LOGINViro o rosto em direção à porta e ouço os passos de Elena indo atender. — Pelo visto, nossa última convidada acabou de chegar — murmuro, me arrastando para a beira do sofá. Meu marido assente e se levanta, me ajudando a ficar em pé. No mesmo momento, Paige aparece com um vestido leve e um sorriso enorme, carregando uma sacola de papel. — Trouxe sobremesa — anuncia, entrando. — Considerem isso um suborno para me convidarem sempre. — Você não precisa de suborno para isso — respondo, rindo. Enquanto Dante pega a sacola das mãos dela, Victor volta da varanda bem a tempo de vê-la. O sorriso que aparece no rosto dele é imediato, quase automático. — Chegou rápido. — Sim. O trânsito estava tranquilo — ela responde, se aproximando dele. Os dois trocam um beijo rápido nos lábios, tão natural que quase passa despercebido. Quase. Porque continuo olhando para os dois, tentando não sorrir demais. Paige percebe meu olhar e revira os olhos, ainda sorrindo. — O quê, Amy? —
“Amy Ferretti” Meu despertador foi oficialmente aposentado ontem, mas o cheiro de café parece ter assumido a função de me acordar. Viro a cabeça e encontro o lado da cama de Dante vazio, só o travesseiro ainda com a marca da cabeça dele. Em seguida, sinto um movimento na barriga, que se tornou tão comum nas últimas semanas que já nem me acorda mais. Um sorriso surge no mesmo momento. Trinta semanas. Está cada vez mais perto do dia em que finalmente vou conhecê-los. Passo a mão devagar pela barriga e logo sinto outro movimento logo em seguida. — Bom dia para vocês também, meus amores. Como se tivessem entendido, os dois parecem decidir que esse é o momento perfeito para começar uma pequena reunião particular dentro de mim. Solto uma risada baixa. — Vocês podiam esperar a mamãe acordar primeiro, sabiam? Mais um chute. Antes que eu possa continuar aproveitando o momento de calmaria, ouço a voz tensa do meu marido do outro lado da porta, provavelmente ao telefone. O dia come
“Juliet Whitmore” O quarto da casa de campo parece ter sido atingido por um delicioso tornado, deixando tudo em uma bagunça agradável. Garrafas vazias espalhadas pelo chão, roupas jogadas sobre os móveis, copos pela metade sobre a mesa e pequenos envelopes abertos ao lado de um espelho coberto de pó branco. — Engole tudo, vadia — o loiro diz, puxando meus cabelos com força. Faço o que ele ordena, empurrando a boca contra o pau dele até engasgar. Ele ri, satisfeito com o som que deixo escapar, e estende a mão para pegar o copo de whisky na mesinha de cabeceira. A bebida escorre quente pelo peito dele até chegar à base do pau duro. — Limpa essa porra! — exclama, dando um tapa no meu rosto. Inclino a cabeça e lambo, devagar, sentindo o gosto da bebida se misturar com o dele enquanto o outro me fode por trás com força suficiente para me fazer balançar para frente a cada estocada. Meu joelho dói contra o colchão, o cabelo gruda no rosto, mas não peço para parar. Não quero parar.
O carro está ligado há cinco minutos. Não sei dizer exatamente quando parei de prestar atenção nisso, só sei que ainda não consegui começar a dirigir. Minhas mãos seguram o volante, mas minha mente continua presa à voz calma demais de Ária Freeman enquanto ela confessava ter alterado a medicação do meu pai. Passo a mão pelo rosto, tentando, sem muito sucesso, organizar os pensamentos o suficiente para começar a dirigir. O celular vibra no banco do passageiro e, por um segundo, penso em ignorar. Mas o nome que aparece na tela me faz mudar de ideia. Mamma. Respiro fundo antes de atender, tentando, ao menos por fora, parecer que não acabei de sair da casa de Victor, carregando o peso das mentiras nos ombros. — Ciao, Mamma. — Dante! A voz dela vem calma, como sempre, mas o rosto que aparece na tela não é só o dela. Nonna Teresa está sentada à mesa do escritório de Isabella, ao fundo, cercada de papéis, com os óculos empurrados para cima da cabeça e a boca levemente aberta. Dorm
Fico alguns segundos em silêncio. Não porque acredite que isso apague o que ela fez. Não apaga. Meu pai faleceu, e ela teve participação direta nos últimos meses da vida dele. Mas também não consigo ignorar o fato de que, desde que essa investigação começou, alguém está sentada na minha frente, admitindo exatamente o que fez, sem tentar esconder a própria culpa atrás de uma mentira conveniente. — Por quanto tempo isso durou? — pergunto, me esforçando para manter a voz baixa. — Dois meses. Depois, percebi que, se continuasse, ele ia piorar rápido demais para parecer natural. E eu seria a primeira suspeita. Ela balança a cabeça devagar. — Fui embora antes que as coisas piorassem ainda mais. Antes que eu fosse presa e meu filho fosse parar em um orfanato, sem ninguém. — E, depois disso, não pensou em avisar alguém? Em impedir que aquilo continuasse? — Pensei, claro. A resposta sai rápida, quase defensiva, mas o que vejo no rosto dela não é raiva. É culpa, tão antiga que já deve
“Dante Ferretti” O elevador sobe em silêncio, exceto pela voz de Amy, animada demais para alguém que acabou de almoçar por três. Literalmente. — A nonna sugeriu buffet italiano, para ninguém reclamar, já que, segundo ela, todos amam massa. O que você acha? — Acho uma ótima ideia. Mas já disse que você pode decidir o que quiser, Piccola. Confio no seu gosto. — Você disse isso porque não quer opinar. — Eu disse isso porque, se algo sair errado, você vai culpar a mim. Ela revira os olhos, mas sorri, apoiando a cabeça no meu ombro por um segundo antes que as portas se abram. Observo Amy enquanto caminhamos até a mesa dela. Nenhum traço da notícia de ontem, sobre a falência de Alfred, parece ter sobrado no rosto dela hoje. Só entusiasmo com listas de fornecedores e fotos de decorações que a nonna insiste em mandar a cada duas horas. Não sei dizer se ela realmente superou tão rápido ou se apenas decidiu, como sempre faz, colocar a dor em um canto organizado da própria cabeça para







