LOGIN16
“Cada alma... vem a este mundo fortificado pelas fraquezas ou vitórias da vida anterior. Seu lugar neste mundo, como um vaso escolhido para honrar ou desonrar, é determinado pelos seus méritos ou deméritos. Seu trabalho neste mundo determina a sua vida num mundo futuro”.
Diogo estava no lado de fora da casa, sentado embaixo da árvore. Ao voltar da última regressão, preferiu ficar sozinho. Precisava pensar. Tinha muitas dúvidas e elas começavam a ficar maiores. Mas o sentimento que tinha por ela, este... era imenso!
─Não se apaixone pela segunda vez... - disse aquela voz suave e terna atrás dele o arrepiando.
─Tarde demais. Se eu viver mil vidas, voltarei sempre apaixonado por você.
Ela sorriu sem jeito, abaixada ao lado dele.
─Isso é lindo Diogo! - ela o fitou nos olhos.
─É tão bom saber que você pode ver. Conte-me um pouco sobre o lado que você está.
Ela fitou o horizonte com o olhar perdido em lembranças.
─Não posso. Eu estou aqui desde que... desencarnei. Mas eu me lembro de algumas coisas, lindos lugares, pessoas maravilhosas. Muito amor, muita luz, música, crianças e idosos felizes. Reencontros esperados e inesperados.
─Um mundo sem dor.
─Exato! Um mundo onde a dor é proibida de entrar. A dor não faz parte do amor de Deus. A dor foi o homem quem criou. O ódio e a mágoa nos aprisionam. Sei bem o que digo.
Diogo sentiu vontade de tocá-la. Ela leu seus pensamentos.
─Não podemos infringir as leis divinas. Cada coisa, cada pessoa, e cada alma em seu lugar.
─Não é justo, não é? Uma mulher tão linda quanto você, eu um apaixonado e não poder... - ele parou ao lembrar-se de algo. ─Por que apareceu àquelas mulheres?
Ela se levantou e levitou vagarosamente até a uma boa distância. No horizonte o sol se punha criando efeitos mágicos com raios amarelados e laranjas. Diogo pôde visualizar a distância que os separava, e uma imensa tristeza o abateu. Aquela separação era invisível, mas muito sólida e real. Ele sentiu um verdadeiro pânico com a ideia de um dia nunca mais poder vê-la.
─De certa forma tu estava desrespeitando o meu habitat.
─Ou ciúme?
Ela sorriu lindamente. Ele se sentiu em estado de graça pela primeira vez em sua vida. De repente, uma vontade insana de mudar toda a sua vida, de se transformar e melhorar. Abandonar todas as tristezas e sofrimentos, seus vícios e viver uma vida perfeita.
─Se tu quiseres, existe uma vida perfeita. - ela ainda sorria. ─Venha, vamos caminhar um pouco. Vai te fazer bem o ar do entardecer.
─Não vale, você pode ler meus pensamentos. - ele levantou e se pôs ao lado dela caminhando devagar.
─Nem todos. Mas a maioria.
─Do seu lado posso ter pensamentos pecaminosos. Mesmo você sendo uma alma. Para mim é como se fosse real.
─Eu sou real. Nossa alma é o real da vida. Nosso espírito é imortal.
Ela percebeu a sombra no olhar azul.
─Pare de se culpar pela morte de teu irmão.
Ele levantou os olhos surpresos. Ela sabia. Diogo se permitiu voltar no tempo...
Abril /2010
Dirceu era três anos mais jovem que Diogo. Desde pequeno apresentava uma tendência para a depressão, mas a maioria e sua família, acreditava ser uma desculpa para esconder sua má vontade, e preguiça, diante de muitas coisas, uma delas estudar. Diogo o protegia de tudo e de todos, mas só conseguia essa façanha quando estava são. A primeira ameaça de suicídio sua mãe quase enfartara, e o pai dera uma surra no garoto. Diogo como sempre, estava bêbado curtindo uma boa putaria em algum canto.
─Não faça mais esse tipo de coisa, Dirceu. - dissera ele assim que tivera oportunidade. Estava zangado depois do susto. Amava seu irmão e queria o melhor para ele. ─Quando realmente quiser se matar; faça! Não brinque desse jeito com as pessoas, mané! O que seria de mim sem você por perto para me encher o saco?
