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Capítulo 12

Author: Emíliana Vaz
last update publish date: 2021-08-10 08:20:46

                                            12               

               

                            (15 de novembro de 1839)

A mulher guerreira ficou conhecida por "vivandeira", a "china de soldado", foi a mulher, que acompanhou as tropas em seus deslocamentos e permaneceu nos campos de combate cuidando do soldado. A mulher estancieira foi a mulher, que permaneceu na estância, administrando as lidas campeiras e domésticas, tomando conta do lar, dos filhos, da estância e cuidando dos negócios do homem ausente, que rezava pelos vivos e chorava os mortos. Era aos olhos de Deus e da sociedade patriarcal – a mãe, a esposa, a filha – permanecendo em casa, aguardando ansiosa o desfecho da guerra e o retorno do guerreiro.

        ─Carroção pronto. - disse Caeté. ─Tem certeza de que os bois não vão?

Na casa de Deusa, estavam reunidos, Caeté, mais dois amigos dela, chamados Joca e Leôncio, Sophie, Luzia, Afroline, Bernadete e Gerusa, suas duas chinocas escolhidas para partirem com elas. O que gerou uma briga entre elas, e Jandira.

    ─Tu não vai e pronto, Jandira! Como vou te levar sabendo de tua paixão por Diogo? Não quero briga entre as minhas chinocas por causa de macho!

    ─Como se ele fosse querer ficar comigo com essa prenda riquinha aí! Duvido ela suportar um dia de caminhada!

    ─Não. -disse Deusa determinada. ─Os bois serão um bom atrativo para ataques tanto faz de que lado for.

Sophie os ouvia falar, sentindo seu coração bater apressado de ansiedade. Queria colocar o pé na estrada. Já havia passado tempo demais na espera. E de repente uma voz mais alta a tirou de seus devaneios.

     ─Tu ouviu rapariga?

Era Joca chamando sua atenção, um homem de idade avançada, e de muita experiência na vida, e perito em todo tipo de situações que elas iriam enfrentar, no qual passava as instruções a Deusa.

      ─Pode repetir? - ela pediu sem jeito.

 Deusa jogou algumas roupas nos braços de Luzia, dando a seguinte ordem.

      ─Tu vai se vestir de homem. Leve-a para dentro e a ajude-a Luzia, depois explico melhor.

No quarto, somente as duas, Luzia lhe disse assustada.

      ─Tem certeza de que é isso mesmo que tu quer, sinhá? É muito arriscado.

      ─Não tenho dúvida. O que eu vou vestir? - ela perguntou enquanto se despia rapidamente.

       ─Calça, camisa, e um casaco pesado. E tem duas faixas aqui que eu não sei para que servem.

Não demorou muito e Deusa entrou no quarto ao lado de Afroline.

       ─Deixe que eu coloque. - ela fez com que Sophie ficasse sem a parte de cima da roupa. ─Vamos apertar bem estas tetas formosas, para não chamar a atenção dos machos no meio do caminho.

   Elas riram, menos Afroline que entrara em silêncio. Sabia os riscos que ela correria naquela missão, mas não tinha como impedi-la. Já estava escrito, e assim tinha de ser. Depois do peito quase sem ondulação alguma, e vestida com a camisa, Deusa amarrou os longos cabelos dela de maneira a não se soltarem e passou a faixa bem apertada sobre sua cabeça. Colocou um tapa olho em uma de suas vistas. E logo a seguir um chapéu de abas largas em sua cabeça.

       ─Vamos sujar um pouco suas faces com carvão. Nunca levante muito o rosto, e não deixe que ninguém perceba que tu é cega. Dentro da guaiaca (Guaiaca é um termo de origem aimará (wayaqa), que corresponde a um artigo típico da vestimenta do gaúcho. É uma espécie de bolsa feita de couro, geralmente couro cru, e servia originalmente para guardar pequenos objetos, como moedas, palhas,  fumo e, mais tarde, cédulas de dinheiro, relógio e até pistola.), tu vai levar uma pistola e uma adaga. Em qualquer situação de perigo não hesite em usar. Jamais tire as roupas estando sozinha. E se prepare, nessas andanças, vamos encontrar todo tipo de pessoas, as vivandeiras, algumas vão nos acolher; outras vão nos colocar para correr. Minhas chinocas vão se deitar com os homens que aparecer para te proteger rapariga, mas se lembre bem disso, na hora de profanar os defuntos, não banque a filhinha de papai, pois vamos precisar de tudo que encontrar no caminho para as negociações com os caramurus e os próprios farrapos. Mas sinceramente? Espero não encontrar os galegos no caminho ou precisaremos... quem sabe até matar! Está pronta para isso?

