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CAPÍTULO 3

last update 게시일: 2026-09-12 09:58:56

MELISSA NARRANDO

O sol já tava quase se pondo quando Barão e os homens dele saíram do restaurante. Continuei sentada no meio-fio, segurando o saco de náilon contra o peito, esperando eles irem embora de vez.

O barulho das motos roncou alto pelo morro e depois foi ficando distante.

Só aí eu levantei.

Entrei no restaurante cabisbaixa, sentindo os olhos da dona Célia em mim.

Ela já tava juntando as latinhas dentro de um saco maior quando me viu.

— Minha filha… você tá parecendo um palito.

Forcei um sorriso fraco.

— Tô normal, dona Célia.

Ela me encarou por alguns segundos.

— Anda comendo direito?

A mentira saiu automática:

— Tô sim.

Ela suspirou baixo, como se soubesse que eu tava mentindo.

Depois entrou rapidinho na cozinha e voltou com uma marmita embrulhada em jornal.

O cheiro de comida quente bateu no meu rosto na mesma hora.

Meu estômago chegou a doer.

— Toma.

Olhei pra ela assustada.

— Não… eu não posso aceitar isso.

— Pode sim. E não discute comigo não.

Engoli seco.

Peguei a marmita devagar e guardei dentro do saco junto das latinhas. O calor do jornal encostando na minha perna quase me fez chorar ali mesmo.

— Deus abençoe a senhora…

Ela enxugou as mãos no pano e desviou os olhos.

— Vai embora logo antes que escureça.

Assenti e saí dali apertando o saco contra o corpo.

Subi a ladeira mais rápido que consegui enquanto o céu começava a escurecer.

Quando cheguei no barraco, minha mãe tava dormindo.

Guardei as latinhas no canto e sentei no chão com a marmita no colo. Abri devagar.

Arroz.

Feijão.

Um pedaço de frango.

Meu olho encheu d’água na mesma hora.

Separei metade pra minha mãe e comecei a comer devagar, tentando fazer aquilo durar mais tempo.

Mas meu corpo tava com tanta fome que doía.

Comi chorando quietinha.

Porque fome não era só falta de comida.

Era falta de dignidade.

Quando terminei, fechei direitinho o resto da marmita e guardei pra minha mãe comer depois.

Então fui tomar banho.

A água tava gelada demais, e meu corpo inteiro arrepiou quando joguei a primeira caneca por cima dos ombros. Tomei banho rápido, tentando ignorar o frio.

Depois me sequei e vesti uma camisa velha grande que ia até o joelho.

Deitei do lado da minha mãe, e não demorou muito pro cansaço vencer meu corpo.

Apaguei rápido.

__

No outro dia acordei sentindo uma cólica estranha.

Franzi a testa ainda deitada.

Não parecia aquelas dores normais.

Era mais embaixo… uma sensação diferente, desconfortável.

Como se tivesse alguma coisa errada dentro de mim.

Me espreguicei devagar na cama que dividia com minha mãe e coloquei a mão na barriga.

O aperto continuava ali.

Passei logo a mão pra perna, tentando afastar o pensamento.

Eu não tinha dinheiro nem pro remédio da minha mãe.

Imagina pra exame.

Levantei suspirando e fui lavar o rosto no tanque do lado de fora.

O morro ainda tava acordando devagar naquela hora. O céu claro, o cheiro de café vindo das casas e o barulho distante de funk tocando baixo em algum lugar.

Comecei a tirar as roupas do varal quando ouvi baterem na porta.

— Melissa? Tá aí?

Reconheci a voz na hora.

Abri a porta e dei de cara com Tânia.

— Oi… você veio cedo.

Ela entrou já abanando o rosto por causa do calor.

— Vim correndo. Tô atrasada já.

Tânia era amiga da época da escola. Depois que eu larguei os estudos, a gente acabou se afastando um pouco, mas ainda se via às vezes pelo morro.

— Aconteceu alguma coisa?

