LOGINAvenida Clyde, 340 — Liontown. Residência dos Bayer.
Melissa estava em seu quarto, arrumando algumas roupas que estavam sobre uma cadeira. Tinha a mania de organização e os dias na cama a deixavam maluca. Fazer aquilo ainda lhe causava uma sensação de controle. Ela estava melhor — assim ela falava, para si mesma, num mantra positivo —. Sentia-se bem em relação às dores que a incomodavam com hora marcada, mas via-se obrigada a tomar remédios para aliviá-las, ainda que não gostasse da ideia. A faixa na cabeça não lhe caia muito bem, mas ela achava até confortável em certos momentos.
O silêncio de sua casa quando seus pais e irmãos não estavam mais presentes, era uma espécie de estado emocional da qual ela só vivenciava em raros momentos da vida. Ela podia ouvir o silêncio da rua e como os carros pareciam distantes. Os animais do bairro também pareciam ter encontrado seus próprios pontos de paz e não esboçaram nem um murmúrio.
Ela continuou dobrando as roupas. Ignorando a dor que fazia quando abaixava a cabeça. Ela esticou os dedos e puxou a primeira peça. Ela a observou com orgulho. Ganhara aquela blusa verde-escuro, no natal passado. A mãe dela fez para ela poder se apresentar no festival de natal que ocorreu na biblioteca no ano passado. Outra peça. A dor se espalhou pelo braço e pela coluna, deixando-a dormente. Ela fez uma pausa, mas a puxou mesmo assim. Um envelope amarelo caiu no chão, fazendo um barulho seco, como se fosse um cartão de natal. Ela se admirou. Não sabia que se tratava, mas sentia ser para ela. "Se eu me abaixar." pensou ela, "a dor viria com mais intensidade. Mas estou curiosa."
Melissa chutou de leve o envelope, até o pé de sua cama, se escorando na mesma. Imóvel, sem mexer o pescoço, nem dobrar o tronco, apoiou suas costas na cama até que pudesse sentir sua bunda tocar o chão gelado. Ela esticou os dedos e pegou o envelope, esboçando um sorrisinho de prazer. Ela o trouxe delicadamente mais próximo de seu rosto. ORGULHO. Assim estava escrito do outro lado, como no envelope que Bill recebera, mas este estava um pouco amassado — mas ela não se importou.
— Orgulho — sussurrou Melissa, com uma pitada de dúvida em seu rosto. Tentou pensar, ainda neutralizada de aspirina, quando aquilo parara ali, mas desistiu de gastar energia quando não achou rapidamente sua resposta. Era um envelope um tanto estranho, mas ela abriu mesmo assim. Era uma carta de coloração creme com textura deleitante, escrita à mão, assim como o título do envelope. Entretanto, as letras eram cursivas e agradáveis à leitura.
Tic tac... São 20h30 e a beleza da vida entra novamente no círculo de sangue. Para todos que um dia foram odiados, resta apenas a beleza e a justa vingança, que sabe a hora certa de agir, como um relógio que não atrasa, certa de que se faz seu papel de forma honesta, deixa a vida correta. Tire um tempo para pensar, mas não tome muito tempo, cedo ou tarde, pode perder um membro.
— Que pegadinha é essa? — resmungou Melissa, quase expressando um sorrisinho, mas soltou o ar que entalara em sua garganta, num arroto breve — ela perdera a graça quando lembrou da dor que vinha de sua cabeça, como marteladas —. Tentou olhar atrás da carta para ver se não haviam letras pequenas ou alguma propaganda, como as que haviam nos panfletos promocionais, mas não tinha nada. Ela pegou o envelope amarelo e olhou se também não poderia haver mais alguma coisa dentro. Dor. Uma chata e insistente dor. Era a única coisa que ela achava quando se mexia demais. E isso ela estava fazendo em excesso.
Melissa ainda mergulhada no silêncio, que parecia intensificar o som de sua respiração irregular, percebeu alguns sons estranhos, que se tornaram familiares agora. Eram passos. Como os de alguém caminhando. Eles vinham de alguma parte de sua casa. O som era de ranger de tábuas, como se um intruso estivesse subindo a escada de madeira que havia no porão. Ela se levantou, se apoiando na cama novamente e foi até a porta de seu quarto, abrindo-a para poder ouvir melhor, o que quer que estivesse escutando lá fora. Ela até tentou se convencer de que muitas vezes, quando alguém sofre alguma pancada na cabeça, como o que acontecera com ela, costuma ver e ouvir coisas. Melissa respirou fundo e tentou focar a atenção no som e ver se era de fato ou vinha de sua fértil imaginação.
