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Capítulo 2

Author: Olmo
Eu e Dante entramos num impasse silencioso.

Ele não voltava para casa, e eu parei de perguntar onde estava.

Na manhã do terceiro dia, seu assistente entrou em contato por conta própria.

[Sra. Helena, o Sr. Dante passou estes últimos dias ocupado. Acabou de voltar de Selvaria esta manhã.]

Respondi sem pensar muito.

[Não precisa mais me avisar. Nem hoje, nem daqui pra frente.]

Deslizei a conversa para cima.

Quase todas as mensagens anteriores eram minhas, perguntando por Dante.

Nos últimos tempos, eu conseguia falar mais com o assistente dele do que com meu próprio marido.

Pouco depois, outra mensagem apareceu.

[Sra. Helena, vocês brigaram?]

Não respondi.

Ele insistiu:

[Tenho certeza de que o Sr. Dante se importa com a senhora. Com o jeito dele, jamais teria tomado a iniciativa de conquistá-la se não sentisse nada.]

Piscar pareceu exigir mais esforço do que deveria.

Era verdade.

Foi Dante quem tomou a iniciativa entre nós.

Ele sempre foi frio e reservado, mas, no começo, procurava minha companhia.

Seus olhos me seguiam pela casa.

Às vezes, me olhava por alguns segundos e dizia simplesmente que eu estava bonita.

Talvez por isso eu acreditasse que nosso casamento pudesse dar certo.

Só que as coisas não seguiram exatamente esse caminho.

O celular vibrou outra vez.

[O Sr. Dante sabe que hoje é seu aniversário. Ele até comprou um presente especialmente para a senhora. É aquela pulseira que a senhora queria.]

Uma foto chegou logo depois.

Era mesmo.

A pulseira sobre a qual falei tantas vezes na frente dele.

Nunca imaginei que Dante se lembrasse.

Algo no fundo do meu peito vacilou.

Soltei um suspiro, fui para a cozinha e preparei os pratos de que ele mais gostava.

Dante só voltou à noite.

Assim que entrou, afrouxou a gravata e seguiu direto para o escritório.

— Dante.

Minha voz o fez parar.

Ele finalmente se virou, franzindo a testa.

— O que foi?

O tom continuava frio.

Minha respiração ficou instável. Apertei a borda da mesa com tanta força que os dedos começaram a doer.

— Você sabe que dia é hoje?

As sobrancelhas dele se fecharam ainda mais.

— Que dia?

Aquela pergunta trouxe de volta toda a amargura que tentei sufocar durante a tarde.

Minha voz saiu rouca.

— É meu aniversário.

Dante pareceu finalmente entender.

Baixou os olhos e ajeitou o punho da camisa.

— É hoje?

Então acrescentou, sem qualquer mudança na expressão:

— Esqueci.

E foi só isso.

Minha garganta se fechou, e o choro quase escapou.

Era como se uma manta encharcada caísse sobre mim, pesada demais, abafando até a respiração.

Dante ergueu os olhos e me lançou um olhar breve.

— No mês que vem, eu compenso.

Fez uma pausa, sem dar importância.

— Também não é uma data tão especial assim. Não precisa dar tanta importância.

Só que, poucos segundos depois, vi uma publicação que Luna postou no Instagram uma hora antes.

Na foto estava exatamente a pulseira que eu desejava havia meses.

E não era só ela.

Havia vários outros presentes que eu nem consegui reconhecer.

Na legenda, Luna escreveu:

[Obrigada, amor~ Quer dizer... chefe!]

Logo abaixo, Dante respondeu:

[Para com isso.]

[E você mereceu.]

Meus lábios se curvaram num sorriso sem graça.

Eu me lembrei de todas as vezes em que pedi para Dante curtir uma foto minha ou deixar algum comentário no Instagram.

Ele sempre recusava.

Dizia que aquilo era infantil, que não combinava com ele.

Então o que era aquilo agora?

Minha mão começou a tremer em volta do celular.

— Dante... então você sabe interagir nas redes sociais.

Levantei os olhos para ele.

— Gostou de dar esse presente?

Ele franziu a testa, tirou o celular da minha mão e mexeu na tela por alguns segundos.

— Se isso te incomoda, é só silenciar e parar de olhar.

Depois me devolveu o aparelho.

— Foi só uma forma de reconhecer o trabalho de uma funcionária. Assim ela também se empenha mais.

A voz continuou indiferente.

— Luna se dedica e merece ser recompensada. Diferente de você, que passa o dia inteiro em casa sem fazer nada.

Fiquei completamente paralisada.

Durante anos, Dante vivia virando noites, comia em horários absurdos e sofria com dores no estômago.

Foi ele quem reclamou tantas vezes que não estava bem.

Foi ele quem dizia que gostava das sopas que eu preparava.

Por isso larguei meu trabalho.

Por ele, escolhi ficar em casa e cuidar de tudo.

Passei tantos anos estudando e sempre fui uma das melhores alunas.

Cheguei a receber uma proposta no exterior.

Eu tinha um caminho inteiro aberto diante de mim.

Podia ir muito longe.

Então como minha vida acabou desse jeito?

Foi Dante quem disse que me amava primeiro.

Por que, no fim, fui eu quem ficou presa dentro desse amor?

Levei a mão ao peito, tentando puxar ar.

Minha garganta apertava tanto que nenhuma palavra conseguia sair.

Dante nem olhou para mim.

Seus olhos caíram sobre a mesa, e a insatisfação continuava estampada em seu rosto.

— E outra coisa. Já que fica em casa, não pode pelo menos melhorar sua cozinha?

Olhou para os pratos.

— Tudo sem graça, sem tempero. Só de olhar já tira o apetite.

Meus lábios se moveram num sorriso cheio de ironia.

Claro.

Dante e Luna já estavam acostumados a comer pratos fortes e apimentados juntos lá fora.

Como a comida que eu fazia poderia agradá-lo agora?

No instante seguinte, ouvi a porta do escritório se fechar.

Seca. Definitiva.

Fiquei sozinha no meio da sala vazia.

Baixei os olhos para a mesa.

Então peguei prato por prato e joguei toda a comida no lixo.

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