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Capítulo 7

Author: Fumaça Azul
— Com licença, o senhor é o Sr. Noah? O Sr. Gabriel solicita a sua presença.

A abordagem veio de um garçom em uniforme impecável que, após caminhar com passos leves até eles, fez uma reverência respeitosa.

Mantendo um sorriso protocolar no rosto, o funcionário estendeu a mão e indicou a direção da varanda, onde a iluminação era mais tênue e a atmosfera, pesada.

Sentados ali estavam os homens da família Moura. As silhuetas eretas emanavam uma autoridade natural, uma aura opressora que dispensava palavras. Quando Júlia ergueu o olhar casualmente, cruzou com os olhos deles, afiados como os de falcões à espreita de uma presa, e o pavor a invadiu como uma maré gelada, dominando cada nervo de seu corpo.

Num reflexo de defesa, ela se encolheu como um animal acuado e buscou refúgio às costas de Noah, agarrando o tecido do paletó dele com os dedos trêmulos.

— Noah, estou com medo. — Choramingou ela, com a voz embargada.

Noah franziu a testa, formando vincos profundos de preocupação. Um lampejo de impaciência cruzou seu olhar, mas sua reação física foi contraditória, pois em vez de apenas consolar Júlia, ele capturou o pulso de Cecília com a força de uma tenaz, apertando-o a ponto de quase triturar os ossos dela, e a arrastou sem cerimônia em direção à varanda.

— Noah, o que está fazendo? Me solta! — Gritou Cecília, tropeçando diante do puxão abrupto.

Ela tentava desesperadamente abrir os dedos de ferro que a aprisionavam, cravando as unhas na mão dele e mordendo o lábio inferior em um misto de dor e revolta. Noah, no entanto, parecia surdo aos protestos. Ele continuava a arrastá-la enquanto murmurava uma proposta absurda, como se estivesse concedendo a ela uma grande honra.

— Cecília, se você pedir desculpas à família Moura hoje, vamos ao cartório registrar nosso casamento imediatamente.

A voz dele carregava uma certeza inabalável, mas soava delirante. Mesmo naquela situação crítica, Noah insistia em manipular Cecília com promessas vazias, desenhando um futuro ilusório na tentativa de fazê-la assumir uma culpa que não era sua, tudo para proteger Júlia.

— Você perdeu o juízo, Noah! — Disse Cecília, mordendo o lábio com tanta força que sentiu o gosto metálico de sangue.

Seus olhos fuzilavam o homem a quem, até pouco tempo, ela dedicava um amor incondicional. A ironia era amarga e cruel. Aquele que havia jurado ser seu escudo contra as tempestades, prometendo proteção eterna, agora era quem a empurrava para o olho do furacão, sacrificando-a sem hesitar para salvar outra mulher.

O olhar de Noah permaneceu frio, desprovido de qualquer compaixão. Com um movimento brusco, ele soltou o braço de Cecília e a impulsionou para frente. O corpo dela, desequilibrado como uma marionete com os fios cortados, foi arremessado ao chão, caindo aos pés do pessoal da família Moura.

O impacto do cotovelo contra o piso rígido enviou uma onda de dor aguda pelo braço dela. Cecília deixou escapar um gemido abafado e, ao baixar a cabeça, notou o sangue começando a manchar a pele alva, um contraste gritante e doloroso.

— Sr. Gabriel, aqui está a responsável por empurrar a Srta. Daniela na água. — Anunciou Noah, com a expressão pétrea e a voz cortante como o vento de inverno.

Sem dar tempo para que ela se recuperasse, ele a puxou pelos cabelos, forçando-a a se erguer, e a pressionou contra a mesa de centro. A borda dura do móvel se enterrou no estômago de Cecília, e embora as lágrimas de dor inundassem seus olhos, ela cerrou os dentes, recusando-se a chorar na frente deles.

— O que está esperando para pedir desculpas à Srta. Daniela? — Ordenou Noah, encarando-a de cima com um misto de ameaça e urgência.

Quando os olhares se encontraram, contudo, Noah vacilou. Havia um ódio tão profundo e tangível nos olhos de Cecília que ele sentiu um arrepio percorrer a espinha. Por uma fração de segundo, ele viu a desesperança e o fim definitivo de qualquer afeto que existisse ali.

