MasukBill desdobrou o papel com a imagem de Daniel e analisou o rosto dele, segurando a respiração e recordando do dia em que esteve cara a cara com o homem. O menino se questionou mentalmente se aquele homenzarrão, sem muitas suspeitas, teria coragem de fazer coisas terríveis e medonhas, das quais nem ele conseguia manter imagens imaginárias em mente por muito tempo. De todos os esboços de pensamentos que Bill teve em relação às indagações, a maioria deles concordavam que sim, Daniel Smith era tenebroso.
O garoto franzino se levantou do chão frio da biblioteca, e foi até a porta que ainda estava trancada. Olhando através do que parecia ser uma janela translúcida, ele esperou, em silêncio, com a testa posta sobre o vidro, tão limpo quanto uma película invisível e concreta que parecia sustentar sua cabeça no ar. Bill aguardava a chegada de uma alma que o pudesse vê-lo ali, e não demorou muito para que a bibliotecária voltasse, e com a cara conhecida, daquelas que alguém faz quando se surpreende com algo muito fora do esperado, ela abriu a porta, tão esperançosa por resposta quanto confusa. Bill quase conseguia ler seus pensamentos através da porta de madeira com janela de vidro, que os separava momentaneamente. Ele sentia que ela xingava um nome mentalmente. “Mais que p**a merda”, talvez.
— Como foi parar aí? — perguntou ela, sem ao menos esperar seu discurso de defesa e Bill não tinha uma desculpa clara, mas respirou fundo na intenção honesta de lhe contar a verdade.
— Eu…
Uhuuu!
A eletricidade caíra novamente. Bill viu o rosto da bibliotecária se desmanchar como manteiga em colher quente, em seguida, ela apenas puxou o ar, profundamente, observando em descontentamento, a felicidade que os alunos tinham em relação à falta de eletricidade na instituição. Eles estavam desejosos de dar o fora dali.
— Seja lá como você entrou, que não volte a fazer novamente — ordenou ela, rígida. Bill só assentiu com um sim, silencioso e gratificante. Ela pôde ler em seus olhos algum pingo de verdade, suficiente. Ela deu as costas para ele e entrou na biblioteca, deixando-o ir.
Lewis entrou no meio dos alunos e caminhou em direção à sala de artes. Os estudantes escaparam. Seria estranho se estivessem ali. Bill procurou no meio da multidão, rostos que poderiam ser conhecidos e ele encontrou: Melissa estava sentada no chão, próximo ao seu armário. Bill não era bom em enxergar a uma longa distância, mas do ponto onde estava, ele conseguia ver que ela não estava nada bem. Ele cortou caminhos entre as pessoas, mantendo os olhos em Melissa. Apressado, andou em zig-zag, se desviando de colisões corpóreas perigosas, mas um choque repentino foi inevitável. Um ombro duro como madeira, bateu contra a clavícula de Bill, desviando sua rota. Ele caiu sobre alguns armários antes de sentir alguém puxando-o pela gola da camiseta. Aquele cheiro de estrume. Era Adam e seus dentes amarelos e tortos, como uma cerca mal-colocada.
— Espero que tenha explicações para a porra da carta, florzinha — Adam o levantou do chão, chacoalhando o corpo do garoto como um cão que sacoleja abrupta e constantemente um indefeso ursinho de pelúcia. Um círculo se formou entre eles. Bill tentava manter a calma, mas a vontade de chutá-lo na boca do estômago era cada vez mais irresistível. Mas ele reavaliou o ato. Se fizesse, seria certamente destroçado ali mesmo.
