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A alma veste vários corpos em tempos diferentes e a alma, presa ora nesta criatura, ora naquela, assim percorre uma ronda ordenada pela necessidade”.
(Diógenes Laércio, século I)
Diogo acordou pela manhã e na mesma posição, de barriga para cima, ficou a olhar o teto.
─Grávida... Deus, e agora mais aquele... monstro... - ele sussurrou e se sobressaltou ao ouvir a voz dela.
─Não pense nisto agora. Que tal um café?
Ele riu e se sentou na cama, encostando-se na cabaceira, principalmente quando viu a bandeja que estava em cima da penteadeira.
─Já dizia George Eliot, “Ninguém pode ser sábio de estômago vazio.”
─Ou... saco vazio não para em pé. - retrucou Sophie e eles riram.
Diogo se levantou, estava de cueca e pareceu não se lembrar do detalhe. Pegou a xícara servida com o café fumegando, aspirou ao aroma e bebeu um gole.
─Fantasmas se encabulam com um ser vivo seminu?
Ela riu divertida.
─Já vi tanta coisa!
─Muitos, fantasminhas, nus?
─ Muitas almas despidas.
O tom dela era frio e cortante. Diogo pegou a calça em cima da cadeira e a vestiu rapidamente.
─Desculpe, foi uma brincadeira sem graça.
Ela foi até a janela, encostou a testa na vidraça. Era uma visão de tirar o fôlego! ele constatou fascinado.
─Nunca acreditei em nada! E jamais imaginei que almas existissem e pudessem ser tão belas!
─É um elogio? - ela se voltou para fitá-lo.
─Você sabe que sim, depois de tudo que vivemos... Agora eu entendo a minha insatisfação com outras mulheres, minha falta de interesse em manter relações amorosas, e quando tentei... fui um fracasso total.
─Tu não é mais o mesmo daquela vida.
─Mas eu estou aqui, e você também. - ele se aproximou como se fosse tocá-la.
─Não pode. Não temos essa permissão.
Ele deixou os braços caírem ao longo do corpo, desanimado. Ela baixou o olhar entristecida.
─Por que estamos vivendo tudo isto? Ou melhor, revivendo? Se eu contasse para alguém, que não fosse Eloy que acredita e está aqui, vendo o mesmo que eu, me internariam até pelo meu histórico de alcoolismo, e também como louco!
─Com o tempo tu terá as respostas, assim como eu. Pense que para mim, onde estou não existe tempo. Mas eu sempre te esperei!
─Eu estou aqui, Sophie. E você não faz ideia do quanto eu lamento não estar morto ao seu lado.
Mais tarde, na sala, Eloy tentava entender algumas coisas, ainda em êxtase com a presença dominante de Sophie. Procurava ser o mais natural possível.
─O que eu entendo, e me corrija se eu estiver errado, é que você ficou presa aqui, porque precisa resolver algo importante para você.
─Sim. - ela levitava vagarosamente pela sala, acompanhada da luz das janelas que se moviam de maneira fantástica. Sophie usava um vestido longo, simples e branco. ─E não estou presa, fiquei por vontade própria.
─Sua escolha tem um alto preço.
─Sim.
─Umbral?
─Não sei... Talvez...
Diogo que não estava entendendo nada, disparou.
─Eu não sou espírita. Não tenho religião. Aliás, eu nem
acredito em Deus! Explica-me o que eu preciso fazer e...
─Diogo, - começou ela num tom calmo, mas que não admitiria réplicas. ─Eu te esperei muito tempo. Então não venha com tua pressão costumeira querendo resolver tudo de um minuto para o outro.
─Tudo bem, desculpe.
─Tu precisa ter paciência. Precisa te lembrar do que aconteceu.
─E você que me auxilia enquanto eu durmo?
─Sim, sou tua guia nos sonhos. Não fique preso a nada, pois tudo o que tu viste, foi vivenciado numa outra vida.
─Mas você está aqui por essa vida passada.
─Entenda uma coisa, essa escolha foi minha, isso é um problema meu. Tu só precisa me ajudar a resolver, entende?
─Não, eu não entendo. - ele se aproximou sentindo um estranho vazio. ─Nosso amor é real, e ultrapassou a eternidade! Isto é a única coisa que eu tenho absoluta certeza. E agora começo a juntar as peças, tudo que me aconteceu me trouxe aqui, para você. É o que importa. E faço o que for preciso para ajudá-la.
