로그인BIANCA NARRANDO: A Candidata EscolhidaMinhas mãos estavam tão suadas que o celular quase escorregou dos meus dedos pela terceira vez. Eu encarava o reflexo do meu rosto no espelho do banheiro da clínica, tentando controlar a respiração descompassada que fazia meu peito subir e descer rápido demais.— O que eu estou fazendo? — sussurrei para mim mesma, sentindo um nó apertar a minha garganta.Eu não precisava de dinheiro. Graças a Deus, eu vinha de uma família estruturada, tinha uma vida confortável no asfalto e nunca soube o que era passar necessidade. Mas o meu propósito sempre foi outro: eu gostava de ajudar as pessoas. Sempre tive o coração voltado para o próximo. E foi por isso, por ver o sofrimento de casais e pessoas que sonhavam em ter um filho mas não podiam gerar, que eu decidi me inscrever naquele catálogo de inseminação clandestina de alto nível. Eu queria dar a alguém a chance de ser pai, de ser mãe.Fazia quase dois anos que meu perfil estava lá, intacto. Eu já tinha até
MELISSA NARRANDOO caminho de volta pro morro pareceu ainda mais longo que a ida. Minhas pernas pesavam, mas o alívio no meu peito era maior. Eu tinha o saquinho com o lanche que a moça da recepção me deu e a certeza de que, segundo o médico, eu tava saudável. Aquela dorzinha incômoda na barriga devia ser só reflexo da fome ou do cansaço acumulado de tantos dias subindo e descendo vielas com um saco de náilon nas costas.— Menos mal... — sussurrei para mim mesma, apertando o passo quando o cheiro familiar de esgoto aberto, fumaça de moto e espetinho assando na brasa me avisou que eu já tava de volta à minha realidade.No asfalto, eu era invisível. No morro, eu era a "catadora". Não sei qual dos dois doía mais, mas o morro, pelo menos, era o meu teto.Passei direto pela praça sem olhar pros lados. Os soldados do Barão continuavam bebendo e rindo perto do boteco, mas o próprio chefe não tava lá. Graças a Deus. A energia daquele homem me sufocava, mesmo que ele nunca tivesse direcionad
BARÃO NARRANDOO QG tava abafado pra caralho, mas eu não dava a mínima. tava de braços cruzados na janela, olhando o movimento lá embaixo na favela, quando o meu celular particular, aquele que só os contatos de alta importância tinham o número, vibrou no bolso da calça.Peguei o aparelho e vi o número privado. O número da clínica de bacana lá do asfalto.Atendi na hora, sem rodeios, soltando a fumaça do baseado pra fora da janela.— Fala.— Boa tarde, senhor Barão, a voz do diretor da clínica saiu pausada, cheia daquela polidez nojenta de quem tem medo de morrer, mas quer parecer profissional. Ligamos para informar que o procedimento foi realizado com absoluto sucesso. A candidata selecionada passou pela inseminação há poucas horas e correu tudo dentro dos conformes médicos.Um sorriso de canto brotou no meu rosto. Senti o peito inflar, uma sensação de poder que nem o controle do tráfico me dava.— O material já tá nela? — perguntei, a voz grossa ecoando na sala vazia do QG.— Si
CONTINUAÇÃO...Quando finalmente achei o endereço, parei na frente do prédio confusa. Olhei de um lado pro outro da rua.Não tinha placa.Não tinha nome.Nada.Só um portão discreto e uma porta de vidro escura.Franzi a testa.Aquilo realmente parecia uma clínica?Por alguns segundos pensei até que tinha vindo no lugar errado. Mas quando conferi o papel outra vez, o endereço tava certo.Respirei fundo e entrei mesmo assim.O lugar era gelado por causa do ar-condicionado forte. Limpo demais também. O chão brilhava tanto que deu até vergonha do meu tênis sujo pisando ali.Tinham algumas mulheres sentadas nas cadeiras espalhadas pela recepção.Todas arrumadas.Bonitas.Cheirosas.Assim que entrei, algumas levantaram os olhos na minha direção.E me olharam daquele jeito. De cima abaixo.Como quase todo mundo olhava.Senti meu rosto esquentar na mesma hora.Baixei a cabeça e fui direto pra cadeira mais afastada, no fundo.Sentei apertando as mãos nervosa no colo.Parte de mim queria levant
MELISSA NARRANDO O sol já tava quase se pondo quando Barão e os homens dele saíram do restaurante. Continuei sentada no meio-fio, segurando o saco de náilon contra o peito, esperando eles irem embora de vez.O barulho das motos roncou alto pelo morro e depois foi ficando distante.Só aí eu levantei.Entrei no restaurante cabisbaixa, sentindo os olhos da dona Célia em mim.Ela já tava juntando as latinhas dentro de um saco maior quando me viu.— Minha filha… você tá parecendo um palito.Forcei um sorriso fraco.— Tô normal, dona Célia.Ela me encarou por alguns segundos.— Anda comendo direito?A mentira saiu automática:— Tô sim.Ela suspirou baixo, como se soubesse que eu tava mentindo.Depois entrou rapidinho na cozinha e voltou com uma marmita embrulhada em jornal.O cheiro de comida quente bateu no meu rosto na mesma hora.Meu estômago chegou a doer.— Toma.Olhei pra ela assustada.— Não… eu não posso aceitar isso.— Pode sim. E não discute comigo não.Engoli seco.Peguei a marm
BARÃO NARRANDOEu tava sentado na cadeira da sala do QG mexendo nos papéis da carga que ia subir mais tarde quando a porta abriu de uma vez.Levantei os olhos na mesma hora, já irritado.— Tu desaprendeu a bater na porta, Tilápia?Ele entrou rindo de canto, sem dar a mínima.— Foi mal… mas vim te avisar que tuas mina tão lá na praça saindo no tapa por tua causa.— Joguei o baseado no cinzeiro e me larguei na cadeira.— Qual delas agora?— A Bia e a Carla.Soltei uma risada sem humor.— Puta que pariu…Levantei pegando a arma em cima da mesa.— Vou chegar lá.— Tilápia ficou me olhando enquanto eu saía do QG. Desci as escadas devagar, encaixei a peça na cintura e subi na moto.O motor roncou alto no meio do morro.Fui descendo as vielas enquanto o povo já olhava, sabendo que alguma merda tava acontecendo. E quando virei perto da praça, encontrei a confusão armada.As duas tavam no chão puxando cabelo uma da outra, enquanto o povo em volta assistia como se fosse espetáculo.Parei a moto







