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Capítulo 5

Author: Nanda
— Marta! Marta, acorda!

Os gritos desesperados de Gabriel puxaram minha mente de volta daquela lembrança sombria, fazendo-me recobrar os sentidos aos poucos. Ele me amparou pelos ombros e, com as mãos trêmulas, colocou um comprimido sublingual de emergência na minha boca. À medida que o remédio fazia efeito, a dor lancinante que esmagava o meu peito começou a diminuir. Quando virei o rosto para o lado, dei de cara com o Ângelo de queixo erguido, encarando-me com uma expressão teimosa e desafiadora.

Furioso, Gabriel deu um tapa estalado no rosto do menino.

— Seu moleque irresponsável! Quem te deu permissão para jogar os remédios da sua mãe no lixo?

Ângelo abriu o berreiro na mesma hora, e Natacha tratou de puxá-lo para um abraço protetor, tentando acalmá-lo:

— Gabriel, não seja tão duro com o menino! Ele ainda é uma criança, não tem maldade para entender essas coisas complicadas.

Dizendo isso, ela tirou da bolsa um laudo médico falsificado e o entregou a ele.

— Eu não queria tocar nesse assunto, mas a Marta já passou de todos os limites. — Continuou ela, fingindo pesar. — Ela fez a cirurgia de transplante de coração há bastante tempo, a saúde dela não é mais tão frágil quanto ela faz parecer.

Gabriel passou os olhos rapidamente pelo papel e, no mesmo instante, sua expressão fechou, tomada por uma frieza cortante.

— Quer dizer que você já está recuperada há tempos, mas continua fingindo essa fraqueza e me tratando com indiferença só para me punir? — Acusou ele, ríspido.

Exausta demais para discutir ou tentar me defender, apenas o encarei em silêncio, sem demonstrar qualquer emoção. Irritado com a minha apatia, Gabriel jogou os papéis na minha cara.

— Eu tinha planejado comemorar o seu aniversário atrasado hoje para tentar compensar você. Mas, já que você é tão ingrata e vive fazendo teatro, não temos motivo nenhum para festejar.

Assim que terminou de falar, ele deu meia-volta e saiu levando a Natacha e o Ângelo, fazendo questão de trancar a porta do quarto pelo lado de fora. Continuei sentada na cama, sem sentir absolutamente nada. A verdade é que a simples ideia de sair com eles já me causava repulsa.

Pouco tempo depois, vi que o Ângelo tinha acabado de postar uma foto nova no Instagram. Na imagem, ele aparecia sorrindo de orelha a orelha bem no meio, enquanto Gabriel abraçava a Natacha com carinho.

Na legenda, estava escrito: [Passeio perfeito da nossa família feliz de três.]

Soltei um riso seco e curti a publicação sem o menor abalo.

No entanto, logo em seguida, meu celular começou a vibrar sem parar na minha mão. Era uma ligação do hospital.

— Senhora Marta, o quadro da sua mãe se agravou muito! Venha para cá imediatamente, ela está entre a vida e a morte! — Avisou a enfermeira do outro lado da linha.

Senti um aperto desesperador no peito e pulei da cama, correndo até a porta. Girei a maçaneta com força, mas estava mesmo trancada, impedindo a minha saída. Em pânico, liguei para Gabriel uma, duas, três vezes seguidas, mas a chamada caía direto na caixa postal.

Sem alternativa e tomada pelo desespero, corri até a janela do quarto, subi no parapeito e me joguei lá de cima. No impacto contra o chão do jardim, senti uma dor aguda rasgar a minha perna direita, arrancando-me um gemido abafado. Trincando os dentes para não gritar, apoiei-me no muro para levantar e saí mancando até a avenida, onde consegui parar um táxi a muito custo.

Infelizmente, todo o meu esforço não foi suficiente para chegar a tempo. Quando entrei no quarto do hospital, um silêncio sepulcral dominava o ambiente, e o médico me olhou com pesar.

— Meus pêsames, senhora Marta. A paciente sofreu um choque emocional muito forte e o coração dela não resistiu.

Minhas pernas perderam as forças e eu desabei no chão frio, sentindo o meu mundo desmoronar de vez. Mais tarde, enquanto juntava os pertences da minha mãe em meio às lágrimas, encontrei um pequeno gravador de voz escondido debaixo do travesseiro dela. Com um mau pressentimento, apertei o botão para ouvir, e a voz doce, porém carregada de veneno, da Natacha ecoou pelo quarto.

[Luiza, como eu tenho muita pena dessa sua situação, resolvi te contar um segredinho. Não sou filha adotiva coisa nenhuma, sou filha biológica do marido da senhora com a minha mãe. Você passou a vida inteira brigando com a minha mãe, disputando o amor dele, para no final acabar criando a filha da sua maior rival por décadas. Não é hilário? Ah, e aquela casa antiga que você e a Marta lutaram tanto para proteger... O meu pai passou a escritura para o meu nome no dia em que eu fiz dezoito anos. Muito obrigada por cuidarem tão bem do meu patrimônio! Nessa vida, você nunca foi páreo para a minha mãe, e a sua filha inútil nunca vai ser párea para mim. Daqui para frente, o filho, o marido e todo o dinheiro dela vão ser meus. Vocês duas foram o meu maior amuleto da sorte!]

Pacientes em estado vegetativo ainda conseguem ouvir tudo ao redor! Aquela desgraçada matou a minha mãe de tanta raiva!

Cega por um ódio avassalador, peguei uma faca de cortar frutas que estava sobre a mesinha do quarto e saí correndo do hospital como uma louca, indo direto para o parque de diversões. De longe, avistei os três sentados no gramado, rindo e conversando como se nada tivesse acontecido.

Apertando o cabo da faca com força, avancei na direção deles com um único objetivo na cabeça: acabar com a vida da Natacha, nem que eu tivesse que morrer junto com ela.

Antes que eu pudesse atingi-la, porém, Gabriel reagiu rápido e agarrou o meu pulso com brutalidade.

— Marta! Que loucura é essa agora?! — Berrou ele, torcendo o meu braço.

Assustados com a confusão, os visitantes que passeavam pelo parque começaram a se aglomerar ao nosso redor, apontando e cochichando. Ângelo correu para a frente da Natacha, abrindo os braços para protegê-la, e começou a gritar a plenos pulmões para todo mundo ouvir:

— A minha mãe é doente da cabeça! Ela sempre maltratou a minha tia! Agora que a titia finalmente conseguiu engravidar de novo, ela veio aqui de propósito para tentar matar o bebê outra vez! Sua louca! Mulher ruim! Vai embora daqui!

No mesmo instante, Ângelo pegou uma pedra no chão e a atirou contra mim, incentivando a multidão revoltada a fazer o mesmo.

— Usar doença mental como desculpa para atacar uma mulher grávida? Para mim, isso aí é pura ruindade e fingimento! — Gritou um homem no meio do povo.

— Uma mulher perversa dessas não merece perdão, vamos dar uma lição nela! — Incitou outro.

Em poucos segundos, uma chuva de pedras, xingamentos e cusparadas desabou sobre mim sem piedade, machucando meu corpo inteiro. No meio daquele massacre, ergui o rosto ensanguentado e encarei Gabriel, que continuava abraçado à Natacha, protegendo-a de tudo.

Abri um sorriso amargo e devastado, deixando que toda a minha dor transbordasse naquelas últimas palavras:

— Gabriel, se existir mesmo uma próxima vida, eu juro que jamais vou querer cruzar o seu caminho!

No segundo seguinte, puxei o braço com toda a força que me restava, ergui a faca e cravei a lâmina direto no meu próprio coração.

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