— Se.. se.. me colocar no.. no chão, posso entender melhor — falou Bill, com dificuldade de abrir a boca. Adam o soltou e o corpo dele despencou como um saco de batata. A folha de papel com a foto de Smith, caiu aos pés de Adam e ele rapidamente a recolheu. Bill estendeu a mão na intenção de evitar que ele visse, mas ele já tinha aberto a folha. A cara de Adam mudou de raiva para nojo. Tão enojado quanto ver um sapo esmagado na rodovia, ou ainda mais asqueroso quanto a carcaça de um gato sendo devorada por carcarás. Adam socou um dos armários, extravasando sua raiva incontrolável. Ele amassou o papel, colocando-o no bolso e abandonando a cena esquisita que criou. O valentão saiu por uma das portas que dava acesso ao pátio externo da instituição. Bill encontrou forças em apenas dois segundos, entre a vergonha e a excitação, se levantando do chão e sacudindo a poeira. Ele caminhou até Melissa, que não estava tão distante dele.
— Aquele garoto tem sérios problemas — disse Bill, assim que se aproximou de Melissa. Ela ainda não se importava em passar a impressão de triste, como se buscasse suporte e Bill percebeu isso —, está tudo bem?
— Olá, Bill… — Melissa se levantou do chão, dando a mão para o amigo —, eu estou bem, mas… Acharam a bicicleta do Edward no rio Wax. Ela sabia que garotos que fogem não largam a bicicleta por aí. Tinha uma dor aguda no estômago da garota, tão dolorida quanto a pancada que ainda insistia em incomodá-la, que traduzia a preocupação que a consumia.
Bill soltou a última porção de ar que ainda restava em seus pulmões e lamentou junto a ela, rezando para que o pior não tivesse acontecido e se culpando ainda mais por não saber como agir diante da grande bolha de confusão que se formou em sua mente. — Céus… — comentou, ainda conectado com a mão de Melissa, que estava agora fria.
— Adam surtou mesmo ou apenas está querendo chamar a atenção? — indagou ela, voltando ao assunto estranho de meio minuto atrás. Para ela, Adam não passava de um garoto mimado que precisava de boas palmadas. Das velhas palmadas. Daquelas que ardem e impõem, mesmo que erroneamente, um pingo de juízo nos moleques.
— Vem. Preciso encontrá-lo. Preciso explicar algo — as palavras de Bill deslizavam como esqui na neve, esbarrando miseravelmente no grande muro de dúvidas que Melissa criara ali mesmo, encarando Lewis e seu complexo de mistério.
— Está acontecendo algo?
— Eu desejaria que não…
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Havia um carro da companhia elétrica de Liontown, estacionado no pátio da entrada principal do Colégio Doctor John Dalton. Eles informaram que uma nevasca sucumbiu ao leste do Estado e que muito provavelmente, o fornecimento só se estabeleceria em algumas horas. Não era novidade para o diretor Evans, que se deparava com o evento anual. O dirigente da instituição decidiu reunir os alunos na quadra de esportes que ficava atrás do colégio. Um complexo grande e bem cuidado, que poderia caber mais da metade dos alunos que estavam ali naquela manhã. Muitos deles obedeceram ao comando de ir para lá, mas não Bill.
O que eu vou falar com ele? Por que estou com ele? É tudo culpa dele e do meu jeito de aceitar coisas para me sentir importante. Melissa tocou no ombro de Bill enquanto ele finaliza suas últimas indagações internas, como se estivesse em um profundo transe de lamentação.
— Se você me contar — disse ela, com voz apaziguadora. — Talvez eu entenda o que está acontecendo.
Ser trazido para aquela realidade o fazia se sentir pior. Ele desistira da primeira faísca de intenção em contar, quando sua boca só se moveu um pouquinho; estava agora com os olhos em Adam. O garotão estava atrás do muro que dividia a quadra de esportes com o resto do pátio externo. Ele fumava um cigarro feito por ele mesmo, com o tabaco que roubara do pai, dias atrás. Ele sempre fazia isso.
— Bill... — Melissa tentava um contato, mas o garoto era como uma sonda espacial perdida no espaço sideral.
— Vem — disse ele, para a alegria dela. — Vou falar com o Adam.