Ela assentiu assustada.

      ─Está pronta para sentir o cheiro de carne podre atirada a céu aberto e agir como um abutre na carniça? Ainda dá tempo de mudar de ideia Sophie.

      ─Eu estou pronta, sim. Eu faço qualquer coisa. O que tiver de ser feito e prometo não dar trabalho.

      ─Até aqui, tu não sabe o que é trabalho. Tu vai saber a hora que estiver puxando o carroção, e ter que enfrentar as mudanças do tempo, e os homens dessa guerra cara a cara. Uma tropa de homens pode se transformar em animais prontos a nos abater.

Sophie suspirou com agonia. Luzia estremeceu de pavor, aliviada por ela não ter aceitado sua oferta de ir junto. Afroline se aproximou de Sophie, tirou dois saquinhos de dentro do bolso da saia e colocou na mão dela.

─Sente o tecido, o áspero é um pó... - ela sussurrou para que só a garota ouvisse. ─... para quando sentir fome, e não tiver o que comer, lambuze os dedos e coloque na língua para suportar. O liso é para quando tuas mãos sangrarem, tua pele se abrir, passe esta pasta, e no dia seguinte estará seca. Não conte a ninguém ou te matarão por isto. E este pequeno punhal. - ela colocou na guaiaca de Sophie. ─Foi banhado em veneno. Um pequeno corte em qualquer parte do corpo e o inimigo estará morto.

Sophie segurou as mãos dela com lágrimas escorrendo pela face.

       ─Eu vou voltar para casa com Diogo?

       ─Faça o que tem de ser feito.

O quarto foi invadido por uma pessoa que elas jamais esperavam ver no prostíbulo de Deusa. Emília entrou com passos rápidos ao lado de Yolanda que cuidava cada canto, cada detalhe com aquele olhar de bisbilhoteira.

       ─Tu não irá a lugar algum! - ela chegou bem próxima de Sophie. Fitou as mulheres em volta. ─Saiam! Quero falar com minha filha a sós. - encarou Deusa com nojo e a outra respondeu com um sorriso irônico.

       ─Não se esqueça que está em minha casa... cara senhora.

       ─Prostíbulo tu quer dizer!

Quando elas saíram, Emília fitou a garota irreconhecível, mas ainda assim, exibindo feminilidade e fragilidade, com aquelas roupas de homem.

        ─Mãe... por favor...

        ─Isso é uma loucura Sophie! Entrar num mundo perigoso, numa guerra, por causa de um homem? Estamos todos abismados com o fato dessa tal Anita lutar na guerra ao lado dos homens, mas ela está com Garibaldi! Ela tem alguém que a defenda e que todos respeitam! Tu vai estar com um grupo de vivandeiras que chineiam (fazem sexo) com os machos por qualquer trocado, e correrá riscos tremendos com tua beleza. Eu não quero nem pensar o que eles podem fazer contigo...

      ─Mãe... eu não estou preocupada com nada disso e nem quero saber de Garibaldi, Anita, ou seja, quem for! Eu quero encontrar Diogo, vivo ou... morto. - e ela soluçou sentida. ─Faz quatro anos que ele partiu mãe... eu tinha esperanças quando via os desenhos dele no jornal, mas agora...nem isso...por favor! Ele foi embora, eu estava com quatorze anos, mãe. Eu já completei dezenove anos e nunca mais vi o homem da minha vida! Suportei esses anos dando um duro danado na estância, sem exibir a saudade, e a dor que ela me causa para não ser fraca nem esmorecer. Mas não dá mais! Preciso saber o que houve com ele. Se estiver morto, o enterro na presença física, mas jamais no coração, se estiver vivo, quero entender por que ele não voltou uma única vez, se o que houve entre nós, foi importante somente para mim. Se for assim, então o enterrarei para sempre, também, no meu coração.

