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Meu rival mora no quarto ao lado - entre ondas e segredos
Meu rival mora no quarto ao lado - entre ondas e segredos
Author: Vanessa Rossi

Capítulo 1

Author: Vanessa Rossi
last update publish date: 2026-03-27 02:47:23

A primeira luz do dia surgia lentamente no horizonte, pintando o céu com camadas de laranja e dourado, que refletiam sobre a superfície do oceano. A água, antes escura, agora cintilava, como se guardasse pequenas estrelas em seu interior.

Luna estava deitada em sua prancha, com os pés dentro da água, deixando a ondulação suave do mar balançar o corpo. Ao redor, não havia mais ninguém. Só se ouvia o som discreto das ondas quebrando na areia distante e o canto dos pássaros que saíram para dar os primeiros mergulhos da manhã.

O sol ainda era tímido, mas bastava para aquecer a pele de Luna. Ela respirava devagar, os olhos fechados, quase como se dormisse. A mente, no entanto, não lhe dava descanso. Pensamentos se atropelavam, formando um turbilhão difícil de organizar.

O mar, sempre presente em sua vida, era a única constante. Ali, Luna sentia que podia existir sem máscaras. Parecia que o oceano falava com ela de uma maneira que ninguém mais conseguia entender. O mar não julgava, não questionava, não cobrava. Apenas acolhia. E, naquele momento, isso bastava para ela.

Por um instante, Luna sentiu-se em paz, mas a paz em sua vida tendia a se desfazer rápido. Assim como as ondas retornavam à costa, o medo também sempre voltava. E ali, no mar, sozinha, ela permitia-se ouvir o próprio medo, sem tentar escondê-lo, como sempre fazia.

— Luna?

A voz suave de sua mãe, Alice, cortou o silêncio.

Luna abriu os olhos, virou a cabeça devagar e viu sua mãe remando tranquilamente para perto dela, sobre sua própria prancha. O rosto de Alice, que já começava a mostrar um pouco do passar dos anos, ainda carregava o cansaço do início da manhã, mas havia ternura em seu sorriso.

Parando próxima a Luna, Alice se sentou em sua prancha, uma perna de cada lado e os pés dentro da água fria, e estendeu a mão para pegar a mão de Luna.

— Alguém caiu da cama hoje? – Alice perguntou levantando as sobrancelhas com um sorriso brincalhão.

Luna não respondeu.

— O que você está pensando, meu amor? — insistiu Alice, apertando levemente a mão de Luna.

A mãe de Luna, brasileira, sempre usava palavras em português quando estava muito brava ou queria transmitir seus sentimentos com clareza.

Luna respirou fundo, sentindo o peso que carregava no peito, escolhendo cuidadosamente que palavras usar.

— Estou com medo, mãe — admitiu Luna, com a voz trêmula — Eu amo o surf, amo o mar... Sei que esta é uma oportunidade que talvez nunca mais apareça. Mas pensar em deixar você e Noah aqui... sozinhos... – sua voz falhou – dá um aperto no peito.

Alice se aproximou mais e envolveu a cintura da filha em um abraço protetor.

— O medo é só de nos deixar aqui, Luna? — perguntou Alice, fitando os olhos verdes da filha, tão parecidos com os seus.

Quem não as conhecia poderia confundi-las com irmãs. Alice ainda mantinha um corpo forte e definido pelo surf, sua paixão de uma vida inteira. Tinha os mesmos cabelos longos e loiros da filha, e a pele morena de sol. Mas a sua pele, diferente da de sua filha, apresentava as cicatrizes silenciosas de um passado difícil.

A pergunta de sua mãe fez com que um peso antigo subisse à superfície da mente de Luna. Uma confissão estava pronta a ser feita.

— Tenho medo de que o que aconteceu com você... aconteça comigo também. Tenho medo de deixar o único lugar em que me senti segura, em toda minha vida. — respondeu Luna, com a voz embargada. — Mas, ao mesmo tempo, eu sinto medo de não aproveitar essa chance, de não correr atrás do que eu amo, de ficar presa aqui, sem saber o que poderia ter sido.

Alice a abraçou com mais força, olhando-a com ternura, compreendendo o peso de cada palavra.

— Filha... eu sinto muito que o que aconteceu comigo te afete tanto até hoje. — disse Alice, com a voz cheia de compreensão. — Mas você é tão diferente de mim! O que passamos fez com que você amadurecesse tão rápido. Você é muito mais inteligente que eu! Você é mais forte, mais atenta, do que eu jamais fui.

— Ah mãe, não fala assim! Você é a pessoa mais inteligente e corajosa que eu conheço! Você nos salvou de todos os perigos todos estes anos, sozinha. – Luna sentiu as lágrimas escorrendo pelas bochechas, tocando seus lábios, misturando-se com a água salgada do mar.

As duas permaneceram em silêncio por um tempo, apenas se abraçando, enquanto o som do mar preenchia o espaço entre elas.

— Luna, olha pra mim — pediu Alice, segurando o rosto da filha com as mãos molhadas. — Não deixe que o meu passado impeça você de viver os seus sonhos. Você não está nos abandonando, você está correndo atrás do seu futuro. Eu e seu irmão estaremos aqui, sempre torcendo por você, sempre te amando, mesmo que de longe.

Luna manteve os olhos no horizonte, observando o sol subir lentamente.

— Meu amor, eu não te peço nada, além de correr atrás do que você ama, de viver a sua vida plenamente. Se você correr atrás de seus sonhos e as coisas não derem certo, eu estarei aqui, esperando, sempre. Mas pelo menos você terá tentado, terá aprendido, terá vivido. E isso é melhor do que viver escondida e com medo.

Luna deixou aquelas palavras se acomodarem dentro de si.

— Está bem… — disse por fim, respirando fundo. — Eu vou aceitar a proposta. Seja o que tiver que ser.

Alice sorriu e a puxou para mais um abraço apertado.

— Ótimo. Porque eu não acordei tão cedo só para conversar e chorar — disse, já se virando para remar. — Vamos pegar umas ondas! A última a chegar na praia faz o café!

Luna riu e seguiu a mãe, como havia feito tantas outras vezes, para fazer aquilo que ambas mais amavam.

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