Mag-log inFernando
A festa segue viva ao meu redor, com criança correndo de um lado para o outro, música infantil tocando mais baixa ao fundo, gente falando alto demais, risadas explodindo perto das mesas, pratos batendo, cheiro de salgadinhos, doces. Uma bagunça boa. Daquelas que deixam a casa cheia de vida. Praticamente todo mundo chegou, e eu continuo observando a Sophia de tempos em tempos, quase sem perceber que faço isso. Ela está perto da recreadora agora, sentada na grama junto das outras crianças, completamente entretida em alguma brincadeira com tinta colorida e um monte de papel espalhado. Augusto para ao meu lado, segurando uma cerveja. — Crescem rápido demais — comenta, apontando discretamente com o queixo para as crianças. Acompanho o olhar dele e sinto alguma coisa apertar leve no peito. — Nem fala. Parece que foi ontem que ela era só um bebezinho. Ele ri pelo nariz. — Aproveita cada fase. Sério. Porque passa voando. — Tomo um gole da cerveja enquanto ele continua: — Eu tento aproveitar tudo da Luz justamente porque perdi muita coisa do Alvinho quando ele era pequeno. — Ainda bem que deu tudo certo e você virou essa família de comercial de margarina aí. — Olho para ele com um meio-sorriso. Augusto solta uma risada. — Idiota. — É elogio. — Você continua um engraçadinho. — Força do hábito. Ele balança a cabeça, ainda rindo, mas depois fica alguns segundos em silêncio antes de falar de novo. — Eu vou dizer isso uma vez só, então não se acostuma. — Ih… lá vem. — Arqueio uma sobrancelha. — Você amadureceu pra caralho, Fernando. Faço uma careta automática, mas eu o deixo continuar. — E você é um pai foda pra Sophia. Todo mundo vê isso. E, sinceramente? Você também está mandando bem demais cuidando da fazenda. Solto uma risada curta. — Devia ter gravado isso. Nunca mais vou ouvir de novo. — Não vai mesmo. Balanço a cabeça, ainda sorrindo, mas o sorriso enfraquece um pouco. — Valeu. O silêncio pesa por um instante. Respiro fundo enquanto observo a Sophia correr atrás de bolas de sabão. — Às vezes, eu tenho medo de não ser suficiente pra ela. Augusto vira o rosto na minha direção. — Fernando… — E tenho medo da mãe dela aparecer qualquer hora dessas. — Falar isso em voz alta faz o desconforto crescer no peito de novo. Augusto toma um gole da cerveja antes de responder. — Se um dia isso acontecer, você arruma um advogado bom e acabou. Você acha mesmo que alguém tiraria a guarda dela de você? Não viaja. — Mesmo assim… — Passo a mão pela nuca. — Não pensa nisso hoje — ele corta de maneira firme. — Olha pra ela. Eu olho e vejo Sophia gargalhando de alguma coisa que o Alvinho fez, completamente feliz, completamente segura. Talvez ele tenha razão. Meu olhar se desloca distraidamente para a entrada do pátio, e então eu vejo Liliana com seu cabelo loiro preso em um rabo de cavalo alto, vestido estampado de coqueiros e tucanos, largo o suficiente para não marcar quase nada do corpo. Ela deixa o presente perto da mesa da entrada antes de seguir na direção da Doralice e da minha mãe. Claro, foi minha mãe que convidou, ou melhor, provavelmente, Doralice comentou, minha mãe gostou da ideia e pronto. As duas adoram brincar de cupido. Doralice praticamente me viu crescer. Ela e o marido trabalham com meus pais desde antes de eu entender qualquer coisa da vida. São família. E foi ela quem apresentou a Liliana para mim meses atrás. Ela era recém-chegada a Morro Alto depois de passar no concurso da prefeitura com o cargo de radiologista do hospital municipal. Ela é bonita, inteligente, boa companhia e boa na cama. Mas só isso, sempre foi. Nós transamos de vez em quando, sem cobrança, expectativa ou promessa. Ela deixou claro desde o começo que não queria relacionamento, e eu também não. Principalmente eu. Porque depois da Sophia tudo mudou. Não é mais só sobre mim. Eu não consigo simplesmente colocar qualquer pessoa na vida da minha filha sem pensar nas consequências. E, sinceramente, nem quero correr esse risco. Sophia merece estabilidade e segurança. E Liliana definitivamente não é alguém que queira construir algo assim. Ela já deixou escapar mais de uma vez que não gosta muito de criança. Ainda