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No Brasil do Império, existiram muitos tipos de escravos, para as mais diversas funções, desde criados que ficavam em casa até escravos que faziam funções nas lavouras. Mas existiu um tipo de escravo que trabalhava constantemente nas charqueadas do Rio Grande do Sul. Eles se chamavam escravo de saladeiro, sendo responsável pela salga da carne.
A Charqueada era a denominação da área da propriedade rural em que se produzia o charque, um dos principais produtos gaúchos da época, sendo normalmente composto por galpões cobertos onde a carne salgada era exposta para o processo de desidratação. A indústria saladeira e o ciclo do charque do século XIX deixaram suas marcas no extremo sul do Brasil.
Luzia entrou no galpão, distante da casa principal, onde eram guardadas as sacas da colheita de arroz e milho, às escondidas. Era madrugada alta e tudo que ela não desejava era ser pega. O galego a esperava com ansiedade. Assim que a viu, beijou-a com volúpia arrancando as roupas dela rapidamente. Sugou o mamilo túrgido escuro e macio a espera de sua boca. Com os dedos dedilhava o clitóris intumescido a levando a pedir por mais, enquanto ela remexia o quadril desordenadamente. Luzia teve dois orgasmos seguidos, e deu um gritinho de prazer quando Genaro a atirou na pequena cama. Deitou-se sobre seu corpo e arremeteu seu pênis dentro da vagina úmida e quente a sua espera. Foram poucas estocadas para que os dois chegassem a mais um orgasmo, desta vez juntos.
Maravilhado com tanta beleza e paixão, ele segurou o rosto lindo entre suas mãos. Estavam suados, corações retumbando forte, e felizes.
─Vamos fugir! Eu a levo comigo para São Paulo, onde meus avôs têm um pequeno sítio, e poderemos ficar lá por algum tempo.
─Não posso... Tem minha mãe, sinhá Sophie que faz quase um ano que está fora e não dá notícias. E agora, mais esse carrasco que chegou e se abancou na estância como se fosse dono de tudo. - ela arregalou os olhos muito negros. ─ Sinto que ele está me rondando...
─Desgraçado! Se ele tocar em vosmecê, eu o mato!
Ela sorriu com lágrimas nos olhos.
─Tu te importa comigo a este ponto?
─Eu a amo Luzia! Quero você como minha mulher, entendeu? Me apaixonei por você desde que abri os meus olhos do coma e a vi! - e ele entre abriu as pernas dela e desceu o rosto para provar os lábios grossos com sofreguidão. ─Isso basta para você?
─Não! - ela riu gemendo. ─Quero mais!
Ele abocanhou o pequeno clitóris com os dentes delicadamente, e ela precisou apertar os lábios e se controlar para não gritar.
Dario foi acordado por um de seus escravos. Quando isso acontecia, ele nem reclamava, pois sabia da fidelidade de Ônix, seu escravo de confiança.
─Sinhô, ela tá se deitando no galpão do cereal com um caramuru.
─Caramuru? Aqui?
Em poucas palavras, Ônix contou tudo o que descobrira sobre o soldado imperial chamado Genaro, “hospedado” na estância há algum tempo, e do caso amoroso entre ele e Luzia.
─E aquela negra desgraçada se fazendo de difícil! Chame o Tenório aqui no meu quarto. E assim que ela voltar me avise.
Depois de algum tempo, ele recebeu o seu capanga no quarto e deu algumas ordens. Tenório o olhou um tanto preocupado.
─Não me vai dizer que está com medo da negra Afroline, Tenório!
─O senhor sabe o que dizem sobre ela. Estamos aqui há quase quatro meses, e todos dizem a mesma coisa, os escravos não vão mais para o tronco. Ela cura mesmo, patrão.
─Pois ela não vai curar Luzia! Faça o que estou mandando Tenório.
─Sim senhor, patrão.
Dario se sentou na cadeira confortável perto da janela sentindo o aroma agradável de seu charuto. Relembrou de sua chegada na estância há alguns meses e como fora recebido.