Emília chorou, e a abraçou com força. Tirou o chapéu de sua cabeça e a faixa.  Alisou os longos cabelos carinhosamente.

       ─Tantas vezes o escovei para dar mais brilho. Lembra?

Sophie assentiu chorando num misto de tristeza por tudo que estava vivendo, alívio por pelo menos sua mãe aceitar sua decisão, e medo do que viria no amanhã.

       ─Lembra quando tu estava com uns sete anos de idade e corria em volta do fogão na cozinha, e uma das pontas se enganchou num pau de lenha, e teu cabelo pegou fogo?

       ─Como eu poderia esquecer?

Elas riram, mas foi um momento de muito pânico. Quem a salvou? Afroline.

       ─Eu chorava da falta dos meus cabelos...

       ─E eu te dizia que o teu cabelo era que nem mato, crescia muito rápido, do dia para a noite.

 Sophie concordou feliz com aquela lembrança tão gostosa.

       ─Ticiana fazia troça e debochava da minha falta de cabelo esfregando o dela em meu rosto...

Elas choraram ainda mais de tristeza e saudade, da alegria e da energia esfuziante de Ticiana, a que mais parecia com o lado italiano da família, sempre intensa e risonha. Emília olhou em volta do quarto, limpando as faces com as mãos, achou o que queria. Fez sua filha sentar-se. Puxou os longos cabelos num rabo de cavalo.

       ─Então, vamos fazer isso direito. Se for para parecer um peão, que seja de fato!

Com o coração doendo, ela passou a tesoura deixando os cabelos da filha rente ao couro da cabeça. Enquanto via os fios dançando suavemente pelo espaço caindo ao chão, Emília rezava para nossa Senhora proteger sua menina naquela loucura que o coração dela ordenava cometer. Sophie chorou, mas agora era de alegria pelo apoio que a mãe estava lhe dando naquele momento decisivo. Assim que acabou, ela levantou a garota e a segurou pelos ombros.

       ─Volte para casa viva! Isso é uma ordem, Sophie! Lembre-se, apesar de tudo que possa pensar sobre mim de bom ou ruim, ainda sou tua mãe, e quero que me obedeça! Volte para casa, custe o que custar!

       ─Sim senhora, mãe!

Quando elas saíram do quarto, e todos viram o cumprimento dos cabelos de Sophie ficaram estupefatos e num profundo silêncio respeitoso, observaram Emília ajeitar o xale nos ombros e sair com Yolanda ao lado sem olhar para trás, mas o coração apertado de tanta dor.

  Sophie ouvia o som dos Tarrãs e dos Quero-Queros pelos pampas, Sábias, e outros tantos pássaros. Sentia o cheiro da relva molhada, da terra úmida, do orvalho. Sentada na beira de um pequeno açude, aspirava o ar da manhã, enquanto passava delicadamente a pasta milagrosa de Afroline, que realmente, secava as chagas abertas de puxar o carroção ao lado de Deusa e suas duas chinocas, as quais Sophie já as tinha como amigas. Tentava economizar o máximo que podia de seus remédios. Agora sabia como Afroline conseguia curar as rachas e cortes dos escravos. No bem que ela fazia aos seus irmãos com seus remédios misteriosos e milagrosos.

 Em três meses caminhando sobre àquelas planícies, por tantas coisas passaram. Temporais e ventanias, lembrou ela, do pior deles.

     ─Venha para baixo do carroção, rapariga! Rápido! Deus quer nos castigar por nossos pecados! - gritou Deusa para ser ouvida.

  As quatro mulheres ficaram na parte de baixo do carroção agarradas as rodas na tentativa de não deixá-lo virar com o vento enfurecido, tentando se proteger dos granizos, e raios. Durou o suficiente para se tornar um momento de grande aflição para todas elas. Dos dias de muito calor. Sophie tinha vontade de arrancar a roupa molhada e grudada em seu corpo, mas não podia se dar a esse luxo.

   Cobra peçonhenta, recordou Sophie. Estavam todas num riacho tomando banho. Sophie jamais se desnudava, obedecendo a ordem de Deusa, procurava se banhar de maneira rápida, sempre com uma delas por perto para não ser pega desprevenida por algum intruso. Nesse dia, estava sentada em cima de uma pedra, ouvindo o som das águas e as risadas de Bernadete e Gerusa que tomavam banho completamente nuas.

