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Capítulo 4

Author: Nanda
— Não faz isso! — Implorou Gabriel, envolvendo-me em um abraço apertado enquanto suavizava o tom de voz no mesmo instante. — Me perdoa, falei sem pensar agora há pouco. Marta, eu só vejo a Natacha como uma irmã mais nova. Ela é muito insegura e, com medo de que a gente a expulsasse de casa depois que o nosso pai se foi, acabou me dopando. Eu juro que foi só daquela vez e que isso nunca mais vai acontecer. Pensa no Ângelo... Ele acabou de ganhar um coração saudável, você vai mesmo tirar o lar dele assim?

Naquele momento, senti minha determinação vacilar.

"Por mais furiosa que eu esteja, o Ângelo ainda é o filho que eu carreguei no ventre por nove meses.", pensei, tentando achar forças para engolir aquela dor.

— Posso até te dar mais uma chance. — Avisei, encarando-o com frieza. — Mas você vai ter que mandar a Natacha embora, interromper essa gravidez e cortar qualquer laço com ela de uma vez por todas.

Gabriel hesitou por um breve instante, mas acabou trincando os dentes e assentindo com pesar:

— Está bem, prometo que faço isso.

Bem na minha frente, ele apagou o número e todas as redes sociais da Natacha do celular. Nos dias seguintes, passou a voltar para casa sempre no horário certo, tratando-me com uma delicadeza e uma paciência impecáveis. Até mesmo o Ângelo deixou a rebeldia de lado, tornando-se um menino doce e obediente. Cheguei a acreditar, no fundo da minha ingenuidade, que a nossa rotina finalmente voltaria aos eixos.

Aquela ilusão durou até o aniversário do Ângelo, dia em que saí mais cedo do trabalho de propósito para fazer uma surpresa e levá-lo ao parque de diversões. Contudo, assim que parei diante da porta de casa, ouvi a conversa entre pai e filho vinda do lado de dentro.

— Pai, quando é que a gente vai poder visitar a tia e o meu irmãozinho? Estou com tanta saudade dela. — Choramingou o menino.

Gabriel baixou a voz, instruindo o filho em um tom cauteloso:

— Calma, filho. Quando a sua mãe chegar, a gente dá um jeito de misturar um calmante na bebida dela. Assim que ela pegar no sono pesado, nós saímos de fininho para ver a sua tia.

Parada no corredor, senti um frio cortante percorrer a minha espinha, deixando meu corpo inteiro gelado diante daquela traição. Naquela noite, fingi não saber de nada e tomei o copo de leite morno que Gabriel me entregou, dando um jeito de cuspir o líquido sem que ele visse. Quando os dois saíram na ponta dos pés, me levantei da cama em silêncio e fui atrás deles à distância, seguindo o carro até um condomínio de alto padrão.

Ao subir até o apartamento, notei que a porta estava entreaberta. Olhando pela fresta, vi Natacha acomodada no sofá com a barriga já bem saliente, enquanto Gabriel a servia com pedaços de fruta na boca e massageava suas pernas com todo o carinho do mundo.

— Deve ter sido muito difícil para você ficar sem a minha companhia nesses últimos dias, meu bem. — Murmurou ele, cheio de ternura.

Ângelo, aninhado ao lado dela, fez um bico enorme e resmungou:

— É tudo culpa da minha mãe, que é uma egoísta e não deixa o papai levar você de volta lá para casa.

Sem conseguir me conter, empurrei a porta com força, sentindo os lábios tremerem de tanta revolta ao encarar a cena.

— Você não disse que tinha resolvido a questão da gravidez e mandado essa mulher embora? — Gritei, com a voz embargada pelo ódio. — Gabriel, existe alguma palavra verdadeira que saia da sua boca?

No mesmo segundo, Gabriel se levantou e se colocou na frente dela para protegê-la, enfrentando-me de cabeça erguida.

— Já chega, Marta! A Natacha nunca quis disputar nada com você. Ela já está sofrendo o bastante carregando esse filho sozinha, no escuro e sem direito a nada. Será que você não consegue deixar de ser tão mesquinha pelo menos uma vez na vida?

Sentindo-se segura atrás dele, Natacha também resolveu me afrontar com a maior cara de pau:

— Marta, você já passou da idade e não sabe mais como agradar um homem. O Gabriel já estava cansado de você há muito tempo. Antes ele ficar comigo do que cair nos braços de uma estranha qualquer na rua...

Aquelas palavras foram a gota d’água. Perdi completamente o controle, agarrei um vaso de vidro sobre a mesa de centro e o arremessei na direção deles, dando início a uma briga feia. No meio da confusão, entre gritos e empurrões desesperados perto da sacada, tanto eu quanto Natacha acabamos perdendo o equilíbrio e despencamos lá de cima.

Quando a ambulância chegou, os socorristas fizeram uma avaliação rápida e, com uma expressão tensa, dirigiram-se ao meu marido:

— O estado das duas é gravíssimo, mas só temos equipamento na viatura para estabilizar e salvar uma delas agora. Senhor Gabriel, quem levamos primeiro?

Gabriel sequer olhou na minha direção e respondeu de bate-pronto:

— Salvem a Natacha.

Caída no chão frio, observei as luzes vermelhas da ambulância se afastando na avenida, levando consigo a última centelha de esperança que ainda me restava. Com a mão trêmula e banhada em sangue, peguei o celular e disquei um número que eu mantinha guardado em segredo há anos.

— Se eu sobreviver a essa noite... — Sussurrei com dificuldade ao telefone. — Preciso que me ajude a forjar a minha própria morte.

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