─Sua vida perderia a graça. - Dirceu riu divertido.
─Exato! Faz o que eu digo, mais jamais faça o que eu faço. Sou um babaca, alcoólatra que gosta de fazer os outros sofrerem. Sou um arrogante idiota que penso que o mundo gira em torno do meu umbigo. Acho que é por isso que eu bebo.
─Cara, você é muito mais doente do que eu! - Dirceu gargalhou.
─Pois eu não sei? Se alguém tem que se matar aqui, esse alguém sou eu... Quem vai sentir falta? Eu é que não vou...
Dirceu, era um garoto magro, com rosto de menino, levantou-se do sofá da sala elegante na casa dos pais, e foi até ele e o abraçou.
─Eu sinto a sua falta, meu irmão. Eu o admiro! Você é um dos caras mais inteligentes que eu conheço.
Diogo o abraçou com muita força, precisou segurar as lágrimas.
─Eu sei, sou tão inteligente que as pessoas me consideram um pé no saco! - ironizou, mas falando sério. Ele tinha consciência de sua inteligência e do quanto era arrogante por isso. ─Preciso aprender a ficar mais calado, fazer perguntas para quem não tem o que dizer, ou não entende o que você está falando, é uma merda!
Eles se soltaram. Diogo o fitou nos olhos, também, claros.
─Você não gosta de viver Dirceu?
─Às vezes acho que a vida não gosta de mim.
Fora a última vez que Diogo falara com o irmão. Duas semanas depois, Dirceu tentara ligar para ele. Estava numa orgia, bêbado, chapado, e pelado com duas mulheres quando atendeu o celular.
─Eu preciso conversar, mano...
─Pode ser depois, Dirceu?
─Não! Não pode... tem que ser agora, cara! – e ele chorou. ─Eu vou me matar!
Diogo riu, estava muito louco.
─Para com essa conversa idiota! Lembra do que eu falei? Não ameace, faça!
Desligou o celular e fitou uma das garotas gostosas que estavam com ele.
─Não sei por que vocês ainda trepam comigo.
─Porque você é muito bom na foda! - respondeu uma delas.
─Era isto mesmo que eu queria ouvir. Vem que vou te dar a melhor trepada do mundo!
Duas horas mais tarde, seu celular tocou. Estava um pouco mais sóbrio e se vestia para ir embora quando ouviu a voz de sua mãe.
─Seu irmão...
─Não...
Diogo voltou das lembranças, sentiu seu rosto úmido. À noite caíra. Sophie reluzia como um anjo naquele belo cenário, e o rosto dele estava banhado de lágrimas. Tentou limpá-las, mas ela não permitiu. Uma estranha força imobilizou seus braços.
─Não. Chore! Isso te fará bem. Vai te curar desta culpa, Diogo.
─Eu vou levar esta culpa comigo. Se eu não tivesse dito aquela besteira a ele, se eu tivesse atendido ao pedido de socorro dele... Eu sou um tremendo filho da puta! Eu matei o meu irmão! Eu sou a pior criatura da face da terra! - exclamou com raiva e saiu a passos largos.
Sophie ficou ali parada o observando se afastar. Era o momento dele se cobrar, se julgar e quem sabe se conseguisse, se perdoar.
Ele estava deitado na cama, fitando o teto quando sentiu a presença dela.
─Por que não aparece para Eloy?
─Não posso, somente quando tu está presente. Sente-se melhor?
─Ficaria se pudesse ter você do meu lado.
Como num passe de mágica, ela estava ali, deitada ao seu lado, virada para ele. Surpreso ele se voltou para ela.
─E agora, sente-se melhor?
─Nunca me senti tão bem com uma pessoa real, como me sinto com você.
─Quer dizer uma pessoa viva.
Os dois riram.
─Tirando os fenômenos que você provocou na casa... - ele brincou. ─... você é a pessoa que mais me deu paz até aqui.
─Era preciso movimentá-la, ou a casa já teria sido vendida. Precisei manter a fama. O povo criou uma lenda, e eu à dei a eles.
─Ela é importante para você?
─Muito! Uma casa onde uma pessoa morou e morreu se transforma num museu da mais linda arte. A arte de tudo que fez, construiu, conquistou, sofreu, sorriu e chorou. O lugar onde ela simplesmente viveu.