─Eu não posso acreditar que Everaldo tenha feito um negócio como este. - disse Emília exaltada.
Dario a olhou penalizado, o que a deixou ainda mais furiosa. Ele tinha educação refinada, era bonito, mas havia nele uma maldade visível e que lhe saltava aos olhos.
─Acalme-se, dona Emília. Não se exalte. Estou realmente muito chocado com o estado de todas as mulheres nesta fazenda. Maltrapilhas, acabadas de tanto trabalharem. Não me veja como seu inimigo, mas um... Salvador! Isso! Vim salvá-las dessa guerra que pelo jeito não vai acabar ainda, com a proposta do novo presidente, Álvaro Machado, nomeado pelo governo imperial, com a maioridade antecipada de Pedro II. Sabia que foi concedida anistia a todos os revoltosos políticos do período da regência? Ele bem que tentou convencer os rebeldes a terminar a guerra e aceitar a anistia, mas nada conseguiu. - balançou a cabeça em sinal de fingida lástima. ─Então, teremos mais algum tempo, quem sabe anos de guerra. Eu vim ajudá-la, a resgatar sua saúde física e integridade moral e financeira. E depois, na época, seu marido precisava de dinheiro, escasso para os estancieiros de charque, como ele, até para ajudar no financiamento da guerra. E ele recebeu. Paguei por tudo, inclusive por sua filha cega, e agora, também, uma guerrilheira que saiu atrás do seu “amor”! O que devo esperar? O que acha que devo fazer?
Emília suspirou abalada e trêmula. Estava, realmente, muito cansada de tudo. A única coisa que queria era que Justino voltasse logo para ela, e quem sabe eles pudessem resolver a vida deles de uma vez por todas.
─Eu não sei o que dizer...
─A senhora não tem o que dizer dona Emília. - ele foi duro e cortante. ─Tudo neste lugar, agora me pertence. Inclusive a senhora. - sorriu com olhar de assombro que ela lhe lançou. ─É verdade! Seu marido, seus parentes, seus escravos, e sua filha, que vou esperar um tempo, ou eu mesmo vou buscá-la, e conforme o estado dela resolverei o que fazer. Não costumo perder dinheiro. Jamais!
Emília o olhou mais uma vez e com a voz cansada, disse:
─Faça o que quiser. Não me importo. Se quiser colocar fogo em tudo, será um favor. - e ela saiu da sala o deixando a sós.
─Não deixa de ser uma boa ideia, minha cara senhora.
Desde a sua chegada, com mais de vinte homens que mandou buscar e seis escravas mulheres, duas que lhe serviam na cama como suas amantes, Dario causou uma grande transformação. Colocou de volta as escravas em seus postos, e os poucos negros também, ao lado de seus empregados para reerguerem a estância. Até que para mulheres, elas estavam administrando bem, pelo menos conseguiam comer. Mas com ele e seus homens à frente, a estância voltaria a reproduzir e em breve quem sabe, estaria dando um bom retorno financeiro para ele. Afinal, ele não tinha nada a ver com aquela guerra, e crise para ele? Não existia! Quem era inteligente e soberano como ele, criava dinheiro em tempos difíceis.
Dario teve problemas com Afroline. Ela o afrontara duas vezes. A primeira foi na cozinha, quando ele ordenou que ela voltasse para a senzala.
─Vosmecê é uma negra forte, bem cuidada, vai para a lavoura. Acabou a mordomia! E sua filha também.
─Luzia não! Ela é escrava da sinhá Sophie, ela é da casa, se criou aqui dentro.
─Pouco me importa as histórias passadas ou laços dessa família. Isso é uma ordem e vosmecê e sua filha vão me obedecer, ou serei obrigado a colocá-las no tronco.
Foi então que ele soube dos tais poderes de Afroline.
─Ela que me impeça de dar os devidos castigos aos negros, corto as mãos dela. Não é por onde ela cura? Pelas mãos? Pois ficará sem elas, e ainda a jogarei na estrada para morrer largada por aí.
Luzia convenceu a mãe a não brigar com o novo dono da estância, e foi para a lavoura junto com ela. Afinal, naqueles tempos difíceis, elas tiveram que experimentar todo tipo de trabalho.