   Foi quando Sophie prestou a atenção ao som do guizo de uma cobra próxima dela e de Deusa sentada, também, à beira do riacho. Os ouvidos de Sophie dilataram e o ruído do roçar da cobra pelo chão ficou ainda mais alto, mais nítido, e ela pôde ver em sua mente o caminho, exato, sendo traçado pelo animal.

    ─Não se mova Deusa... - ela sussurrou estática.

A mulher abriu a boca para perguntar, mas o motivo já estava ao seu lado. Lembrando-se do pequeno punhal envenenado que Afroline lhe dera, Sophie tirou-o da guaiaca, e numa agilidade surpreendente, esfaqueou a cobra num só golpe em cima da cabeça.

   Deusa a olhava num misto de espanto e respeito. As mulheres vieram rapidamente para a beira, pois não acreditavam no que estavam vendo. Sophie acabava de matar uma cobra cascavel, pronta para dar o bote em Deusa, que disse:

     ─Custo a acreditar que tu seja cega, rapariga! Abençoado seja teu ouvido!

Outro momento perturbador foi à chegada de quatro caramurus no acampamento delas, quatro dias após terem saído de Viamão. A primeira vez que Sophie usara o punhal que Afroline lhe dera, e a segunda vez que matava alguém. Deusa tentou negociar algumas coisas com eles por dinheiro, mas o mais atrevido e maldoso deixou claro.

     ─Não vamos pagar! Vamos nos apossar! E a começar por suas chinocas!

     ─Galego, escute, quero fazer negócios. Preciso nos manter. Podem usar as minhas chinocas, mas paguem por elas e pelo que precisarem do meu carroção...

Ela não terminou a frase, foi esbofeteada pelo mais velho.

      ─Cale a boca, china velha! Trepem à vontade com essas vagabundas e pegue tudo o que puderem.

Assim que percebeu que o tal galego, chamado Élcio se virou, Sophie saiu de trás do carroção e o apunhalou pelas costas rasgando a veia do pescoço. Ele parou de respirar no mesmo instante. Deusa ficou pasma, mas em silêncio, aproveitando a valentia surpreendente daquela garota, foi até onde os três homens se preparavam para se refestelar com as suas garotas e com duas pistolas atirou nos três, já com as calças arriadas, e totalmente, desprevenidos.

    ─Podiam até trepar com minhas chinocas, mas, de graça, nunca!

E as quatro fizeram uma limpa nos pertences dos caramurus, incluindo os cavalos que ajudaram e muito durante uma semana. Até serem roubadas por mascates na calada de uma noite. Nenhuma delas se espantou, já esperavam por esse desfecho.  E por esses atos heroicos de Sophie, uma moça cega, guiada pelo ouvido, ela foi ganhando a admiração e o respeito de Deusa, Gerusa, Bernadete, e de outras vivandeiras que foram encontrando pelo caminho.

     ─O que tem o punhal? - perguntou uma delas numa noite em que estavam reunidas num acampamento com mais de vinte vivandeiras.

     ─Nada de especial. - ela mentiu sentada em frente a fogueira. ─Dei sorte.

     ─Não seja modesta! - disse Gerusa. ─Ela sabe o lugar certo onde atacar para matar.

A conversa generalizou. Sophie fez um pedido a Deusa.

     ─Corte meu cabelo. Como diz minha mãe, está crescendo como mato.

Deusa fez o que ela pediu, com dó. Os cabelos fartos e cheios prateados eram lindos e cresciam muito rápido. Deixou-o rente ao couro, e nem assim ela perdia aquela beleza radiante.

O grupo entrou madrugada adentro conversando.

     ─Eu me chamo Lurdes, deito-me com homens desde os meus doze anos. Era isso ou meu pai me casaria com um velho nojento e babão. Ou eu era a santa mãezinha, ou a prostituta. E como não tenho vocação para santa, resolvi eu mesma escolher com quem me deitar e receber pelos serviços prestados. Meu sonho é conhecer o Rio de Janeiro! Conhecer a corte!

