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CAPÍTULO 10

Author: Alex Mello
last update publish date: 2021-10-23 11:06:48

Henrique nunca havia sido zoado tanto na vida como nos dias que se seguiram, tanto por seus pais e sogros, quanto por Kaito e seu marido. Desde o retorno dos pais para o brasil até a data primeira consulta com o médico para fazer a primeira bateria de exames e testes era um desejo maluco de comida atrás do outro.

E sempre as três de vinte e cinco da manhã.

Dr. Bells teve que adiar a consulta para o final da semana. Então foram seis dias de um cardápio vem variado e devidamente registrado no scrapbook que Helena tinha dado para Maximus registrar suas impressões e no grupo da família do no aplicativo de mensagens.

Depois do exótico hamburguer com papel higiênico.

Na segunda madrugada o desejo foi um pouco menos elaborado: carne moída crua com açúcar e mel. Depois veio bife de picanha com molho de chocolate branco. Em seguida peito de frango empanado com farofa de biscoito amanteigado e nachos. Uma pausa com comida, mas bebendo tudo quanto era tipo de milk shake misturando refrigerantes e sorvetes de sabores bem diferentes.

Nas duas últimas madrugadas antes da consulta ele conseguiu dar uma trégua, até por conta dos enjoos, o que foi um alívio para Maximus.

- Como você conseguiu viver à essa turbulência?! – observação constante.

- Não tem ideia de como estava tudo delicioso. – retrucou com gosto. – Estou até aguando só de lembrar.

- Vou ter que fazer anos de terapia para superar isso.

- Maxie... estive pensando. Sei que não vai ser barato, mas... eu queria fazer dois testes, aproveitando a biópsia.

- Sexagem fetal e DNA?

- Como?!

- Você deixou no tablet, outro dia, os sites abertos. Fiquei curioso.

- O que você acha?

- Acho que vai ser legal, mas... por que DNA? Acha que o filho pode não ser de um de nós dois?

- Tem tanto que a gente não sabe sobre isso. Não acha que seria prudente? Eu tenho certeza, dentro de mim, que ele é nosso filho. – Henrique acariciou a barriga que já estava maiorzinha.

- Concordo com você.

Chegaram na consulta com o médico e fizeram tudo tal qual havia sido combinado com o pai de Henrique.

- Doutor, e essa biópsia, podemos aproveitar para fazer o teste de DNA e o de sexagem fetal?

- Eu ia mesmo dar essas opções. Mas quero deixar bem claro uma coisa, Henrique e Maximus. Acho que, dependendo de como for o resultado da biópsia temos que estar preparado para talvez termos que retirar e interromper esse processo antes que traga algum risco para sua vida. – olhou bem no fundo e sério para Henrique.

- Entendo, doutor. Já tinha prometido para Maxie que caso houvesse algum risco nesse sentido que interromperíamos isso.

- Acho muito bom esse tipo de atitude, mas também tem outra coisa. Esse novo órgão só tem uma única comunicação com seu organismo, está vendo aqui na imagem. – mostrou o vídeo do último ultrassom. – Parece que não há saída possível para o bebê quando chegar o momento, pelo menos não até agora, porém mesmo que tivesse ou que se desenvolva alguma forma de saída do bebê, eu recomendo que façamos cesariana quando chegar a hora. Acredito ser o que vai trazer menor risco para ambos.

- Confio no seu julgamento, Dr. Bells. Faremos por cesárea mesmo. – concordou Henrique, apoiado pelo marido.

- Bem, vamos então para o procedimento?

Chegaram em casa exaustos. Todos os procedimentos foram realizados e agora restava aguardar os resultados. Henrique passou para os pais os dados dos médicos e pediu ao Dr. Robert que também enviasse uma cópia do prontuário e dos exames dele e do bebê para que seu pai pudesse acompanhar a evolução de tudo.

Henrique passou a tomar suplementos de vitamínicos com todas as letras possíveis, em especial do complexo B, K, ácido fólico, todos os ômegas possíveis, e minerais importantes como ferro, cálcio, zinco e cobre. Todos os dias.

Como recomendação, Henrique substituiu a academia gradualmente por caminhadas nos dias seguintes, coisa que instintivamente ele já estava fazendo. E isso ajudou consideravelmente na redução das cólicas, enjoos e vertigens. Embora os desejos por comidas estranhas acontecessem com uma frequência anormal, chegando a comer grama molhada disfarçadamente um dia durante uma de suas caminhadas pelas trilhas do condomínio.