assim, tenta forçar uma simpatia com a Sophia quando está por perto, mas criança percebe as coisas. Sophia percebe. Ela nunca se aproximou muito de Liliana, e isso já me diz muito. Minha mãe, por outro lado, parece ignorar completamente esses detalhes. Já insinuou mais de uma vez que Liliana seria uma ótima namorada para mim. Namorada. Quase rio sozinho. Assim como Amanda. Alessandra. Sabrina. E tantas outras mulheres com quem transei desde que voltei para Morro Alto, e nenhuma delas chegou perto desse lugar. Nem vai chegar. — Ih… — Augusto ri ao meu lado ao ver para onde olho. — Continua o safado de sempre, hein? — Cala a boca. — Reviro os olhos. — Só toma cuidado pra não aparecer outro bebê na sua porta daqui uns anos. Solto uma risada anasalada. — Vai se ferrar. — Estou falando sério. — E eu também. Não sou mais tão irresponsável assim. — Ainda bem. — Augusto ergue as sobrancelhas. Balanço a cabeça, tomando mais um gole da cerveja, enquanto ao fundo Sophia volta a gargalhar tão alto que chama minha atenção imediatamente. Augusto toma mais um gole da cerveja e me olha com aquela expressão convencida de quem acha que já entendeu tudo da vida. — Você ainda vai se apaixonar, Fernando. Eu solto uma risada curta pelo nariz. — Não vou. — Vai, sim. Você ainda é novo. — E daí? — Daí que quando acontecer — ele aponta a garrafa pra mim —, você vai estar ferrado. — Não vai acontecer porque eu não quero. — Eu balanço a cabeça imediatamente. Augusto ri na mesma hora. — Isso não tem nada a ver com querer. — Claro que tem — afirmo de maneira firme porque realmente acredito nisso. Amor é escolha. Relacionamento é escolha. Abrir espaço para alguém entrar na sua vida é escolha. E eu escolho não fazer isso, principalmente agora. — Eu não vou colocar qualquer pessoa na vida da Sophia — continuo, olhando para ela ao longe. — Jamais. — Minha voz sai mais séria sem eu perceber. — Eu não deixaria ninguém a machucar. Nem fazer ela achar que não é amada. Augusto me observa por um instante em silêncio antes de abrir um sorriso de canto. — Então, a mulher que ganhar seu coração vai ter que ganhar primeiro o da Sophia. Eu rio, balançando a cabeça. — As coisas não são simples assim. — Pra você nunca... A frase dele é interrompida por uma gargalhada alta e conhecida. — DINDO! Eu viro o rosto automaticamente e sinto um alívio imediato percorrer meu corpo. Finalmente.Fernando A música começa suave, lenta e perfeita. E, pela primeira vez desde o início da festa, tudo ao redor parece desaparecer e só existe Yasmin em meus braços. Eu deslizo uma mão por sua cintura enquanto a outra segura a dela e, por um instante, apenas observo a mulher que se tornou meu lar.O vestido branco parece ter sido feito para ela, com os detalhes delicados da renda, os cabelos presos de forma elegante, com algumas mechas escapando e moldando seu rosto, os olhos brilhando e o sorriso... aquele sorriso que me derrubou muito antes de eu admitir que estava apaixonado. Ela ergue o rosto, os olhos encontram os meus e eu sinto exatamente a mesma coisa da primeira vez que a vi sorrir de verdade. Uma sensação absurda de que o mundo ficou melhor só porque ela existe.— O que foi? — ela pergunta baixinho.— Nada. — Eu balanço a cabeça.— Mentira. — Ela arqueia uma sobrancelha.Rio, porque ela me conhece bem demais.— Eu só estava pensando no quanto você está linda.Ela dá
Yasmin Se alguém me dissesse há dois anos que eu estaria aqui, eu teria rido. Provavelmente, teria achado cruel, uma piada de mau gosto, porque naquela época eu não conseguia enxergar futuro, felicidade ou amor. Eu sobrevivia um dia de cada vez carregando perdas, culpa e cicatrizes que acreditava que nunca desapareceriam.Mas a vida tem uma forma curiosa de nos surpreender. Às vezes ela quebra tudo e, depois, quando menos esperamos, começa a reconstruir de um jeito mais bonito e mais verdadeiro.Hoje, estou parada diante da janela observando as luzes espalhadas pelo jardim lá fora. O sol já desapareceu, a noite tomou conta do céu e o jardim inteiro parece saído de um sonho, com cordões de luzes douradas iluminando as árvores, música tocando ao fundo e risadas ecoando por toda parte. Pessoas dançam, conversam, brindam e celebram a nós, a nossa história, a nossa felicidade.Meus dedos deslizam inconscientemente pela aliança em minha mão. O ouro brilha sob a luz suave do quarto, e l
