Mag-log inMeu pai estava tão pálido, com uma aparência tão abatida, que por um segundo me fez esquecer completamente do desconhecido tatuado que tinha acabado de invadir a nossa casa.
— Pai! Você devia estar na cama. Cadê a Verona?
Corri ao encontro dele.
O braço dele parecia mais magro sob a camisa de algodão, o que tornou a tarefa de levar ele até a mesa pra se sentar mais fácil do que eu esperava, só que de um jeito ruim.
Pelo canto do olho, percebi que o peão acompanhava cada movimento nosso, com o rosto sério, difícil de decifrar.
O deboche dele tinha sumido.
— Ela precisou viajar às pressas por uns dias, filha... Foi para o velório de um parente da família dela — meu pai explicou, respirando um pouco cansado.
— E te deixou sozinho nesse estado? — Eu estava indignada, sentindo o sangue subir.
Como a companheira do meu pai sumia assim, sabendo muito bem do estado delicado de saúde dele?
Que tipo de consideração era aquela?
— Ele não tá sozinho. Eu estou aqui.
A voz grossa do peão voltou a arranhar meus ouvidos, me trazendo de volta para a realidade daquela cozinha.
Olhei para ele de canto, sentindo uma onda de ranço e indignação crescer no meu peito.
— Ah, tá. E você é o famoso quem mesmo? — perguntei, cruzando os braços.
Muito folgado.
O cara tinha chegado depois de mim e já estava querendo posar de cuidador exemplar da família?
Me poupe.
— Daniel Fontana. Vizinho do seu pai.
Ele deu um passo à frente e estendeu a mão na minha direção.
O couro do sapato dele rangeu no chão da cozinha.
Olhei para a mão dele e pensei seriamente se deveria deixar ele no vácuo, mas meu pai me olhou de um jeito pidão, claramente esperando que eu fosse educada.
Só por causa disso, engoli meu orgulho e estendi a mão.
O aperto dele foi firme.
Firme até demais.
Parecia que uma corrente elétrica esquisita estava subindo pelo meu braço.
Sustentei o olhar.
— Isadora Ferrari — respondi, economizando nas palavras pra não dar muito assunto.
Ele soltou minha mão devagar, mas não recuou.
Olhou para os meus dedos e deu um sorrisinho de lado.
— Que mãos delicadas, Isadora. Acho melhor você não sair apertando as mãos dos funcionários da fazenda por aí, senão o pessoal vai achar que você é só uma patricinha mimada da cidade que nunca pegou no pesado.
Ah, não.
Não acredito que esse abusado teve a audácia de falar isso na frente do meu pai!
O sangue ferveu na hora.
— É porque enquanto uns trabalham só com as mãos, outros preferem usar o cérebro — rebati na mesma moeda, estampando um sorriso puramente sarcástico na cara.
Toma essa!
Daniel arqueou as sobrancelhas.
Ele entendeu a alfinetada perfeitamente, porque o sorriso dele aumentou, e o desgraçado mordeu de leve o cantinho do lábio inferior.
E que lábio, meu Deus...
Desviei os olhos correndo para a parede, xingando mentalmente até a quinta geração dele, só para não dar o gostinho de me ver reparando naquela boca que parecia ter sido desenhada à mão.
Conheço muito bem esse tipinho de homem.
Sabem que são bonitos, têm essa pose de marrentos e adoram ver uma mulher babando pelos cantos.
Mas comigo não se cria.
Eu tô mais do que vacinada contra agroboys e seus joguinhos de sedução barata.
Meu pai, alheio à faísca que quase incendiava a cozinha, esboçou um sorriso fraco e fez um sinal com a mão para o Daniel se sentar na cadeira.
Ele puxou a cadeira com calma e se sentou, apoiando os antebraços tatuados na mesa com uma naturalidade que continuava me dando nos nervos.
Meu pai limpou a garganta, olhando de mim para ele, parecendo aliviado por nos ver na mesma mesa.
— Eu fico muito feliz que você tenha finalmente voltado, minha filha — meu pai começou, a voz ainda mansa e um pouco arrastada. — Mas muita coisa mudou por aqui desde que você foi embora.
Olhei para o meu pai, sentindo um aperto no peito, de saudades, mas também de culpa.
— Pouco tempo depois que você se mudou, — ele prossegiu — o pai do Daniel comprou a fazenda vizinha, a antiga Santa Fé. Eles vieram até aqui se apresentar, foram muito gentis... Mas logo em seguida a minha saúde começou a falhar.
Aquela linha do tempo fez um alerta acender na minha cabeça.
— Como eu não estava mais dando conta do recado, o Daniel se ofereceu para me ajudar no cuidado das terras — continuou meu pai, olhando para o peão com gratidão. — Ele passou a orientar os nossos funcionários, a manter toda a rotina da fazenda funcionando.
