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Capítulo 5

Auteur: Justa
Fazendo um esforço descomunal, apoiei os cotovelos na cama e ergui a cabeça, encarando o casal com pura repulsa.

— Esposa oficial? Entregar o meu bebê? — Minha voz saiu trêmula no início, mas logo ganhou a força da ira. — Pedro, você não tem um pingo de humanidade dentro de si! Nosso filho está morto! E foi você, o próprio pai, quem tirou a vida dele com as próprias mãos!

Com a respiração ofegante, joguei aquelas palavras no rosto dele, deixando que toda a minha revolta transbordasse em um grito rouco e exausto. O rosto de Pedro se contorceu em uma careta de impaciência e aborrecimento.

— Que tipo de delírio é esse agora? Já não basta ter assassinado a pobre Laura, e agora decide rogar pragas contra o próprio filho? Valentina, você está maluca! — Ele esbravejou, certo da minha loucura.

Um sorriso amargo e desprovido de qualquer esperança curvou meus lábios. Meu coração não passava de cinzas frias.

— Com que direito você ousa mencionar essa criança? Você não tem a menor moral para falar dele! — Gritei a plenos pulmões, a dor rasgando meu peito. — Será que você entende que era um bebê perfeito, já todo formado? Graças ao seu egoísmo doentio, ele perdeu o direito de sequer abrir os olhos para este mundo! Me diga, Pedro, quando a escuridão da noite cair, você não teme que a alma inocente desse menino venha buscar vingança por aquilo que você lhe tirou?

O impacto das minhas palavras atingiu Pedro como um golpe físico. Seu corpo enrijeceu e, em estado de choque, ele afrouxou os braços que envolviam Gabriela, dando passos vacilantes na minha direção.

— Mas... como isso é possível? A gravidez já não estava no oitavo mês? — Murmurou ele, a incredulidade estampada em cada traço do seu rosto.

Minha resposta foi soltar uma risada seca e sem vida. Com um movimento brusco, puxei os lençóis pesados que me cobriam, revelando o ventre agora vazio e murcho. A triste verdade era que o bebê não resistira aos ferimentos. Quando as curandeiras o removeram de dentro de mim, seu pequeno corpo já exibia um tom arroxeado e lúgubre.

A mão de Pedro tremia sem controle enquanto se estendia na direção do meu abdômen achatado. Contudo, antes que ele pudesse me tocar, um grito agudo de Gabriela ecoou pelo quarto:

— Pedro, não me obrigue a guardar esse segredo horrível por mais tempo! A verdadeira razão pela qual fugi de casa foi que flagrei Valentina aos beijos com o amante dela, sem o menor pudor, em plena luz do dia! E saiba que esse bebê já havia morrido faz tempo, por causa da vida devassa que ela levava com aquele homem! Se eu não tivesse escapado na mesma hora, ela com certeza teria me matado para encobrir a traição! Pense bem, meu amor, por qual outro motivo Laura teria sido assassinada? E que tipo de homem faria Valentina arriscar a própria vida para proteger? É óbvio que ela já havia perdido a criança há dias e aproveitou essa confusão toda para jogar a culpa nas suas costas!

As acusações venenosas de Gabriela soaram como trovões aos ouvidos do meu marido. O choque inicial deu lugar a uma expressão de suposta clareza, e ele recuou um passo, parecendo montar as peças de um quebra-cabeça imaginário.

— Claro, faz todo o sentido. Gabriela, você tem razão! — Vociferou ele, os olhos injetados de cólera. — Desde que engravidou, você sempre arrumava uma desculpa para não se deitar comigo. A verdade é que já estava se entregando a outro pelos cantos!

Eu gargalhei. Uma risada histérica, movida pelo puro escárnio diante da capacidade daquele homem de enganar a si mesmo para justificar sua própria podridão.

— Hoje era o dia da caçada imperial, seu grande tolo! A única razão pela qual perdi meu bebê foi porque usei o meu corpo como escudo para salvar Sua Majestade da lâmina de um assassino! — Respondi, atirando a verdade contra ele. — E onde você estava, o honorável guarda que tinha o dever juramentado de proteger a vida do Imperador? Onde você se enfiou? Se não tivesse abandonado o seu posto para ir atrás das saias dessa mulherzinha, o nosso filho ainda estaria vivo e seguro! — Esfreguei os olhos inchados de choro, a voz embargada pela emoção e pela ira. — Você faz ideia de que o nosso menino estava a um passo de nascer forte e saudável?

Mas a verdade nua e crua sequer arranhou a armadura da ignorância de Pedro. A fúria assassina obscureceu a razão em seu olhar.

Em um movimento ágil e ameaçador, ele desembainhou a espada fina que levava à cintura e pressionou a lâmina afiada direto contra a minha garganta.

— Imperador? Que história ridícula! O homem que você protegeu não passava do seu maldito amante! — Esbravejou ele, cuspindo as palavras bem perto do meu rosto. — Vocês dois, quebrando todos os votos e fornicando à luz do sol, acharam mesmo que eu ficaria cego para essa sujeira? Ouça bem, se não me der o nome desse desgraçado agora mesmo, venderei você para o bordel mais imundo desta capital! Quero só ver se a sua boca continuará tão atrevida depois de servir aos piores canalhas da cidade! Quanto ao seu amante, eu mesmo vou caçá-lo e cortar o corpo dele em mil pedaços!

O toque do metal frio e cortante afundou de leve na pele do meu pescoço. O filete de sangue que escorreu era quente, mas seu calor em nada aliviava o gelo que havia tomado conta da minha alma. Eu já não temia a morte.

Foi então que passos firmes, cadenciados e cheios de autoridade soaram vindos da porta do aposento, quebrando a tensão sufocante do ambiente.

— Que insolência é essa! — Uma voz imponente e carregada de poder ecoou pelas paredes, paralisando a todos nós. — Me diga, Pedro, já que o amante abominável de quem tanto fala sou eu, o próprio Imperador... Então você pretende me cortar em mil pedaços?

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