       ─Eu me chamo Rosa, casei-me aos treze anos. Tive meu filho em seguida, mas morreu de sarampo. - disse com o olhar perdido na fogueira. ─ Meu marido começou a me bater por tudo e por nada. Trabalhava mais do que uma escrava, e ainda por cima apanhava. Não tinha direito a um vestido bonito, um enfeite de cabelo. Um dia fui à cidade buscar umas encomendas, e encontrei um grupo de vivandeiras que passavam por lá. Falei com a china velha. Tereza, não me esqueço dela. Já morreu a coitada. Mas foi como uma mãe para mim. Fugi com elas.

     ─E o teu marido?

     ─Encontrei o traste duas vezes. A primeira vez ele foi até o prostíbulo que eu trabalhava e tentou me levar a força de volta para casa. Se deu mal! Levou uma surra de mais de dez mulheres.

Elas riram.

     ─Na segunda ele quis me pagar para trepar com ele. Se deu mal de novo, pois eu disse na cara dele. “Infeliz, contigo nem pagando muito bem!” Meu sonho, ainda é ter um filho e ser uma boa mãe.

     ─Eu me chamo Valesca e queria sair pelo mundo e conhecer a tal liberdade. A mim nunca me atraiu essa vidinha de dona de casa, certinha, cuidando de marido que visita os prostíbulos e chineia à vontade sem precisar prestar contas a ninguém. Eu queria ter esse gostinho, sabe?  Aqui, sem teto, sem lugar fixo, sou dona de mim, faço o que eu quero e não devo satisfação a homem nenhum. E outra, um homem só me toca se eu quiser. Do contrário nem pagando, nem batendo e muito menos fodendo! Meu sonho é continuar por aí, e cada vez ir mais longe, conhecer, e desbravar novos mundos!

Mais risos.

     ─Eu me chamo Maria, perdi meus pais num incêndio. Tinha oito anos quando fiquei órfã. Achei que ficaria sozinha e abandonada no mundo, então conheci Andira. - ela fitou a mulher mais velha sentada tomando o mate com um riso carinhoso. ─Ela me adotou, tomou conta de mim, e não queria que eu entrasse para essa vida de chinoca. - ela sorriu ao ver a senhora com os olhos úmidos. ─Queria que eu vivesse dos meus bordados e costuras e que eu me casasse com alguém de bem.

     Andira tomou a palavra continuando.

     ─Daí ela me disse, me casar com um peão de bem não me fará uma prenda do bem. O que nos torna diferente é quem somos e como nos aceitamos. Tem guria mais sábia do que essa? Me orgulho de ti, minha chinoca querida. O sonho dela é ir para a corte e aperfeiçoar seu dom na costura. Ela faz a cópia ou o vestido que for, apenas num olhar! E ficam lindos! Quando estávamos em Pelotas, Maria era procurada para fazer a roupa das escravas.

     ─Muitos vestidos de chita, blusas e saias de origem africanas. Mas as donas de escravos mais... mesquinhas, mandavam fazer roupas de tecido grosseiros para as negras esconderem seus belos corpos de seus maridos e filhos. - Maria riu. ─Nem assim aquelas deusas de ébanos ficavam feias! Consegui ganhar algum dinheiro, sem precisar deitar com homens. É isso que eu quero; poder um dia viver das minhas costuras!

Sophie sorriu e refletiu. Quanta sorte tivera na vida, quantas pessoas que cuidaram dela, que a ensinaram a ser independente mesmo cega, e até ali, naquele momento, mulheres estranhas unidas pela sobrevivência, ajudando-a. Todas em busca do direito de ser livre e viver melhor conforme suas próprias escolhas, e realizar seus sonhos. Todas em busca de uma palavra tão simples e tão difícil, a felicidade. Mas uma felicidade livre, não aquela que torna o ser humano dependente do outro. Alguém falou com ela, mas Sophie não ouviu. Andira gritou mais alto.

     ─Tu é a pequena prateada do Justino?

Sophie alterou o ouvido e virou-se em direção da mulher.

     ─Conhece meu tio? Justino Rodrigues? Ele está bem? Quando o viu?

     ─Calma rapariga! Conheço sim. Justino. Bom homem. O vi há uma semana, no último acampamento dos farroupilhas. Conversamos muito. Tem algumas vivandeiras com eles. Disse que estava com saudade de casa e de suas filhas.

Sophie alterou a percepção. Justino não tinha filhas. Seria o mesmo? Quando pensava em argumentar mais sobre o assunto, outra disse em alto e bom som.

