LOGIN— Você perdeu alguém importante? Olha que cara de defunto.
— Você é o defunto, River.
O loiro de olhos azuis se indignou.
— Conseguiu o que eu pedi?
— Sim, sim, eu acho isso uma loucura, mas consegui.
— E?
— E? Bem, as moças são... legais.
— Eu preciso de uma que vai ficar quieta e aceitar tudo que estiver no contrato.
— Sabia que isso me dá arrepios?
— Você me dá arrepios e mesmo assim fico ao seu lado.
— O que?!
Garrett riu.
— Fala logo, idiota, como vai ser isso?
De repente, uma moça sai de dentro do cartório. Ela parecia estar devastada. Algo fez com que ele prestasse atenção nela. E não era o corpo, que realmente, era muito belo. A bunda, então, fez com que ele não conseguisse desviar os olhos por vários minutos. Os cabelos eram ruivos e os olhos esverdeados. Linda. Mas de primeira, o que o fez se atentar a ela, era sua feição nada agradável e a forma como ela parecia estar “soltando fogo pelas ventas”.
— Está me ouvindo?
— Hum?
— Tira o olho da bunda da mulher. – Sussurrou. – Qual seu problema?
— Então, fala mais sobre isso aí.
River franziu o cenho e ficou em silêncio por um momento.
— O que está esperando? Perdeu a língua, é?
— Você tem certeza de que vai fazer isso?
Garrett suspirou longamente. Seu amigo já estava tentando fazê-lo desistir daquela loucura — sim, concordava que era uma loucura — há dias, mas não podia dar pra trás. Era necessário. Precisava de paz e não teria isso se continuasse solteiro.
— Preciso disso para ser livre.
— Livre? Você vai se casar.
Garrett suspirou outra vez.
— A moça que você falou, tem tudo que preciso saber sobre ela aí?
— Claro, claro. Solteira, família pequena, só mãe e pai, não tem relacionamentos...
— Ótimo.
— Ela é bem bonita.
— É um casamento de contrato, River, não me importo se ela é bonita.
— Deveria. Ela vai viver sobre o mesmo teto que você.
— É um contrato. Sem sexo, lembra?
De repente, ele escutou uma risada estranha. Talvez de escárnio? Com certeza de deboche, e um pouco de escárnio também. Ele fitou a mulher ao lado, percebendo que tinha vindo dela.
— Ai, vocês homens, sabem ser idiotas quando querem.
Garrett franziu o cenho e River arregalou os olhos, fitando o melhor amigo por um instante. Já esperava que ele acabasse sendo grosseiro com a mulher, e temia que ele falasse alguma besteira, mesmo que a outra estivesse se metendo onde não devia.
— Usam as mulheres e depois se vitimizam, culpando-as por todos seus erros. Nós servimos para tudo, exceto para um casamento adequado. Porque mulher para vocês é só isso. Um joguete.
— Por acaso te deram um pé, boneca?
— Por acaso te faltaram alguns pés, babaca?
Escutou River rir, alto e irritantemente escandaloso, e então a viu sumir de suas vistas, deixando-o indignado, e muito, muito curioso sobre ela. Ele nunca tinha sido tratado daquele jeito por nenhuma mulher. Era a primeira. E pelo jeito a única. E isso fez com que ele se interessasse em saber quem era ela.
— Doeu, hein.
— Que doeu, o que. Ela descontou as frustações com o macho dela em mim.
— Pode ser, mas ela acabou com você.
— Lembre-se que ela acabou com todos os homens. E você é um deles.
River ficou em silêncio, e abriu a boca, e então Garrett percebeu que ele só tinha se dado conta do que aconteceu naquele momento.
— Você é uma anta. – Revirou os olhos. – Descubra quem é ela.
— O que? – Arregalou os olhos.
— Descubra quem é ela. Não sei o que vai fazer, dá seu jeito.
— Você está de brincadeira.
Garrett começou a andar de volta para seu carro.
— Como é que vou fazer isso?! – Gritou. – Você vai me pagar muito caro!
Garrett o ignorou e entrou, pedindo para que o motorista seguisse em direção ao restaurante, onde almoçaria com a filha antes de seguir em direção à praia. Não foi fácil, mas fez com que Mia aceitasse comer um pouco. Teve de ameaçar com o sorvete. Ela amava sorvete, não ficava um só dia sem tomar uma ou duas bolas. Ignorou o celular em mãos por algumas horas, escutando a menina falar e falar e falar. Ela tinha muita coisa para contar, e tinha de confessar que escutou apenas metade delas. Sim, era um idiota. De novo. Aquele dia só estava sendo mais “insuportável” que de costume. Mas a culpa não era de sua garotinha.