─Depois disto, vou passar a ver as construções de forma diferente. Vivemos uma noite maravilhosa aqui... - disse ele num tom sonolento.
─A melhor de nossas... vidas...
─Eu te amo, Sophie
─Eu também.
─Por que está vestida como um macho? - indagou Dario quando a viu descer pela primeira vez depois do retorno dela a estância. ─Suba e troque de roupa! Não quero minha futura mulher nestes trajes ridículos. Ou se transformou numa adepta de Anita?
─Primeiro, não sou, e nunca serei tua mulher. Se pagou por mim, vá atrás de meu... pai, e resolva com ele. Segundo; te acostume, pois estas são as minhas vestimentas a partir de agora. Terceiro, Anita é uma das mulheres mais admiráveis que essa guerra, ou revolução teve a honra de parir. E quarto e o mais importante: não terá uma mulher a qual o coração pertence a outro homem, e o ventre dela abriga um filho deles.
E ela virou as costas e saiu com uma trouxa nas costas. Dario ficou pasmo a olhando sem acreditar no que acabava de ouvir. Grávida de outro? Foi atrás dela e teve tempo de vê-la montar num cavalo com uma agilidade espantosa. Ficou ainda mais incrédulo. Ela falava com Afroline.
─Vou a Porto Alegre.
─É perigoso Sophie. Tu está grávida. Te lembra deste detalhe!
─Nada de ruim irá acontecer ao meu filho e de Diogo. Não fale de perigo quando o próprio está aqui dentro da minha casa. Eu só quero a confirmação de que foi ele quem matou Luzia. Pense nisso até eu voltar.
Sophie esporeou o cavalo e saiu em desabalada.
─Aonde ela foi, negra?
Afroline o olhou em silêncio, virou as costas para ele e deu três passos quando ele gritou.
─Pare agora! Eu estou mandando ou eu a colocarei no tronco!
Ela se virou e o encarou. A essas alturas, com os gritos, todas as mulheres estavam pelo pátio, observando a cena entre eles.
─Não me ameace, senhor. Faça!
─Negra maldita, não brinque comigo! - ele rangeu os dentes e ia em direção dela, mas Emília se interpôs entre os dois.
─Não faça isto, ou irá se arrepender!
─É mesmo? - ele sacudiu a cabeça com sarcasmo. ─Pois vamos ver o poder desta criatura! - voltou o olhar para os seus capangas. ─Peguem a negra mais velha da cozinha. Vinte chibatadas no tronco. Vosmecê é curandeira, não é? Então eu quero ver! Mostre-me!
A gritaria começou por Vânia e Verona, filhas de Yolanda e passou para Vera que furiosamente veio até ele como uma vaca louca solta pelo pasto.
─Tu não vai bater na nossa escrava mais antiga, seu desgraçado!
Ela bem que tentou, mas foi impelida por um dos capangas que a derrubou com um tropeço, levando-a a cair de rosto no chão. Emília e Afroline correram para levantá-la, mas Dario foi mais rápido e colocou a bota em cima do pescoço de Vera.
─Não! Ninguém tocará nela.
─Me mande para o tronco... - disse Afroline se erguendo.
─Não, quero ver o teu poder de cura. Ou então, me mate agora mesmo. Não é assim que funciona?
─Não vim para este mundo para matar alguém, agora tu sim. E pagará muito caro por essas mortes!
─É mesmo? Estou louco para saber como. Vamos! A negra no tronco!
O momento a seguir foi de terror intenso. As mulheres foram tratadas com uma manada sendo empurradas em direção ao tronco ao lado da senzala. Benedita, a escrava mais antiga, com sessenta anos de idade, foi arrastada até o tronco enquanto chorava e pedia clemência.
─Aguente firme Benedita. - sussurrou Afroline, sabendo que não poderia salvá-la.
Na quinta chibatada, com as costas nuas e marcadas, Benedita desmaiara. Uma cena de muita aflição e desespero para todos os presentes, depois de tanto tempo sem um escravo ir para o tronco naquela estância. Na décima segunda chibatada, Benedita deu seu último suspiro. As mulheres choravam de tristeza, e angústia.
Entre o divertimento e a fúria, Dário foi até Afroline, pegou-a pelo braço e a jogou aos pés de Benedita.
─Vamos! Cure-a! Agora, sua desgraçada! Quero ver o seu poder! Ressuscite-a! Vosmecê não é uma espécie de Deus por aqui?
