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CAPÍTULO 4: A Marca da Posse

Author: Dália
last update publish date: 2026-10-06 00:45:39

O ar dentro do carro blindado era tão denso que tornava difícil até o ato simples de respirar. Gabriel conduzira o sedan escuro da mansão até o atelier privado de Madame Cléo — uma estilista renomada do submundo para quem Dominic mandara me levar horas antes. Sob as ordens gélidas dele, uma equipe inteira de costureiras e maquiadoras me transformara, ajustando fios, tecidos e tintas como se estivessem restaurando uma obra de arte comprada em um leilão.

Eu vestia o resultado daquela transformação: um vestido de alta-costura em tom verde-esmeralda, com um corte impecável que aderia ao meu corpo como uma segunda pele, ombros à mostra e um decote discreto, porém ousado. Nos meus pés, saltos altos finos cobriam a sensação de fraqueza que teimava em dominar minhas pernas. Minha maquiagem fora feita para esconder as noites mal dormidas e a palidez do medo. Por fora, eu parecia uma mulher da alta sociedade pronta para uma noite de gala. Por dentro, eu era apenas uma garota segurando os pedaços despedaçados da própria dignidade para salvar a vida de seu irmão.

A festa, afinal, acontecia na própria propriedade de Dominic Vance — uma decisão deliberada para exibir seu novo "troféu" em seu próprio domínio.

— Lembre-se do seu papel, Maya — a voz de Dominic quebrou o silêncio do carro assim que estacionamos no pátio da mansão. Ele guardou o telefone no bolso interno do terno e se virou para mim. Seu olhar percorreu meu corpo da cabeça aos pés com uma apreciação fria e detida.

— Você é educada, elegante e inatingível. Não fala sobre o seu passado, não responde a provocações e não se afasta do meu lado por motivo algum.

— E se alguém fizer perguntas sobre a minha família? — perguntei, engolindo em seco e mantendo o queixo erguido, lutando para não demonstrar o tremor que ameaçava minhas mãos.

— Diga que sua família é do setor agropecuário do interior e prefere o anonimato — respondeu ele, a voz baixa e categórica. Ele estendeu a mão e ajustou a pequena gola do meu vestido, seus dedos roçando intencionalmente na pele sensível da minha clavícula, fazendo um arrepio involuntário correr pela minha espinha.

— Ninguém naquele salão se importa com a verdade. Eles só precisam ver que eu escolhi você.

Quando Gabriel abriu a porta do veículo, Dominic desceu primeiro e estendeu a mão para mim. Hesitei por uma fração de segundo, mas a imagem do rosto de Léo no hospital veio à minha mente. Respirei fundo, selei a farsa em minha mente e pousei minha mão sobre a dele. A palma de sua mão era grande, firme e terrivelmente quente.

Assim que pisamos no tapete vermelho que levava à entrada do salão principal da mansão, o zumbido de conversas e os olhares atentos da multidão convergiram para nós.

O salão era um espetáculo de opulência obscena. Lustres de cristal gigantescos iluminavam centenas de pessoas vestidas com o auge do luxo: empresários de renome internacional, políticos influentes e figuras cujos rostos carregavam uma rigidez perigosa — a elite do submundo financeiro e do poder privado.

— Dominic Vance... finalmente — disse um homem de meia-idade, vestindo um smoking sob medida, ao se aproximar com uma taça de xerez na mão.

— Ouvimos boatos de que você traria uma acompanhante esta noite, mas não esperávamos que fosse verdade.

— Alberto — Dominic cumprimentou com um aceno curto e calculativo, sem esboçar um único sorriso.

— Esta é Maya. Minha noiva.

A palavra noiva saiu dos lábios dele com uma naturalidade tão assustadora que senti meu peito apertar. Alberto mediu-me com um olhar clínico e curioso, oferecendo um sorriso polido antes de fazer um breve aceno de cabeça.

— Uma mulher de sorte — comentou Alberto.

— Dominic nunca traz ninguém para os nossos encontros privados.

Nos quarenta minutos seguintes, fui arrastada por Dominic através de uma sucessão de cumprimentos formais, conversas sobre investimentos, rotas marítimas e transações bilionárias. Eu mantinha um sorriso sutil e treinado nos lábios, respondendo com monossílabos educados sempre que era solicitada, exatamente como Dominic havia instruído. Minha mente, porém, contava cada segundo para o fim daquela tortura social.

Foi quando a multidão na entrada do salão se abriu ligeiramente, e o tom das conversas ao redor pareceu mudar sutilmente.

Uma mulher jovem, deslumbrante e vestida com um longo vermelho vibrante caminhava em nossa direção com passos calculados. Ela tinha cabelos pretos impecáveis, lábios pintados no mesmo tom da roupa e olhos escuros que queimavam com uma mistura indisfarçável de arrogância e desprezo. Ao seu lado, caminhava um homem mais velho, de cabelos grisalhos e terno impecável, cujo olhar frio emanava uma autoridade ameaçadora.

— Dominic, querido — a mulher de vermelho falou, sua voz escorrendo uma falsidade aveludada enquanto se aproximava. Ela nem sequer olhou para mim de início; seus olhos estavam fixos exclusivamente no homem ao meu lado.

— Achei que você estivesse ocupado demais com a reestruturação do cartel para organizar um evento desses.

— Bianca — Dominic respondeu, e pela primeira vez na noite, notei uma mudança perceptível no tom da sua voz. Não havia frieza cortês; havia uma rigidez letal.

— Vejo que seu pai finalmente resolveu trazê-la para a cidade.