Quando chegou a praia, a viu correr em direção a areia, mas infelizmente teve de puxá-la para um quiosque que havia ali perto, pedindo para que ela tomasse o sorvete sentada, perto dele. Ela ficou desconfiada, e ele achou que devia contar o motivo de estarem ali, mas antes que pudesse fazer isso, o cliente esperado apareceu.
— Sr. Cavalieri. Eu demorei muito?
— Cheguei a pouco. – De soslaio, viu sua garotinha ficar emburrada. – Eu fiquei um pouco curioso quando me chamou para conversar aqui.
— Ah, eu adoro esse lugar, já fui surfista, sabe.
Garrett olhou para o “carioca” — ao menos era o que parecia — de cabelos loiros.
— No momento, quero muito uma parceria para poder competir. Eu não tenho ninguém para me financiar, e eu soube que vocês fazem isso.
Garrett não soube o que dizer. Ele não achou que o motivo daquele homem estar ali, diante de si, querendo parceria, era para poder competir pelo mundo. Era até estranho. Eles deviam ter a mesma idade. Não que estivesse julgando, mas era estranho. Mesmo assim, não era daqueles que “julgava pela capa”.
— Eu tenho vídeos meus. Eu sou muito bom. Se confiar em mim, não vou decepcionar.
— Minha secretária deve ter me enganado. – Murmurou.
— Perdão, ela é minha cunhada. Só queria me ajudar.
Garrett pigarreou.
— Cunhada. Está explicado. Bem, eu não sou homem de ficar enrolando, e também não sou daqueles que j**a o sonho das pessoas no lixo. Eu quero te conhecer melhor, ver seu potencial... uma equipe vai estar comigo e... – Parou de falar quando sentiu que estava faltando alguém ao seu lado. – Não. – Se levantou, procurando ao seu redor, a criança que deveria estar sentada tomando sorvete. – Mia! – Gritou por ela, mas não houve resposta.
Aquela personalidade não era nova para ela. Vê-lo ficar nervoso, ciumento e querendo provavelmente jogar alguém da escada ou de uma janela bem alta, não era novo para ela também. Na verdade, já o viu pior que aquilo. Mas o compreendia, de certa forma. Apesar de ser fofinho ver a cunhada apaixonada, e ver também aquele laço entre irmãos, ela entendia que era uma situação complicada. Conheceu o pai deles. Quando ele soubesse da expulsão, e pior, do motivo, ele ficaria furioso. E talvez, por Charlotte conhecer tão bem o pai, que ela recorreu ao único que poderia ajudá-la. Ao que parecia, acontecia muito. Garrett era sempre quem socorria a irmã mais nova. De certa forma, se identificou ali. Também não foi uma adolescente “quieta”. Bem pelo contrário. Era terrível. E sempre que precisava de ajuda ou de ser socorrida ia atrás do único que não lhe daria sermão. Mike. Ele podia suspirar, bagunçar os cabelos ou mesmo ficar incrédulo dependendo do que tenha acontecido, mas nunca dava sermão.
