ログインPara Vitória, aquele café era o mais amargo que já tinha tomado.
Não pelo gosto, mas pelo peso que vinha junto.
Ela observava o movimento da rua pela vidraça, pessoas indo e vindo com uma liberdade que parecia distante demais. Perguntava-se, em silêncio, quando seria a vez dela. Quando teria o direito de viver a própria vida.
Será que depois do casamento? Será que poderia se casar… e simplesmente existir?Pensou em Rafael. Pensou na possibilidade de dizer a ele que, depois da cerimônia, queria ser livre — e que ele também poderia ser. Desde que fosse discreto. Nada de escândalos, nada que chegasse à imprensa ou às famílias.
Talvez, se fosse direta, ele se incomodasse.
Talvez desistisse.A ideia quase a fez sorrir.
Mas seus pensamentos foram interrompidos pela voz firme à sua frente.
— Eu sei o que você está pensando — disse Rafael, encarando-a sem suavidade —, mas eu não vou desistir desse casamento.
Vitória ergueu o olhar lentamente.
— Você pode falar ou fazer o que quiser — ele continuou —, mas esse casamento vai acontecer.
Ela sentiu o impacto das palavras, mas não deixou transparecer. Ainda assim, algo a incomodava profundamente.
Por que aquele homem queria se casar com ela? Por quê, se não havia interesse algum entre eles?— Você é sempre tão séria em eventos — Rafael disse, apoiando a xícara na mesa com força contida. — Difícil de ler suas expressões. Mas agora… agora é fácil demais saber o que você pensa. — Ele a olhou com claro desgosto. — E isso me incomoda. Esperava mais de você.
Vitória sentiu o sangue ferver.
— Você não tem que esperar nada de mim — respondeu, fria, segurando o impulso quase irresistível de jogar o café no rosto dele. — Já deixei claro: de você eu não espero nada. E espero que pense o mesmo de mim.
Rafael inclinou-se levemente para frente.
— Infelizmente, eu preciso esperar algo de você. — O tom era duro. — Por mais mimada que seja, quero deixar claro que, quando estivermos juntos, você vai precisar parecer neutra. Sem essa cara de desgosto. As pessoas reparam. E falam.
— Que se dane o que as pessoas pensam — rebateu, com firmeza. — Eu já tenho dor de cabeça demais para me importar com a opinião dos outros.
— Pense ao menos nas nossas famílias — insistiu ele. — Esse acordo existe desde antes de nascermos. Temos que cumprir.
Vitória riu, sem humor.
— Cumprir para quê? Eu não pedi para nascer. Não pedi para me casar tão cedo. Muito menos para nascer em uma família como essa. — Revirou os olhos, o desprezo evidente. — Esse casamento me enoja. Me sufoca só de pensar que vou ter um homem como você como marido.
Rafael a encarou por alguns segundos, o maxilar tenso.
— Você devia agradecer que eu aceitei me casar com você — disse, sem hesitar. — Ninguém suportaria uma riquinha mimada que acha que o mundo gira ao redor dela. — Ele se inclinou um pouco mais. — Você querendo ou não, vai se casar comigo. Não temos escolha.
Vitória ficou em choque.
Não pelas palavras em si — mas pela facilidade com que ele a definiu sem conhecê-la. O ódio subiu rápido, quente, quase incontrolável. Ela olhou ao redor e, para sua frustração, avistou o segurança do outro lado da cafeteria.
Se fizesse qualquer coisa, seu pai saberia.
E o inferno começaria.Respirou fundo, pegou a bolsa e se levantou. Antes de sair, inclinou-se apenas o suficiente para que Rafael fosse o único a ouvir:
— Então se prepare, futuro marido. — A voz era baixa, venenosa. — Vou transformar sua vida em um verdadeiro inferno. Assim você vai entender o quanto sou mimada.
Ela saiu da cafeteria sem olhar para trás.
Os olhos ardiam, cheios de lágrimas — não de tristeza, mas de raiva. Raiva por saber como era vista. Raiva por imaginar o futuro que a esperava.
E, a cada passo, o aperto em seu coração só aumentava.