"Cecília, me perdoe", pensou ele, tentando justificar a própria covardia. "Quando tudo isso acabar, vou compensá-la. Darei o que você quiser."

Mas as palavras de arrependimento morreram em sua garganta, jamais ditas.

— Você é cego e sem caráter, Noah. Está invertendo a verdade para proteger a culpada. — Retrucou Cecília pausadamente, cuspindo cada palavra com desprezo.

Noah franziu o cenho, incomodado com a resistência dela. Inclinou-se e sussurrou ao ouvido dela, num tom baixo que não admitia recusa:

— Eu devo isso à Júlia. Se você me ama de verdade, faça isso por mim.

— Eu não amo mais você. — Respondeu Cecília de imediato. A voz saiu fraca devido à dor física, mas carregada de uma firmeza inquebrantável.

A cena arrancou um riso debochado de Gabriel Moura. O homem bateu palmas de forma lenta e sarcástica, o canto da boca curvado em um sorriso cruel.

— Bravo, Sr. Noah! Que espetáculo de "justiça". Entregar a própria namorada com essa facilidade... é uma coragem que chega a ser comovente. — Zombou Gabriel.

— Gabriel, já que encontramos a culpada, vamos acabar logo com isso. — Interveio Bruno Moura, com o rosto contorcido em uma expressão impiedosa. — Joguem essa mulher lá embaixo. Que ela sinta na pele o gosto de ser atirada na água.

Ao sinal dele, os seguranças avançaram e agarraram os braços de Cecília com brutalidade, dedos grossos apertando a carne ferida. Ela estava em frangalhos; o cabelo grudava no rosto suado, as roupas estavam amarrotadas e o corpo latejava pelas pancadas recentes. No entanto, respirou fundo, buscando uma reserva de dignidade que nem ela sabia que possuía. Ergueu o queixo e encarou Gabriel nos olhos.

— Sr. Gabriel, posso provar que não fui eu quem empurrou a Srta. Daniela.

A declaração ecoou com clareza. Havia em seu olhar uma convicção tão sólida que fez o ambiente silenciar por um instante. Aquela não era a postura de alguém que mentia.

— Ah, é? — Gabriel arqueou uma sobrancelha, intrigado. — E como pretende fazer isso?

Ao ouvir aquilo, o coração de Júlia falhou uma batida. O pânico a dominou e ela agarrou o braço de Noah com urgência, as unhas ficando brancas pela força do aperto.

— Cecília, sei que você está furiosa com o Noah, mas precisa ter coragem para assumir seus erros! — Exclamou Júlia, com a voz trêmula e manhosa. — Continuar mentindo desse jeito só vai decepcionar o Noah ainda mais.

Ela se virou para Gabriel e Bruno, assumindo uma postura frágil e vitimista, e acrescentou:

— Sr. Gabriel, sou testemunha. Foi a Cecília quem empurrou a Srta. Daniela de propósito e ainda tentou jogar a culpa em mim. Se o Noah não fosse tão perspicaz, ela teria conseguido enganar a todos.

Júlia fez uma pausa dramática, mordendo o lábio inferior como se estivesse contendo o choro, e lançou um olhar de falsa incredulidade para a rival.

— Quem poderia imaginar que, mesmo encurralada, ela continuaria tentando enganar os senhores? Essa teimosia é lamentável.

Enquanto falava, a mente de Júlia trabalhava febrilmente, destilando veneno.

"Joguem logo essa desgraçada na água", torcia ela internamente, com um brilho perverso no olhar escondido sob a máscara de inocência. "Se ela sumir, ninguém mais poderá me ameaçar."

Apertando ainda mais o braço de Noah, como se buscasse proteção, ela continuou a tecer sua teia de mentiras.

Gabriel e Bruno, no entanto, não agiram de imediato. Seus olhares, afiados como lâminas, alternavam entre Cecília e Júlia, pesando cada palavra, calculando as reações e avaliando a verdade oculta naquele drama, em um silêncio tenso que parecia durar uma eternidade.
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