Afroline baixou a cabeça e deixou as lágrimas rolarem. Não podia fazer nada. Não mais. Num rompante de raiva, ele a levantou e esbofeteou.
─Pela última vez! Para onde Sophie foi?
Ela continuou silenciosa. Deusa abria a boca para dizer algo, mas Emília a segurou pelo braço apertando com força.
─Se entregar minha filha eu te mato, china velha!
Deusa a olhou com desprezo.
─Eu jamais faria uma traição dessas! - e ela gritou. ─Foi para Ilha do Fanfa levar um recado a uma das famílias de um dos generais morto no último front que estivemos.
Dario se voltou para olhá-la. Soltou Afroline e disse:
─Bravo! Salva pela vagabunda velha. Foi preciso uma escrava morrer para alguém responder uma simples pergunta. ─ voltou a encarar Afroline. ─Estou de olho em vosmecê.
E saiu com passadas largas chamando os homens para irem atrás de Sophie. Não acreditava na resposta daquela vagabunda, pensava ele. Alguém faria companhia a ela. Afinal, Sophie era uma mulher cega para ir tão longe sozinha!
Deusa se voltou para Emília.
─Tua filha é uma das pessoas mais corajosas que eu conheci na minha vida, e tenho certeza de que jamais conhecerei igual. Fique de olho ou esse monstro vai acabar com ela. Cuide dela! Ela está grávida e precisa de proteção.
Deusa se virou e saiu com suas chinocas de volta para sua casa. Enquanto caminhava pela estrada com o coração pesado de tristeza, lembrou-se da despedida das duas pela manhã.
─Tenho uma dívida eterna contigo, Deusa.
─Tem não, rapariga. Foi uma honra esse tempo ao teu lado.
─A honra foi minha de conviver no meio de mulheres tão extraordinárias como as vivandeiras!
─Vamos apressar o passo chinocas. Preciso encontrar alguém para chamar Everaldo de volta. Ele precisa dar um fim no que ele começou trazendo esse carrasco do Dario, mil vezes, pior do que ele para cá!
Quatro dias depois, a cidade de Viamão amanheceu em choque. O prostíbulo de Deusa foi queimado com dez mulheres presas dentro dele.
─Bagre? - perguntou Sophie ainda incerta. Foi levada a uma casa afastada em Porto Alegre com segurança total para ambos.
─Sim. Não tenha receio, sou eu mesmo. Estamos seguros aqui. E fico honrado em conhecer a pequena prateada que ganhou fama de Porto Alegre a Laguna.
─República Juliana. - ela o corrigiu.
Eles trocaram um sorriso e um forte aperto de mão.
─Também estou honrada em conhecer o famoso Bagre, jornalista contestador do Jornal Avante. Aquele que diz tudo que o povo gostaria de dizer sem medo de represálias.
─Atrás de um pseudônimo quem não se sente seguro? Acredito que tenha algo para mim?
Ela assentiu, e tirou de dentro da camisa, entre o busto e o ventre um bloco de várias folhas. Alisou carinhosamente e entregou a ele.
O jovem jornalista repassou uma a uma, cada charge extraordinária. Desenhos de um jovem soldado, herói anônimo, lutando por causas sociais, econômicas, ideais ou tentando salvar a sua vida desesperadamente. Um escravo valentemente lutando, com sua lança numa guerra pelo direito de sua liberdade, se não morresse antes.
─Daria tudo para ver os desenhos de Diogo. - ela suspirou tristemente.
─Há muitos desenhistas nessa guerra, mas jamais vi talento tão espetacular como o dele! Pena não poder dar os devidos louros a ele.
─Ficará para a história.
─No que depender de mim, cada desenho dele. Obrigado!
Ele a analisou com extremo cuidado. Vestida de homem, o cabelo mal cortado naquele tom prata, nem assim conseguiam tirar a beleza dela.
─Mas, me conte um pouco o que viu. Ou melhor, viveu. - ele se corrigiu levando-a a sorrir condescendente.
Ela se sentou na cadeira que ele puxou para ela. Sophie apertou as mãos.