O silêncio tomou conta do quarto. — Ele continua internado na ala psiquiátrica. Helena observou a reação dele. — A tia Jane é a única que ainda vai visitá-lo... acho que ela tenta se aproximar dele. Ela ficou alguns segundos em silêncio. — Mas você fez um ótimo trabalho, papai. Leonardo começou a se debater. As cordas impediram qualquer movimento maior, mas a raiva ficou evidente. — Você conseguiu transformar ele em alguém que não consegue enxergar nada além de você. Helena aproximou o rosto do dele. — A lavagem cerebral foi tão grande que, quando ele achou que você tinha morrido... Ele perdeu completamente o controle. Leonardo passou a se debater com ainda mais força, tentando se livrar das amarras ou, talvez, apenas afastá-la dali. Helena soltou seus cabelos sem demonstrar qualquer reação. — Nossa. Levantou-se. — Como você está mal-humorado hoje... Nem parece que sentiu minha falta. Antes que pudesse continuar, o telefone tocou. Helena baixou os olhos para a tela e, a
— Oi, papai. A voz de Helena foi a primeira coisa que Leonardo ouviu. Ele estava ajoelhado no chão, com os olhos vendados e as mãos presas atrás do corpo. Durante alguns segundos, permaneceu imóvel, tentando entender quem estava diante dele. Então ela continuou. — Faz bastante tempo que eu não venho te ver, né? Helena caminhava lentamente pelo quarto enquanto falava, observando cada detalhe daquele homem que, durante tantos anos, acreditou ter o controle da vida de todos ao seu redor. — Me desculpa por isso. Eu estava muito ocupada com as empresas... e cuidando da mamãe. Ela parou por um instante. — A vida ficou bem corrida depois que você saiu dela. A frase carregava uma ironia que Leonardo conhecia muito bem. — Hoje é o seu aniversário de morte, sabia? Ela soltou um pequeno sorriso sem humor. — Cinco anos desde que você foi declarado morto dentro daquela prisão. O tempo passou rápido, não passou? Leonardo não esboçou qualquer reação. Helena continuou, indiferente ao sil
Rafael permaneceu olhando para ela por alguns segundos. Um sorriso discreto surgiu em seu rosto, mas havia algo diferente em seu olhar. — Ouvir você dizer isso me fez perceber o quanto eu estava errado esse tempo todo. Vitória continuou olhando para ele, esperando que explicasse. — Eu passei muito tempo me culpando... Me culpei por não ter conseguido proteger a minha mãe. Me culpei por tudo o que o Leonardo fez e, principalmente, por saber de algumas coisas e, mesmo assim, ter ajudado ele. Na minha cabeça eu estava fazendo o que era necessário para proteger as pessoas que eu amava. Achei que carregar tudo sozinho era o preço que eu precisava pagar para manter vocês em segurança. Ele abaixou os olhos por um instante. — Mas eu estava completamente errado. A voz saiu mais baixa. — Eu demorei para entender que proteger alguém não significa esconder a verdade. Não significa decidir tudo sozinho. Significa confiar. Significa fazer o que é certo, mesmo quando parece ser o caminho mai
— Parabéns pra você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida... Vitória despertou lentamente ao escutar Rafael cantando. Ainda sonolenta, levou alguns segundos para abrir os olhos por completo. Quando finalmente conseguiu afastar o sono, encontrou Rafael na porta do quarto com um pequeno bolo nas mãos. A chama da vela iluminava seu rosto enquanto ele caminhava até a cama com um sorriso tão leve que fez o coração dela apertar. Por um instante, Vitória apenas o observou. Era curioso como algumas coisas jamais deixavam de emocioná-la. Meses haviam se passado desde que o encontrou naquela mata. Aos poucos, eles reconstruíram a própria rotina. Voltaram para casa, retomaram o trabalho, passaram novamente a ocupar a mesma biblioteca e aprenderam a cuidar das crianças juntos. A vida finalmente seguia em frente. Mesmo assim, existiam momentos como aquele. Momentos em que ela simplesmente parava para olhar para Rafael e era tomada pela mesma certeza de sempre. Ele e
— Então o que aconteceu com você foi por causa do Rafael... e da sua família? — perguntou Sofia, olhando para Vitória. Vitória soltou um leve sorriso, daqueles que escondiam muito mais cansaço do que humor. — Pois é... acho que eu tenho uma sorte e tanto. Em seguida voltou a atenção para Helena. — Vamos continuar. Helena apenas assentiu e retomou a caminhada. Ela e Sienna fizeram o mesmo, mas Sofia permaneceu parada por alguns segundos, como se ainda tentasse encaixar todas as peças daquela história. — Espera... se eu não me engano, a Sienna também foi atacada há alguns anos. O que ela tem a ver com o Leonardo ou com essa vingança toda? Foi Helena quem respondeu, sem sequer diminuir o passo. — Isso não teve nada a ver com vingança. Teve a ver com homofobia. Ele nunca aceitou que um dos filhos fosse homossexual e resolveu me usar para ensinar ao Rafael o que acontecia com quem ousasse desafiar as ordens dele. Sofia permaneceu em silêncio por um instante. — Então, além de ser
Enquanto avançavam pela trilha, Augusto sobrevoava toda a região em um dos helicópteros, tentando localizá-las do alto e acompanhar o avanço da equipe. Ele não havia concordado com a entrada delas na mata, mas não teve tempo de impedir. Quando percebeu, elas já tinham seguido caminho. O coração de Vitória parecia querer romper o peito. Ela respirava fundo a todo instante, tentando controlar a ansiedade que ameaçava tomar conta dela. Faltava pouco. Menos de dois quilômetros a separavam de Rafael. O silêncio que acompanhava o grupo era pesado. Cada uma parecia concentrada nos próprios pensamentos, até que Sofia resolveu quebrá-lo. — Por que esse cara é assim? Ninguém respondeu de imediato. — Como alguém consegue destruir a vida de tanta gente... e mesmo assim não sentir o menor remorso? Helena demorou alguns segundos para responder. — Eu não sei. — Ele sempre foi assim? — perguntou Sofia. Helena continuou caminhando por alguns passos, olhando para a mata à sua frente. — Quando







