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​Capítulo 2: Marcas no Sangue

作者: Aurora Drich
last update 公開日: 2026-08-15 08:20:01

Raul Castelo arremessou a chave de fenda contra a bancada de madeira pesada da oficina, produzindo um estalo metálico que ecoou por todo o galpão.

​O sol do fim de tarde já começava a tingir o céu de um tom alaranjado e denso, mas o calor retido no galpão de máquinas ainda era sufocante. Ele passou a mão grande pelo rosto, limpando a fuligem e o suor da testa, enquanto encarava a nuvem de poeira que o SUV de Laura Diniz havia levantado na estrada de terra meia hora atrás.

​— Patricinha abusada — ele rosnou para o vazio, a voz grave vibrando no peito largo.

​Ele já tinha visto todo tipo de negociante da capital. Caras engravatados com relógios que custavam o preço de um trator, advogados que tentavam o intimidar com termos difíceis e investidores que achavam que fazendeiro era homem simplório para ser passado para trás. Mas aquela mulher... aquela Diniz tinha uma audácia diferente.

​Não era apenas a petulância do sobrenome famoso. Era o jeito como ela o encarara. Aqueles olhos escuros, afiados como lâminas, que não piscaram uma única vez quando ele se aproximou. A boca carnuda e rosada que cuspira ameaças de processos e sufocamento financeiro com uma frieza calculada. E, acima de tudo, o contraste irritante da pele alva e impecável dela com o ambiente rústico da fazenda.

​Ela exalava o tipo de luxo que Raul desprezava. O tipo de gente que nunca soube o que era ter as mãos calejadas de verdade, que nunca acordou às quatro da manhã sob chuva para salvar uma ninhada de gado ou ver a safra inteira ameaçada pela geada. Para os Diniz, a terra era um número em uma planilha de rendimentos. Para Raul, era o sangue de sua família.

​Ele caminhou até o tambor de água, pegou uma caneca de alumínio e virou o líquido gelado de uma vez só, deixando que algumas gotas escorressem pelo peitoral largo e bronzeado.

​Seu telefone celular, jogado sobre a bancada, começou a vibrar. O visor indicava uma notificação de e-mail do grupo executivo Diniz.

​Raul abriu a mensagem com os dedos sujos de graxa. Era uma minuta formalizada, assinada pelo próprio pai de Laura, reforçando a proposta de compra da gleba sul. O valor era um absurdo, uma quantia que faria a maioria dos produtores da região vender até a própria alma. Mas Raul sequer leu até o final. Apagou a mensagem com um toque firme da tela.

​Ele dava valor a cada centavo que entrava em sua conta. Não rasgava dinheiro, não esbanjava em ostentação fútil e sabia exatamente o custo de manutenção de cada hectare. Mas a terra da divisa não estava à venda por valor nenhum. Era uma questão de honra. Se cedesse um metro para os Diniz, eles tomariam a fazenda inteira em cinco anos.

​— O senhor vai engolir esse e-mail, velho Diniz — murmurou Raul, guardando o aparelho no bolso da calça jeans surrada. — E vai levar a sua filhinha mimada junto.

​Ele saiu da oficina e caminhou em direção à casa principal. O silêncio da fazenda ao anoitecer costumava ser o seu momento de descanso, mas a visita de Laura deixara um rastro de irritação que parecia impregnado em sua pele. Ele sentia os músculos das costas tensos, a cabeça fervendo de raiva acumulada da semana.

​Precisava descarregar. E sabia exatamente para onde ir.

​Uma vez a cada duas ou três semanas, quando a pressão dos negócios, as disputas judiciais e a solidão do campo ameaçavam fazê-lo perder o controle, Raul recorria à sua única válvula de escape. Um lugar distante, escondido nas colinas entre os municípios, onde a elite e os poderosos da região pagavam fortunas pelo bem mais precioso do mundo: o anonimato absoluto.

​O clube não tinha nome. Não tinha placas. Funcionava sob regras rígidas de acesso e penumbra total.

​Raul subiu para o segundo andar da casa e foi direto para o banheiro de suíte. Tomou um banho demorado, deixando a água quente lavar a poeira, o suor e a fumaça de óleo de seu corpo. Ao sair, encarou o próprio reflexo no espelho embaçado.

​Para o mundo lá fora, ele era o fazendeiro bruto, de chapéu de palha, barba por fazer e cabelo queimado de sol caindo na testa. Ninguém no clube poderia associar a figura do turrão Raul Castelo ao homem que ele se tornava sob as sombras.

​O ritual de disfarce começou.

​Ele pegou um pote de gel forte e espalhou uma quantidade generosa na palmada mão. Puxou todo o cabelo castanho para trás, fixando-o de forma impecável e rígida contra o couro cabeludo, eliminando completamente as mechas desordenadas que costumavam cair sobre os seus olhos. A armação do seu rosto mudava drasticamente só com esse gesto.

​Em seguida, vestiu calças sociais escuras, sob medida, e uma camisa preta de botões de tecido encorpado, ajustada ao peitoral largo e aos ombros musculosos. Não usou perfume comum; aplicou apenas um óleo neutro com notas secas de amadeirado e fumo, algo sutil que cobria qualquer vestígio do cheiro de campo.

​Por fim, abriu a gaveta secreta do armário e retirou a máscara.

​Era uma peça pesada, feita de couro escuro trabalhado, que cobria a metade superior do seu rosto, deixando apenas o maxilar forte, a boca e os olhos castanho-claros visíveis na penumbra. O couro cobria as têmporas e a testa, alterando a linha dos seus traços de maneira irreconhecível.

​Raul ajustou as tiras atrás da cabeça. No clube, ele não falava. As poucas palavras eram sussurradas, rasgadas e graves, bem abaixo do seu tom de voz normal. Não havia nomes, não havia cargos, não havia rivalidades de terra ou contas bancárias. Havia apenas a fome física e o alívio carnal.

​Ele pegou as chaves de um carro utilitário preto sem identificação de frota — mantido na garagem secundária apenas para essas viagens — e desceu as escadas em silêncio.

​Enquanto dirigia pela rodovia escura rumo à propriedade isolada, Raul sentiu a adrenalina começar a substituir a raiva da tarde. Ele não queria conversa. Não queria jogos de sedução lentos. Precisava de um corpo quente, de uma entrega absoluta e de uma presença forte o suficiente para fazê-lo esquecer o próprio nome por algumas horas.

​Ele só não desconfiava que, a poucos quilômetros dali, em um hotel de luxo da cidade, Laura Diniz estava terminando de prender os próprios cabelos pretos em um coque firme, aplicando um perfume oriental marcante que jamais usaria de dia, e ajustando uma máscara de renda preta sobre o rosto.

​A guerra pela terra ficaria na poeira da estrada. Na penumbra, o confronto seria outro.

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