Talvez a palavra falar, não fosse exatamente a palavra que Bill queria dizer naquele momento e Melissa sabia muito bem disso, mas de certa forma, uma boa conversa, daquelas iniciadas com uma boa frase de efeito, talvez impedisse guerras que pareciam inevitáveis entre eles. Adam era um rapaz difícil de lidar, além de ser preconceituoso, machista e egocêntrico. Se existissem virtudes, talvez estivessem escondidas debaixo de suas calças.
— Você me pegou de surpresa — Bill não sabia mesmo como iniciar conversas apaziguadoras. Adam só revirou os olhos e deu mais uma tragada no cigarro, como uma caipora das lendas brasileiras. A fumaça desceu azeda pelas vias respiratórias. — Você comentou sobre a carta e talvez isso agora faça sentido... Há algo que precisamos conversar sobre isso.
Melissa acendeu, como um rádio velho, quando se coloca novas pilhas. Ela se introduziu gradativamente no assunto.
— Você acredita que eu não ia descobrir sua brincadeira de mal gosto? — indagou Adam de forma tranquila, reflexiva, por incrível que isso possa parecer. — Só não consigo acreditar como conseguiu...
— O quê? — Bill percebeu que a paz que reinava entre a tragada no cigarro e a baforada longa, morreu numa expressão de medo. Das poucas que aquele cara expressou nos últimos anos. Ele não tinha medo. Não Adam Wason.
— Eu não sou o responsável pelas cartas... e digo cartas, pois nós também recebemos — Bill contou a verdade, não esperando que ele acreditasse, mas ciente de que Adam logo iria se conscientizar da grande roubada que se meteram no momento em que pisaram os pés na propriedade dos Morris.
— Ele está certo — Melissa entrou na conversa, em defesa de Bill. — Seja lá quem for o responsável, parece nos ameaçar...
— Não só ameaçar, bruxinha, como também cumprir! — falou Adam, áspero quanto o muro que havia atrás de suas costas e que ele usara para apagar o cigarro. — Essa pessoa machucou o John. Agora ele está entubado e não sabemos se ele vai escapar dessa.
Melissa sentiu o sangue correr por suas veias, indo para seus músculos, numa sensação quente de reação à luta ou fuga. Ela ficou pálida como papel. Dava-se conta, tardiamente, do que estava acontecendo.
Bill estava em silêncio. A cada nova palavra dita por Adam, era como se um filme de horror estivesse sendo exibido com exclusividade em sua mente.
— Se não foi você... — continuou Adam. — Quero que fale agora se aquele homem da foto tem a ver com isso?
— Do que ele está falando, Bill?
— Apenas abre a merda da boca, Bill Maluco! Aquele pedófilo tem alguma relação com isso? — Adam foi mais incisivo na interrogação, tirando de Bill, o último vestígio de autocontrole. Ele olhou para o agressor, em seguida virou o rosto para Melissa, como se falasse mentalmente um: sinto muito, querida. Ela entendera.