Melissa morava em um bangalô e era fácil perceber quando alguém estava em casa. Os passos eram tão audíveis quanto os seus próprios pensamentos.
Ela caminhou descalça pelo piso amadeirado de sua casa, num contato íntimo com o ambiente — o chão estava mais frio que o de costume. Como se a porta da frente estivesse aberta —. Agora a dor sumira. A única coisa que ela sentia era tensão e isso com toda razão estava substituindo qualquer outro tipo de sensação. Ela pensou em chamar sua mãe, pois tinha a breve intuição de que ela poderia estar ali, como sempre costumava fazer quando esquecia algo e voltava silenciosa como uma cobra. Mas, por outro lado, sabia que se fizesse isso, poderia chamar a atenção da pessoa. Aquela que não seria sua mãe. E se não era ela, muito pouco provável que também seria seu pai ou irmãos, que cruzaram a cidade mais cedo. Ela já estava no meio da sala, quando o som dos passos pararam. Ela poderia continuar até a cozinha e se certificar de que encontraria alguém realmente ali, no pequeno e apertado porão, ou, ignorar e fingir que aquilo era apenas a expressão física de sua dor, manifestada ao exterior. Ela optou pela segunda opção. Melissa foi na ponta dos pés, como um gato, até o quarto de seu irmão mais novo, Benjamin, e pegou seu taco de beisebol favorito, que ele usava como amuleto da sorte nos treinos da escola. Ela detestaria ter que usá-lo, mas precisaria estar armada caso precisasse fazer algo. Segurando-o firmemente, como costuma segurar a barra de segurança de uma montanha-russa. Caminhou até o local, neutralizada de medo. Os passos continuam. Agora, cada vez mais audíveis. A porta do porão era tão normal e tão ignorada, que ela só entrava naquele cômodo, se fosse realmente preciso. A maçaneta da porta estava intacta. Mas sua imaginação a via girar devagar, como nos filmes de terror, e dali sair a criatura que viram no poço. Sedenta de sua carne, e em busca do que não conseguiu naquela estranha noite. Melissa parou por um momento. Ela não desejaria continuar. A garota tateou seus bolsos em busca de seu celular, numa última tentativa de buscar por ajuda, mas ela não o encontrou. Era só ela, a dor e o som estranho. Melissa colocou a mão na maçaneta, girando-a devagar e respirando fundo ao fazer, então, a abriu de vez. Não havia nada a não ser silêncio e uma leve brisa fresca. Talvez Melissa desejaria ter encontrado algo. Seria menos intrigante.
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Colégio Doctor John Dalton
Assim que Bill e Edward chegaram à quadra onde ficava o colégio, viram uma cena que não era comum, mas que poderia ser explicada. John estava sozinho. Geralmente a dupla dinâmica só se separava quando o Adam precisava viajar com o pai e isso só ocorria no verão. John estava encostado em uma árvore, fumando um cigarro que estava nas últimas. Parecia abatido. E isso, Bill e Edward também poderiam entender.
— Olha lá! — disse Edward, freando e encarando o jovem a uma distância considerável.
Bill desceu da garupa e foi até John, deixando Edward pensativo, mas ele logo se apressou e seguiu os passos do amigo. Agora John podia vê-los.
Bill não sabia muito bem o que falar, mas estava disposto a iniciar um diálogo, então começou com algo usual.
— E aí?
— E aí... — respondeu John, apagando o resto do que seria um cigarro e jogando a bituca no chão. Aquilo deixou Edward internamente incomodado, pois ele tinha uma certa inquietação pela desordem e se por um acaso visse alguém jogar ao chão, mesmo que fosse um papelzinho de bala, certamente resmungaria, mas desta vez não esboçou nenhuma reação. — Como está sua amiga?
— A Melissa está bem... Eu falei com os pais dela ontem à noite — respondeu Bill, brevemente. Pensou em perguntar sobre o Adam, mas tinha um sentimento controverso, quase de indiferença e não queria passar a impressão de falso.
— Aquela coisa... — continuou John, sério. — Aquilo não era um animal. — Ele ainda se lembrava muito bem daquela noite.
— Você está certo. Não era um animal. Não era humano. Não era nada. Era só a sombra da vela num tronco de madeira — Edward entrou na conversa, parecendo saber o que falava, mas até mesmo ele tinha dúvida.