Ela assentiu com um sorriso triste.
─Era você que eu via quando criança? -ela demorou a responder e ele concluiu. ─Tudo bem, você não pode dar maiores informações.
─Não. A única coisa que posso fazer é te guiar nas lembranças de tua vida passada.
Ele concordou. Eloy anotava cada palavra em seu caderno prestando a atenção em cada detalhe do que precisava e do que não precisava.
Diogo se preparou para uma nova regressão.
Vilma abriu a porta do apartamento. Atirou-se nos braços do homem parado.
─Te lembrou que tens uma irmã?
─Desculpa maninha. Muito trabalho naquela delegacia em Porto Alegre.
─Tô sabendo. Sei que tua vida não é fácil. - ela deu passagem para ele, e foram para a cozinha. ─Podia ter escolhido outra profissão ao invés de delegado, não é?
Ela pôs café para passar na cafeteira elétrica enquanto ele se sentava em uma cadeira e a observava com atenção.
─Às vezes eu também penso nisso, principalmente quando pego alguns casos como o da Diná.
─Diná?
─É uma destrambelhada que foi mãe muito jovem. Mora naquela região ribeirinha, na Ilha dos Marinheiros. Tem dois filhos. Comete pequenos furtos para viver.
─Vadia, né? Poderia trabalhar!
─Também acho, mas nessa minha profissão, e eu já vi de tudo, não dá pra julgar de cara. Todo o marginal tem um histórico pesado, e essa em questão, não é uma pessoa ruim. Mas a coisa ficou feia pra ela.
─Por quê? - Vilma serviu o café para ambos e se sentou do outro lado da mesa redonda.
─Ela não é mais ré primaria, vai ficar um bom tempo na cadeia, e deixou dois filhos sozinhos na Ilha. E já tem quatro dias que ela tá detida.
─E o que tu tens com isso? Ela deve ter algum parente...
─Não, não tem. Fiz uma pesquisa na ficha, na vida dela. Cresceu sem pai, a mãe foi atropelada e morreu, quando ela estava para completar doze anos, e para concluir a tragédia, em seguida foi estuprada pelo padrasto, e ficou grávida do menino mais velho que tem oito anos. O que me surpreende, é que ela trata muito bem o filho, não tentou se livrar dele como a maioria das meninas violentadas fazem. E para dificultar, teve mais uma menina, que tá com quatro anos de idade, de um homem que prometeu mundos e fundos e se mandou.
─Nossa... que história! - ela bebeu um gole de café. ─Mas eu ainda não entendi o que tu tens com isso.
─Ela me pediu... - e ele se lembrou.
Diná chorava muito quando Daniel foi até sua cela. Quando ela o viu, se ajoelhou e pelas grades segurou-o nas pernas.
─Me ajude! Encontre os meus filhos! Eles não podem ficar sozinhos naquele lugar... eles podem morrer afogados se houver enchente, alguém pode roubá-los...tem um velho tarado por perto, pode se aproveitar da minha menina...Rob é um garoto valente, ele cuida da irmã, mas ele é só um garotinho indefeso...
─Por que não pensaste, antes de chegar nesta situação?
Ele fez sinal para que o agente penitenciário abrisse a porta da cela. Ajudou-a a se erguer e sentar-se na cama dura. Naquele momento não queria estar no papel dele, na profissão dele, pois estava com muita pena daquela garota.
─Não é fácil a vida de pobre, delegado. - ela assou o nariz vermelho.
─Existem milhões de pobres por aí e posso te garantir que poucos são ladrões, os ricos roubam muito mais.
─O senhor diz isso, porque não sente na pele, ter que trabalhar um mês inteiro pra receber um salário mínimo, tendo que alimentar duas crianças todos os dias. Então é mais fácil roubar. É um dinheiro rápido, entende? Eu juro que não queria parar aqui nesta cela... - e ela chorou.
─Nenhum marginal quer Diná. Te garanto!
Ele a observou com atenção, era uma garota de pouco mais de vinte anos, não era tão bonita, mas tinha lá seus encantos. Estava judiada, magra demais, cabelos pintados de qualquer jeito num tom de loiro esbranquiçado. Ela levantou os olhos e segurou as mãos dele. Ele estava de pé a sua frente.