─Muitos gaúchos emigraram para Santa Catarina, e atuam como contrabandistas para os farroupilhas fornecendo armas e munições. Encontramos alguns fugindo. Os farroupilhas lutam maltrapilhos, faltam armas, botas. Sofrem muitas baixas. São Jose do Norte foi atacada por Bento, Garibaldi, Diogo e mais mil e duzentos homens. Os seiscentos combatentes da vila repeliram o ataque. Houve baixa de seiscentos e trinta pessoas, entre mortos e feridos, de ambos os lados. Eu quase fui uma delas. – ela suspirou e por fim sorriu alegremente. ─E tive o prazer de conhecer Anita e Garibaldi. Bento Gonçalves eu já o conhecia em suas andanças por Viamão e em alguns encontros com meu... pai. E confesso que fiquei muito decepcionada quando soube que ao ser preso, foi concedido a Bento o direito de levar um escravo para servi-lo. Todas as promessas que eles vêm fazendo aos lanceiros negros... estão sendo questionadas, desde o início...
E então ela contou o que ouviu, o que sentiu, pois, seu olhar da alma era bem mais amplo e apurado do que um olhar comum. E de comum, ela não tinha nada. Ela falou sobre os heróis anônimos, as vivandeiras, suas experiências, e Bagre com seu bloco de anotações registrava cada palavra dita por ela.
─Eu confesso, se me permite dizer, que estou pasmo de sua coragem em sair por aí, como agora aqui comigo, sozinha, sendo...
Ela deu um sorriso triste.
─Cega. Agora fui guiada pelo meu bom e velho cavalo Tosca. Ele foi treinado para me levar e trazer como um guia. O dia que ele se for, não sei como será... Mas sempre tem alguém por perto disposto a me ajudar. Se engana quem pensa que é milagre ou fácil.
─Não é só isso. Tu é muito corajosa! Uma pessoa admirável, e me sinto muito honrado em conhecê-la.
Eva estava entre assustada e feliz em receber a filha de Everaldo, o ex-patrão de seu marido Almir que neste momento, se encontrava, também, na guerra. Ele fora convocado como muitos outros após tantas baixas.
─Eu vim trazer isto. - e ela tirou uma carta de dentro do casaco. ─Diogo me pediu que entregasse à senhora em mãos.
Eva tremia ao pegar a carta. Com lágrimas nos olhos ficou ali parada, analisando a moça cega a sua frente, tão corajosa a ponto de sair atrás do homem amado num mundo escurecido por suas vistas no meio de uma guerra como aquela.
─Meu filho só poderia se apaixonar por alguém como tu.
─Ele é especial! Um herói, dona Eva! No meio de uma guerra, a qual ele tenta proteger muito mais seus amigos do que ele e a própria causa desse conflito.
─Eu sei. Tenho muito orgulho dele!
─Ele a ama muito! Disse que assim que puder voltará para nós. E já que estou aqui, quero que saiba que... a sua família crescerá um pouco mais.
Eva arregalou os olhos e foi até ela colocando a mão em sua barriga.
─Não acredito! Eu vou ser avó!
─Vai! - confirmou Sophie rindo feliz.
Luiz e Bill, irmãos mais novos de Diogo entraram em casa em polvorosa, interrompendo a conversa.
─Mãe... o prostíbulo da china Deusa pegou fogo.
─O que? - perguntou Sophie assustada. ─Como ela está?
─Parece que não restou ninguém moça. O fogo começou a noite quando elas dormiam e...
Sophie já não ouvia mais nada. Saiu da casa com passos largos, montou no seu cavalo e partiu num galope veloz.
Dario levantou da cama deixando a sua escrava nua e de pernas abertas, para ver o motivo da gritaria lá fora. Através da janela viu Sophie chegar, pular do cavalo e correr pelo imenso pátio com a rapidez de uma onça na hora da caça em direção da porta gritando o nome dele. Era impressionante a força e a agilidade daquela mulher. Custava a acreditar que ela era cega.
─A brincadeira vai começar. Dê o fora! E não esqueça. Faça o combinado. Quero que tudo pareça natural.
Ele se vestiu rapidamente e observou a negra sair colocando o vestido aberto por baixo. Podia ouvir o som das botas de Sophie subindo as escadas rapidamente enquanto o chamava aos gritos.
Sophie viajara por horas, até a casa totalmente destruída pelo fogo, somente para ter certeza do que já sabia, Deusa estava morta, e todas as suas amigas também. Ajoelhou-se em frente aos destroços e chorou muito, não se importando com as pessoas que a olhavam abismadas. Não podia ver mesmo, e não sabia mais se queria sentir alguma coisa, com tanta maldade acontecendo a sua volta.
