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Capítulo 3

Author: Ella
last update publish date: 2026-08-26 06:13:43

— Há. Se não é a boneca de mais cedo. 

Aimé fuzilou o rapaz com os olhos. 

— Está mais calminha? 

— Eu devo ter feito algo ao mundo. – Murmurou. 

— Não quero brigar, até porque, estou procurando uma criança. – Mostrou o tamanho usando a mão direta. – Ela é desse tamanho, tem cabelos negros e olhos... 

Aimé olhou de soslaio para onde ele olhava, encontrando apenas a cabeça da menina ao lado de uma de suas pernas, o restante do corpo dela ainda estava atrás de seu próprio corpo.

— Pestinha. Você estava aí o tempo todo. 

— Moça, eu não sei quem é ele, não. 

— Mia. 

O viu repreender a menina.

— Ele é doido. Está me perseguindo. 

— Isso não tem graça, Mia Grace. 

— Moça, não deixa ele me levar, não. 

— Ela é minha filha. 

— Não sou, não. 

— Você vai ficar de castigo pela eternidade, mocinha. 

Aimé achou que deveria acabar logo com aquilo e ter explicações, porque já estava ficando tonta. Um dizia uma coisa enquanto o outro dizia outra coisa. Talvez, muito provavelmente, ela pensou, a menina estava mentindo porque estava chateada com o pai.

— Calma, espera, eu sei que não é da minha conta, mas já que isso está acontecendo na minha presença, pode explicar? Porque ela parece estar com medo de você. 

O rapaz suspirou. 

— Eu vim me encontrar com um cliente que não tem mais o que fazer da vida, e tive que trazer minha filha junto. Ela esperou que eu estava ocupado e fugiu. O bastante para se perder por aí. Estou procurando por ela desde... que me dei falta dela.

— Que perigo!

— Ele não me deu sorvete. 

— Você não merece sorvete. 

— Você me trouxe para ver você trabalhando, não é justo. 

— A vida não é justa, Mia.

— Eu não quero você mais, eu quero o padrinho. 

— Claro, porque ele faz suas vontades. 

Mia se abaixou, vendo a menina cabisbaixa. Por um momento, se viu nela. A mesma carinha de criança que só o que queria era a atenção do pai. Ela viveu aquela vida. Seu pai era incrível, um amor, mas ele não foi muito presente.

— Eu entendo sua frustação, pequena.

Seus olhos se encontraram novamente.

— Entende?

— Você só queria ficar com seu pai. Os dois juntos. – A viu desviar os olhos por um instante. – Um tempo só de vocês. E ficou chateada quando percebeu que era trabalho. De novo. – Se virou para fitar o rapaz e percebeu que ele estava um tanto surpreso. – Você fugiu para que ele fosse te procurar. – Se voltou para a menina. – Fugiu... porque queria que ele pensasse só em você e em mais ninguém. 

— Eu só queria um sorvete com o papai. – Sussurrou. 

— Mas foi perigoso o que fez, você sabe disso, não é?

A criança balançou a cabeça.

— Você não queria assustar seu pai ou deixar ele chateado, queria?

— Não. 

— Mas ele ficou, porque... ele é seu pai e... te ama. 

— Não ama nada. – Retrucou. – Ele não ama. Ele ama o trabalho. 

Agora as duas estavam olhando para o rapaz de cabelos negros. 

— Mia... é claro que eu amo você. – Começou a se aproximar. – Tudo bem, eu tenho tido pouco tempo, mas eu te amo. Você é minha filha, como poderia não te amar? – Se abaixou diante dela. – O trabalho é chato, mas é importante. É ele que te faz estudar em uma boa escola, e que te faz ter vários presentes e... – Suspirou; ele estava dando as mesmas desculpas que seu pai, e isso o fez se sentir horrível. – Eu estou em dívida com você. 

— O que é dívida?

Aimé quis rir. 

— Ele vai fazer o que você quiser, é isso.

Os olhos dela brilharam.

— Mesmo? O que eu quiser?

E então Aimé se viu completamente apaixonada naquela menina. Pequena, e ainda assim tão esperta e inteligente. Como ela era quando criança. E como já imaginou quando pensava em um filho dela. Quando percebeu, estava passeando pela praia com aquelas pessoas que ela mal conhecia, e ainda assim, não estava arrependida, principalmente quando podia ver o sorriso contagiante da garotinha. Sempre foi apaixonada em crianças, sempre sonhou em ser mãe, e por pensar nisso, tentou não demonstrar a tristeza que apossou de seu coração. 

— Perdão, Mia te colocou numa enrascada. 

Ela deu de ombros.

— Nós ainda não nos apresentamos. Aimé. 

— Garrett. 

— Garrett. Garrett. Já ouvi esse nome antes. – Diz, tentando se lembrar. – Não é um nome comum. Você é empresário?

— Sou. 

— Deve ser isso. 

— Me tira uma dúvida, quem foi que te fez de idiota para fazer com que me desse uma travada no cartório mais cedo?

Ela pigarreou.

— O cara te deu um pé, né?

— Não vamos falar em pés. 

— Ele te traiu? Te manipulou? Mentiu pra você. 

— Você vai ficar fazendo isso mesmo?

— Estou curioso. 

O silêncio reinou. Até Garrett a insistir mais um pouco. 

— Vamos lá, ele tem que ter feito...

— Ele pediu o divórcio. – O cortou, olhando-o de soslaio. – Surpreso?

— Sim. Você é uma gata, por que ele pediria o divórcio?

Ela corou, e por isso desviou os olhos.

— Que imbecil. 

— No mínimo. – Murmurou. – Eu me senti uma idiota, mas agora entendo que o idiota é ele. Eu não fiz nada. Eu fui perfeita. Ele foi um tosco. Conquistou o sucesso e se sentiu o maior por isso. Ora, se não fosse por mim ele seria um zé-mané ainda. 

Garrett riu.

— Zé-mané. 

Aimé teria rido também se não tivesse tido o desprazer de encontrar seu ex-marido aos beijos com uma mulher mais alta que ela, cabelos loiros e um corpo de dar inveja. Ou daria, se ela não tivesse um corpo tão belo quanto. Sim, ela tinha também um corpo de dar inveja. E não era só autoestima, não. Quantas vezes já reparou olhares sobre si? Desde novinha recebia altos elogios. Ainda assim, se sentia desconfortável presenciando aquela cena “nojenta”. Ela teria saído dali sem ser percebida, se Mia não tivesse gritado um “eca” e feito o casal se afastar e se virar para eles, reconhecendo-a de imediato. 

— Aimé. 

— Easton. 

Garrett olhou de um para outro, entendendo tudo. 

— Ah, sim, esse é o zé-mané. 

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