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Capítulo 2

Author: Nanda
De volta ao quarto, comecei a arrumar minhas coisas em silêncio.

Quando abri as portas do guarda-roupa, dei de cara com casacos de caxemira, camisolas de seda pura e bolsas de edição limitada... Tudo aquilo que eu não tinha condições de comprar na época das vacas magras, o Gabriel fez questão de providenciar para mim, peça por peça.

O difusor de aromas sobre a penteadeira tinha uma essência preparada por ele mesmo, e até as cortinas haviam sido trocadas pelo tom de verde-escuro que eu tanto amava.

"Nesses dois anos desde que voltei para a mansão da família Soares, ele parecia ter voltado a ser aquele garoto apaixonado que só tinha olhos para mim.", pensei comigo mesma, sentindo um gosto amargo na boca. "Mas a mulher que sou hoje jamais se deixaria amolecer por meia dúzia de palavras doces."

Peguei apenas as poucas mudas de roupa que eu usava no dia em que fui trazida de volta à força. Assim que as coloquei dentro da mala, Gabriel entrou no quarto. Sem dizer nada a princípio, ele agarrou meu pulso e recolocou o bracelete de pedras raras no meu braço, usando um tom autoritário que não admitia discussão:

— Guarde isso direito! Está proibida de sair dando as suas coisas para os outros! — Ordenou ele, ríspido.

Levantei os olhos, surpresa.

"Não acredito que ele teve a coragem de pedir a joia de volta para a Natacha!", pensei, incrédula.

Foi então que Gabriel passou os olhos pela minha mala aberta e franziu a testa na mesma hora, visivelmente irritado.

— Você vai levar só isso? — Questionou ele, encarando as poucas peças de tecido.

— O que não me pertence não tem motivo para ir comigo. — Respondi com a voz calma, sem demonstrar nenhuma emoção.

Vi a fúria tomar conta do olhar de Gabriel, que mais uma vez perdeu a cabeça diante da minha indiferença.

— Já que você faz pouco caso de tudo, não faz sentido manter essas porcarias aqui! — Esbravejou ele, virando-se para o corredor aos gritos. — Empregados! Tirem tudo o que comprei para a Marta, levem para o quintal e toquem fogo! De hoje em diante, se ela quiser usar qualquer coisa nesta casa, vai ter que pedir permissão para a Natacha!

Mantive a expressão impassível, fechei a mala e dei meia-volta para sair do quarto. No entanto, assim que cheguei ao patamar da escada, senti duas mãos me empurrarem com força pelas costas. Perdi o equilíbrio e rolei degrau abaixo até bater no chão. Meus joelhos ralaram no piso frio, ardendo em carne viva.

Olhei para cima com dificuldade e vi Ângelo parado no topo da escada, me encarando de cima a baixo com um olhar cheio de desprezo.

— Você não ficou boazinha coisa nenhuma, é tudo fingimento! — Gritou o menino, apontando o dedo para mim. — Só está tentando jogar o papai contra a tia Natacha! Já vou avisando, se atrever a maltratar a minha tia de novo, esqueça que sou seu filho!

Enquanto falava, ele notou a pontinha da fita de Nossa Senhora Aparecida saindo do meu bolso, desceu os degraus correndo e a arrancou de mim num puxão.

— Me devolve isso! — Gritei, fazendo um esforço enorme para me levantar e tentar alcançá-lo.

"Passei três dias e três noites de joelhos na igreja, fazendo promessa para conseguir essa fita abençoada pela saúde da minha mãe.", lembrei, tomada pelo desespero.

Ângelo balançou a fita no ar com um sorriso arrogante no rosto e provocou:

— Cada vez que você fizer mal para a tia Natacha, vou destruir uma coisa sua, para você aprender a nunca mais mexer com ela!

Diante dos meus olhos, ele rasgou a fita sagrada em pedacinhos. Quando os retalhos caíram sobre mim, o último fio de paciência e autocontrole que ainda me restava se partiu de vez. Avancei um passo e acertei um tapa estalado no rosto dele, falando com uma frieza cortante:

— O maior arrependimento da minha vida foi ter tirado o coração do meu próprio peito para salvar o seu. Já que você gosta tanto assim da Natacha, ótimo, considere ela sua mãe de agora em diante!