Todos os resultados dos outros exames estavam ótimos, nada de anemia ou infecções de nenhum tipo, bem com resquícios de nenhuma doença. Vacinas em dia. Retornaram no médico para saber o que a biopsia diria sobre o misterioso órgão.

- Olha, meus caros, tenho a satisfação em dizer que não é nada que possa te trazer algum malefício ou ao bebê. Estruturalmente é um útero humano, as células se assemelham quase que cem por cento às células do órgão tradicional, por assim dizer. Tem as mesmas características, então... podemos todos ficarmos tranquilos. Seu bebê tem tudo para se desenvolver saudável, confesso que fiquei bastante aliviado quando recebi o resultado.

Henrique abraçou Maximus emocionado.

- Está tudo bem mesmo, doutor. Podemos realmente ficar tranquilos que Henrique não corre nenhum risco? – sua preocupação era nítida apenas para com o marido e o tom utilizado por ele incomodou Henrique.

- Tudo bem mesmo, meu rapaz. Não podíamos pedir por algo mais positivo nessa jornada.

O semblante de Mack era indecifrável para o médico, mas o alerta máximo tinha disparado na mente de Henry que não conseguiu se segurar no momento em que saíram do consultório.

- Maximus. – falou sério. – Você me pareceu um tanto decepcionado por saber que está tudo bem com o órgão, e por consequência com o bebê.

- Não fala besteira, Gabe. – respondeu sem olhar para o marido, mesmo ele tendo usado o nome e não o apelido como era o costume deles.

- Olha pra mim, Maxie. – Pararam no meio do corredor da ala dos consultórios médicos do hospital central de New Casterside. – Foi besteira o que eu falei mesmo?

Não houve resposta. Henrique puxou ar como que fosse falar algo, mas não disse nada. Apenas retomou o caminho para o carro, visivelmente chateado, deixando Maximus para trás que levou alguns instantes para seguí-lo.

- Gabe! – apertou o passo. – GABE! Espera!

Henrique acelerou ainda mais, quase a ponto de correr, mas sentiu uma forte dor na coluna e uma pontada na barriga, tendo que se apoiar na parede. Maximus correu até ele.

- O que houve?!

- Só as mesmas dores de sempre. – sentiu novamente uma pinçada na barriga e murmurou de dor.

- Enfermeira! Socorro! – Maximus gritou e duas vieram correndo ao encontro deles. Mack pegou uma cadeira de rodas próximas e ajudou Henrique a sentar-se. Retornaram para o consultório do Dr. Bells, colocando Henrique na maca.

Henrique acordou duas horas depois, com uma bolsa de glicose na veia e todo monitorado em um dos quartos do Hospital.

- Maxie. – falou meio grogue.

- Meu amor! Como você está?

- O que houve?

- Você sentiu algumas dores e acabou desmaiando.

- Como está...? – colocou as mãos imediatamente sobre a barriga. Foi interrompido pelo médico entrando no quarto.

- Como está se sentindo, Sr. Fuller?

- Um pouco grogue, mas... como está meu filho, doutor?

- Calma, rapaz... está tudo bem tanto com você quanto com o bebê. Só teve um leve ataque de pânico aparentemente.

“Culpa minha.” – Maximus se recriminou e seu marido percebeu.

- Vamos deixar vocês aqui em observação só por precaução, amanhã podem voltar pra casa. – o médico fez as observações e examinou tanto Henrique quanto o bebê com seu estetoscópio, sorriu simpaticamente. – tente descansar bastante, ok?

- Obrigado, Dr. Bells. – agradeceu Henrique.

- Outra coisa. – mostrou dois envelopes. – Esse envelope é o teste de DNA e este é para descobrirem o sexo do filho de vocês. Divirtam-se.

Sorriu simpaticamente para os rapazes e saiu do quarto junto com a enfermeira.

- Gabe, eu... – tão logo fechou a porta ele começou a falar com a voz embargada. – eu não sei o que dizer. Me perdoa por estar sendo tão fraco nesse momento, tão... egoísta.

Henrique não falou nada.

- Você não vai falar nada?

- Não.

Na manhã seguinte, Maximus ia pegar os envelopes na mesa ao lado de Henrique. Imediatamente ele impediu, olhando sério para o marido. Pegou os envelopes e colocou dentro da própria mochila.