John Backson se desencostou da parede e foi até Edward, encarando-o. Edward pôde notar que ele fedia a cigarro. Muito mais que sua avó Berenice. Ela costumava fumar duas carteiras por dia.
— Você se acha esperto, né, nerdzinho? — John o cutucou com as pontas dos dois dedos indicadores, empurrando-o. — Era só o reflexo da vela. — Ele imitou a voz do Edward, num tom infantil.
— John — disse Bill, fazendo-o se virar para ele. — Edward tem razão... Não havia nada. Estávamos todos assustados e isso fez com que imaginássemos coisas.
— E enquanto a explosão, hã? Foi imaginária demais para você? A chuva de bosta foi demasiada fantasiosa? — agora era o Bill que estava na onda de indagação de John.
— Metano! — Edward falou alto, chamando a atenção dele.
— É o quê, fedelho?
— Se você não matasse a aula de química para se masturbar detrás do colégio, saberia que o metano é altamente inflamável — Edward desta vez foi abusivo, mas John não fez nada. Ele sabia que Edward estava certo até certo ponto. — O animal, ou seja, lá o que estava lá, no fundo do poço, possivelmente deve ter mexido com os bolsões de metano que havia nas cavidades do poço, e a chama da vela. Bem, ela só foi a grande chave da explosão.
— Bom. Agora você concorda haver um animal, não? — exclamou John, rindo. Ele não conseguia se esquecer do que vira naquele dia. Ele estava incomodado demais para ignorar que não deveriam ter mexido com aquela coisa. — Olha... Eu não odeio vocês. Eu até me importo um pouco com vocês, mas vocês deveriam aceitar que aquilo foi real e Adam, aquele grande merdinha é um dos responsáveis.
— De toda a baboseira que você disse talvez a que tenha mais me surpreendido é saber que você se importa um pouco conosco — disse Edward, segurando um sorriso inevitável.
— Está bem... Chega por aqui — Bill interrompeu o falatório. — Vamos entrar. Está ficando frio aqui.
Apesar da rebeldia, o olhar de John era de tristeza. Ele não desejaria o mal de ninguém, ainda que seu amigo estivesse debruçado à favor desse estilo de vida, mas ele sempre foi alguém muito religioso e cético de que coisas boas e coisas ruins aconteciam e acontecem a todo momento. Muitas das vezes com explicações claras, outras, sem um pingo de compreensão porque aconteceram. No fundo, John Backson sabia que algo de ruim estava se precipitando, como a neve que chegaria em algumas horas.
O colégio estava aquecido. O diretor investira pesado no novo aquecedor e os alunos estavam demasiadamente animados. Bill, Edward e John juntos formavam o mais estranho grupo e os outros alunos percebiam isso, mas não se importavam. Edward retira suas luvas, exibindo um anel familiar à Bill. Se parecia muito com o anel que Daniel usava e se lembrar daquilo ativava um gatilho em Bill, um gatilho que embrulhava seu estômago e o fazia ter ânsia de vômito.
— Que anel é esse? — Bill não deixou a curiosidade apenas em sua mente, e questionou, chamando a atenção de John que também estava ao lado.
— Ah! Esse anel — Edward gaguejou, retirando-o do dedo — não é de vocês, não é mesmo? É que eu achei no fundo da camionete do Wason.
— Eu nunca vi antes e também não vi Adam usando — respondeu John, não se importando muito. Bill ainda pensativo e duvidoso, pegou o anel da mão de Edward e o observou com mais atenção. Sim, era o anel de Daniel. Ele não poderia esquecer aquele brilho e forma. Estava impregnado em sua mente, enroscada com suas memórias desagradáveis acerca do velho amigo de sua mãe. Mas a dúvida maior que crescia dentro dele era: o que o anel fazia no carro dos Wason?
— Eu acho que sei de quem é, mas preciso da ajuda de vocês para ter absolutamente certeza — disse Bill em reflexão, levantando o anel no ar e o observando com um olhar de inquietação.