Ângelo levou a mão ao rosto vermelho, me olhando em estado de choque. Não dei mais atenção a ele e, engolindo a dor, saí mancando até chegar ao quartinho dos fundos, um cômodo minúsculo e abafado que costumava ser dos empregados.

Eu estava sentada na beirada da cama limpando meus machucados quando a porta foi aberta com um chute violento. Gabriel invadiu o quarto com raiva.

— Marta, precisa mesmo descer ao nível de bater numa criança... — Começou ele a reclamar, mas as palavras morreram na sua garganta assim que viu os hematomas e escoriações espalhados pelo meu corpo.

— Como você se machucou desse jeito? — Perguntou ele, mudando completamente o tom de voz.

Ele me pegou no colo com cuidado, me colocou deitada na cama e começou a fazer os curativos com uma delicadeza surpreendente. Naquele breve instante, sentindo os olhos arderem, tive a ilusão de ver o homem do meu passado.

— Marta... — Murmurou Gabriel, com o olhar suavizado, inclinando-se para me beijar.

Por puro instinto, virei o rosto na mesma hora, fugindo do toque dele. Gabriel ficou paralisado por um segundo, mas logo segurou meu queixo com brutalidade, me forçando a encará-lo antes de tomar meus lábios num beijo agressivo e desesperado.

O gosto metálico de sangue logo se espalhou pela minha boca. Fiquei dura feito pedra, sem reagir, enquanto uma enxurrada de lembranças dolorosas passava pela minha cabeça. Porém, quando a mão quente dele deslizou por dentro da gola da minha blusa, meu estômago revirou de um jeito insuportável. Empurrei o peito dele com toda a força que me restava, me debrucei na lateral da cama e comecei a ter ânsias de vômito ali mesmo.

— Marta! — Rugiu Gabriel, com o rosto transtornado e pálido de raiva. — Tanto nojo assim você sente de mim?

Limpei o canto da boca com o dorso da mão e baixei os olhos, mantendo uma postura distante.

— Me desculpe, não estou me sentindo bem. Se está querendo sexo, é melhor ir procurar a Natacha. — Falei, com a voz vazia.

Gabriel me olhou com uma expressão ferida, e sua voz chegou a tremer de indignação:

— Vai continuar me expulsando até quando? Marta, já repeti mil vezes que não encostei em nenhuma outra mulher depois que você foi embora! Só cuido da Natacha por causa da promessa que fiz ao seu pai no leito de morte!

Olhei fundo nos olhos dele e respondi com uma calma assustadora:

— Acredito em você. Vocês dois são inocentes.

As veias na testa de Gabriel saltaram a ponto de parecerem que iam estourar. Fora de si, ele deu um chute na lixeira do quarto e saiu batendo a porta com tanta força que as paredes tremeram.

Pouco tempo depois, meu celular apitou na cabeceira com uma chamada de vídeo dele pelo WhatsApp.

Hesitei por alguns segundos, mas acabei deslizando o dedo na tela para atender. No mesmo instante, os gemidos doces e manhosos da Natacha invadiram o silêncio do meu quartinho.

Na imagem da tela, Gabriel segurava a cintura de Natacha com firmeza, prensando o corpo dela contra a parede da suíte principal, bem em cima do nosso quadro de casamento, enquanto a possuía sem o menor pudor. A mão espalmada de Natacha estava apoiada exatamente sobre o meu rosto na fotografia, deixando uma marca suada no vidro.

Ela olhou para a câmera, encarando-me através da tela com um sorriso vitorioso nos lábios, e sussurrou de forma provocante:

— Vai mais devagar, Gabriel... A Marta ainda está olhando a gente.

Gabriel fez questão de posicionar a câmera num ângulo que mostrasse tudo perfeitamente, e sua voz soou carregada de um ódio vingativo:

— Já que você não acredita na minha palavra, resolvi transformar a sua paranoia em realidade! Olha bem para a tela e veja o quanto a Natacha e eu nos amamos. Enquanto a gente não acabar aqui, você está proibida de desligar!

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