Dario esperava um pequeno deslize de ambas para agir. O segundo confronto foi quando ele tentou bater numa das escravas da cozinha por ter errado a receita que ele ordenara para receber alguns amigos de Campinas. Afroline o segurou pelo braço o fazendo se contorcer de dor. Era uma dor tão forte, que atingia todos os membros do seu corpo. Ele sentia dificuldade para respirar.
─Largue-me maldita ou eu mato vosmecê agora! - ele sibilou entre dentes, pedindo a um dos homens sua pistola.
Novamente, Luzia se interpôs. As mulheres presentes na cozinha ficaram em silêncio. Afroline largou o braço dele e recebeu um bofetão no rosto levando-a ao chão.
─Nunca mais se atreva a me tocar negra nojenta! - ele vociferou enlouquecido pela dor que ainda sentia no corpo inteiro com a arma apontada para ela. ─Acabo com tua raça, criatura!
Depois do confronto, Afroline procurou ficar mais a distância da casa. Dario fez uma lista tirando a maioria das mulheres da sede principal, mandando-as de volta as suas casas ou para a senzala junto com os negros. As únicas com o privilégio eram Emília, Luzia, e as escravas pessoais dele. Dario mostrou certo interesse por Luzia desde a sua chegada. Era uma negra linda e lhe causava excitação. Tentava se aproximar dela. Não gostava de pegar mulheres a força. Não precisava, tinha boa aparência, dinheiro, prestígio, e elas costumavam vir até ele. Mas a tal, como ele a chamava, não cedia, e ainda fugia dele como se ele fosse um ser repugnante. Uma negra fugir dele! Um dos homens mais cobiçados de Campinas! Do país!
Estava na hora de lhe mostrar quem mandava em quem. E como mágica, o avisaram que ela chegara ao quarto dela. Dario não bateu a porta, entrou sem ser percebido por ela que tirava a roupa com um sorriso de contentamento nos lábios. Ele sentiu a ereção, e ela sentiu sua presença, se voltou pronta para gritar com o terror nos olhos. Ele avançou e tapou-lhe a boca.
─Não faça isso! Vosmecê vai me dar tudo que eu quero, e agora, negrinha vagabunda.
Ele a estuprou de todas as maneiras possíveis e mais degradantes que uma mulher pode ser submetida. Luzia chorava silenciosamente, sem dar um grito, ouvindo as ameaças que ele fazia em seu ouvido, enquanto rasgava seu ânus com a penetração brusca e violenta.
Depois de horas de tortura, e que ela estava quase desmaiada, ele a virou para si e fitou-a nos olhos.
─Mas antes tivesse sido de boa vontade!
Com as mãos em volta da garganta delicada, sufocou-a até que ela parasse de se debater, totalmente, sem vida.
Dario saiu do quarto, tranquilamente. Fez sinal para o capanga que esperava para fazer a limpeza final. Enquanto isso, no galpão, três homens pegarem Genaro dormindo, e bateram nele até perder os sentidos.
Genaro ainda tinha um resquício de vida, quando foi jogado na vala aberta e sentiu um corpo abaixo do dele. Luzia morta. Chorou de tristeza e dor. Não podia gritar, não podia se mover. Tudo que ele queria era morrer com ela. Seu desejo foi atendido, assim que sentiu o fogo lhe consumindo completamente.
Afroline sabia onde os restos mortais de sua filha estavam enterrados, e foi até lá sozinha, pois era um mistério para todos na estância que acreditavam que Luzia tivesse fugido com Genaro. Ajoelhada na terra, ela chorava desesperada e fazia suas preces em sussurros. Lembrava de suas próprias palavras a filha há um tempo.
─Teremos tempos de muito sofrimento, muita dor...
─Não pode evitar? Não pode dizer com quem, quando?
─Não posso. - pela primeira vez Luzia via medo nos olhos da mãe, sempre serena e forte. ─Não estou aqui para evitar, mas para curar! A sina de cada um já está traçada.