Yasmin O céu de Goiânia está limpo. Depois da tempestade dos últimos dias, das lágrimas, dos medos e das verdades que vieram à tona, o mundo parece mais silencioso e mais calmo. O vento balança suavemente a copa das árvores ao redor do cemitério, e eu permaneço parada diante da lápide, observando o nome gravado na pedra.Mila Constantino.Por muito tempo, esse nome significou apenas dor, luto, culpa e saudade. Uma ferida que nunca cicatrizava completamente. Mas hoje existe algo diferente. A dor continua ali, sempre vai continuar, só que agora ela divide espaço com amor, gratidão e uma parte dela que continua viva.Engulo em seco e finalmente começo a falar.— Oi, Mila. — Minha voz falha imediatamente, como sempre acontece quando penso nela. Eu sorrio entre as lágrimas. — Faz tanto tempo.O vento sopra devagar, movendo alguns fios do meu cabelo, e por um instante consigo imaginá-la revirando os olhos com impaciência, dizendo para eu parar de chorar, exatamente como fazia quando é
Yasmin A chuva continua caindo sobre nós, forte e fria, mas eu mal sinto, porque existe uma dor muito maior ocupando espaço dentro do meu peito. E também existe amor, tanto amor que chega a assustar.Fernando está diante de mim com os ombros curvados, os cabelos encharcados grudados na testa e os olhos vermelhos. Ele sempre pareceu tão forte, seguro, capaz de enfrentar qualquer coisa, mas agora eu vejo o homem por trás disso tudo. O homem que teve medo e que entrou em pânico, o homem que ama uma menina de cinco anos mais do que ama a própria vida. O homem que me ama.— Não se afaste de mim. Por favor, Yasmin — implora, com a voz falhando.— Fernando... — Uma lágrima escorre pelo meu rosto.— Eu sei que errei, eu sei. — A voz dele quebra — Eu sei que decepcionei você, eu sei que machuquei você. Eu sei. — Ele passa a mão pelo rosto molhado. — Mas eu preciso que você entenda uma coisa.Eu permaneço em silêncio, porque não confio na minha voz.— Eu não queria fugir de você. Não
FernandoA chuva cai forte sobre o para-brisa. As palhetas trabalham sem descanso, indo de um lado para o outro, mesmo assim, a água parece engolir tudo à minha frente. A estrada de terra está escura e escorregadia, o céu parece desabar sobre Morro Alto.Minhas mãos apertam o volante com força, porque eu não estou indo embora, não estou fugindo. Yasmin precisa saber a verdade e tem que ser por mim.Eu estava disposto a fugir da mulher que amo, da única mulher que conseguiu entrar no meu coração, da família dela, de pessoas que sequer tinham feito algo contra mim, tudo por causa do medo. E agora esse medo parece menor do que a vergonha que sinto de mim mesmo.Vejo uma caminhonete vindo em minha direção e parando mais à frente, atravessada na estrada. Meu coração dispara. Eu reconheceria essa caminhonete em qualquer lugar. Freio imediatamente e desço antes mesmo do motor desligar completamente, com a chuva encharcando minha roupa em segundos. Então eu a vejo vindo na minha direção c
Yasmin As lágrimas da minha mãe continuam caindo sem controle, silenciosas e pesadas. Meu pai permanece ao lado dela, com a mão apoiada em seu ombro, como se precisasse segurá-la no lugar. Então eu me agarro a essa imagem, a ideia de que eles estão enganados. Porque a outra possibilidade é absurda. Absurda demais.— Yasmin — Renatinho, que esteve em silêncio durante todo esse tempo, fala.Eu me viro e o vejo perto da porta, com os braços caídos ao lado do corpo. Seu rosto está pálido e os olhos estão carregados com uma tristeza que eu nunca vi nele. Pela primeira vez desde que o conheço, ele não parece o garoto que está sempre fazendo piadas, provocando Fernando ou transformando qualquer situação em brincadeira. Ele parece alguém que carrega um peso enorme, e isso faz meu estômago afundar.— O quê? — pergunto, com a voz falhando.— É verdade — responde depois de alguns segundos.Meu coração tropeça dentro do peito, como se tivesse tropeçado em algo invisível.— O que é verdade?