      ─Anita é uma mulher espetacular! Ela e Garibaldi foram feitos um para o outro. Um casal e tanto!

Todas queriam mais informações sobre o casal mais falado naqueles tempos de guerra, de sangue, de fome, e de muita tristeza.

       ─Garibaldi ama tanto aquela prenda, que chegou a pedir a um amigo que fizesse vários desenhos do rosto dela de todos os ângulos.

Sophie deu um salto, e ficou tonta.

       ─Como? O que disse? Quem é esse amigo?

A mulher que estava entusiasmada contando, se assustou com a força na voz da garota.

       ─Não sei o nome, só sei que desenha muito bem, e que não quis trepar com nenhuma de nós, né chinas?

Ouviram-se risos.

        ─Se bem que no acampamento deles tem um grupo grande de vivandeiras os acompanhando. Dizem que ele é o único que não se deita com nenhuma delas. E olha que atentaram o pobre do peão!

O coração dela quase parou de alegria. Mas ficou abalada com o que disseram a seguir.

       ─Existem muitos desenhistas nas tropas dos farroupilhas. Assim como na de Bento, na do... - e a mulher foi enumerando os nomes dos comandantes e suas tropas. E eram tantas!

Sophie respirou fundo e se afastou do grupo. De repente a conversa animada das mulheres perdera a graça. Suas dúvidas aumentavam a cada momento. O medo da descoberta da morte de Diogo era terrível. Seria o fim de suas esperanças. Esse pensamento a levou no momento mais difícil: sua primeira vez com um morto. Caminhava pelo campo aberto, sentindo o cheiro de fumaça, sangue, podre... como no seu sonho.

   Sentia vontade de vomitar, mas se proibira de passar mal. Deusa colocou um lenço vermelho amarrado no rosto dela, como uma máscara, tirada de um dos mortos.

     ─Isso vai te ajudar a suportar o cheiro.

Ela assentiu. Conforme caminhava, tropeçava nos corpos. Ouvira as meninas dizerem que entre eles havia muitos negros. De repente, em sua mente, tinha a impressão de ver vultos escuros passando pela névoa de sua cegueira. Sacudiu a cabeça. Deveria ser sua imaginação. Eram muitos. Caminhando no sentido contrário dela.

    ─Deusa... tem alguém do meu lado?

Há certa distância, Deusa a olhou com preocupação.

    ─Têm, defuntos caídos pelo campo, e muitos! Vamos limpá-los! Gracias por termos chegado primeiro. Tem muita coisa aqui para as negociações!

Sophie obedeceu, se abaixou, e ao tocar o primeiro corpo, teve a certeza de ter sentido alguém do seu lado. Ouviu sussurros. Sacudiu a cabeça, levemente. Inspecionou o corpo, e aos poucos a sensação de mal-estar foi desaparecendo. Era preciso. Não tinha como fugir daquela realidade. Quis chorar em sentimento ao homem morto, mas algo dentro dela a preveniu para que transformasse sua tristeza em alento, sua fraqueza em força, seu medo em coragem, e continuar.

   Numa prece silenciosa, Sophie cometeu sua primeira profanação. Aos poucos o medo, o nojo, foram dando lugar a uma estranha sensação de conformismo. Ela foi mexendo em outros corpos com uma tranquilidade submissa, de que a morte estava ali, em suas mãos, e ela tinha o poder de escolher não sentir nada. Aqueles homens eram estranhos, seres que não lhe diziam nada. Então veio uma sensação de poder, de que ela era um abutre, saboreando a carniça.

    Emília estava extenuada, mas trabalhava como um burro de carga naqueles últimos meses. Nunca se imaginou naquele estado, suja, sem os cuidados sempre tão necessários sobre sua aparência perfeita. No entanto, já não podia mais se dar o luxo do luxo que usufruía antes.

    ─Essa guerra maldita está arrasando a nossa economia, desorganizou a nossa sociedade, e está desestruturando com  todas nós, mulheres. - ela resmungou para Yolanda que servia o mate lavado, pela pouca erva, artigo de luxo naquele momento, em frente ao fogão.

    ─Minha irmã, veja pelo lado bom, a guerra está unindo mulheres de classe alta, com as subalternas e as escravas. Um universo feminino antes dividido pelo dinheiro, pela educação, classe social...