Se ao menos tivesse podido avisar a filha...
─Tu sabia e deixaste que todos acreditassem que ela fugiu com o galego.
Afroline levantou os olhos e viu Emília do outro lado da cova fechada com a terra vermelha.
─Pior! Tu tinha conhecimento de que esse assassino que está embaixo do meu teto faria uma monstruosidade assim, e não fez nada para impedi-lo. Acusou-me de ser péssima mãe tantas vezes. E o que tu fizeste pela tua filha? Nunca gostei de ti, mas eu amava Luzia por tudo que ela era com a minha filha! Eu? Não te perdoarei, agora, te prepara pelo que vem com a volta de Sophie. Porque que ela vai voltar, não é? Tu sabe de muita coisa que não nos conta em nome de sei lá quem ou o quê! Coisas que tu poderia evitar se quisesse. - Emília desdenhou a expressão de Afroline, que a olhava com pesar, e arrependimento. ─Meu consolo, é que como mãe, sei que enquanto tu viver, não te perdoará por não ter evitado a morte tão estúpida da tua filha. Porque Luzia foi assassinada! A confirmação é a tua presença nesta cova. O contrário da minha Ticiana que escolheu se matar com as próprias mãos.
E mais uma tragédia pegou a todos ainda sensibilizados com o desaparecimento de Luzia. Um corpo foi entregue com toda pompa militar dos farroupilhas. Emília saiu para rua devagar, enquanto todos corriam para o imenso quintal a frente da casa querendo saber de quem era o corpo naquela carroça aberta. Quando o lençol foi puxado, ela precisou ser amparada pelas irmãs Lucia e Yolanda. Vera gritou correndo em direção ao corpo do marido. Justino voltava para casa sem vida.
Nos serviços fúnebres, Emília foi proibida de participar.
─Eu não quero aquela china ao lado do meu marido! -ordenou Vera.
O que gerou uma briga com muito bate-boca entre as três irmãs.
─Pelo amor de Deus, Emília! - exclamou Lucia. ─Não é hora disso. Tu sabe muito bem!
─Estamos todos arrasados com a partida de Justino. - acrescentou Yolanda. ─Ele era um homem sem igual. Por favor, minha irmã!
─E eu não sei? Por que acha que estou sofrendo desse jeito? - ela chorou abatida. ─Justino era tudo para mim! Tudo! A minha última esperança de ir embora daqui e ser feliz com ele!
Três horas de velório, Afroline entrou na cozinha da casa principal. Emília estava na janela que dava para os fundos, observando a movimentação na casa de Vera. Alguns soldados farroupilhas, e até Bento Gonçalves, passaram por ali para dar às condolências à família.
Emília sentiu a presença dela e se voltou.
─Vera vai dormir por uma hora.
Emília chorou. Assentiu agradecida saindo às pressas da cozinha para se despedir de seu amado. Sabia que os pós misteriosos de Afroline tinham algo a ver com aquele súbito sono de Vera. Somente assim poderia ter um tempo para se despedir do seu grande amor.
Deusa observava Sophie, ao seu lado puxando o carroção. Estava silenciosa depois de sete dias ao lado de Diogo, vivendo a explosão daquela paixão cheia de saudade. Enfrentaram juntos um ataque surpresa dos caramurus. Por muito pouco, ela não foi morta pelas costas. Quando ela corria pelo campo coberto pela névoa dos tiros de pistola, do pó da terra, um galego apontava a arma para suas costas. Esse mesmo levou um tiro certeiro na testa de Everaldo, mais próximo e mais rápido, correu até ela, pegou-a nos braços, tirando-a da linha de fogo.
Diogo vinha correndo para resgatá-la, desesperado, mas parou ao ver a cena, se ajoelhou no chão, e chorou.
Assim que conseguiu um lugar longe dos combates, Everaldo a soltou no chão e arrancou o chapéu da cabeça dela.
─Eu não pude acreditar quando me contaram. - disse ele com um tom incrédulo. ─Eu não queria acreditar!
─Pai... - ela estava chorando, pois com toda sua percepção, soube que esteve prestes a morrer naquele campo. ─Obrigada por me salvar...