─Faço o que o senhor quiser... pra quem já foi estuprada que nem eu...o que é me prostituir, se caso me quiser, mas ajude meus filhos, por favor! Eu imploro!
Ele se ajoelhou aos pés dela, e passou a mão no rosto jovem, suavemente.
─Não sou este tipo de pessoa, Diná. Jamais me aproveitaria de uma mulher indefesa, e sinto muito por essa agressão que tu sofreste.
Ela o fitou nos olhos com atenção. Ele pôde ver uma beleza rara que até então não tinha conseguido enxergar nela. O olhar escuro era límpido e brilhante.
─Nunca conheci ninguém como o senhor... gentil e bondoso.
─É? - ele riu divertido. ─Não vai se apaixonar por mim, sou casado.
─Sorte de tua esposa.
Ele se levantou e suspirou.
─Vou ver o que posso fazer pelos teus filhos.
─Obrigada, delegado! Deus te pague!
─Então que estou tentando encontrar essas crianças. Estão sumidas desde que ela foi presa.
─Será que foram roubadas? - perguntou Vilma, penalizada.
─Não sei... – ele suspirou. ─Vou procurar até encontrá-las.
─Tá apaixonado pela tal, meu irmão?
─Não. Que bobagem! - ele bebeu o restante do café. ─Solidário com a situação dela. Nada mais do que isso.
─E onde eu entro nisso? - ela o analisou com atenção.
Seu irmão tinha quase quarenta anos, era um dos homens mais bonitos que ela já vira. Lembrava um astro de cinema, tinha uma mulher, Aline, bela e possessiva. Não tinham tido filhos ainda. Aline estava com problemas para engravidar e procuravam ajuda médica. Vilma era a mais nova de uma família com quatro irmãos, com vinte e seis anos. E sempre que ele a procurava queria algo.
─Se eu os encontrar, posso deixá-los contigo por uns tempos?
─Bem capaz! - ela saltou da cadeira. ─Eu sabia que tu não tinhas vindo aqui por saudade! Bah, tu não pregas prego sem estopa, hein tchê?
Ele também se levantou, foi até ela e a abraçou na marra beijando-a na face.
─O que custa? Por favor, maninha! Só até resolver a situação dessa garota. Aline não vai querer, ou vai pensar o pior.
─Eu trabalho, tu esqueceste?
─Não, se eles vierem para cá, arranjo alguém para tomar conta deles. Eu pago do meu bolso.
─E tu ainda vai querer me enganar que não está interessado nessa tal Diná?
Ele a beijou mais uma vez e foi embora com as palavras dela em sua cabeça.
─Tô com fome Rob... - gemeu Mirela encolhida ao lado dele, encostado a uma parede. Estavam embaixo de uma rampa numa garagem de um prédio, escondidos.
Robson a abraçou com força e beijou o alto da cabecinha dela. Pensa Robson, dizia a si mesmo. O que se pode fazer numa situação dessas?
Lute! Lute e jamais desista!
Ele olhou em volta, não tinha ninguém. De onde teria vindo àquela voz? De vez em quando ele a ouvia. Sentia medo. Acreditava ser um fantasma. Sentiu o tremor da irmã.
─Fique aqui. Não saia daqui por nada, entendeu? Vou ver se arranjo algo pra gente comer.
Ela assentiu e se encolheu mais ainda quando ele se levantou.
─Ô, mãe, quando te soltarão da cadeia? - ele sussurrou com medo. Mas era um garoto de muita coragem.
Atravessou a rua depois de olhar para os dois lados. Onde poderia arranjar comida para ele a irmã sem arranjar problemas? Olhou em volta, e viu a porta de uma capela aberta. Entrou correndo e parou ao se deparar com um padre de idade avançada, andando pelo corredor central da nave, era de estatura baixa e o corpo arcado.
─O que houve, meu filho?
─Preciso de ajuda...
─O que aconteceu?
─Eu e minha irmã estamos na rua... minha mãe foi presa. Mirela tá com fome, e não sei o que fazer.