Ela foi direto ao assunto:

— Minha prima tá fazendo estágio numa clínica lá no asfalto. Toda semana eles precisam de gente pra fazer exame de graça, pras enfermeiras novas treinarem.

Meu coração bateu estranho.

— Exame de quê?

— Ginecológico… preventivo… essas coisas.

Na mesma hora senti vergonha.

Desviei os olhos.

— Ah, Tânia… eu não sei não.

— Pelo amor de Deus, Melissa. Tu vive reclamando dessas dores aí. Vai logo fazer esse exame.

Mordi o canto da boca, nervosa.

— Mas eu tô sem documento…

— Já falei disso pra ela. Minha prima conseguiu te encaixar mesmo assim.

Aquilo me fez levantar os olhos rápido.

— Sério?

Ela assentiu e puxou um papel dobrado do bolso.

— Tá aqui o endereço.

Peguei o papel devagar.

O nome da clínica tava escrito junto com o horário.

Meu estômago apertou de nervoso.

— Não se atrasa, tá?

Assenti devagar.

— Obrigada, Tânia…

Ela sorriu de canto.

— Depois me fala como foi.

Então se despediu e saiu apressada do barraco.

Fiquei parada olhando pro papel na minha mão durante alguns segundos.

Parte de mim queria desistir.

Mas a outra parte lembrava da dor estranha que eu vinha sentindo fazia dias.

Respirei fundo.

Depois fui direto pro banho.

Dessa vez lavei o cabelo com sabonete mesmo. A água gelada quase congelou meu corpo inteiro.

Quando terminei, comecei a procurar no pouco que eu tinha uma roupa menos pior pra vestir.

Escolhi uma calça jeans antiga e uma blusa simples mais arrumadinha.

Me olhei no espelho quebrado pendurado na parede.

Eu continuava parecendo cansada.

Magra demais.

Mas pelo menos tava limpa.

Penteiei o cabelo devagar. Pelo menos aquilo eu tinha de bom. Meu cabelo era liso e fácil de arrumar. Uma preocupação a menos.

Olhei pra roupa mais uma vez. Não tava bonita. Mas também não tava tão acabada quanto de costume. Já era o suficiente.

Sentei na beira da cama e calcei meu tênis velho, já descolando na lateral. Apertei os cadarços devagar enquanto olhava pro papel dobrado com o endereço da clínica.

Só de pensar a distância, minhas pernas já doíam. Mas eu não tinha nem dinheiro pra passagem. Ia ter que ir andando mesmo.

Dobrei o papel com cuidado e guardei no bolso da calça. Depois me aproximei da cama, minha mãe ainda dormia quietinha, respirando fraco. O rosto cansado apertou meu peito na mesma hora.

Me abaixei perto dela e falei baixinho:

— Mãe… vou ali rapidinho e já volto, tá?

Ela nem se mexeu. Passei a mão no braço dela com carinho antes de me afastar.

Então saí do barraco.

O sol já começava a esquentar, e as vielas tavam cheias de gente indo e vindo. Desci os beco rápido, tentando não chamar atenção. Quando passei pela praça, vi alguns soldados do Barão espalhados como sempre. Arma na cintura. Olhar pesado. Controle total do morro.

Baixei os olhos automaticamente e continuei andando.

O caminho parecia ainda maior quando a barriga tava vazia. Minhas pernas começaram a doer antes mesmo da metade do percurso, mas continuei. Passando pelas ruas movimentadas, pelos carros, pelas pessoas arrumadas demais, tudo tão diferente da minha realidade.

Toda vez que eu ia pro asfalto, sentia a mesma coisa. Como se eu não pertencesse ali. Como se todo mundo conseguisse olhar pra mim e enxergar de onde eu vinha.

A menina pobre do morro.

A catadora de latinha.

A filha da mulher doente.

Apertei mais forte o papel no bolso e continuei andando. Porque naquele momento eu só queria fazer aquele exame logo e voltar pra casa antes que alguma coisa desse errado.

CONTINUA...

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