Ali naquele prostíbulo, como chamavam, fizera amigos, passara horas ouvindo pessoas importantes palestrando, debatendo, aprendendo, e com o seu Diogo... O tempo que passaram juntos naquele quarto, se amando intensamente. Ela se lembrou de tantas coisas importantes que ele dissera naquela casa agora em ruínas.
─Em 1820, eram mais de 20 charqueadas, sendo a cidade de Pelotas o polo do estado na produção do charque, chegando num total de 400 mil cabeças de gado por ano. O escravo de saladeiro ganhou esse apelido porque eles ficam com as mãos cortadas pelo sal e por suas costas cortadas pelo relho do carrasco. Muitos têm os olhos cegados pelos raios do sol que refletem no sal. É comum também o sofrimento desses escravos, devido seus garrões sangrarem por causa do sal, exposto ao sol. Alguns escravos são sepultados entre o esterco e o sangue dos animais. Nem chegam a viver muito... Um trabalho árduo que começa na madrugada e vai até a noite. Um trabalho desumano! Isso precisa acabar de uma vez por todas! Escravo: é todo aquele que está sujeito a um senhor e é tido como sua propriedade. Assim, um escravo não tem liberdade para fazer o que quer, pois deve obediência a seu senhor. Normalmente, um escravo não conta com qualquer forma de proteção, pode ser vendido, trocado ou doado por seu proprietário. Pode ser severamente punido por meio de castigos físicos (como a flagelação) ou mesmo pela pena de morte. – o discurso dele numa tarde em que foi aplaudido por muito tempo. Deusa era a mais animada, gritando e incitando a plateia em apoio aos palestrantes.
Eram tantas lembranças... Seu coração estava de luto por todas aquelas mulheres maravilhosas que a acolheram, assim como ao Diogo.
Agora ali, encontrava-se cara a cara com aquele homem que ela tinha certeza, estava envolvido até o pescoço em todas aquelas mortes e tragédias. Não podia vê-lo, mas senti-lo era a pior sensação de sua vida.
─Tem as tuas mãos na morte delas, não? - ela disparou dando com o relho certeiro na face dele.
Dario sentiu a dor e o calor na face assim como uma ereção. Sem pensar duas vezes, pegou-a pelos braços e trouxe-a para dentro do quarto, dos pais dela, que ele se apossou, e atirou-a na cama. Sophie se engalfinhou com ele numa luta de unhas e dentes.
Mas ele era muito maior, e a dominou em questão de segundos. Ele ria deliciado como se estivesse brincando com um animal de estimação.
─Seria muito menos interessante se vosmecê fosse dócil e enfadonha como essas mulheres da corte. Quanto mais arredia e xucra, mais vontade tenho de domá-la. - a apertou com mais força. ─Se está fazendo tudo isto para que eu desista, não perca seu tempo. Paguei por vosmecê! Tenho direitos sobre você!
─O que tu queres com uma mulher embuchada de outro macho? Vamos? Qual valor posso ter para ti? E depois tenho nojo de homens que se impõe a uma mulher. Te odeio com todas as minhas forças pois eu sei que há sangue das pessoas que eu mais amo nas tuas mãos!
─Vosmecê não tem prova de nada. E posso ser um bom... moço se fores pior ainda! - disse ele se roçando no corpo dela, mas em seguida deu um salto pulando da cama. ─E tem razão quanto a sua gravidez. Primeiro ganhe essa cria, depois vosmecê será minha. Paguei por virgem, mas a culpa foi minha por ter demorado tanto para reclamar o que é meu de direito!
Sophie já estava de pé, pronta para um possível ataque.
─Vai sonhando! Logo Diogo estará de volta e nós ficaremos juntos. Te acerte com o monstro do meu pai pelo mau negócio que fizeste.
─É bom que esse tal Diogo morra na guerra. Ou ele terá o prazer de morrer em suas terras pelas minhas mãos!
Ela riu com escárnio.
─Bem se vê que tu não sabe nada desta terra, muito menos de Diogo. Se tu vier a ter o prazer de te defrontar com ele, estará diante de um dos maiores heróis e um nome de peso do Rio Grande! Tu pode ser o Rei da Cana de açúcar nas tuas terras, por estes pampas, teu título não vale de nada! Homens valorosos por aqui, lutam pelos direitos alheios. Homens valorosos não oprimem fracos e indefesos!