     ─Isso nunca vai mudar Yolanda! Quando a guerra acabar, tudo voltará a ser como antes.

     ─Creio que não, minha irmã. Acha que quando Sophie voltar será a mesma de antes? Ela está convivendo com todo o tipo de pessoa, de igual para igual.

Emília chorou.

      ─Há meses que ela partiu e até agora nada! Nenhuma notícia!

Afroline entrou na cozinha calando-as. Trazia duas galinhas mortas que causaram estranhezas nas mulheres.

     ─Caeté encontrou-as perdidas no quintal e matou-as. Bem cortadas devem dar para alimentar a todos no jantar de hoje. Quanto a Sophie, não se preocupe. Acabo de falar com o mascate Simão, ele a viu a duas semanas perto de Camaquã. Parece que a pequena prateada esteve até em Laguna, e ganhou fama.... o que não deveria, com seus feitos por aí. Corre riscos. E eu a avisei.

     ─O que ela fez? - perguntou Emília num tom seco, mas louca para saber novidades da filha.

E chorou muito conforme Afroline contava o que ela andava fazendo pelo caminho. Mais tarde, mais calma, Emília lembrou.

     ─Sophie sempre foi assim, coração mole. Desde guriazita. Ela roubava comida para os escravos. Vinha até a cozinha a noite e dava ordens às cozinheiras que fizessem porções maiores para alimentar os negros da senzala. - ela riu. ─Lembro que uma vez...

Everaldo entrou no quarto deles, e fitou Emília com atenção.

    ─Por acaso, tu anda alimentando aquela negrada da senzala?

Ela negou de olhos baixos.

    ─Jamais faria uma coisa destas sem tua autorização.

    ─Então, o que diabos está havendo aqui? Esses negros parecem a cada dia mais fortes!

E numa de suas entradas de surpresa na cozinha, descobriu o tal segredo que andava engordando seus escravos. Sophie ajudava as cozinheiras a fazerem polenta com ossos de tutano, feijão e arroz.

     ─Como tu ousas rapariga?

Ela não se abalou, e tinha apenas dez anos, tão pequena e já sabia como afrontar o pai.

     ─Papai, pense comigo, escravos mais fortes, trabalham com mais vontade. Rendem mais. Entende?

     ─Pelo contrário, escravos com fome trabalham mais pela sua pequena porção no final do dia. Te proíbo de entrar nesta cozinha, e proíbo qualquer uma das escravas a te dar ouvidos ou te obedecer! Ou quem vai apanhar uma surra de chicote será tu, guria!

     ─Ele saiu da cozinha batendo os pés. - continuou Emília. ─Mas no olhar, tinha certo orgulho. Ticiana era alegre, espontânea, tinha o gênio italiano parecido com mamãe, mas era obediente. Já Sophie era a única que conseguia afrontá-lo.

Afroline, também, se lembrou desse dia. Ele fora ao quarto dela e a acusou.

      ─Tu deve estar de conluio com Sophie alimentando essa negrada como porco!

Ela negou com a cabeça e os olhos fixos nele.  Ela era a expressão da serenidade.

     ─Que guria corajosa! Eu poderia dar-lhe uma surra!  Se ela fosse um macho... e não fosse cego, seria o filho ideal para tomar contar de tudo isto aqui. Sabe por que ela se chama Sophie? A mãe do meu avô Jan, se chamava Sophie, também era cega, teve dois filhos homens, e o sonho dela era uma filha. Queria que tocasse piano como ela.  E que raios que essa menina veio cega com esse mesmo dom para o piano!

      ─E tu gosta dessas semelhanças.

      ─Por que tu acha isso?

      ─Tu admirava a história e a força de vontade dessa mulher. Assim como, hoje, admira a de Sophie. Tu admira mulheres fortes! Do contrário, por que colocaria o mesmo nome na tua filha e ainda pagaria os estudos de piano no Rio de Janeiro com a tal professora especializada em cegos?

Ele a olhou com incredulidade como se só naquele instante tivesse se dado conta de algo tão óbvio.

     ─Ora, vai para o diabo, negra estúpida! - e saiu do quarto batendo as botas, enquanto ela balançava a cabeça com dó.

     ─O cego aqui é você.

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