─Até onde vai essa tua valentia, guria? Tu é cega! Tu quase foste morta pelas costas! Tu tem noção? Se dispor a vir para uma guerra atrás de um macho?
─Pai, eu amo Diogo, eu...
─Cale a boca! Neste momento estou com muita vergonha de ti!
─Vergonha do meu amor por ele? Pai, eu sei que tu ama Afroline!
─Posso até amar, mas jamais faria nada igual. Jamais faria nada para me colocar em vergonha. Sabe o que estão dizendo sobre a filha de Everaldo? – ele riu com escárnio. ─E nem minha filha tu é... Tem o meu sangue, mas não é minha!
Sophie empalideceu. Por um momento sentiu seu coração falhar uma batida.
─Como? Do que o senhor está falando?
Ele suspirou arrasado. Estava num misto de vergonha, orgulho, despeito. Um sofrimento atroz e devorador. A coragem dela era algo jamais visto por ele ou quem ele conhecesse. Olhar para ela era sentir o despeito por não ter tido a capacidade de ter filhos. O medo de todos saberem de seu fracasso como homem. E o pior, a frustração dela, realmente, não ser sua filha.
─Vá embora! Peça explicações a senhora sua mãe, àquela que agiu com uma china se deitando com outro homem.
Ele a deixou ali, sozinha, sem olhar para trás. Perplexa Sophie se viu obrigada a se despedir de Diogo de maneira rápida, antes que pudessem sofrer mais um ataque surpresa. Ele não queria nem imaginar na possibilidade de ela sofrer outro tipo de atentado. Pensou em agradecer ao pai dela, mas sabia o ódio que ele nutria por sua pessoa. E Diogo tinha certeza de que ainda estava vivo, pelo respeito que conquistara com os soldados por sua amizade, o tempo que estivera com Garibaldi e pela proteção que seus amigos lhe davam. Do contrário, já teria sido morto dormindo, ou pelas costas, traiçoeiramente. Lembrava cada detalhe, embora estivesse semi-inconsciente, quando Tião ultrapassou corredores escuros e sombrios da prisão para soltá-lo, aproveitando o momento para libertar outros companheiros. Do tempo que foi preciso navegar até chegar ao seu destino. O tempo que levou para cicatrizar as feridas profundas de tanta tortura. Mas nada seria pior e mais dolorido do que perder àqueles a quem amava acima de tudo.
─Não importa o que aconteça de um jeito ou de outro...
─... nós sempre voltaremos.
Mas ela partiu com dúvidas e com muito medo de que não voltasse a reencontrá-lo.
E, desde então, Sophie estava mais calada do que nunca. Dois meses andando por aquelas planícies, subindo e descendo cerros, as mãos cortadas e ardendo, pois, sua pasta milagrosa acabara há muito tempo.
Ela não economizou quando passou nas costas de Aloísio, amigo de Diogo, depois de extraírem uma bala. Ela não pensou duas vezes, quando usou a pasta num corte profundo entre a vagina e o ânus de uma das vivandeiras do acampamento dos farroupilhas, estuprada por dois caramurus. Ela usou a rapa da pasta no corte profundo feito por uma espada no peito de Barnabé, o escravo amigo de Diogo. Ela usou todo o pó para alimentar a ela, Diogo, e suas três amigas, Deusa, Gerusa e Bernadete.
Agora era suportar a fome, as dores dos cortes, as dores na alma e no coração, por tudo que vivera, ouvira e abandonaria.
Deusa, muito observadora, percebera que Sophie vomitara duas vezes, e não falara nada a respeito de sua menstruação. Ela era discreta quanto a esses assuntos, mas um pouco mais de um ano juntas, e Deusa já a conhecia o suficiente para saber que algo estava errado. Sophie passou mal mais uma vez, provocando uma nova parada e mais um acampamento.