Bianca de Rossi era filha de um dos parceiros mais antigos da organização. E, pelo modo como ela encarava Dominic, ficava claro que ela esperava ocupar o lugar ao lado dele há muito tempo.

Finalmente, Bianca virou o rosto na minha direção. Seu olhar percorreu meu vestido, meus sapatos e subiu devagar até o meu rosto, avaliando-me como se eu fosse um inseto insignificante que cruzara o seu caminho.

— E quem é essa garota? — perguntou Bianca, dando um sorriso venenoso que não alcançava seus olhos. — Não me lembro de ter visto essa cara nos círculos da família. De onde você a tirou, Dominic? De algum leilão beneficente... ou de algum lugar mais vulgar?

Senti o sangue fugir do meu rosto. A provocação fora direta e precisa.

— Maya é minha noiva, Bianca — Dominic declarou, sua mão apertando ligeiramente a minha cintura de forma possessiva, embora sua expressão permanecesse congelada em pedra.

— E a procedência dela diz respeito apenas a mim.

— Noiva? — Bianca soltou uma risada curta e debochada, chamando a atenção de vários convidados ao redor, que começaram a se aproximar disfarçadamente para assistir à cena.

— Dominic Vance noivo de uma desconhecida sem sobrenome? Isso sim é uma surpresa. Espero que ela saiba exatamente onde está se metendo... ou o quanto custou para estar aqui.

A tensão no salão atingiu um ponto de ebulição. Pude sentir a fúria contida emanar do corpo de Dominic, mas ele não deu um único passo à frente. Ele apenas observava, testando minha capacidade de me manter de pé naquela arena de leões.

— Se me dão licença — murmurei, tentando manter a voz estável

—, vou buscar um copo de água.

— Eu vou com você — disse Dominic, segurando meu braço.

— Não precisa — respondi, puxando meu braço com delicadeza, mas com uma firmeza desesperada.

— É só um minuto.

Precisei de espaço. Precisei sair de perto de Bianca, de Dominic e de todos aqueles olhares acusadores que pareciam adivinhar a verdade por trás do meu vestido caro. Caminhei em direção à varanda lateral do salão, onde o ar frio da noite soprava suavemente, longe da multidão.

Apoiei as mãos no parapeito de pedra da varanda e fechei os olhos, tentando controlar a respiração desordenada e o nó sufocante que se formara na minha garganta.

— Fugindo tão cedo, queridinha? — a voz estridente de Bianca ecoou às minhas costas.

Virei-me rapidamente. Bianca caminhava em minha direção, segurando uma taça transbordando de vinho tinto. Atrás dela, duas outras mulheres da alta sociedade a acompanhavam, sorrindo de forma maldosa.

— Eu só vim tomar um ar — respondi, dando um passo para trás.

— Você realmente acha que engana alguém aqui? — Bianca se aproximou, sua fisionomia contorcida por uma raiva invejosa.

— Eu sei quem você é, garota. Conheço o tipo de vadia miserável que o Dominic usa para se divertir por algumas semanas antes de descartar. Você não tem sobrenome, não tem classe e cheira a desespero.

— Você não sabe nada sobre mim — falei, tentando manter a cabeça erguida.

— Eu sei o suficiente para saber que você foi comprada — sussurrou ela, inclinando-se para frente com crueldade pura nos olhos.

— Você é só uma mercadoria barata na cama dele. E é bom você se lembrar do seu lugar.

Antes que eu pudesse reagir ou dar um passo para o lado, Bianca estendeu o braço bruscamente. Com um movimento rápido e ensaiado, ela fingiu um tropeço e virou a taça cheia de vinho tinto diretamente sobre a parte frontal do meu vestido verde-esmeralda.

O líquido escuro e gelado manchou o tecido caro instantaneamente, escorrendo pelo meu peito e pela saia. No mesmo movimento, Bianca prendeu o salto alto fino na barra do meu vestido comprido e me empurrou com força.

O equilíbrio me faltou. Tentei me segurar no parapeito, mas minhas mãos deslizaram.

Caí feio de joelhos no piso de mármore do salão, o som do impacto ressoando alto. O vinho escorria pelo meu rosto e pelo vestido manchado, enquanto a taça de cristal se despedaçava no chão ao meu lado, cortando levemente a palma da minha mão direita.

O silêncio caiu sobre a varanda e se alastrou para o salão principal. Decenas de convidados se aproximaram, atraídos pelo barulho.

— Ah, meu Deus! Que desastrada! — Bianca exclamou em um tom falso de pena, levando a mão à boca enquanto as mulheres ao seu lado davam risadinhas contidas.

— Olhem só para ela... nem sabe andar de salto alto sem se arruinar. Uma verdadeira coitada.

Gritos abafados e sussurros debochados começaram a circular pela multidão. Risos contidos ecoavam ao meu redor. Câmeras de celulares de alguns convidados foram erguidas discretamente para registrar a cena humilhante. Eu estava no chão, suja de vinho, sangrando levemente e ridicularizada pela elite da cidade como uma intrusa miserável.

Levantei os olhos devagar, com a visão embaçada pelas lágrimas de vergonha que lutava para não deixar cair.

No meio da multidão que me cercava, Dominic Vance estava de pé.

Ele não se moveu. Não deu um passo à frente. Não estendeu a mão para me ajudar a levantar e não proferiu uma única palavra para calar Bianca ou a multidão. Ele apenas permaneceu ali, com as mãos nos bolsos do terno, encarando-me do alto com olhos azuis totalmente frios, calculistas e impassíveis — testando, com extrema crueldade, até onde a minha resistência iria antes de quebrar.

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