Ela virou as costas para sair e ele começou a aplaudi-la.
─Bravo guria!
Ela se voltou para ele com muito ódio nos olhos azuis.
─Nunca mais me chame de guria! Não te dou essa liberdade.
─Certo, criatura. Como quiser. Agora saia que preciso de um banho. Vosmecê fede a estrada e gente morta. - e ele bateu com a porta a deixando sozinha no corredor.
Em uma hora o quarto dele foi invadido por ela mais uma vez. E desta vez, Dario não teve tempo de dizer uma única palavra, pois ela se botou nele de socos e chutes o levando a andar para trás rapidamente fugindo dos golpes dela.
─Assassino! Tu mandaste matar a nossa cozinheira no tronco. Nunca mais te atreva a encostar numa das minhas escravas! Nunca mais mandará nenhum deles para o tronco! Eu juro, mais uma morte aqui dentro da estância, e eu te mato! Isso não é uma ameaça, mas o juramento de uma cega que já tem algumas mortes nas costas!
Ele sorriu ao vê-la sair do quarto batendo a porta. Não tinha medo das ameaças de uma cega. No entanto, quando sentiu o cheiro de fumaça e viu através da janela que ela acabava de colocar fogo no tronco, percebeu que ela não estava brincando. Principalmente, quando ela levantou o rosto para a janela onde ele estava como se estivesse o olhando direto em seus olhos. Um profundo arrepio se apossou dele. Aquela força que vinha dela, era assustadora.
Epílogo Não faças aos outros o que não quereríeis que vos fosse feito, mas fazei-lhe, ao contrário, todo o bem que está em vosso poder fazer-lhe.Allan Kardec Depois do natal, Diogo encontrou o momento certo para explicar a Diná, que ela poderia ser da oitava geração, e por tanto, descendente da família que viveu naquela estância. Conversavam em frente ao quadro de Sophie. Diná analisava a pintura em êxtase. Conseguia ver muitas semelhanças, e embora o quadro tivesse chamado a atenção dela no primeiro momento
23 A hora da verdade! Então algo inusitado, obra divina, destino, força do ódio ou a força do amor aconteceu. Antes de voltar aos campos de batalha, Diogo retornou a Estância das Magnólias,
22 1842Os farroupilhas se desorganizam, minados por intrigas.O Império se fortalece. O vice-presidente da República, Antônio Paulo da Fontoura, é assassinado em Alegrete. Nesta época os imperiais contavam com oito mil homens, crescendo sempre com contingentes enviados do centro do país. No final deste ano Caxias iniciou sua campanha com 12 mil soldados, munição à vontade, e bem equipados
21 Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.Allan Kardec Sophie ficou dias num estranho coma. Ela dormia o tempo inteiro, só acordava quando ela, realmente, queria. Não comia, cuspia a água que lhe era enfiada garganta abaixo. Não queria tomar banho, e sentia que alguém a lavava de maneira gentil com um pano úmido, secava e a vestia. Às vezes aqueles movimentos em seu corpo lhe davam vida e ânimo. S
20 Os espíritos protetores nos ajudam com os seus conselhos, através da voz da consciência, que fazem falar em nosso íntimo - mas como nem sempre lhes damos a necessária importância, oferecem-nos outros mais diretos, servindo-se das pessoas que nos cercam.Allan Kardec Daniel entrou no quarto do hospital, onde Diná estava hospitalizada depois da tentativa de suicídio. Ela estava abatida, mais magra, e seus olhos claros, totalmente sem brilho. Estava sentada na cama, e olhava pa
19 A nossa felicidade será naturalmente proporcional em relação à felicidade que fizermos para os outros.Allan Kardec Sophie foi, praticamente, levada à força até a grande mesa da sala usada para as visitas em tempo de festas na estância. Sentia o peso da barriga, e sentia fome. Muita fome! Foi uma tortura sentir aquele cheiro de churrasco entrando em seu quarto. Não queria dar o braço a torcer, mas quando foram chamá-la, ela precisou confessar, a si mesma, que esperava por isso, ardentemente. Adorava uma boa costela gorda! Seu tio... ou melhor,