LOGINUm mês depois, Londres respirava aquela luz cinzenta de outono que se filtravá pelas paredes de vidro do estúdio de pilates. O espaço era amplo, com máquinas reformer alinhadas sob a claridade suave, e um silêncio de concentração quebrado apenas pelo som das molas e pela voz paciente do instrutor.Mariana ajustou os pés na barra do reformer, as mãos segurando as alças de couro. Ela vestia uma calça preta de compressão e um top esportivo azul-marinho, os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo baixo que escapava em fios finos sobre a nuca. O movimento era lento, controlado, cada alongamento exigindo dela uma concentração que ia além do físico.O tratamento contra o câncer a deixava exausta. Mas ela não deixaria transparecer.A porta de vidro deslizou com um suave chiado. Mariana não precisou levantar os olhos para saber quem era. Sentiu a presença antes de ver, uma irritação instantânea que tensionou seus ombros.Cecília entrou com a barriga já evidente sob um vestido floral justo,
Duas semanas depois, a manhã no chalé amanhecera coberta por uma névoa fina que se dissolvia lentamente sobre o lago. O ar frio das montanhas trazido pelo vento carregava o cheiro de pinho e terra molhada, e os primeiros raios de sol começavam a aquecer a varanda de madeira onde Mariana estava sentada, uma cesta de crochê apoiada no colo.Ela movia as agulhas com uma dedicação paciente, o fio azul-claro se transformando em pequenos quadrados perfeitos sob seus dedos. Ao lado, Cecília observava com uma expressão que misturava curiosidade e ceticismo, os cabelos ruivos presos em um rabo de cavalo desleixado:— Tenta de novo — Mariana disse, a voz suave, sem o tom de julgamento que costumava marcar suas conversas.Cecília suspirou, pegando as agulhas com a mesma graça de quem segura um ouriço. Tentou repetir o movimento que Mariana lhe ensinara, mas o fio escapou das hastes, formando um nó confuso:— Não sei como você faz isso parecer tão fácil — Cecília resmungou, os dedos lutando contr
Uma semana se passou desde que chegaram ao chalé. O tempo, que antes parecia suspenso entre a neblina das montanhas e o reflexo do lago, agora se arrastava em uma rotina tensa de pequenos conflitos e tréguas forçadas.Mariana estava deitada na cama do quarto de hóspedes, o corpo pesado como chumbo. A luz da manhã filtrava-se pelas cortinas de linho, mas ela não tinha forças para se levantar. Há dias, uma fadiga inexplicável a consumia, uma exaustão profunda que o sono não curava. As dores nas costas pioravam à noite, um incômodo surdo que a fazia revirar na cama até o amanhecer.A porta se abriu sem batida. Cecília entrou, os cabelos ruivos desgrenhados, a expressão carregada de irritação mal disfarçada:— Anne mandou perguntar se você está bem — Cecília disse, a voz seca, os braços cruzados sobre o peito.Mariana suspirou, os olhos fixos no teto de madeira:— Estou bem.— Claro — Cecília torceu o nariz, os olhos percorrendo o quarto com desdém. — Você não desceu para o café da manhã.
O carro preto subiu a estrada sinuosa por quase quarenta minutos antes de finalmente desacelerar diante de um portão de ferro forjado que se abriu silenciosamente. A cabana surgiu entre as árvores como uma visão saída de um sonho alpino: vidro e madeira de carvalho escuro se fundindo com a paisagem, uma arquitetura moderna que parecia abraçar o lago cristalino aos seus pés. Montanhas verde-escuras se erguiam ao redor, cobertas por uma neblina matinal que dava ao lugar uma atmosfera de isolamento absoluto.Cecília saltou do carro antes mesmo que Márcio desligasse o motor. Seus olhos percorreram a fachada de vidro, a lareira gigante de pedra que se avistava através das janelas, o deque de madeira que se estendia sobre a água parada. Ela quase deu pulinhos de felicidade, o vermelho das bochechas por conta do frio contrastando com o brilho nos olhos:— Isto é... — ela murmurou, virando-se para Márcio com um sorriso que ele não via há dias. — Isto é incrível.Márcio pegou uma das malas del
Duas semana depois o apartamento de Cecília em Edimburgo estava uma bagunça controlada. A mala aberta sobre a cama acumulava peças de roupa que ela dobrava com pressa, os movimentos bruscos contrastando com a barriga que já começava a pesar. Um funcionário uniformizado esperava no corredor, as mãos cruzadas à frente do corpo, pronto para levar as malas até o carro. — Só mais um minuto — Cecília disse, sem olhar para ele, os dedos percorrendo as dobras de uma blusa que ela insistia em alisar. Ela terminou de fechar o zíper da mala com um puxão seco e, por um momento, ficou parada, as mãos apoiadas na cintura. O corpo pedia um alongamento depois de tanto tempo curvada sobre as roupas. Ela ergueu os braços acima da cabeça, sentindo os músculos das costas se esticarem, e então, distraidamente, deixou a mão direita descer até a barriga. Os dedos tocaram o tecido esticado da blusa, e ela fez um movimento circular, quase inconsciente, sobre o volume onde o bebê crescia. Márcio andava de
Três dias depois, o fim de tarde em Londres vestia um cinza úmido que ameaçava chuva. Mariana e o Dr. Williams saíram pelas portas de vidro do hospital: — Juro que nunca vi um paciente tão obcecado pela própria próstata — Williams disse, balançando a cabeça, os olhos claros brilhando de humor. — Ele trouxe um gráfico. Um gráfico, Mariana. Com setas. Mariana riu, o som leve e sincero, enquanto ajustava a alça da bolsa no ombro: — Você devia ver o que eu atendo na obstetrícia. Semana passada, uma mulher quis discutir a posição do feto com base na astrologia. — Astrologia? — Williams ergueu as sobrancelhas. — E você levou a sério? — Levei. Ela estava nervosa, precisava de acolhimento, não de correção. Depois que a gente conversou, ela relaxou e o exame fluiu. Williams parou na esquina, virou-se para ela com um sorriso que carregava algo mais do que camaradagem. Por um instante, o olhar dele desceu até os lábios dela, mas ele se conteve, mantendo o tom leve: — Você é boa nisso, sa







