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Capítulo 3

Author: Nanda
Durante a madrugada inteira, Gabriel arrastou Natacha por todos os cantos da suíte principal, deixando rastros daquela devassidão em cada móvel do nosso quarto. Aquelas cenas explícitas na tela do celular, somadas aos gemidos obscenos que saíam pelo alto-falante, faziam meu estômago dar voltas, deixando apenas uma sensação de nojo profundo que me gelava até os ossos.

A tortura só terminou quando o dia já estava começando a clarear, momento em que Gabriel finalmente encerrou a ligação a contragosto. Meu coração, que já era extremamente fraco, não aguentou tamanho estresse emocional e começou a dar pontadas agudas, trazendo uma falta de ar angustiante.

Apoiando-me nas paredes para sustentar o corpo trêmulo e sem forças, saí do quarto em busca dos meus remédios de uso contínuo. Mas, assim que despejei os comprimidos na palma da mão, um vulto avançou na minha direção, deu um tapa na minha mão e espalhou toda a medicação pelo chão.

— Quem te deu autorização para tomar remédio escondida? Sem a permissão da tia Natacha, você não pode tocar em nada nesta casa! — Gritou Ângelo, me fuzilando com um olhar cheio de raiva.

A dor no peito ficava mais forte a cada segundo, apertando como um torno. Sem forças para discutir com ele, apenas me curvei com dificuldade para tentar juntar os comprimidos espalhados pelo piso.

No entanto, no segundo seguinte, Ângelo pisou com força em cima dos remédios, esfregando a sola do sapato até transformá-los em pó misturado com a sujeira das frestas do chão.

— Sua sem-vergonha! Ladra! Some daqui da minha casa! — Ele se esganiçou, fora de si.

Um zumbido ensurdecedor tomou conta dos meus ouvidos no momento em que meu coração artificial atingiu o limite máximo de sobrecarga. Sem conseguir me manter em pé por mais nem um segundo, desabei no chão frio, sentindo as lembranças do passado invadirem minha mente sem controle.

Ângelo sempre teve a saúde muito frágil desde pequeno e, quando os médicos descobriram a cardiopatia grave, já não havia mais tempo hábil para esperar na fila de transplante por um doador compatível. Foi então que, às escondidas de todo mundo, fiz os exames de compatibilidade e não pensei duas vezes antes de entregar meu coração saudável para salvar a vida do meu filho, passando a viver com um aparelho artificial no peito.

Passei mais de quinze dias entre a vida e a morte na UTI, lutando para sobreviver. Contudo, no primeiro dia em que Ângelo recebeu autorização médica para sair da cama, ele não veio me visitar. Em vez disso, saiu correndo pelo corredor do hospital atrás da Natacha.

— Tia, quando é que você vai virar minha mãe de verdade? — Perguntou ele na época, com a voz cheia de animação. — A minha mãe é uma chata, não aguento mais! Se o papai fuma um cigarro a mais, ela fica reclamando meia hora na cabeça dele. Se eu fico assistindo televisão, ela já vem brigar comigo. Você é muito mais legal, me leva para comer hambúrguer e passear no parque de diversões. Eu e o papai gostamos muito mais de ficar com você!

Parada do lado de fora do quarto, ouvi cada palavra daquela conversa com perfeição. A cicatriz recente da cirurgia no meu peito ardeu como se estivesse pegando fogo. Engolindo o choro que subia pela garganta, empurrei a porta e entrei no quarto.

— Ângelo, deitei numa mesa de cirurgia por sua causa, quase perdi a minha vida para te salvar, e é assim que você me trata? — Questionei, com a voz embargada pela dor.

Natacha imediatamente puxou o menino para trás dela, fazendo aquela cara de santa e falando num tom manso e fingido:

— Marta, ele é só uma criança, ainda não sabe medir as palavras. Para que ficar guardando rancor do menino e falar com ele desse jeito tão grosso?

Sentindo-se protegido pela tia, Ângelo ficou ainda mais arrogante, levantou a cabeça e gritou na minha cara:

— Tenho raiva de você mesmo! Você é fria e não tem um pingo de carinho! Por que não morreu de uma vez naquela mesa de cirurgia? De qualquer jeito, a tia Natacha já está esperando um bebê do papai, logo vou ter um irmãozinho, então tanto faz se você está viva ou não!

Aquelas palavras caíram sobre a minha cabeça como um raio. Meu corpo inteiro ficou rígido, a pressão subiu de uma vez e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, minha visão escureceu e desmaiei ali mesmo.

Quando abri os olhos novamente, vi Gabriel sentado na poltrona ao lado da minha cama de hospital. Ao perceber que eu tinha acordado, ele ficou em silêncio por um longo tempo antes de falar, num tom frio e indiferente:

— Já que você descobriu tudo, não vou mais esconder. Dormi com a Natacha, sim, e aconteceu exatamente no dia do enterro do seu pai. Menti para você dizendo que tinha bebido demais e não tinha ouvido o celular tocar, mas a verdade é que a Natacha não me largava na cama e eu estava ocupado demais para atender.

Minha cabeça começou a girar diante daquela confissão cruel.

Naquele dia, a Natacha fingiu um desmaio de tanto chorar no meio do velório. Preocupada com o estado dela, eu mesma pedi para o Gabriel levar ela para casa primeiro. Como não havia nenhum homem na minha família para nos defender, o caixão mal tinha baixado à sepultura quando meus tios e primos apareceram feito urubus para brigar pela herança. Para proteger a casa antiga onde crescemos, minha mãe e eu apanhamos daqueles covardes até ficarmos com a cabeça sangrando. Durante aquele inferno todo, liguei dezenas de vezes para o Gabriel pedindo socorro, mas ele não atendeu nenhuma chamada. Agora entendo que, no momento em que eu estava mais desesperada e desamparada, meu marido estava na cama, rolando nos lençóis com a minha própria irmã adotiva.

Sentindo o peito rasgar de dor, a humilhação e o ódio subiram à minha cabeça de uma só vez. Levantei a mão trêmula e comecei a dar um tapa atrás do outro na cara de Gabriel. Ele apenas baixou os olhos, sem desviar e sem tentar se defender, deixando que eu descontasse toda a minha fúria.

Porém, no instante em que joguei as cobertas para o lado e fiz menção de levantar para ir atrás de Natacha, Gabriel agarrou meu pulso com força e explodiu na mesma hora:

— Marta, você cresceu mimada pelos seus pais, sempre teve a minha proteção e nunca te faltou nada na vida! Mas a Natacha sempre viveu de favor na sua casa, sem ter onde cair morta e sem ninguém por ela! Ela não tem nada! Custa você ceder um pouco e deixar ela em paz?

Olhando para aquele homem que defendia a amante com unhas e dentes, perdi a última gota de esperança que ainda existia em mim e falei com a voz rouca e decidida:

— Gabriel, eu quero o divórcio!

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