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Inseminada pelo Destino
Inseminada pelo Destino
Autor: Santos de Souza

CAPÍTULO 1

last update Fecha de publicación: 2026-09-09 00:38:22

INSEMINADA PELO DESTINO:

MELISSA NARRANDO

O cheiro de arroz quase queimando tomou conta do barraco enquanto eu mexia a panela velha no fogo baixo, tentando fazer aquela comida render mais uma vez. A chuva da madrugada tinha deixado tudo úmido e o teto continuava pingando num canto da casa, mas aquilo já fazia parte da rotina.

Assim como quase tudo na minha vida.

Olhei pra cama encostada na parede e encontrei minha mãe me observando em silêncio.

O derrame acabou com ela.

Acabou com a fala, com a força, com o sorriso bonito que ela tinha… acabou com quase tudo.

Às vezes eu ainda custava acreditar que aquela mulher deitada ali era a mesma que vivia cantando dentro desse barraco enquanto fazia café antes de sair pra trabalhar.

— Já tá pronto, mãe… só espera esfriar um pouquinho.

Desliguei o fogo e coloquei a comida no prato rachado de sempre. Depois sentei na beira da cama e comecei a dar a comida na boca dela devagar.

— Abre mais um pouquinho…

Ela obedeceu em silêncio.

O lado do rosto continuava torto por causa do derrame, e aquilo apertava meu peito toda vez que eu olhava.

Porque antes da doença… a gente ainda era pobre, mas pelo menos vivia.

Ela trabalhava.

Andava.

Brigava comigo pra eu não faltar aula.

Agora eu precisava ajudar ela até pra comer.

— Você tem que comer também, Melissa…

A voz dela saiu baixa e embolada.

Forcei um sorriso.

— Eu já comi.

Mentira.

Mas eu já tinha aprendido fazia tempo que mãe doente não precisava carregar mais preocupação.

Quando terminei, lavei o prato e fui pros fundos do barraco com o balde de roupas.

Sentei no banquinho velho e comecei a esfregar as peças usando o resto de sabão que ainda tinha.

Minhas mãos ardiam por causa dos cortes pequenos espalhados nos dedos, mas continuei mesmo assim.

Enquanto torcia uma blusa velha minha, acabei lembrando da escola.

Das minhas amigas.

Das risadas no intervalo.

Eu tinha só quinze anos naquela época.

A vida já era difícil, mas ainda parecia leve perto do que virou depois.

Eu ainda sonhava.

Achava que ia terminar os estudos.

Conseguir um trabalho bom.

Tirar minha mãe daquele barraco.

Mas aí o derrame veio… e levou tudo junto.

Os estudos.

Minha adolescência.

Minha paz.

Desde então minha vida virou catar latinha, lavar roupa, cozinhar e tentar sobreviver.

Pendurei as roupas no varal improvisado e olhei pro vidro do remédio da minha mãe em cima da mesa.

Tinha quase nada ali.

Meu estômago apertou na mesma hora.

Hoje eu precisava conseguir mais latinha.

Precisava.

Ou ela ficaria sem remédio de novo.

Entrei dentro de casa, peguei o saco de náilon encardido e coloquei no ombro.

Antes de sair, fui até minha mãe.

— Vou ali catar umas latinhas e já volto.

Ela segurou minha mão fraquinho.

— Se cuida, minha filha…

Me abaixei e dei um beijo na testa dela.

— Vou me cuidar sim.

Saí do barraco sentindo o sol forte bater no rosto.

O morro já tava cheio naquela hora. Som alto, criança correndo, gente gritando nas vielas… a mesma bagunça de sempre.

Caminhei segurando o saco no ombro enquanto sentia os olhares vindo na minha direção.

Eu já sabia o motivo.

As roupas velhas.

O chinelo gasto.

O cabelo preso de qualquer jeito.

As mulheres sentadas perto da escadaria começaram a rir assim que passei.

— Lá vai a catadora de lixo.

— Misericórdia… essa menina tá cada dia pior.

— Quando foi a última vez que ela tomou banho?

As gargalhadas vieram logo depois.

Continuei andando como se não tivesse ouvido.

Porque responder não mudava nada.

Só abaixei mais a cabeça e segui meu caminho tentando ignorar a vergonha queimando dentro de mim.

Quando cheguei perto do restaurante da dona Célia, diminuí os passos automaticamente.

E parei.

Barão tava lá dentro.

Sentado numa mesa perto da janela junto dos homens dele.

Mesmo de longe dava medo.

O restaurante inteiro parecia em silêncio perto dele. Os homens armados espalhados pelo lugar, o jeito que ninguém encarava ele diretamente… tudo naquele homem fazia o morro inteiro ficar pequeno.

Desviei os olhos rápido.

Meu coração sempre acelerava quando ele tava por perto.

Eu tinha medo dele.

Todo mundo tinha.

Por isso nunca entrava ali enquanto ele estivesse no restaurante.

Vai que ele não gostasse da minha presença.

Vai que implicasse comigo por causa das latinhas.

Então preferia esperar.

Sempre preferia esperar.

Sentei no meio-fio segurando o saco de náilon contra o peito enquanto aguardava ele terminar de almoçar pra eu poder entrar e pegar as latinhas que dona Célia guardava pra mim.

E fiquei ali quieta.

Sozinha.

Tentando ignorar a fome no estômago enquanto observava, de longe, o homem mais perigoso daquele morro… sem imaginar que minha vida já tava prestes a se cruzar com a dele da pior forma possível.

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