HOTEL HUSTER - CELEBRANDO A VIDAO Hotel Huster foi palco de grandes eventos durante os anos oitenta e costumava receber muitos hóspedes durante a alta temporada, mas os anos de glória do Huster estavam com os dias contados. Administrado pelo ex-banqueiro de Liontown, Chad J. Graham, os negócios pareciam ter atrofiado. Os moradores costumavam chamar o Chad de dedo de ouro, por ser bom nos negócios, mas aquele em especial, fora sua primeira e última investida no ramo da hotelaria. O hotel perdeu capital por 20 anos, antes de fechar as portas há dez anos. Agora, era uma construção inútil à beira da rodovia Clyde. Clyde era conhecida por cortar toda a cidade e ser um dos principais pontos de entrada e saída do município. Mas não tinha um ser humano sequer que saísse ou entrasse em Liontown e não reparasse o hotel. Ele ainda par
4 de novembro de 1977 - 16:30— Se você não falar para onde foi aquela retardada, pode ter certeza que eu tiro todos os dentes de sua boca e te mando para o céu, santinho — disse James, dando um soco na barriga de Paul. Tony segurava-o pelos braços, como alguém que segura um porco para o abate. — Fala!Paul puxou o ar para os pulmões e olhou para a floresta que havia logo depois da rua atrás do colégio. Era um aglomerado de árvores altas e densas. Era o caminho mais rápido se quisesse chegar à rodovia principal da cidade.— Ela foi para lá…— Maldita hora para ir pela floresta, aberração — falou James. Tony soltou Paul, que
4 de novembro de 2007Quando o opala preto que Adam Wason estava dirigindo parou frente a antiga casa dos Morris. Ele teve uma intuição esquisita de que Edward não estaria ali. O tipo de intuição que ele não poderia compartilhar com os outros. Ele achava que essas coisas só eram sentidas por mulheres. Sua intuição se intensificou ao perceber haver rastros de pneu de carro por toda parte. Se Edward estivesse ali, não estaria mais.— Será que chamamos a atenção? — perguntou Melissa, com uma preocupação evidente. — Aqui é muito silencioso.— Se chamamos, quero estar preparado e saber que estou armado — retrucou Adam, com orgulho. Um orgulho quase doentio.
4 de novembro de 1977.Ninguém quer morrer. Pelo menos é assim que a maioria das pessoas pensa. Temos um instinto de defesa e sobrevivência que evoluiu há milhares de anos e nos preparou para os piores cenários. Algo que Bill Lewis sabia muito bem. Lutar ou fugir, estas eram as duas opções interessantes quando a questão era apenas sobreviver, e Bill estava usando-as. Já Samara Morris, em seu íntimo, tinha uma certeza que era assustadora. O tipo de certeza que ela tinha medo de verificar para ver se era realmente aquilo tudo, pois sabia que poderia ser muito pior. Ela ia morrer. Assassinato talvez. Só não sabia quando, como e porquê, o que era péssimo também. Entretanto, ela tinha esperança, do tipo que a fazia viver e esquecer o inevitável. A esperança que ela encontrou t
Liontown. 4 de novembro de 2007Bill achou fácil convencer sua mãe a sair depois do almoço, pelo fato de que haviam prendido o suspeito do desaparecimento de duas crianças na região e de… Ele se esforçou para manter a imagem de Edward em um lugar seguro, mas ele só conseguia vê-lo flutuando de barriga para baixo, às margens do rio Wax. Isso o deixava mal. Mas era difícil de deixar de pensar em coisas ruins. Sua mente estava viciada em possibilidades negativas e ele se odiava por isso. Bill cruzou a avenida principal da cidade e se encontraria com Melissa e Adam depois dos trilhos da estação ferroviária de Liontown e ficariam ali debatendo as investigações. E entre fatos verdadeiramente concretos e imaginários, Bill e Adam estariam sempre divididos nas opiniões. Era o que cos
Edward estava algemado à cama em um quarto escuro com paredes azuis. Suas roupas eram elegantes e pareciam ser da década passada. Um suéter de lã de cor vermelha-escura cobria seu torso — na vestimenta havia um broche. Era uma pombinha dourada. — O jovem olhou para os lados quando acordou novamente de seu sono nada agradável e viu, agora que seus olhos se adaptaram à escuridão, que o ambiente estava repleto de fotos de uma garota. Era Samara? Edward sabia que sim. Até onde ele se lembrava, ele veio para a casa dos Morris e sabe-se lá o motivo, ele estava no quarto que intuitivamente soava ser de uma garota. De uma garota morta. Os olhos do garoto varreram o quarto, observando cada canto e com um receio que estava no centro de sua garganta, como uma bola de muco quando se está muito gripado. Edward então escutou alguns passos que faziam as madeiras do piso rangerem