não passar vergonha, é simples: fiquem longe de mim. Eu estou meio fora de mim hoje, não
Pelo jeito, Breno realmente odiava Lorena. Antes, ele já não ia com a cara dela porque ele achava que ela não era à altura de Isaac; agora, o ódio dele tinha ganhado forma concreta: o projeto de parceria entre Isaac e Hélio tinha desandado.Aquilo lhe parecia muito estranho. Por que alguém colocaria
Nos últimos dias, sempre que anoitecia, começava a chover.Lorena tinha acabado de adormecer quando ouviu o som da chuva batendo na janela, pingo após pingo. O cheiro do xampu ainda estava no ar, envolvendo-a por completo, e por um instante ela teve a sensação de ter voltado à casa da avó, deitada a
Isaac não falou nada. Ele apenas devolveu o celular para Lorena e começou a comer em silêncio, de cabeça baixa.Os pratos não eram exatamente do gosto dele, mas ele mesmo assim repetiu uma, duas, três vezes.Rita chegou a estranhar.— Isaac, meu filho, você ficou quanto tempo sem comer pra estar com