Ele colocou a mão no ombro do garoto e o levou até a porta. Por um momento, Robson pensou que ele estivesse o mandando embora, e ia argumentar, quando o padre disse:
─Vá buscar a tua irmã. Vou alimentá-los e depois pensaremos numa solução.
Há dois dias de Viamão, Sophie encontrou o mascate Simão. Aquele homem parecia mágico! Suas feições levavam as pessoas a imaginar que ele era de origem árabe. Mas ele nunca dava certeza de nada sobre sua vida. Tinha uma facilidade de aparecer, e em tempo recorde, por todos os recantos dos pampas. Assim que as viu, parou para conversarem, primeiro as brincadeiras costumeiras com Deusa e suas chinocas. Por fim fitou Sophie com certo pesar. Esta não viu, mas pressentiu.
─O que foi Simão? O que aconteceu?
─Tu não vai gostar, guriazita.
─Isso quem decide sou eu. Desembucha, tchê! - ela foi rude. Algo novo para as pessoas que a conheciam. Deusa observava essa mudança, e essa nova mulher, que por vezes abrandava e em outras se revoltava. Aquela viagem mudara a todas elas, mas Sophie fora a que mais se transformara, e vivia uma guerra interior. Conhecera a força do amor, as maldades e dores da guerra, o sofrimento das vivandeiras, a felicidade de saber que estava gerando um bebê. De uma coisa Deusa tinha certeza, Sophie nunca mais esqueceria aquela fase de sua vida.
Em poucas palavras, Simão contou o que aconteceu na estância das Magnólias. Conforme ela ouvia, não sabia se chorava, rezava, ou se pedia aos Deuses que a ajudassem a chegar em casa em tempo recorde para avaliar e ter certeza de tudo que ouvia da boca de Simão. A morte de Justino e de Luzia, a fez se ajoelhar no chão e soluçar. A dor era tão intensa e profunda, que tinha a sensação de que uma faca a dividia ao meio.
Seu coração estava inflado prestes a explodir, sua garganta secara, e sua respiração ficara dificultosa. O pai a negociara com a estância para um homem que era o principal suspeito das mortes de Luzia e do tal caramuru. Afroline não fizera nada para evitar. E, finalmente, seu tio amado voltou para casa morto, e ela não estava lá para se despedir dele.
Era muita dor a corroendo, era muito sofrimento de uma vez só. Eram muitas tragédias juntas!
─Levante Sophie! - disse Deusa num tom duro. ─Lembra de onde tu está voltando rapariga! De uma guerra sangrenta que já matou milhares de homens e mulheres por esses pampas da forma mais grotesca. Lembra que tu não é a única a sentir dor.
Ela se levantou do chão lentamente, secou as lágrimas com as mãos sujas, sujando o rosto ainda mais, respirou fundo, segurou na alça do carroção. Precisava chegar em casa e colocar tudo em ordem, de uma vez por todas. Ou acabar com tudo, para sempre!
─Vamos! Quero fazer esses dois dias de viagem em um.
Da janela da sala, Dario viu a distância, aquele carroção atravessando a porteira e foi até a porta principal. E ficou surpreso ao colocar os olhos naquela mulher à frente do carroção.
─Foi por... isso que eu paguei? - disse ele em tom de troça. ─Que desperdício de dinheiro!
Sophie andou devagar até ele, com uma segurança de quem enxerga até o que não deve. Ele sentiu um arrepio que começou no cóccix e foi subindo em direção a nuca. Havia uma força arrasadora naquela mulher.
─Agora que já constatou que fez um mau negócio... dá o fora!
Ele riu divertido, fazendo a volta por ela observando cada detalhe. Os cabelos curtos e mal cortados, o rosto, tudo nela estava sujo e fendendo.
─Nunca desfaço negócios, minha cara! Vosmecê vai entrar, tomar um banho demorado, e depois nós conversaremos.
Agora foi ela quem riu e se virou em direção a ele, dando a impressão que o estava vendo. Mais um arrepio em Dario. Os olhos azuis eram incrivelmente lindos! E o contraste dos dentinhos claros com a sujeira do rosto o deixou desconcertado.
─Primeira coisa sobre mim, nunca obedeço a ordens!
─Filha?!- Emília vinha correndo pela lateral da casa, depois de ser avisada da chegada de Sophie. ─Graças a Deus, tu voltaste!
