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Capítulo 2

Author: Oxe
— Carlos, Luana voltou. Está no aeroporto.

Foi Paulo quem lhe contou. Me apoiei na parede e avancei devagar até o canto do corredor.

Carlos estava de costas para mim e falava em voz baixa:

— Ela não ia chegar só na semana que vem?

— Antecipou a viagem. — Paulo lançou um olhar na minha direção e puxou Carlos pela manga. — Vá logo. Eu invento alguma coisa para justifcar sua ausência.

Carlos olhou na direção do banheiro. Recuei imediatamente e voltei a me esconder.

— Diga que... surgiu um imprevisto na empresa. — Orientou ele em voz baixa. — Não deixe que ela desconfie.

Os passos foram se afastando. Me encostei à parede, peguei o celular e deslizei o dedo pela lista de contatos.

A primeira ligação foi para o advogado:

— Prepare um acordo de divórcio para mim. O mais rápido possível.

A segunda foi para o meu orientador:

— Professor, quero me candidatar novamente a uma vaga no doutorado do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

Do outro lado da linha, houve um instante de silêncio:

— Tem certeza? Você está grávida, e o pai da criança...

— Vou me divorciar. — Interrompi com uma calma que surpreendeu até a mim mesma. — Quero ir embora o quanto antes.

Depois de desligar, abri meu e-mail. Na pasta de rascunhos, ainda estava a carta que eu havia escrito três anos antes, com o assunto: "Declaração de desistência".

Apaguei aquela mensagem e comecei a escrever uma nova.

[Prezada Comissão de Admissão:

Venho respeitosamente solicitar a reconsideração da minha candidatura ao doutorado...]

Fechei o computador e me encolhi na cama. Entre o sono e a vigília, voltei mais uma vez àquela noite de chuva.

Quando eu tinha doze anos, foi exatamente assim que vi minha mãe sentada diante do computador, escrevendo sua carta de despedida.

De costas, ela parecia frágil como uma folha de papel. Seus dedos tocavam de leve as teclas, produzindo sons quase imperceptíveis.

— Desculpe, Bianca. Mamãe não aguenta mais.

Vestindo o seu vestido vermelho preferido, ela se atirou do décimo oitavo andar. Naquele dia, chovia muito. A água da chuva se misturou ao sangue, tingindo de vermelho a rua inteira.

Da borda da multidão, vi seu vestido vermelho estendido sobre o concreto gelado, como uma flor murcha.

No funeral, meu pai estava abraçado à nova companheira e não derramou uma única lágrima.

— Sua mãe era frágil demais. — Disse ele, acariciando minha cabeça. — Você precisa ser forte.

Desde então, nunca mais tive coragem de acreditar no amor. Me refugiei nos livros e construí uma barreira entre mim e o resto do mundo.

Até conhecer Carlos. Em dias de chuva, ele atravessava metade da cidade só para me levar um guarda-chuva. Se lembrava de cada pequena coisa que eu mencionava por acaso. E, quando eu terminava algum experimento tarde da noite, aparecia com uma sopa quente para mim.

— Bianca, me dê uma chance. — Havia um brilho intenso em seus olhos quando se ajoelhou diante de mim. — Me deixe lhe dar um lar.

Eu acreditei. Cheguei até a abrir mão de uma bolsa integral do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, convencida de que finalmente havia encontrado um porto seguro. Achei que, ao lado dele, nunca mais teria medo da escuridão.

Agora que penso nisso, chega a ser irônico. Minha mãe morreu por amor. Eu abri mão do meu futuro por amor. No fim, nós duas acabamos pagando caro demais por ele.

Ainda sonolenta, senti o colchão afundar levemente. Carlos se aproximou com o torso nu e passou um braço pela minha cintura. Exalando cheiro de álcool, se inclinou para o meu pescoço:

— Amor...

O perfume feminino, enjoativamente doce, invadiu minhas narinas. Empurrei-o com força.

— Saia de perto de mim. Você está imundo.

Ele ficou atônito por um instante, depois se levantou cambaleando e entrou no banheiro.

Quando o som do chuveiro começou, sua voz atravessou a porta:

— Amor, o café da manhã está na mesa. Você não disse ontem que estava com vontade de tomar a vitamina de frutas da Casa Dourada? Fiquei meia hora na fila para comprar.

Me levantei e fui até a mesa. Foi então que vi a camisa que ele havia deixado no chão. Havia uma marca de batom no colarinho. O vermelho vivo feria meus olhos. Não era preciso perguntar quem havia deixado aquela marca ali.

Uma náusea repentina revirou meu estômago. Peguei a embalagem que estava sobre a mesa e joguei tudo no lixo.

Quando ele saiu do banho e viu o que estava na lixeira, franziu a testa:

— Amor, o que foi? A vitamina de frutas estava estragada?

— Só de olhar já me dá nojo. Não quero. — Eu disse, friamente.

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