- Primeiro você tem que resolver dentro de você o que está acontecendo, Maximus. Só vou abrir esses resultados depois que você se decidir se quer ou não levar essa situação, como você diz, até o fim, porque eu vou. Com ou sem você.

Depois de receberem alta oficialmente, caminharam até o carro em silêncio, e permaneceram assim durante o trajeto, e até mesmo após entrarem em casa.

Henrique subiu as escadas e se trancou no quarto. Maximus ligou para o pai.

- Oi pai.

[Que voz é essa, meu filho? Algum problema? Aconteceu alguma coisa com Henrique ou com o bebê?]

- Não, não... estão bem. Eu é que não estou... Fiquei esse tempo todo tão preocupado e tão focado no problema que essa merda dessa gravidez impossível podia trazer que acho que me convenci de que era realmente um problema...

[Como assim Mack?]

- Recebemos o resultado ontem de que está realmente tudo bem com Henrique e com o bebê. O órgão que ele desenvolveu parece muito com um útero e funciona como um, e o resultado de todos os outros exames deram normais. Em outras palavras, a gravidez está ocorrendo tudo dentro do que se podia esperar.

[E sua voz está assim porque você estava preparado para que fosse algo ruim e que tivessem que interromper tudo?]

- A-acho que... eu não sei se... – começou a chorar sem controle no escritório.

[Você acha que não quer ser pai ou se quer ser pai, é isso?] – o pai sorriu do outro lado ao ver o filho na videochamada balançando afirmativamente a cabeça. A mãe se juntou à chamada. – [Meu filho...]

[Seu pai teve a mesma reação toda vez que eu anunciei estar grávida, Mack. Era de se esperar que em algum momento você desse esse chilique.]

[Justine!] – recriminou a mulher. – [Pode não parecer mas nós também temos nossas fraquezas, ora!]

- Vocês não vão brigar por conta do meu chilique, né?

[Imagino o dia que seu irmão descobrir que Kat está grávida.] – Maximus arregalou os olhos e mirou a mãe na tela. – [Os homens dessa família são muito sensíveis, e olha que somos nós mulheres que ficamos com os hormônios em fúria.]

- O que?!

[Isso mesmo! Vocês são uns idiotas.]

- Não sobre isso... sobre Kat e Adam... eles também estão...

[Ela nos contou tem poucos dias, isso significa que teremos mais dois Fuller na família. Isso é tão maravilhoso!]

Maximus começou a respirar com dificuldade.

[Mack, respira fundo bem calmamente.] – começou a mãe. – [Fique calmo, meu anjo.]

[Filho. Busque bem lá no fundinho do seu coração. Lá dentro.] – continuou o pai. – [O que realmente acha disso tudo?]

Maximus parou por uns instantes.

- Minha reação foi realmente de ficar decepcionado, pai, mãe... eu, no fundo, esperava e acho até que queria que tudo isso não fosse real, que se fosse algo que tivesse que ser interrompido e tudo voltaria ao normal.

[O novo assusta. Nós também ficamos assustados, mas... enfim aconteceu, e você teve a melhor de todas as confirmações. Está tudo bem levar adiante os planos de vocês.] – foi interrompido por Justine.

[Não, os planos de Henrique! Durante todas essas semanas, a única pessoa que realmente estava segura das escolhas era ele.]

- Verdade. E eu estou me sentindo duplamente culpado agora.

[Resta saber se é apenas plano dele ou se você também faz parte.] – concluiu William. Após uma pausa para que Maximus pudesse se recompor. – [Receberam nossos pacotes.]

- Recebemos, sim. Obrigado. Acertaram em cheio, precisavam ver a carinha de felicidade de Gabe quando viu o panda gigante.

[E o que você vai fazer agora?] – intimou a mãe.

Bateu na porta do quarto algumas vezes até que ouviu o clique da chave destrancando a porta. Abriu a porta em tempo de ver o marido deitar-se virado para a janela do lado oposto da porta.

- Gabe... eu...

- Pega logo o que precisa e vai dormir em outro lugar, Maximus. – falou secamente.

- Não vim pegar nada. Vim falar com você. – Henrique sentou-se de braços cruzados, recostou-se na cabeceira da cama, ajeitando os travesseiros às costas. – Me desculpe pela reação. Eu realmente não estava preparado, a ficha só caiu porque o médico falou que estava tudo bem. Eu fiquei feliz sim em saber que estava tudo bem, mas não consegui mostrar essa reação.