Ela a abraçou com força, mas não foi retribuída. Não estranhou. Sophie não morria de amores por ela.
─Cuide das minhas amigas, peça que arranjem banho e comida para elas.
─Essas putas não vão entrar aqui dentro. - disse Dario num tom duro.
─Impeça-as de entrar na minha casa e tu vai querer nunca ter me conhecido. - ela se voltou para mãe. ─Vou para o meu quarto. Depois do banho diga para Afroline vir até a mim. E depois dela... a senhora mãe.
─Ou! Sobrou para a mamãe? - Dario brincou sarcástico adorando aquela cena.
Sophie entrou na casa com passos decididos tratando Dario como se fosse uma mera porta. Ele rangeu os dentes de fúria, mas incrivelmente fascinado por aquela mulher que chegara a pensar ser uma invalida total por conta da cegueira.
─Ora, ora! Uma pequena, e cega rebelde! Isso faz a coisa ficar muito mais... excitante. – ele resmungou entrando na casa.
Emília torceu as mãos, sabia que os problemas estavam apenas começando.
Na hora do banho, Sophie chorou muito por Luzia. Se estivesse viva, estaria ali com ela, naquele momento. Ambas conversando, contando os ocorridos, fazendo confidências... Ao sair do banho, deixou uma das escravas mais antigas horrorizadas ao pedir roupas masculinas. Vestiu camisa, calça, botas e um casaco que lhe trouxeram. Quando Afroline entrou em seu quarto, ela estava na janela, o mesmo hábito de sempre. A mulher observou a grande mudança que ela sofrera aquele tempo fora de casa. Já esperava por isso. Aliás, ela sabia o tempo todo.
─Por que não impediu? - disse ela sem virar.
Afroline suspirou. Sophie via pelos olhos da alma e estes não eram cegos.
─Eu não podia...
─Por conta de que? De quem? - ela se voltou com os olhos flamejantes pela fúria. ─Quem a impede de ajudar a evitar essas tragédias? Deus?
─Por favor, Sophie...
─Por favor? Tu está sofrendo? E como tu acha que eu estou em ter deixado a minha irmã aqui contigo? Se eu a tivesse levado comigo, eu a teria protegido! Eu teria matado por ela! Como tu acha que eu estou em não ter dado a liberdade que ela merecia para ir embora daqui? - berrou furiosa.
─Essa era a sina dela, Sophie. Nós já viemos para cá com nossos caminhos traçados, e nossas mortes encomendadas. Nenhuma folha cai sem um propósito, nenhuma pedra se movimenta sem uma razão. Assim são nossas vidas e mortes! Precisamos aceitar!
─Não me venha com essa conversa! Tem milhares de homens lá fora, espalhados por esses pampas lutando para defender uns aos outros. E tu aqui... não fez nada para defender Luzia...a tua filha!
Afroline chorou. Pela primeira vez Sophie ouviu os sons dos soluços dela.
─Tuas lágrimas não vão me comover. Muito pior fazer te perdoar...
─Eu sei, Sophie. Cuidado com a secura no teu coração. Ele pode endurecer e tu não saber mais o que é o perdão. E não vai parar por aí... Não deixe os sentimentos ruins tomarem conta a ponto de envenenar tua alma!
─Vá embora! A última coisa que preciso agora é sermão.
Com a mãe a conversa foi muito pior.
─Meu pai... o meu e de Ticiana...Tio Justino? - ficou ali parada, no meio do quarto, incapaz de se mover com o choque da revelação.
Emília chorava sentida. Chegara a hora da verdade e não poderia mais fugir dela.
─Quando eu casei com... Everaldo... eu não conhecia Justino. Quando eu o vi a primeira vez aqui na estância, eu me apaixonei. Ele também, mas, evitamos de todas as maneiras. E conforme o tempo foi passando, eu não engravidava do seu pai. E então quando aconteceu... eu e Justino... engravidei de Ticiana, e depois de ti. Everaldo ficou em silêncio, mas quando tu fizeste dois anos, ele me disse que teve caxumba, e quase morreu. Que depois disso, deitou-se com várias escravas, e outras mulheres e nunca teve um filho com nenhuma delas. Ele sabia de tudo, e me impôs o silêncio em troca do dele. Não queria ser chamado de chifrudo, e muito menos de impotente. Sabe como ele é orgulhoso. Rompeu com Justino, depois de uma briga feia. Por isso Vera não frequentava a casa e vice-versa. - suspirou cansada. ─Tu não tem por que me cobrar nada e muito menos me julgar. Sempre te deste bem com teu tio.