HOTEL HUSTER - CELEBRANDO A VIDAO Hotel Huster foi palco de grandes eventos durante os anos oitenta e costumava receber muitos hóspedes durante a alta temporada, mas os anos de glória do Huster estavam com os dias contados. Administrado pelo ex-banqueiro de Liontown, Chad J. Graham, os negócios pareciam ter atrofiado. Os moradores costumavam chamar o Chad de dedo de ouro, por ser bom nos negócios, mas aquele em especial, fora sua primeira e última investida no ramo da hotelaria. O hotel perdeu capital por 20 anos, antes de fechar as portas há dez anos. Agora, era uma construção inútil à beira da rodovia Clyde. Clyde era conhecida por cortar toda a cidade e ser um dos principais pontos de entrada e saída do município. Mas não tinha um ser humano sequer que saísse ou entrasse em Liontown e não reparasse o hotel. Ele ainda par
4 de novembro de 1977 - 16:30— Se você não falar para onde foi aquela retardada, pode ter certeza que eu tiro todos os dentes de sua boca e te mando para o céu, santinho — disse James, dando um soco na barriga de Paul. Tony segurava-o pelos braços, como alguém que segura um porco para o abate. — Fala!Paul puxou o ar para os pulmões e olhou para a floresta que havia logo depois da rua atrás do colégio. Era um aglomerado de árvores altas e densas. Era o caminho mais rápido se quisesse chegar à rodovia principal da cidade.— Ela foi para lá…— Maldita hora para ir pela floresta, aberração — falou James. Tony soltou Paul, que
4 de novembro de 2007Quando o opala preto que Adam Wason estava dirigindo parou frente a antiga casa dos Morris. Ele teve uma intuição esquisita de que Edward não estaria ali. O tipo de intuição que ele não poderia compartilhar com os outros. Ele achava que essas coisas só eram sentidas por mulheres. Sua intuição se intensificou ao perceber haver rastros de pneu de carro por toda parte. Se Edward estivesse ali, não estaria mais.— Será que chamamos a atenção? — perguntou Melissa, com uma preocupação evidente. — Aqui é muito silencioso.— Se chamamos, quero estar preparado e saber que estou armado — retrucou Adam, com orgulho. Um orgulho quase doentio.
4 de novembro de 1977.Ninguém quer morrer. Pelo menos é assim que a maioria das pessoas pensa. Temos um instinto de defesa e sobrevivência que evoluiu há milhares de anos e nos preparou para os piores cenários. Algo que Bill Lewis sabia muito bem. Lutar ou fugir, estas eram as duas opções interessantes quando a questão era apenas sobreviver, e Bill estava usando-as. Já Samara Morris, em seu íntimo, tinha uma certeza que era assustadora. O tipo de certeza que ela tinha medo de verificar para ver se era realmente aquilo tudo, pois sabia que poderia ser muito pior. Ela ia morrer. Assassinato talvez. Só não sabia quando, como e porquê, o que era péssimo também. Entretanto, ela tinha esperança, do tipo que a fazia viver e esquecer o inevitável. A esperança que ela encontrou t
Liontown. 4 de novembro de 2007Bill achou fácil convencer sua mãe a sair depois do almoço, pelo fato de que haviam prendido o suspeito do desaparecimento de duas crianças na região e de… Ele se esforçou para manter a imagem de Edward em um lugar seguro, mas ele só conseguia vê-lo flutuando de barriga para baixo, às margens do rio Wax. Isso o deixava mal. Mas era difícil de deixar de pensar em coisas ruins. Sua mente estava viciada em possibilidades negativas e ele se odiava por isso. Bill cruzou a avenida principal da cidade e se encontraria com Melissa e Adam depois dos trilhos da estação ferroviária de Liontown e ficariam ali debatendo as investigações. E entre fatos verdadeiramente concretos e imaginários, Bill e Adam estariam sempre divididos nas opiniões. Era o que cos
Edward estava algemado à cama em um quarto escuro com paredes azuis. Suas roupas eram elegantes e pareciam ser da década passada. Um suéter de lã de cor vermelha-escura cobria seu torso — na vestimenta havia um broche. Era uma pombinha dourada. — O jovem olhou para os lados quando acordou novamente de seu sono nada agradável e viu, agora que seus olhos se adaptaram à escuridão, que o ambiente estava repleto de fotos de uma garota. Era Samara? Edward sabia que sim. Até onde ele se lembrava, ele veio para a casa dos Morris e sabe-se lá o motivo, ele estava no quarto que intuitivamente soava ser de uma garota. De uma garota morta. Os olhos do garoto varreram o quarto, observando cada canto e com um receio que estava no centro de sua garganta, como uma bola de muco quando se está muito gripado. Edward então escutou alguns passos que faziam as madeiras do piso rangerem