Prendi a respiração por um segundo, olhando de relance para o Daniel. Ele ouvia tudo em silêncio, com uma expressão tranquila, quase angelical.
— Se não fosse pelo Daniel, Isadora, essa fazenda aqui estaria caindo aos pedaços. Eu não teria conseguido segurar tudo sozinho.
Ah, fala sério. Agora ele é o seu anjo da guarda?
Uma faísca de desconfiança, fria e certeira, começou a queimar dentro do meu peito.
Imagina só que grande coincidência.
O vizinho compra a propriedade ao lado da nossa e, de repente, do nada, o meu pai adoece.
Aí o filho do vizinho, o herdeiro das terras coladas nas nossas, aparece feito um salvador, se oferecendo generosamente para cuidar de tudo e controlar os nossos funcionários?
Sei bem como esse povo do agronegócio funciona quando quer expandir território.
Um velho doente e sozinho era o alvo perfeito.
Olhei bem para a cara do Daniel, tentando ler o que estava por trás daqueles olhos castanhos, mas ele era como uma parede de pedra.
— Eu fico muito feliz que você queira assumir a fazenda de agora pra frente — meu pai disse, cobrindo a minha mão com a dele, interrompendo meus pensamentos conspiratórios. — Mas como você está por fora de tudo, a partir de amanhã, o Daniel vai acompanhar você pela fazenda para te ajudar no que for necessário.
Quase engasguei com o resto de café que tinha acabado de levar à boca.
Tossindo levemente, encarei meu pai, desacreditada.
— Ele vai fazer o quê?
O sorriso largo e vitorioso que apareceu no rosto do Daniel naquela hora me deu uma vontade genuína de cometer um crime ali mesmo, na cozinha da fazenda.
Ele se encostou na cadeira, cruzando as mãos atrás da nuca.
E lá estavam eles de novo. Os bíceps. Os malditos bíceps.— Parece que vamos passar bastante tempo juntos... Dorinha.
Dorinha?
O sangue subiu para a minha cabeça com tanta força que achei que minhas bochechas iam explodir de calor.
Desgraçado! Quem te deu essa intimidade toda para me colocar apelido?
— Para você, é Isadora — disparei, a voz saindo cortante, os olhos faiscando na direção dele.
Daniel não pareceu nem um pouco abalado com o meu coice.
Pelo contrário, o sorriso dele só aumentou, mostrando que tinha adorado ver o tamanho da minha irritação.
Ele empurrou a cadeira para trás com um som seco, ficando de pé com toda aquela imponência que de repente fazia a cozinha parecer pequena de novo.
Depois deu um tapinha leve e respeitoso no ombro do meu pai.
— Seu Maurício, vou deixar o senhor descansar. A gente se fala amanhã.
Ele caminhou em direção à mesma porta lateral por onde tinha entrado.
Pegou o chapéu de caubói em cima do balcão, colocou na cabeça e parou bem no vão da porta.
Então virou o rosto levemente para trás, me encarando por baixo da aba do chapéu com aquele olhar magnético e perigoso que fazia meu estômago dar voltas.
— Até amanhã... — Ele fez uma pausa — Dorinha.
~ { POV Daniel } ~A primeira colheita da Fazenda Ferrari terminou sem grandes problemas, o que, considerando as condições em que aquela propriedade se encontrava, já era motivo suficiente para comemorar.Os trabalhadores conseguiram manter o ritmo, os cavalos responderam bem ao esforço e Túlio passou boa parte do dia conferindo as cargas, anotando números e garantindo que nenhuma laranja desaparecesse misteriosamente entre o talhão e o galpão.Celina, por sua vez, cumpriu a missão de vigiar os animais com a seriedade de quem estava disposta a arrancar as orelhas de qualquer peão que tentasse exigir mais deles do que deveriam dar.E Isadora...Bom, Isadora passou o dia inteiro ao meu lado.Não que isso tivesse alguma importância especial.Eu só estava observando a proprietária da fazenda trabalhar, garantindo que ela não se metesse em alguma encrenca e, de quebra, aproveitando a oportunidade para mostrar que eu era muito mais do que o sujeito convencido que ela insistia em enxergar.U
Pisquei duas vezes, tentando processar a pergunta da Celina.Por um segundo, minha mente deu um nó, até que uma ideia alternativa estalou na minha cabeça e eu soltei um riso soprado.— Espera aí... — ergui as sobrancelhas, encarando minha amiga de cima a baixo. — Você tá me perguntando se eu confio no Túlio ou tá querendo saber se eu o aprovo porque ficou interessada nele?Celina não desvios o olhar.Um sorriso de canto devagar nasceu nos lábios dela, sem a menor sombra de vergonha.— Bom... que ele é bem pegável, isso é inegável — ela deu de ombros, pegando um pedaço de broa da cesta. — É bonito, educado, tem aquele ar de homem sério e compenetrado que dá até um charme a mais.Soltei uma risada involuntária e balancei a cabeça.— Você não presta.— Eu sei.Ela pegou uma fatia de bolo e deu uma mordida antes de voltar a falar.— Mas não foi só por isso que eu perguntei.Ajustei a postura, o tom divertido evaporando quando percebi a gravidade no olhar dela.— Ele conversou comigo sobre