Sophie levantou o rosto contraído de dor. O olhar azul marcado pelo sofrimento da perda.
─A senhora me tirou a oportunidade de abraçá-lo e chamá-lo de meu pai em vida... Eu o amava! Quando descubro a verdade... eu o encontro morto!
Emília chorou ainda mais. Levantou-se e foi até a filha.
─Sei o quanto é difícil me perdoar, mas não sou como tu. Corajosa, valente. Tu precisa entender filha, as pessoas são como elas são. Se isso serve de consolo, não tenho paz um só dia, por não ter mudado o rumo da minha história com Justino e o teu e de tua irmã. Talvez Ticiana estivesse aqui, viva! O pior para mim, foi tu ter nascido cega. Eu não sabia como seria a nossa vida se eu tivesse enfrentado teu... Everaldo, e ido embora daqui.
Ela foi até a porta com passos lentos, mas antes de sair se voltou.
─Eu espero que tu consiga me perdoar um dia.
─Mãe? - ela chamou antes que Emília fechasse a porta. Esta se voltou com o coração aos saltos. ─Ele sabia?
─Sabia. Ele as amava! Ele suportou a mulher e o irmão o infernizando por vocês. Para ficar por perto e poder vê-las crescerem, e principalmente poder ajudar na criação de vocês.
Epílogo Não faças aos outros o que não quereríeis que vos fosse feito, mas fazei-lhe, ao contrário, todo o bem que está em vosso poder fazer-lhe.Allan Kardec Depois do natal, Diogo encontrou o momento certo para explicar a Diná, que ela poderia ser da oitava geração, e por tanto, descendente da família que viveu naquela estância. Conversavam em frente ao quadro de Sophie. Diná analisava a pintura em êxtase. Conseguia ver muitas semelhanças, e embora o quadro tivesse chamado a atenção dela no primeiro momento
23 A hora da verdade! Então algo inusitado, obra divina, destino, força do ódio ou a força do amor aconteceu. Antes de voltar aos campos de batalha, Diogo retornou a Estância das Magnólias,
22 1842Os farroupilhas se desorganizam, minados por intrigas.O Império se fortalece. O vice-presidente da República, Antônio Paulo da Fontoura, é assassinado em Alegrete. Nesta época os imperiais contavam com oito mil homens, crescendo sempre com contingentes enviados do centro do país. No final deste ano Caxias iniciou sua campanha com 12 mil soldados, munição à vontade, e bem equipados
21 Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.Allan Kardec Sophie ficou dias num estranho coma. Ela dormia o tempo inteiro, só acordava quando ela, realmente, queria. Não comia, cuspia a água que lhe era enfiada garganta abaixo. Não queria tomar banho, e sentia que alguém a lavava de maneira gentil com um pano úmido, secava e a vestia. Às vezes aqueles movimentos em seu corpo lhe davam vida e ânimo. S
20 Os espíritos protetores nos ajudam com os seus conselhos, através da voz da consciência, que fazem falar em nosso íntimo - mas como nem sempre lhes damos a necessária importância, oferecem-nos outros mais diretos, servindo-se das pessoas que nos cercam.Allan Kardec Daniel entrou no quarto do hospital, onde Diná estava hospitalizada depois da tentativa de suicídio. Ela estava abatida, mais magra, e seus olhos claros, totalmente sem brilho. Estava sentada na cama, e olhava pa
19 A nossa felicidade será naturalmente proporcional em relação à felicidade que fizermos para os outros.Allan Kardec Sophie foi, praticamente, levada à força até a grande mesa da sala usada para as visitas em tempo de festas na estância. Sentia o peso da barriga, e sentia fome. Muita fome! Foi uma tortura sentir aquele cheiro de churrasco entrando em seu quarto. Não queria dar o braço a torcer, mas quando foram chamá-la, ela precisou confessar, a si mesma, que esperava por isso, ardentemente. Adorava uma boa costela gorda! Seu tio... ou melhor,