À noite, em frente a fogueira, elas comiam um caldo ralo com algumas folhas verdes. Sophie recusou e se deitou embaixo do carroção. Deusa foi até ela. Sentou-se no chão e observou-a com atenção. Estava muito magra. Os cabelos cresciam desalinhados pelos cortes feitos a facão. Em nada lembrava a guria de classe avantajada. Estava feia, e tinha no olhar o brilho de uma estranha doença, o desanimo de viver.
─Não se deixe abater, Sophie.
Ela continuou em silêncio.
─Tu fizeste coisas maravilhosas durante o tempo que estamos juntas. - se calou a espera de algo. Nada. ─Nunca vi, nem conheci alguém como tu, rapariga. Com a tua determinação, com a tua ousadia, vivendo na mais absoluta escuridão. A tendência de uma pessoa cega é ficar dentro dos limites de sua casa, se proteger, mas contigo, é totalmente o contrário.
─E do que adiantou esta minha “coragem”? - ela respondeu num tom amargo. ─Mudou alguma coisa? A guerra acabou? Os negros estão livres? Diogo está comigo? Estou cheia de dúvidas, inclusive sobre quem é meu verdadeiro pai, e ainda deixei o amor da minha vida para trás!
─Mudou, Sophie. Tu mudou o mundo de algumas pessoas, principalmente as que tu salvaste renunciando a tuas proteções extras. E, agora, tu tem uma vida no teu ventre que depende somente de ti.
Sophie arregalou os olhos e com a audição aguçada, percebeu que Deusa se levantou e se retirou.
─Grávida... - ela murmurou incrédula e feliz.
Epílogo Não faças aos outros o que não quereríeis que vos fosse feito, mas fazei-lhe, ao contrário, todo o bem que está em vosso poder fazer-lhe.Allan Kardec Depois do natal, Diogo encontrou o momento certo para explicar a Diná, que ela poderia ser da oitava geração, e por tanto, descendente da família que viveu naquela estância. Conversavam em frente ao quadro de Sophie. Diná analisava a pintura em êxtase. Conseguia ver muitas semelhanças, e embora o quadro tivesse chamado a atenção dela no primeiro momento
23 A hora da verdade! Então algo inusitado, obra divina, destino, força do ódio ou a força do amor aconteceu. Antes de voltar aos campos de batalha, Diogo retornou a Estância das Magnólias,
22 1842Os farroupilhas se desorganizam, minados por intrigas.O Império se fortalece. O vice-presidente da República, Antônio Paulo da Fontoura, é assassinado em Alegrete. Nesta época os imperiais contavam com oito mil homens, crescendo sempre com contingentes enviados do centro do país. No final deste ano Caxias iniciou sua campanha com 12 mil soldados, munição à vontade, e bem equipados
21 Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.Allan Kardec Sophie ficou dias num estranho coma. Ela dormia o tempo inteiro, só acordava quando ela, realmente, queria. Não comia, cuspia a água que lhe era enfiada garganta abaixo. Não queria tomar banho, e sentia que alguém a lavava de maneira gentil com um pano úmido, secava e a vestia. Às vezes aqueles movimentos em seu corpo lhe davam vida e ânimo. S
20 Os espíritos protetores nos ajudam com os seus conselhos, através da voz da consciência, que fazem falar em nosso íntimo - mas como nem sempre lhes damos a necessária importância, oferecem-nos outros mais diretos, servindo-se das pessoas que nos cercam.Allan Kardec Daniel entrou no quarto do hospital, onde Diná estava hospitalizada depois da tentativa de suicídio. Ela estava abatida, mais magra, e seus olhos claros, totalmente sem brilho. Estava sentada na cama, e olhava pa
19 A nossa felicidade será naturalmente proporcional em relação à felicidade que fizermos para os outros.Allan Kardec Sophie foi, praticamente, levada à força até a grande mesa da sala usada para as visitas em tempo de festas na estância. Sentia o peso da barriga, e sentia fome. Muita fome! Foi uma tortura sentir aquele cheiro de churrasco entrando em seu quarto. Não queria dar o braço a torcer, mas quando foram chamá-la, ela precisou confessar, a si mesma, que esperava por isso, ardentemente. Adorava uma boa costela gorda! Seu tio... ou melhor,