— Você é tão gentil, como é que conseguiu se apaixonar pelo ogro do meu irmão mais velho? Não consigo entender. Aimé olhou de um para outro enquanto Mia ria da tia, que elogiava a todo momento o bolo feito por sua mãe. Quanto a Garrett , ele ignorou as palavras da irmãzinha, até porque, não adiantaria retrucar. Além disso, quantas vezes ele escutou aquelas mesmas palavras ou semelhantes de sua própria família? Até seu avô paterno comentou o mesmo quando ligou para saber se era verdade sobre seu casamento. — Nossa, você faz coisas divinas assim todos os dias? — A mamãe tem uma cafeteria. A outra se entusiasmou. — Mesmo? Quando vou poder visitar? — Quando quiser. – Aimé respondeu com um sorriso. – Coma mais um pouco, esse é um teste que fiz para saber se coloco no cardápio. — Se minha opinião vale de algo, você deve colocar. Está uma delícia. Isso é dos deuses. – Levou mais um pedaço a boca. – Comeria isso pra sempre. — Porque você é uma formiga. Aimé segurou uma risada
— Bom dia. — Bom dia, Aimé! Ah, ela adorava aquilo. O som das vozes de todas aquelas pessoas lhe cumprimentando sempre que adentrava as portas de seu estabelecimento. Sentia sempre uma felicidade incomum sempre que acontecia. O sininho tocava sempre que alguém passava pela porta, mas mesmo assim, não eram todos que olhavam para ver quem adentrava; mais mesmo os curiosos. Ela cumprimentava a todos sempre que chegava, normalmente no mesmo horário, por volta das 12h da manhã. Ela pegava Mia na escola e ia direto para “Pétalas de Café”. E se despedia da mesma forma, sempre que chegava a hora de ir para casa. — Que bom que chegou, eu precisava mesmo falar com você. Mal passou pela porta e já tinha sua melhor funcionária em seu calcanhar, parecendo desesperada, ou querendo surtar. — Tudo bem, Davina, estou aqui agora. — Temos uma encomenda grande, e eu estou meio perdida. A ruiva sorriu; era a primeira encomenda grande desde que reabriram a cafeteria. As pessoas já a conhecia,
Aimé tentava não pensar em como o “relacionamento” dela com o “marido” estava mudando. Não que isso fosse algo ruim, ou um problema. Na verdade, deveria ser um problema, se isso fosse fazê-la se apaixonar. Mas depois do que aconteceu, seria ridículo pensar que voltaria a ter sentimentos por alguém. Mesmo que esse alguém fosse Garrett Cavalieri. Ele era incrível. Um doce. E que ele não a escutasse dizer isso. Sempre muito atencioso. Carinhoso. Era chocante se ver em um “relacionamento” como aquele. Logo ela, que prometeu que não haveria nada entre eles. E agora eles não só se beijavam, como também se tocavam o tempo todo. Ela devia estar preocupada, agora, mas não estava. Ela gostava de estar com alguém como Garrett. E ela não tinha que ficar contando os dias que isso ainda aconteceria, ou se perguntando o que se passava na cabeça dele. Normalmente, ela estaria querendo saber dos sentimentos dele. Mas não. Ela gostava do que estavam tendo. Era algo mais leve. Será que algum dia daquele
As gargalhadas das crianças soavam por toda a mansão. Para os que trabalhavam para Garrett há muitos anos, era como se estivessem em um mundo paralelo. Não que estivessem achando ruim daquele momento; na verdade, era o contrário. O lugar ficava muito mais alegre com todas aquelas crianças. Depois que o “chefe” deles se casou, a mudança foi da água para o vinho. No bom sentido. Tudo se tornou mais colorido. A única criança que morava ali, já não era mais quieta, triste e não mais aprontava todas para chamar a atenção do pai. E essa nem foi a mudança mais extraordinária. Eles não se lembravam da última vez que viu o chefe deles rir desde que foram contratados. Mia ainda era um bebê. Foi logo que ela completou seis meses. Mesmo sendo novo e pai, ele tinha tomado a decisão de morar sozinho com a menina. A mansão era de um arquiteto renomado do país, que tinha acabado de ganhar uma premiação. Ele colocou a mansão a venda e Garrett comprou sem pensar duas vezes. Ela era perto do trabalho, p
Observar as meninas brincando com uma criancinha menor que elas, fazia Aimé pensar em seu bebê. Ele já tinha um ano. Quase um ano e meio. Tão pequenininho, e sem uma mãe. Será que alguém cuidava dele como ela cuidava de Mia? Ou de Mavie? Com a mesma dedicação e o mesmo amor? Será que ele tinha alguém que o protege como viu suas garotinhas protegerem um garotinho que deveria ter no mínimo três anos, de cair do escorrega? Apesar de tão pequenas, elas eram tão cuidadosas com crianças menores que elas. Se sentia tão emocionada e orgulhosa. Mesmo que uma delas não fosse sua filha. Mesmo que a outra só estivesse em sua vida há dois meses. Céus. Dois meses. Já estava casada há dois meses. Como passava rápido. Para ela, voou. Mas não de uma forma ruim, não. E de vez em quando, por se sentir tão feliz, se perguntava se aquilo tinha data de validade. E ela temia por isso. Porque já estava acostumada, mesmo que não tivesse confessado, a estar com Garrett e Mia. De ser mimada. Como não ac