- Não se engane, Maximus. Você ou não quer ser pai ou não se sente preparado ou sei lá...

- Para de assumir o pior, Henrique! Minha reação disse o contrário, eu sei, mas tenta ter um pouquinho mais de paciência comigo, ok? Isso mexeu demais tanto comigo quanto contigo, e cada um reage de uma forma diferente.

O semblante de Maximus de tristeza e arrependimento amoleceu um pouco a frieza de Henrique.

- Eu sei que cada um reage de uma forma, mas em momento algum eu o vi realmente se referindo à essa criaturinha que está se desenvolvendo... a... aqui...

- O que foi? – Henrique colocou uma das mãos na barriga.

- Eu acho que... – fez sinal para que Maximus se aproximasse, pegou imediatamente uma das mãos dele e levou até o mesmo lugar onde estava sua mão anteriormente.

Sentiu uma leve ondulação, tomou um susto.

- Gases?! – Henrique deu um soco de leve no ombro do marido que riu. – É... é realmente ele?!

Sentiu novamente um pouco mais demorado dessa vez, como se o bebê estivesse se esticando dentro da barriga. Henrique já estava com os olhos cheios d’água e Maximus quando olhou para ele abriu um largo sorriso, e revelou já estar chorando.

Rapidamente levou seu rosto à barriga de Henrique, levantando sua camisa e beijando o local várias vezes.

- Papai está aqui... demorou para ficar claro pra mim, meu amor... me desculpa, mas... eu estou aqui. – ria e chorava emocionado ao mesmo tempo. – Bebê, papai tá aqui.

Maximus beijou Henrique com vontade.

- Me desculpa, meu Gabe! – voltou a beijá-lo – Eu fui um completo idiota... me desculpa.

- Você não foi idiota, meu amor, mas pode continuar se sentindo assim se isso for me proporcionar essa imagem linda e emocionante e esse beijo... – voltaram a se beijar.

Estavam sentados à mesa, com três envelopes à frente deles. Cada um com uma xícara de café na frente e um bagel folheado. Sem tocar em nada, apenas encarando os envelopes quando Kaito e Sora entraram pelas portas dos fundos.

- Bom dia, meus queridos!

- Bom dia, Tio Henry! – Sora já ia pular no colo dele como de costume, mas foi interrompido pelo pai.

- O que eu falei sobre pular no Tio Henry?

- Ele tá dodói. Desculpa, esqueci.

- Não tem problema, mini-K. Vem me dar um abraço logo! – depois foi a vez de pular em Maximus e correu para o terreno para brincar com Youko.

- E aí? Como está meu sobrinho?

- Na verdade, querido Kaito, esse envelope aqui é para você. – Kaito abriu rapidamente e viu um cartão com a foto da primeira ultrassonografia na frente e dentro a todo da segunda e uma mensagem: “Aceita ser meu dindinho?”

O amigo de Henrique pulava como uma criança que tinha acabado de ganhar um presente. Abraçou os dois várias vezes.

- Não aceitaria que fosse diferente. E o que são esses outros dois envelopes?

- Esse você vai levar para sua casa e vai abrir lá e não vai contar o resultado para ninguém, exceto Sophia, que é a madrinha. Vocês dois vão ter que organizar o chá revelação. E esse outro é para abrir agora e contar para nós os resultados que estão aqui dentro.

K-San guardou o envelope com o resultado do sexo do bebê no bolso e abriu rapidamente o outro. Leu atentamente cada um sem falar nada, mantendo uma cara indecifrável. Passou os olhos novamente e mais uma vez até que Maximus se manifestou.

- Fala logo, pelo amor de Deus, K-San! Detesto quando faz isso.

- Não temos jogado mais pôquer nos últimos meses, tenho que praticar minha poker face!

- Tá, já praticou. Agora fala logo!

- Bem... o primeiro resultado diz que Henrique, você é pai do seu filho com 99,9% de chance. Até aí, meio óbvio, né?

- Nem tanto, mas... e o outro? – apressou Henrique.

- Meu afilhado, ou afilhada, vai saber? Já é uma criança afortunada independentemente de qualquer coisa. Já sabemos que Henry é papai original de fábrica, o que nem tem como ser diferente, e... papai Maximus tem 0,1% de incerteza. – os dois pais se olharam animados. – isso aí, usem a matemática, seus preguiçosos. Vocês são os verdadeiros pais dessa criança.

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