Com o carregamento da carroça completamente cheio de sacos pesados de juta, iniciamos o trajeto de volta em direção ao galpão principal.A carroça estava pesada o suficiente para que os cavalos sentissem a diferença no primeiro trecho da subida, mas Daniel parecia completamente à vontade.Ele vinha ao meu lado com uma postura irritantemente relaxada, uma das mãos firme nas rédeas enquanto a outra descansava sobre a perna.O suor ainda brilhava na testa e nos braços, a camisa escura grudando um pouco nas costas por causa do esforço de minutos antes.E ele ainda tinha a coragem de parecer satisfeito, como se tivesse acabado de ganhar um prêmio por me pegar no flagrante encarando cada centímetro do seu corpo.— Está se divertindo? — perguntei, sem conseguir esconder a irritação.Ele virou o rosto na minha direção.— Bastante.— Eu percebi.Um sorriso preguiçoso apareceu no canto da boca dele.— Algum problema, patroa?— Por que você piscou pra mim enquanto trabalhava?— Pisquei? Não me l
~ { POV Isadora } ~Daniel estava me irritando.Muito.Mais do que deveria.E o pior de tudo era que eu sabia exatamente o motivo.Desde que ele tinha segurado a minha mão naquela caminhonete e dito, com aquela voz baixa e séria, que eu podia contar com ele, alguma coisa dentro de mim parecia ter saído do eixo.Eu ainda conseguia sentir a pressão dos dedos dele sobre os meus, lembrar do jeito como ele tinha me olhado e, principalmente, da ausência daquela provocação habitual.Ele não estava tentando me conquistar naquele momento.Ele só estava ali.E aquilo era muito mais perigoso.— Para, Isadora — murmurei para mim mesma, enquanto observava o movimento dos trabalhadores começando a se espalhar pelo laranjal.Eu não podia me dar ao luxo de fraquejar.Não com a fazenda do meu pai à beira da ruína, quem eu achava ser minha mãe rondando a estrada e meu pai só com a Verona no hospital.Eu precisava retomar o controle.Da fazenda, da colheita, da minha cabeça.Principalmente da minha cabe
Acordei antes mesmo do despertador tocar.Fiquei alguns segundos encarando o teto do quarto, ouvindo o silêncio da madrugada se dissolver aos poucos do lado de fora, com os primeiros sons dos animais começando a se espalhar pela propriedade e uma faixa de claridade azulada entrando pela fresta da cortina.Eu deveria estar cansado.Depois de tudo que tinha acontecido no dia anterior, dormir deveria ter sido fácil.Mas minha cabeça não tinha colaborado.A imagem de Isadora parada naquela estrada, chorando dentro do carro, ainda voltava para mim toda vez que eu fechava os olhos.A forma como ela tinha saído correndo e se jogado nos meus braços, sem pensar duas vezes, continuava presa na minha memória de um jeito que eu não sabia muito bem como explicar.Talvez porque, pela primeira vez desde que eu a conhecia, ela tivesse baixado completamente a guarda comigo.Não existia patroa. Não existia marra. Não existia o orgulho Ferrari.Só existia uma Isadora assustada, precisando de alguém, e e
Quando entrei na sala, Túlio já foi sentando em uma das poltronas, com uma pasta enorme apoiada sobre as pernas e várias folhas espalhadas ao redor, como se tivesse passado as últimas horas montando um quebra-cabeça.Fechei a porta atrás de mim e me joguei na poltrona em frente à dele.— Então? O que você descobriu?Túlio levantou os olhos dos papéis e soltou um suspiro satisfeito.— Cara, o que a veterinária me mostrou hoje é realmente interessante — começou ele, ajeitando as folhas em pilhas organizadas com uma precisão quase cirúrgica.Ergui uma sobrancelha, encostando as costas na poltrona e cruzando os braços, sem perder a chance de cutucar.— Que intimidade toda é essa com a Celina que ela já está te mostrando coisas interessantes?Túlio travou a mão no meio do ar, ajustando a armação dos óculos enquanto a orelha dele ficava visivelmente vermelha.— Não seja idiota, Daniel. Não é nada do que você está pensando.— Ah, mas eu posso estar pensando muitas coisas — provoquei, dando u







